quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Septoriose (Septoria sp.) incidente em folha de grama-de-canário (Phalaris arundinacea L.)

Marcus Vinícius Santana
Acadêmico do curso de Agronomia



INTRODUÇÃO

O mercado mundial de plantas ornamentais movimenta US$ 4,7 bilhões por ano. A Holanda responde por 53% desse total, vindo em seguida a Colômbia com 13%, a Itália com 9% e a Dinamarca com 6%. Os 19% restantes estão distribuídos entre outros países, entre os quais o Brasil, cujas exportações somam cerca de US$ 30 milhões por ano, principalmente em material de propagação (bulbos, mudas e sementes). No entanto, no plano interno, no nível do varejo, o valor movimentado anualmente no País alcança US$ 800 milhões (Agrovt, 2010).

Segundo levantamentos do Instituto Brasileiro de Floricultura (IBRAFLOR), a área de produção de flores e plantas do País soma cerca de 4000 ha, dos quais 630 ha são ocupados por estufas. Dessa área total, 80% estão localizados no Estado de São Paulo, principalmente nos municípios de Holambra (responsável por 35% das flores e plantas consumidas no Brasil), Atibaia, Mogi das Cruzes, Piedade, Guararema, Cotia, Ibiúna e Paranapanema. Em outros Estados, as regiões produtoras mais importantes são as de Barbacena (MG), Nova Friburgo (RJ), Joinvile (SC), Porto Alegre (RS), Gravatá (PE) e Brasília (DF). As espécies mais cultivadas são rosas (22 milhões de dúzias/ano), crisântemos de corte (6 milhões de pacote/ano) e violetas (18 milhões de vasos/ano).

Dentre as plantas ornamentais produzidas no País a Grama-de-canário (Phalaris arundinacea var. picta L.) é uma delas, é uma planta herbácea rizomatosa, entouceirada, perene, de folhagem decorativa, de 0,6-1,0 m de altura, originaria dos Estados Unidos e Euroásia. Folhas longas, verde-azuladas na espécie típica, listradas longitudinalmente nas margens de cor branco-creme na variedade picta L. Inflorescência terminal em espiga, sem interesse ornamental, produzindo, porém, sementes utilizadas por pássaros. Cultivada como planta isolada e formando grupos ou renques, a pleno sol ou a meia sombra, em terra fertilizada. É tolerante a solos muito úmidos como a beira de represas e tanques. Deve ser mantida sem poda. Planta resistente, tolerante a geadas. Multiplica-se facilmente pela simples divisão de touceira (Lorenzi e Souza, 2001).

Nessa atividade econômica, o controle fitossanitário é fator determinante para o sucesso de qualquer programa de produção, voltado para exportação ou para o mercado interno. Nesse particular, as doenças fúngicas e as pragas representam os principais problemas.

A septoriose é uma das doenças que incide sobre a grama-de-canário e é causada pelo agente causal do gênero Septoria sp..

Para essa espécie de planta Phalaris arundinacea foram identificados seis espécies diferentes do gênero Septoria associado a ela em vários Estados dos Estados Unidos e em várias outras partes do mundo, sendo Septoria alopecuri na Romania; Septoria arundinacea em Scotland; Septoria avenae f. sp. triticea em Montana; Septoria bromi var. phalaricola em Oregon, Virginia e Washington; Septoria graminum em Poland; Septoria sp. (Em folhas) no Canadá e na Pennsylvania (Farr e Rossman, 2010).

A Septoria sp. pode estar presente em cinco diferente espécies do gênero Phalaris, Phalaris arundinacea, Phalaris caerulescens, Phalaris canariensis, Phalaris minor, Phalaris paradoxa (Farr e Rossman, 2010).

O presente trabalho tem como objetivo identificar e descrever o fungo Septoria sp., causador da Septoriose em grama-de-canário, destacando-se também os sintomas, etiologia, epidemiologia e controle da doença.

MATERIAIS E MÉTODOS

As amostras foram coletadas no jardim do pavilhão pedagógico do Instituto Federal Goiano - Campus Urutaí, no dia 27 de outubro de 2010 e posteriormente levadas ao Laboratório de Microbiologia da própria instituição para as devidas avaliações.

No laboratório, foram inicialmente observados e fotografados os sintomas da doença em folha de grama-de-canário, em microscópio estereoscópio observou e fotografou os sinais do fungo na parte abaxial e adaxial da folha. Ainda com o auxílio do microscópio estereoscópico, preparou-se lâminas semi-permanentes aplicando as técnicas de “pescagem direta” e “corte histológico”. Para o método de “pescagem direta” foi utilizada uma pinça e uma seringa, devidamente flambadas, para pescagem das estruturas do fungo e posteriormente deposição desses fragmentos sobre uma lâmina contendo gotas do corante lactofenol azul-de-algodão (álcool polivinílico + ácido lático + fenol), finalizando com a deposição de uma lamínula sobre a lâmina e vedação com esmalte comum incolor. Para o método do corte histológico utilizou-se de uma lâmina de barbear para efetuar o corte do tecido infectado, na superfície da lâmina contendo o corante lactofenol azul-de-algodão depositou-se os cortes, e em seguida uma lamínula acima, então vedou com esmalte. Esse último método teve por finalidade de mostrar a interação do patógeno com a planta, onde foi observado o rompimento da epiderme pela ação do fungo.

A lâmina semi-permanente foi observada em microscópio ótico, onde foi confirmada a presença do fungo do gênero Septoria sp., foram fotografadas as estruturas desse fungo em microscópio ótico utilizando uma máquina fotográfica do modelo SAMSUNG S750 para posterior criação da prancha.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Hospedeiro/cultura: Grama-de-canário (Phalaris arundinacea var. picta L.)

Família Botânica: Gramineae (Poaceae)

Doença: Septoriose ou mancha-de-septória

Agente Causal: Septoria sp.

Local de Coleta: Instituto Federal Goiano – Campus Urutaí - GO

Data de Coleta: 27/10/2010

Taxonomia: A fase anamórfica pertence ao Reino Fungi, grupo dos Fungos Mitospóricos, sub-grupo dos coelomicetos. A fase telomórfica pertencente ao Reino Fungi, Divisão Ascomycota, Classe Dothideomycetes, Sub-classe Dothideomycetidae, Ordem Capnodiales, Família Mycosphaerellaceae (Index Fungorum, 2010).

Sintomatologia: Pequenas manchas cloróticas com halo violáceo nas folhas inferiores são os primeiros sintomas que surgem. Estas manchas possuem forma irregular, medem 5 por 15 mm, são levemente aquosas e evoluem para uma forma mais seca de coloração amarela e parda com o centro claro. No centro destas manchas formam-se picnídios que são facilmente visíveis a olho nu, que conferem aspecto salpicado às manchas. Danos mais elevados no rendimento de grãos ocorrem devido ao ataques do fungo nos nós, que quando infectados adquirem coloração castanha, ficando enrugados e quebradiços.

O fungo pode atacar também as bainhas e raramente as espigas.

Etiologia: Os conidióforos são curtos e os conídios são, filiformes, multi-septados (septos 1-(6)-12 septos – média de 6), com comprimento variando de 35-137 µm e são liberados dos picnídios através de cirros hialinos, agregados entre si por uma substância mucilaginosa, os quais são dispersos em água e disseminados através das gotas. O micélio é hialino, ramificado e septado (Lopes e Ávila, 2005). Os picnídios são de globosos a elípticos, imersos no tecido, e possuem inicialmente coloração âmbar, tornando-se pretos quando maduros. A massa conidial desse fungo apresenta coloração rosada, salmão ou marrom-escura (Lopes e Ávila, 2005).

No Brasil, o gênero Septoria sp. mostra-se ocorrente em todos os estados, com maior ocorrência nos estados de São Paulo e Minas Gerais (Embrapa, 2010).

Os picnídios são pequenos pontos pretos de 0,5 a 2 mm de diâmetro e que com os seus fortes ataques deixam as folhas amarelas podendo cair no verão, assim evitando que a planta realize a fotossíntese (Rietjens, 2010).

Epidemiologia: Septoria tritici é capaz de sobreviver saprofiticamente sobre restos culturais, que são a principal fonte de inóculo (Agrofit, 2010). Outras importantes fontes de inóculo do patógeno são as sementes, soqueiras, restos de cultura (Jones et al., 1991; Zambolim et al., 2000).

Os conídios em cirros são liberados dos picnídios em alta umidade e estes são disseminados pela água das chuvas ou por irrigação (Jones et al., 1991; Zambolim et al., 2000).

A doença pode apresentar-se mais severa em condições climáticas favoráveis ao desenvolvimento do patógeno como no período quente e chuvoso do ano, com temperatura de 20 a 25 ºC. A água da chuva dissemina o fungo. Também podem ocorrer ataques severos no período seco, desde que haja excesso de irrigação. (Reis et. al., 2006)

Trabalhadores, insetos, implementos e pássaros também contribuem para a disseminação do fungo, pois em contato com a planta que foi infectada com o patógeno, este possuirá a fonte de inóculo em seu tecido, que em contato com uma planta sadia, iniciará o processo de infecção, onde os conídios germinam em até 48 horas em condições de umidade e temperaturas ideais. Os sintomas iniciais da doença aparecem em seis dias após o fungo penetrar na planta através dos estômatos. Os picnídios surgem após os 14 dias da infecção, isso para a cultura do tomate (Lopes e Santos,1994).

Controle: Tanto na comercialização interna quanto na exportação, o controle de doenças fúngicas é fundamental, uma vez que flores e plantas ornamentais com sintomas são depreciadas e tem seus preços reduzidos tanto no atacado quanto no varejo. Além disso, os projetos de exportação podem ser inviabilizados, pois de maneira geral a legislação fitossanitária dos países importadores é muito rigorosa. Por todos esses fatores, para que a produção de flores e plantas ornamentais tenha sucesso, é necessário estabelecer um programa preventivo de controle de doenças fúngicas, tendo como principais focos os tratos culturais, o uso de material de propagação sadio e as medidas de controle químico e cultural (Agrovt, 2010).

O uso de fungicidas registrados no Ministério da Agricultura presta-se ao controle da septoriose. Dentre muitos produtos registrados, os que mais se mostram eficientes para o controle da doença são os que são a base de mancozebe (alquilenobis(ditiocarbamato)) + tiofanato-metílico, diluído em água, na dose de 2,5 kg ha-1 e tebuconazol (triazol) na dose de 0,75 L ha-1, em recomendações para o trigo (Agrofit, 2010).

Esta estratégia, entretanto, pode ser pouco eficiente sob condições favoráveis de temperatura e precipitação ou quando a doença já se encontra instalada em cultivos (Jones et al., 1991; Zambolim et al., 2000).

Segundo Del Ponte (2010) para a cultura do trigo que pertence a mesma Família botânica da grama-de-canário (Poaceae) o tratamento de sementes com fungicidas é outra prática recomendada para reduzir o inóculo em sementes infectadas. Aplicações de fungicidas na parte aérea devem ser feita em conjunto para o controle do complexo de manchas. Estas devem iniciar quando, o nível de infecção atingir 5 % de severidade, ou quando 70 % das folhas verdes apresentarem lesões com mais de 1 mm de diâmetro. A re-aplicação de fungicidas poderá ser necessária se as condições continuarem favoráveis ao desenvolvimento da doença. De maneira geral, aplicações de fungicidas podem se fazer necessárias, quando as condições ambientais são extremamente favoráveis.

Figura 1. Septoriose (Septoria sp.) incidente em folhas de grama-de-canário (Phalaris arundinacea L.). A. Sintomas nas folhas. B. Sinais do fungo na folha. C. Mancha clorótica com frutificação do fungo. D. Ostíolo do picnídio. E. Picnídios. F. Massa de conídios. G. Picnídios globosos imersos no tecido.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AGROFIT. Disponível em: Acessado em: 27 de outubro de 2010.

AGROVT. Disponível em www.portaldoagrovt.com.br/...internacional.../manejo_ de_doencas_ fungicas.pdf Acesado em 09 de dezembro de 2010.

Del Ponte, E.M. (Ed.) Fitopatologia.net - herbário virtual. Departamento de Fitossanidade. Agronomia, UFRGS. Disponível em: http://www.ufrgs.br/agronomia/fitossan/ herbariovirtual. Acessado em: 08 de dezembro de 2010.

EMBRAPA Banco de Dados Brasileiro de Micologia. Disponível em: <> Acessado em: 27 de outubro de 2010.

Farr, D.F., & Rossman, A.Y. Fungal Databases, Systematic Mycology and Microbiology Laboratory, ARS, USDA. Retrieved December 10, 2010, from /fungaldatabases/.

INDEX FUNGORUM. Disponível em: <> Acessado em: 27 de outubro de 2010

JONES, J.B.; JONES, J.P.; STALL, R.E.; ZITTER, T.A. Compendium of Tomato Diseases. St. Paul: APS Press, 1991. 73pp.

LOPES, C.A.; ÁVILA, A.C. Doenças do Tomateiro. Embrapa Hortaliças. 151p. Brasília. 2005.

LOPES, C.A.; SANTOS,J.R.M. Doenças do tomateiro. Brasília : EMBRAPA-SSI,1994. 67

p.

LORENZI, H.; SOUZA, H.M. Plantas Ornamentais no Brasil - arbustivas, herbáceas e trepadeiras. 3a. edição. Nova Odessa – SP: Instituto Plantarum. 2001,1120 pp.

REIS, A; BOITEUX, L.S.; LOPES, C.A.; Mancha-de-septória: doença limitante do tomateiro no período de chuvas. Comunicado Técnico 37. Embrapa Hortaliças. Brasília. Dezembro. 2006.

RIETJENS, A. R. Aspectos Gerais e Morfológicos de Septoria sp., IN:PAZ LIMA, M.L. Estudos em doenças de plantas, disponível em:http:\\www.fitopatologia1.blogspot.com., acessado em 08 de dezembro de 2010.

ZAMBOLIN, L.; VALE, F.X.R.; COSTA, H. (Eds). Controle de doenças de plantas de hortaliças. Viçosa, UFV. 2000. 444p.

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