segunda-feira, 21 de setembro de 2026

PATOLOGIA DE SEMENTES DE SORGO: DIVERSIDADE, IDENTIFICAÇÃO, TÉCNICAS DE DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO QUÍMICO

PATOLOGIA DE SEMENTES DE SORGO: DIVERSIDADE, IDENTIFICAÇÃO, TÉCNICAS DE DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO QUÍMICO

1 INTRODUÇÃO

O sorgo (Sorghum bicolor (L.) Moench) ocupa posição singular entre as culturas de cereais por sua ampla adaptação a ambientes tropicais e subtropicais, tolerância relativa à deficiência hídrica e múltiplas possibilidades de utilização, incluindo alimentação humana, produção de grãos, silagem, forragem e bioenergia. Essa versatilidade, entretanto, não elimina os problemas fitossanitários associados à cultura. Ao contrário, a expansão do sorgo para diferentes ambientes agroecológicos expõe a cultura a complexos de doenças cuja ocorrência e importância econômica variam em função do genótipo, do ambiente, do sistema de produção e da origem do inóculo (LITTLE; VARA PRASAD, 2019).

Do ponto de vista da fitopatologia, a semente de sorgo deve ser compreendida como uma unidade epidemiológica. Ela não é apenas o material responsável pela formação da nova planta; pode também transportar, conservar e introduzir microrganismos capazes de comprometer a germinação, o estabelecimento das plântulas e, em determinadas circunstâncias, a própria epidemia. Essa associação pode ocorrer na superfície, em estruturas externas, no pericarpo ou em tecidos internos, dependendo da espécie do patógeno e da natureza da interação estabelecida durante a formação do grão.

A distinção entre fungo associado, fungo contaminante, organismo saprofítico, patógeno de sementes e patógeno efetivamente transmitido pela semente é fundamental. A presença de um fungo em uma amostra não demonstra, isoladamente, sua capacidade de provocar doença. É necessário estabelecer sua viabilidade, localização, potencial de transmissão, patogenicidade e importância epidemiológica. Esse princípio está entre os fundamentos clássicos da ciência de sementes e continua sendo indispensável na interpretação dos testes sanitários (AGARWAL; SINCLAIR, 1996; KUMAR; GUPTA, 2020).

No sorgo, a diversidade de fungos associados às sementes é considerável. Levantamentos realizados no Brasil já demonstraram a ocorrência de Fusarium spp., Alternaria spp., Cladosporium spp., Curvularia spp., Colletotrichum graminicola, Phoma spp., Drechslera spp., Epicoccum spp., Nigrospora spp. e outros organismos. Em levantamento realizado com sementes produzidas no Estado de São Paulo, foram encontrados diferentes grupos de fungos, com predominância de Drechslera, Cladosporium, Colletotrichum graminicola, Curvularia, Alternaria, Fusarium, Epicoccum, Nigrospora e Phoma. Os autores chamaram atenção para a elevada diversidade de fungos parasitas e saprófitas transportados pelas sementes (DETECÇÃO E IDENTIFICAÇÃO..., 1986).

Entre os organismos associados às sementes, alguns apresentam importância particularmente elevada. Colletotrichum graminicola, agente da antracnose, pode estar associado ao complexo de doenças do sorgo; Fusarium spp. estão relacionados a podridões de sementes, podridões radiculares e do colmo; Exserohilum turcicum pode ser associado à helmintosporiose; Curvularia lunata e Phoma sorghina podem estar relacionados a doenças de grãos e sementes; enquanto Aspergillus e Penicillium apresentam importância principalmente relacionada ao armazenamento e à deterioração, embora determinadas espécies possam também participar de processos patológicos.

O problema é ampliado pela possibilidade de ocorrência de organismos provenientes do solo. Pythium spp., Rhizoctonia solani e outros patógenos podem infectar a semente ou a plântula durante a germinação, fazendo com que o tratamento de sementes tenha uma função que ultrapassa a redução do inóculo superficial. O tratamento pode constituir uma barreira química temporária entre a semente e o ambiente imediatamente ao seu redor.

Essa interação foi demonstrada experimentalmente em estudos brasileiros. Pinto (2002) verificou que a microbiota de sementes de sorgo — incluindo Fusarium moniliforme, Penicillium spp., Alternaria tenuis, Cladosporium spp. e Phoma sorghina — apresentava potencial patogênico e que Pythium aphanidermatum e Sclerotium rolfsii, provenientes do solo, também podiam comprometer as sementes. Alguns tratamentos fungicidas foram capazes de reduzir tanto os fungos associados às sementes quanto os organismos provenientes do solo.

A patologia de sementes de sorgo, portanto, precisa ser estudada a partir de uma perspectiva integrada. Não basta perguntar quais fungos estão presentes. É necessário compreender onde estão, como chegaram às sementes, se estão vivos, se são transmitidos, se são patogênicos e qual é a consequência de sua presença para o lote e para a cultura.

Essa abordagem tornou-se ainda mais importante com a evolução das técnicas de diagnóstico. O blotter test, o isolamento em meios de cultura e a microscopia continuam essenciais, mas passaram a coexistir com PCR, qPCR, sequenciamento e outras ferramentas moleculares. O próprio ISTA Handbook on Seed Health Testing atualmente reúne métodos que vão da identificação morfológica clássica a ferramentas moleculares, refletindo a evolução da ciência de sementes.

O objetivo desta revisão é discutir a patologia de sementes de sorgo, enfatizando a diversidade dos organismos associados, sua importância epidemiológica, os métodos de identificação e diagnóstico, as técnicas utilizadas em laboratório e o tratamento químico das sementes, com especial atenção aos fungicidas atualmente registrados para essa finalidade no Brasil.

2 DESENVOLVIMENTO

2.1 A semente de sorgo como unidade epidemiológica

A importância da semente na epidemiologia das doenças decorre de sua capacidade de transportar o inóculo por longas distâncias e de disponibilizá-lo exatamente no momento em que uma nova planta está sendo estabelecida.

Durante a germinação, a semente sofre intensa hidratação e alterações metabólicas. O tegumento é rompido, o eixo embrionário inicia o crescimento e os tecidos jovens tornam-se particularmente vulneráveis à colonização microbiana. Quando um patógeno está associado à semente, a proximidade espacial entre inóculo e tecido suscetível cria uma condição epidemiologicamente favorável.

Entretanto, o papel epidemiológico não é uniforme. Um fungo localizado superficialmente pode ser facilmente removido ou inativado pelo tratamento. Outro, localizado internamente, pode exigir fungicida sistêmico ou uma abordagem completamente diferente. Há ainda organismos que estão presentes, mas não apresentam capacidade significativa de transmissão.

Por essa razão, o conceito de sanidade de sementes precisa ser interpretado em termos de risco epidemiológico, e não simplesmente como porcentagem de sementes colonizadas.

A distribuição do inóculo também é importante. Em um lote, o patógeno pode estar distribuído de maneira agregada, tornando a amostragem um dos principais pontos críticos do diagnóstico. Uma análise laboratorial tecnicamente perfeita pode produzir uma conclusão inadequada se a amostra não representar o lote.

As normas da International Seed Testing Association procuram justamente reduzir essa variabilidade por meio de procedimentos padronizados de amostragem, ensaio e interpretação. A edição vigente das International Rules for Seed Testing é a de 2026, que inclui o Capítulo 7, dedicado aos testes de sanidade.

2.2 Diversidade dos organismos associados às sementes de sorgo

A microbiota das sementes de sorgo pode ser dividida, de maneira operacional, em três grandes grupos.

O primeiro compreende os patógenos verdadeiramente associados à transmissão por sementes, cuja presença pode contribuir para a introdução ou manutenção de doenças.

O segundo envolve organismos potencialmente patogênicos, cuja capacidade de provocar doença depende da cultivar, da quantidade de inóculo, das condições ambientais e da interação com outros organismos.

O terceiro é formado por fungos saprofíticos e de armazenamento, que podem deteriorar a semente sem necessariamente constituírem a fonte primária das principais doenças da cultura.

Essa classificação é mais útil do que simplesmente elaborar uma lista de fungos.

Entre os gêneros mais frequentemente encontrados em sementes de sorgo estão:

Alternaria, Aspergillus, Bipolaris/Drechslera, Cladosporium, Colletotrichum, Curvularia, Epicoccum, Exserohilum, Fusarium, Nigrospora, Penicillium, Phoma, Rhizopus e outros.

Levantamentos históricos realizados no Brasil demonstram que essa diversidade pode ser elevada. O levantamento realizado em sementes produzidas em São Paulo encontrou grande quantidade de fungos parasitas e saprófitas, com Colletotrichum graminicola entre os patógenos mais frequentes (DETECÇÃO E IDENTIFICAÇÃO..., 1986).

Esse resultado permanece relevante porque demonstra uma característica fundamental da patologia de sementes: a micoflora de um lote é uma comunidade, e não simplesmente a presença isolada de um único patógeno.

2.3 Colletotrichum graminicola

Colletotrichum graminicola é um dos organismos de maior importância fitopatológica associados ao sorgo. O patógeno está relacionado à antracnose, doença capaz de afetar diferentes órgãos da planta e provocar perdas importantes em condições favoráveis.

A associação com sementes apresenta importância epidemiológica porque o inóculo transportado pode contribuir para o estabelecimento inicial da doença.

Em levantamentos brasileiros, C. graminicola apresentou elevada frequência em sementes de diferentes cultivares e híbridos, sendo considerado pelos autores o patógeno mais frequente no conjunto de amostras avaliadas (DETECÇÃO E IDENTIFICAÇÃO..., 1986).

A identificação tradicional envolve características das colônias e, principalmente, das estruturas reprodutivas. Entretanto, a taxonomia do gênero Colletotrichum tornou-se progressivamente mais complexa. A utilização exclusiva de características morfológicas pode não ser suficiente para delimitar espécies próximas.

Para trabalhos de maior precisão taxonômica, recomenda-se a combinação entre morfologia, características culturais e marcadores moleculares adequados, especialmente quando o resultado possui implicações epidemiológicas ou regulatórias.

2.4 Fusarium spp.

O gênero Fusarium apresenta elevada importância na patologia do sorgo.

Espécies historicamente identificadas como Fusarium moniliforme são atualmente frequentemente tratadas como Fusarium verticillioides, dependendo da literatura e da abordagem taxonômica empregada. Essa atualização nomenclatural precisa ser considerada ao comparar trabalhos antigos com estudos contemporâneos.

Fusarium spp. podem estar associados a sementes, plântulas, raízes e colmos. A colonização das sementes pode resultar em perda de qualidade fisiológica, podridões e redução da emergência.

Em estudos brasileiros, Fusarium foi consistentemente encontrado na micoflora de sementes de sorgo. Pinto (2002) identificou F. moniliforme entre os organismos associados às sementes e demonstrou sua importância patológica.

Do ponto de vista diagnóstico, a identificação até espécie pode ser difícil apenas pela morfologia. Macroconídios, microconídios e clamidósporos fornecem informações importantes, mas marcadores como TEF1-α podem oferecer maior resolução taxonômica para determinados complexos de Fusarium.

2.5 Exserohilum turcicum

Exserohilum turcicum, historicamente denominado Helminthosporium turcicum ou Drechslera turcica em diferentes períodos da literatura, é conhecido principalmente como agente da helmintosporiose ou mancha-foliar do sorgo e do milho.

A ocorrência do organismo em sementes apresenta importância porque a nomenclatura histórica pode dificultar a comparação de resultados entre diferentes períodos.

Esse é um exemplo clássico de por que uma revisão contemporânea de patologia de sementes não deve simplesmente reproduzir nomes encontrados em trabalhos antigos. É necessário interpretar a sinonímia e a posição taxonômica atual.

2.6 Curvularia lunata

Curvularia lunata pode estar associada a grãos e sementes de sorgo e aparece em estudos de microbiota e doenças da panícula.

A identificação morfológica baseia-se principalmente na forma dos conídios e na presença de células centrais caracteristicamente mais dilatadas. Entretanto, como ocorre em outros grupos de fungos dematiáceos, a identificação ao nível específico pode exigir confirmação molecular.

A presença do organismo deve ser interpretada levando-se em consideração sua capacidade de causar doença, a intensidade de colonização e as condições de armazenamento.

2.7 Phoma sorghina

Phoma sorghina é outro organismo associado à patologia de sementes de sorgo.

A literatura brasileira registra sua ocorrência em sementes e sua associação com manchas de grãos. Estudos de tratamento de sementes demonstraram redução da incidência de P. sorghina mediante fungicidas empregados em diferentes formulações.

O diagnóstico tradicional baseia-se na formação de picnídios e características dos conídios. Entretanto, a taxonomia de fungos anteriormente reunidos em Phoma foi profundamente modificada nas últimas décadas. Assim, trabalhos contemporâneos devem utilizar a nomenclatura atual sempre que possível e informar a identificação molecular quando o nível taxonômico for relevante.

2.8 Aspergillus e Penicillium: patologia ou deterioração?

Aspergillus spp. e Penicillium spp. merecem uma discussão específica.

Esses fungos podem ser encontrados com elevada frequência em sementes e grãos armazenados, particularmente quando o teor de água e a atividade de água favorecem seu desenvolvimento.

Sua presença pode estar relacionada à deterioração, redução do vigor, perda de matéria seca e alterações bioquímicas. Algumas espécies possuem importância adicional pela produção de micotoxinas.

Entretanto, a classificação desses organismos simplesmente como "patógenos de sementes" é inadequada.

A pergunta correta é: qual espécie está presente, em que quantidade, em que condição de armazenamento e qual é o efeito sobre a semente?

Esse raciocínio é particularmente importante no diagnóstico de Aspergillus. A presença de A. flavus, por exemplo, possui implicações distintas de uma ocorrência incidental de um fungo ambiental sem capacidade conhecida de causar doença significativa na cultura.

2.9 Organismos do solo e complexo de tombamento

O estabelecimento do sorgo também pode ser comprometido por organismos presentes no solo.

Pythium spp., Rhizoctonia solani e outros patógenos podem provocar deterioração das sementes, podridão de raízes e tombamento.

Pinto (2002) demonstrou que Pythium aphanidermatum e Sclerotium rolfsii presentes em solo de monocultivo eram capazes de infectar sementes de sorgo. Alguns fungicidas aplicados às sementes protegeram contra esses organismos.

Esse resultado é conceitualmente importante: o tratamento de sementes pode atuar simultaneamente sobre inóculo da semente e inóculo do solo.

A eficiência, entretanto, depende do espectro de ação do fungicida. Um produto altamente eficiente contra fungos associados à superfície da semente pode apresentar atividade limitada sobre determinados organismos do solo.

2.10 Blotter test

O método do papel-filtro ou blotter test continua sendo uma das principais técnicas para avaliação da micoflora de sementes de sorgo.

O princípio consiste em incubar sementes sobre substrato umedecido sob condições controladas, permitindo que os fungos presentes produzam estruturas que possam ser observadas e identificadas.

A principal vantagem do método é sua capacidade de revelar uma comunidade fúngica relativamente ampla sem exigir isolamento prévio.

Foi justamente por meio do papel-filtro que estudos brasileiros caracterizaram a flora fúngica de sementes de sorgo produzidas em diferentes regiões.

O método, entretanto, não deve ser tratado como uma técnica universal.

Fungos de crescimento rápido podem dominar a superfície da semente e dificultar a detecção de outros organismos. Algumas espécies não esporulam adequadamente nas condições utilizadas. Além disso, a identificação pode permanecer apenas presuntiva.

2.11 Isolamento em meio de cultura

O cultivo em BDA/PDA e em meios seletivos constitui uma segunda etapa importante.

O isolamento permite obter uma cultura pura, essencial para:

  • caracterização morfológica;

  • preservação do isolado;

  • teste de patogenicidade;

  • avaliação de crescimento;

  • teste de sensibilidade a fungicidas;

  • extração de DNA;

  • PCR;

  • sequenciamento.

Uma vantagem adicional é permitir o estabelecimento de uma coleção de isolados representativa da diversidade encontrada no lote.

Para um laboratório de fitopatologia, essa etapa possui valor estratégico. A cultura pura não é apenas um resultado do diagnóstico; constitui material biológico para pesquisas futuras sobre epidemiologia, resistência a fungicidas, variabilidade genética e interação patógeno-hospedeiro.

2.12 Identificação morfológica

A microscopia continua sendo indispensável.

A identificação deve considerar:

  • morfologia das colônias;

  • velocidade de crescimento;

  • pigmentação;

  • textura;

  • estruturas reprodutivas;

  • forma e dimensão dos conídios;

  • septação;

  • presença de clamidósporos;

  • presença de picnídios;

  • características dos conidióforos.

A grande limitação está na plasticidade fenotípica.

O mesmo fungo pode apresentar características distintas dependendo do meio, temperatura, luminosidade, idade da cultura e disponibilidade nutricional.

Por isso, a identificação morfológica deve ser vista como parte de um processo diagnóstico, e não como uma fotografia taxonômica isolada.

2.13 Identificação molecular

A biologia molecular modificou profundamente o diagnóstico de patógenos de sementes.

A região ITS é frequentemente empregada para identificação inicial de fungos, mas sua capacidade de discriminar espécies varia muito entre os grupos.

Para Fusarium, por exemplo, TEF1-α apresenta elevada utilidade taxonômica em muitos complexos. Para outros grupos, β-tubulina, RPB2 ou outros marcadores podem ser mais informativos.

O procedimento recomendado para um diagnóstico de maior precisão pode ser representado como:

isolamento → cultura pura → extração de DNA → PCR → sequenciamento → comparação em banco de dados → análise filogenética quando necessária.

Essa abordagem é particularmente importante para organismos cuja identificação morfológica apresenta baixa resolução.

2.14 PCR convencional e qPCR

A PCR convencional é adequada para confirmação de identidade ou detecção específica de determinado patógeno.

A qPCR acrescenta sensibilidade e permite estimar a quantidade de DNA-alvo.

Em patologia de sementes, essas técnicas podem ser utilizadas para:

  • detecção precoce;

  • confirmação de isolados;

  • comparação de lotes;

  • monitoramento epidemiológico;

  • estudos de transmissão;

  • desenvolvimento de métodos quarentenários.

O ISTA Handbook on Seed Health Testing reconhece explicitamente a coexistência de métodos clássicos de microscopia com ferramentas moleculares modernas.

Há, entretanto, uma ressalva que precisa permanecer explícita: a detecção de DNA não comprova necessariamente a viabilidade do patógeno.

Uma semente pode conter DNA residual de um organismo morto. Por essa razão, em situações nas quais a viabilidade possui importância epidemiológica, recomenda-se integrar métodos moleculares com cultivo ou outros procedimentos apropriados.

2.15 Metabarcoding e sequenciamento de nova geração

As tecnologias de sequenciamento de nova geração oferecem uma possibilidade adicional: avaliar comunidades microbianas sem a necessidade de cultivar cada organismo.

O metabarcoding pode revelar uma diversidade muito maior do que aquela recuperada pelos métodos culturais.

Entretanto, esse avanço traz um problema interpretativo importante. Detectar uma sequência não significa necessariamente demonstrar que o organismo esteja viável, ativo ou causando doença.

Portanto, para patologia de sementes, as técnicas de NGS devem ser utilizadas preferencialmente como ferramentas de caracterização de diversidade e descoberta, enquanto a confirmação epidemiológica requer métodos complementares.

2.16 Testes de patogenicidade

O teste de patogenicidade é o elo que conecta taxonomia e doença.

Um fungo isolado de sementes pode ser um organismo ambiental, saprófita ou verdadeiro patógeno.

Quando a finalidade é determinar a importância epidemiológica, o isolado deve ser inoculado em plantas suscetíveis sob condições controladas. A reprodução dos sintomas e o reisolamento do organismo fortalecem a demonstração causal.

Pinto (2002) adotou justamente essa perspectiva ao avaliar não apenas a presença de fungos nas sementes de sorgo, mas também sua capacidade patogênica e a eficiência dos fungicidas.

2.17 Relação entre sanidade e qualidade fisiológica

A qualidade sanitária e a qualidade fisiológica são atributos distintos, porém interdependentes.

A presença de fungos pode provocar:

  • redução da germinação;

  • perda de vigor;

  • deterioração das membranas;

  • redução da velocidade de emergência;

  • morte de plântulas;

  • desuniformidade do estande.

Por outro lado, sementes fisiologicamente debilitadas podem apresentar maior suscetibilidade à colonização por determinados microrganismos.

Essa relação torna inadequada a avaliação da sanidade sem considerar a qualidade fisiológica.

Em estudos experimentais, recomenda-se associar:

teste de sanidade + germinação + vigor + emergência + comprimento de plântulas + massa seca.

Essa abordagem permite determinar se a presença do fungo possui consequência fisiológica mensurável.

2.18 Tratamento químico de sementes

O tratamento químico das sementes de sorgo possui dois objetivos epidemiológicos principais.

O primeiro é reduzir o inóculo associado à própria semente.

O segundo é proteger a semente e a plântula contra organismos presentes no solo durante o processo de germinação.

A literatura brasileira demonstra que essa estratégia pode ser eficiente. Pinto (2002) encontrou elevada eficiência de captana, tiram, captana + tiabendazol, tiram + tiabendazol, iprodiona + tiram e tolilfluanida no controle de fungos associados às sementes e na proteção contra Pythium aphanidermatum e Sclerotium rolfsii.

Outro estudo avaliou fludioxonil + metalaxil-M e demonstrou seu potencial no tratamento de sementes de sorgo, reforçando a importância da combinação de fungicidas com diferentes características de ação.

Esses resultados experimentais são importantes, mas precisam ser separados da situação regulatória atual.

2.19 AGROFIT e situação regulatória

No Brasil, a recomendação de um fungicida para tratamento de sementes não pode ser fundamentada apenas em artigos científicos.

É necessário verificar:

cultura → modalidade de aplicação → alvo biológico → produto → ingrediente ativo → dose → bula vigente.

O AGROFIT/MAPA é a referência oficial para essa consulta.

Essa distinção é especialmente importante para o sorgo porque existem trabalhos científicos antigos que avaliaram ingredientes ativos e misturas que podem não possuir atualmente a mesma situação regulatória.

Documentos técnicos históricos da cultura apresentavam diversas opções registradas para tratamento de sementes, incluindo produtos à base de captana, metalaxil-M + tiabendazol + fludioxonil, tebuconazol, fipronil + piraclostrobina + tiofanato-metílico e outras combinações. Uma tabela técnica baseada no AGROFIT de 2019, por exemplo, listava Amulet Top, Belure Top, Captan 200 FS, Maxim Advanced, Maxim Quattro, Standak Top e Source Top.

Entretanto, para uma revisão acadêmica atualizada, esses dados históricos não devem ser simplesmente reproduzidos como se fossem a fotografia regulatória de 2026.

2.20 Fungicidas atualmente documentados para tratamento de sementes de sorgo

Entre os produtos cuja situação contemporânea foi possível corroborar por documentação de fabricante, bula ou base oficial estadual atualizada, destacam-se algumas formulações.

ProdutoRegistro MAPAIngredientes ativosFormulaçãoPrincipais alvos registrados em sorgo
MAXIM ADVANCED09111metalaxil-M + tiabendazol + fludioxonilFSPhoma sorghina, Exserohilum turcicum, Aspergillus spp., Fusarium moniliforme, Curvularia lunata, Colletotrichum graminicola
MAXIM XL PROFESSIONAL002807metalaxil-M + fludioxonilFSColletotrichum graminicola, Penicillium spp., Fusarium moniliforme, Aspergillus spp., Pythium aphanidermatum, Rhizoctonia solani
MAXIM QUATTRO7319azoxistrobina + tiabendazol + fludioxonil + metalaxil-MFSPhytophthora sojae, Fusarium moniliforme, Colletotrichum graminicola, Aspergillus flavus
MAXIM QUATTRO PROFESSIONAL18720azoxistrobina + tiabendazol + fludioxonil + metalaxil-MFSColletotrichum graminicola
STANDAK TOP1209fipronil + piraclostrobina + tiofanato-metílicoFSAlternaria alternata, Aspergillus spp., Colletotrichum graminicola, Fusarium moniliforme, Penicillium spp., Phoma spp., Pythium spp.

O MAXIM ADVANCED, registro MAPA nº 09111, contém 20 g/L de metalaxil-M, 150 g/L de tiabendazol e 25 g/L de fludioxonil. A bula atualizada apresenta sorgo entre as culturas e indica, entre outros alvos, Phoma sorghina, Exserohilum turcicum, Aspergillus spp., Fusarium moniliforme, Curvularia lunata e Colletotrichum graminicola. Para sorgo, a dose indicada na bula é de 100–150 mL/100 kg de sementes, em aplicação única antes da semeadura, utilizando 500 mL de calda/100 kg de sementes.

O MAXIM XL PROFESSIONAL, registro MAPA nº 002807, contém 10 g/L de metalaxil-M e 25 g/L de fludioxonil, em formulação FS. A página atual do fabricante, atualizada em 19 de junho de 2026, registra para sorgo antracnose por Colletotrichum graminicola, mofo dos grãos por Penicillium spp., podridão de Fusarium por F. moniliforme, tombamento por Aspergillus spp., além de Pythium aphanidermatum e Rhizoctonia solani.

O MAXIM QUATTRO, registro MAPA nº 7319, contém quatro ingredientes ativos: azoxistrobina, tiabendazol, fludioxonil e metalaxil-M. A bula contemporânea contempla sorgo e apresenta indicações envolvendo podridão-radicular por Phytophthora sojae, podridão-vermelha-do-colmo por Fusarium moniliforme, antracnose por Colletotrichum graminicola e tombamento associado a Aspergillus flavus. Para sorgo, a bula estabelece aplicação única e volume de calda de 500 mL/100 kg de sementes.

O MAXIM QUATTRO PROFESSIONAL, registro MAPA nº 18720, possui a mesma combinação de quatro ingredientes ativos, mas constitui registro distinto. A página atualizada em junho de 2026 apresenta sorgo com indicação para antracnose causada por Colletotrichum graminicola.

O STANDAK TOP, registro MAPA nº 1209, é uma formulação FS contendo 250 g/L de fipronil, 25 g/L de piraclostrobina e 225 g/L de tiofanato-metílico. A bula contemporânea contempla sorgo e indica tratamento de sementes, com volume de calda de até 500 mL/100 kg de sementes para sorgo.

A existência desses registros não significa que os produtos sejam equivalentes. Cada formulação possui espectro de ação, ingredientes ativos, mecanismos de ação, dose e alvos registrados próprios. O produto deve ser escolhido de acordo com o patógeno de interesse e com a situação fitossanitária do lote e da área.

2.21 Mecanismos de ação e manejo da resistência

A análise do tratamento de sementes deve ir além do nome comercial.

No MAXIM ADVANCED, por exemplo, estão presentes metalaxil-M, tiabendazol e fludioxonil. O metalaxil-M pertence aos acilalaninatos, o tiabendazol aos benzimidazóis e o fludioxonil aos fenilpirróis.

No MAXIM QUATTRO, acrescenta-se azoxistrobina, pertencente às estrobilurinas.

No STANDAK TOP, piraclostrobina e tiofanato-metílico são associados ao fipronil, sendo os dois primeiros os componentes fungicidas da formulação.

Do ponto de vista do manejo da resistência, misturas podem apresentar vantagens quando os componentes são efetivos contra o organismo-alvo e possuem mecanismos de ação complementares. Entretanto, não se deve considerar que a simples presença de dois ou quatro ingredientes ativos elimina o risco de resistência.

A utilização repetida e indiscriminada de ingredientes ativos com mecanismos específicos pode exercer pressão de seleção sobre populações do patógeno.

Por isso, o tratamento de sementes deve fazer parte de um sistema que inclua rotação de culturas, resistência genética, redução de inóculo, qualidade das sementes e manejo adequado da cultura.

2.22 Qualidade do tratamento

A eficiência do tratamento depende tanto da escolha do fungicida quanto da qualidade da aplicação.

Os principais fatores são:

  • dose correta;

  • volume de calda;

  • homogeneidade da cobertura;

  • qualidade fisiológica da semente;

  • compatibilidade entre produtos;

  • calibração do equipamento;

  • tempo entre tratamento e semeadura;

  • condições de armazenamento.

A bula do STANDAK TOP, por exemplo, recomenda sementes limpas, de boa qualidade fisiológica e tratamento em equipamento apropriado, ressaltando a necessidade de uniformidade da distribuição do produto.

A recomendação do volume de calda não deve ser generalizada entre produtos. No STANDAK TOP, o limite indicado para sorgo é de 500 mL de calda por 100 kg de sementes. No MAXIM ADVANCED, a bula também estabelece 500 mL/100 kg para sorgo. Já outros produtos possuem recomendações diferentes.

Esse detalhe parece operacional, mas possui consequência direta sobre a qualidade fisiológica e a uniformidade do tratamento.

2.23 Tratamento químico e fisiologia da semente

O tratamento químico não deve ser avaliado exclusivamente pela redução da incidência do fungo.

Uma formulação pode reduzir significativamente a micoflora e, simultaneamente, provocar efeito negativo sobre a germinação ou o vigor se utilizada fora das condições recomendadas.

Por essa razão, ensaios experimentais devem avaliar simultaneamente:

sanidade + germinação + vigor + emergência + desenvolvimento inicial.

A avaliação deve ser feita também considerando o genótipo. Cultivares e híbridos podem apresentar diferenças na tolerância aos ingredientes ativos, especialmente quando as sementes possuem baixa qualidade fisiológica.

2.24 Tratamento químico, biológico e físico

A tendência contemporânea da ciência de sementes é reduzir a dependência exclusiva de fungicidas químicos.

Métodos físicos, como termoterapia, podem apresentar potencial para reduzir determinados organismos. Tratamentos biológicos envolvendo Trichoderma, Bacillus e outros microrganismos também vêm sendo estudados.

Entretanto, a substituição de um método por outro não deve ser feita com base apenas na incidência do fungo. É necessário avaliar:

  • eficácia;

  • estabilidade;

  • compatibilidade;

  • efeito sobre germinação;

  • persistência;

  • capacidade de colonização;

  • custo;

  • segurança;

  • situação regulatória.

A literatura contemporânea sobre manejo de doenças do sorgo enfatiza justamente a integração entre resistência genética, rotação, agentes biológicos, manejo químico e novas ferramentas de monitoramento.

2.25 Proposta de fluxo diagnóstico para um laboratório de patologia de sementes

Para um laboratório de diagnóstico de sementes de sorgo, um fluxo robusto pode ser organizado da seguinte maneira:

amostragem representativa → inspeção visual → avaliação fisiológica → blotter test → microscopia → isolamento em meio de cultura → cultura pura → identificação morfológica → extração de DNA → PCR/sequenciamento → teste de patogenicidade quando necessário → interpretação epidemiológica → recomendação de manejo.

Esse fluxo permite responder perguntas diferentes com técnicas diferentes.

Se a pergunta for "qual é a micoflora do lote?", o blotter é uma ferramenta apropriada.

Se a pergunta for "qual é o isolado?", o cultivo e a identificação morfológica são necessários.

Se a pergunta for "qual espécie está presente?", a identificação molecular pode ser necessária.

Se a pergunta for "o fungo é patogênico?", é necessário realizar bioensaio.

Se a pergunta for "qual fungicida apresenta maior eficiência?", deve-se conduzir ensaio de sensibilidade ou tratamento de sementes sob condições controladas.

A maturidade de um laboratório de patologia de sementes reside justamente na capacidade de escolher a técnica em função da pergunta biológica.

3 CONCLUSÕES

A patologia de sementes de sorgo constitui uma área multidisciplinar que integra micologia, bacteriologia, taxonomia, fisiologia de sementes, epidemiologia, diagnóstico molecular e tecnologia de tratamento.

As sementes de sorgo apresentam elevada diversidade de fungos associados, incluindo organismos de importância fitopatológica, fungos oportunistas, saprófitas e fungos relacionados à deterioração durante o armazenamento. Entre os grupos de maior relevância encontram-se Colletotrichum graminicola, Fusarium spp., Exserohilum turcicum, Curvularia lunata, Phoma sorghina, Aspergillus spp. e Penicillium spp.

A presença de um fungo na semente não deve ser interpretada automaticamente como doença. A análise correta exige distinção entre associação, viabilidade, colonização, patogenicidade e transmissão.

O método do papel-filtro permanece extremamente útil para caracterização da micoflora, enquanto o isolamento em meio de cultura possibilita obtenção de culturas puras e estudos posteriores. A microscopia continua sendo indispensável, especialmente para caracterização inicial dos isolados.

A biologia molecular ampliou significativamente a capacidade diagnóstica. PCR, qPCR, sequenciamento e metabarcoding permitem aumentar a sensibilidade e a resolução taxonômica, mas não eliminam a necessidade da interpretação epidemiológica. DNA detectado não significa necessariamente organismo viável ou patogênico.

O tratamento químico de sementes representa uma das principais ferramentas para proteger o estabelecimento inicial do sorgo. Sua ação pode envolver tanto a redução do inóculo associado à semente quanto a proteção contra determinados patógenos presentes no solo.

A literatura experimental demonstra eficácia de diferentes ingredientes ativos e misturas. Entretanto, resultados experimentais devem ser claramente separados da situação regulatória.

Na situação regulatória contemporânea consultada, produtos como MAXIM ADVANCED, MAXIM XL PROFESSIONAL, MAXIM QUATTRO, MAXIM QUATTRO PROFESSIONAL e STANDAK TOP apresentam documentação atual indicando uso em tratamento de sementes de sorgo, com diferentes ingredientes ativos e diferentes alvos registrados.

Essa diversidade de produtos não significa que exista um "melhor fungicida" de maneira universal. A decisão técnica depende do patógeno-alvo, da origem do inóculo, da intensidade da doença, da qualidade da semente, do histórico da área, da cultivar ou híbrido e da indicação legal vigente.

A recomendação deve seguir uma hierarquia objetiva:

diagnóstico do problema → identificação do agente → avaliação do risco epidemiológico → escolha do ingrediente ativo e mecanismo de ação → verificação do registro AGROFIT → aplicação conforme bula → avaliação da qualidade fisiológica e sanitária.

Essa abordagem evita dois erros frequentes: utilizar um fungicida sem conhecer o agente causal e utilizar um produto eficaz experimentalmente, mas sem indicação regulatória para a cultura ou modalidade pretendida.

Em síntese, a semente de sorgo deve ser compreendida não apenas como material de propagação, mas como um componente potencialmente ativo do ciclo epidemiológico. O verdadeiro diagnóstico de sua sanidade não termina quando o laboratório identifica um fungo. Ele termina quando se consegue estabelecer o que está presente, onde está presente, se está viável, se pode ser transmitido, qual é sua importância epidemiológica e qual medida de manejo é tecnicamente justificável.

Essa mudança de perspectiva — da simples identificação da micoflora para a interpretação do risco epidemiológico — é o que transforma uma análise de sementes em um diagnóstico fitopatológico de qualidade.

4 BIBLIOGRAFIA

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ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR 10520:2023: informação e documentação: citações em documentos: apresentação. Rio de Janeiro: ABNT, 2023.

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PINTO, N. F. J. A. Patologia de sementes de sorgo. Sete Lagoas: EMBRAPA-CNPMS, 1999. 62 p. (Embrapa-CNPMS. Circular Técnica, 32).

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BRASIL. Ministério da Agricultura e Pecuária. AGROFIT: Sistema de Agrotóxicos Fitossanitários. Brasília, DF: MAPA, 2026.

BRASIL. Ministério da Agricultura e Pecuária. Legislação de sementes e mudas. Brasília, DF: MAPA, 2026. A página oficial foi atualizada em 3 de junho de 2026 e relaciona, entre outras normas vigentes, a Lei nº 10.711/2003, o Decreto nº 10.586/2020 e a Portaria MAPA nº 538/2022.

SYNGENTA PROTEÇÃO DE CULTIVOS LTDA. MAXIM ADVANCED: bula completa. São Paulo: Syngenta, 2025/2026. Registro MAPA nº 09111.

SYNGENTA PROTEÇÃO DE CULTIVOS LTDA. MAXIM XL PROFESSIONAL: informações de registro e uso. São Paulo: Syngenta, 2026. Registro MAPA nº 002807.

SYNGENTA PROTEÇÃO DE CULTIVOS LTDA. MAXIM QUATTRO: bula completa. São Paulo: Syngenta, 2025/2026. Registro MAPA nº 7319.

SYNGENTA PROTEÇÃO DE CULTIVOS LTDA. MAXIM QUATTRO PROFESSIONAL: informações de registro e uso. São Paulo: Syngenta, 2026. Registro MAPA nº 18720.

BASF AGRICULTURAL SOLUTIONS BRASIL LTDA. STANDAK TOP: bula e informações de uso. São Paulo: BASF, 2026. Registro MAPA nº 1209.

Controle biológico não é sinônimo de “produto natural”. Você sabia?


 

Na agricultura, essa diferença é fundamental.

O controle biológico envolve o uso de organismos vivos, capazes de atuar diretamente sobre organismos-alvo e de se estabelecer e multiplicar no ambiente. Já diversas substâncias de origem natural podem ser importantes ferramentas de manejo, mas não são, por definição, agentes de controle biológico.

Entre os exemplos apresentados estão extratos de plantas ou algas, semioquímicos, metabólitos secundários e indutores de resistência, além de plantas transgênicas e determinados fertilizantes ou organismos vivos cuja promoção do crescimento vegetal ocorre por mecanismos que não envolvem ação direta sobre as pragas.

Essa distinção é especialmente importante no contexto dos bioinsumos e da bioproteção, porque diferentes tecnologias podem ter origens naturais e funções agrícolas distintas.

🔬 Bioproteção é um conceito amplo. Controle biológico é uma categoria específica.

Conhecer essa diferença ajuda a interpretar corretamente conceitos como bioinsumos, agentes de controle biológico, substâncias naturais e manejo integrado de pragas e doenças.

📚 Fonte: Stenberg et al. (2021).

Você já tinha percebido essa diferença?
Salve este post para consultar quando surgir aquela dúvida: “Se é natural, então é controle biológico?”

#ControleBiológico #Bioproteção #Bioinsumos #Biocontrole #ManejoIntegrado #MIP #ManejoDePragas #Fitopatologia #Agronomia #Biotecnologia #AgriculturaSustentável #MicrobiologiaAgrícola #BioinsumosAgrícolas #ProteçãoDePlantas #CiênciaAgrícola

domingo, 20 de setembro de 2026

🦠🌱 BACILLUS: NÃO É TUDO A MESMA COISA!

 


Você olha para um produto biológico e vê Bacillus no rótulo. Mas será que todos os Bacillus fazem a mesma coisa?

Definitivamente, não.

Espécies diferentes — e, principalmente, cepas diferentes dentro da mesma espécie — podem apresentar mecanismos de ação, espectro de atividade, capacidade de colonização, produção de metabólitos e respostas às condições ambientais completamente distintos.

🔬 Bacillus velezensis
🌱 B. subtilis
🧬 B. amyloliquefaciens
🪱 B. firmus
🐛 B. thuringiensis
🌿 B. licheniformis
🦠 B. pumilus
⚗️ B. megaterium

Eles podem estar relacionados a biocontrole, promoção de crescimento, indução de resistência, manejo de nematoides, controle de insetos ou mobilização de nutrientes — mas isso não significa que qualquer cepa possa desempenhar todas essas funções.

E existe um detalhe que muita gente esquece:

Na microbiologia agrícola, o nome da espécie é apenas o começo da história. A cepa, a concentração, a formulação, o alvo, a dose, o momento de aplicação e a compatibilidade podem determinar o resultado no campo.

Por isso, não escolha um Bacillus apenas pelo nome no rótulo.

E atenção: produto biológico registrado não é sinônimo de “qualquer bactéria daquela espécie”. A indicação de uso depende do produto e de seu registro específico.

📌 Salve este post para consultar antes de escolher um bioinsumo.
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💬 E me conte: qual espécie de Bacillus você mais utiliza na agricultura?

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Patologia de sementes de feijão: diversidade de microrganismos, qualidade sanitária e fisiológica e aplicações da análise multivariada

Introdução

A semente de feijão-comum (Phaseolus vulgaris L.) constitui simultaneamente uma unidade de propagação, um reservatório de nutrientes e um possível veículo de disseminação de microrganismos associados à cultura. Por essa razão, a avaliação da qualidade das sementes não deve ser restrita ao teste de germinação, mas deve integrar atributos fisiológicos e sanitários. Fungos associados às sementes podem permanecer na superfície, no tegumento ou internamente nos tecidos, podendo atuar como contaminantes, colonizadores, endófitos ou patógenos capazes de comprometer a germinação, a emergência e o estabelecimento inicial das plantas (SILVA et al., 2008; MARCENARO; VALKONEN, 2016; BATTILANI et al., 2023).

A patologia de sementes, portanto, ocupa uma posição estratégica na Fitopatologia porque estabelece uma conexão entre sanidade do lote, qualidade fisiológica, transmissão de patógenos e estabelecimento da cultura. Em feijão, essa relação é particularmente importante porque diferentes organismos podem estar associados às sementes sem necessariamente produzir sintomas visíveis no lote, enquanto a presença de determinados patógenos pode resultar em podridões, redução da germinação, tombamento, lesões em plântulas e introdução de doenças em novas áreas (BATTILANI et al., 2023; MARCENARO; VALKONEN, 2016).

A semente como unidade sanitária e fisiológica

A qualidade de um lote de sementes pode ser compreendida por diferentes componentes, entre os quais se destacam a qualidade física, fisiológica, genética e sanitária. Na perspectiva fisiológica, germinação e vigor estão relacionados à capacidade da semente de produzir plântulas normais e estabelecer uma população adequada sob determinadas condições ambientais. O vigor apresenta caráter mais abrangente que a germinação, pois permite detectar diferenças no potencial de desempenho entre lotes que podem apresentar porcentagens semelhantes de germinação em condições favoráveis (MARCOS FILHO, 2015).

No feijão, a qualidade fisiológica pode variar entre cultivares e linhagens. Silva et al. (2008), avaliando sementes de feijão provenientes de Goiás, encontraram diferenças entre cultivares nos testes de germinação e vigor, demonstrando que determinados materiais apresentavam melhor desempenho fisiológico enquanto outros apresentavam maior proporção de sementes mortas e menor desempenho de plântulas normais. Esses resultados reforçam que a avaliação da qualidade fisiológica deve ser realizada em conjunto com a caracterização do material genético e das condições de produção e armazenamento (SILVA et al., 2008).

Diversidade de fungos associados às sementes de feijão

A diversidade de fungos associada às sementes de P. vulgaris é considerável e varia de acordo com cultivar, região de produção, condições ambientais, práticas agrícolas, colheita, secagem e armazenamento. Em sementes de feijão provenientes de Goiás, Silva et al. (2008) detectaram Fusarium sp., Aspergillus spp., Penicillium spp., Phoma sp., Rhizopus sp. e Botrytis sp. por meio de testes de sanidade, demonstrando a coexistência de diferentes grupos ecológicos de fungos em um mesmo sistema de produção de sementes (SILVA et al., 2008).

Estudos realizados em outras regiões também demonstram ampla diversidade. Em sementes de feijão avaliadas na Croácia, foram encontrados Cladosporium spp., Alternaria spp., Aspergillus spp., Rhizopus spp., Penicillium spp., Fusarium spp., Botrytis spp., Trichothecium spp. e Chaetomium spp., evidenciando que a comunidade fúngica associada às sementes pode incluir tanto organismos relacionados ao campo quanto fungos favorecidos durante armazenamento (DOMIJAN et al., 2005).

A diversidade observada em sementes não deve, entretanto, ser interpretada como sinônimo de diversidade de patógenos. A comunidade fúngica pode conter patógenos, fungos sapróbios, contaminantes, fungos de armazenamento e endófitos, e a simples detecção de um gênero não demonstra necessariamente que ele seja responsável pela redução da qualidade fisiológica ou pela doença observada (PARSA et al., 2016; MARCENARO; VALKONEN, 2016).

Patógenos transmitidos por sementes

Entre os fungos fitopatogênicos associados ao feijão, Colletotrichum lindemuthianum, agente da antracnose, possui particular importância por sua associação com sementes e capacidade de introdução e disseminação do patógeno por meio do material propagativo. Revisões sobre patógenos transmitidos por sementes de leguminosas incluem C. lindemuthianum entre os principais fungos associados às sementes de P. vulgaris, ressaltando a importância da sanidade das sementes na epidemiologia da doença (BATTILANI et al., 2023).

A diversidade de fungos potencialmente patogênicos pode ser ainda maior quando são empregados métodos de isolamento associados à identificação molecular e testes de patogenicidade. Marcenaro e Valkonen (2016), avaliando sementes do cultivar ‘INTA Rojo’ na Nicarágua, obtiveram 133 isolados fúngicos e verificaram que 87 apresentaram capacidade de causar sintomas em plântulas de Phaseolus lunatus. Os isolados patogênicos pertenciam a oito gêneros e incluíam Fusarium, Lasiodiplodia, Macrophomina, Penicillium, Corynespora, Colletotrichum, Aspergillus e Diaporthe, demonstrando que a diversidade de fungos associados às sementes pode ser muito maior do que aquela revelada por avaliações exclusivamente morfológicas ou por uma lista pré-estabelecida de patógenos (MARCENARO; VALKONEN, 2016).

Esse trabalho também apresenta uma questão metodológica fundamental: detectar um fungo na semente e demonstrar que ele é patogênico são etapas diferentes. No estudo de Marcenaro e Valkonen (2016), os isolados foram submetidos a inoculação em plantas e avaliados quanto à capacidade de produzir sintomas, permitindo separar a simples associação do fungo à semente da evidência de patogenicidade. Essa abordagem é particularmente importante para interpretar corretamente resultados de testes de sanidade (MARCENARO; VALKONEN, 2016).

Fungos de campo e fungos de armazenamento

A origem ecológica do microrganismo associado à semente é uma dimensão importante da patologia de sementes. Alguns fungos estão predominantemente relacionados às condições de produção e infecção no campo, enquanto outros são favorecidos por condições inadequadas de secagem e armazenamento. Aspergillus spp. e Penicillium spp., por exemplo, são frequentemente associados à deterioração durante armazenamento, enquanto determinados patógenos de plantas podem ser transportados pelas sementes provenientes do campo (FRANCISCO; USBERTI, 2008; SILVA et al., 2008).

A relação entre armazenamento e sanidade foi demonstrada experimentalmente por Francisco e Usberti (2008), que avaliaram sementes de feijão armazenadas em diferentes teores de água e temperaturas. Os autores verificaram que as condições de armazenamento influenciaram a incidência de fungos e a qualidade das sementes, mostrando que teor de água e temperatura constituem fatores determinantes para a dinâmica da microbiota associada ao armazenamento (FRANCISCO; USBERTI, 2008).

Essa relação é importante porque a deterioração fisiológica da semente e a colonização fúngica podem ocorrer simultaneamente. Entretanto, associação estatística não significa necessariamente causalidade direta. A redução do vigor pode favorecer determinados fungos, enquanto a atividade metabólica de determinados fungos também pode contribuir para deterioração, dependendo do organismo, da carga de inóculo, do tecido colonizado e das condições ambientais (FRANCISCO; USBERTI, 2008; SILVA; SILVA, 2000).

Sanidade e fisiologia: duas dimensões que precisam ser interpretadas conjuntamente

A qualidade sanitária e a qualidade fisiológica não são variáveis independentes. Fungos associados às sementes podem alterar a germinação e o vigor, mas a magnitude desse efeito depende da espécie, da intensidade da associação, da localização do fungo no tecido, do estado fisiológico da semente e das condições de incubação ou germinação. Silva e Silva (2000), estudando sementes de feijão submetidas ao envelhecimento artificial, observaram que a presença de fungos, especialmente Aspergillus spp., poderia interferir negativamente no comportamento das sementes e na interpretação dos resultados de vigor (SILVA; SILVA, 2000).

A interação entre sanidade e fisiologia também aparece em avaliações realizadas com cultivares de feijão. Silva et al. (2008) encontraram diferenças simultâneas em germinação, vigor e incidência de fungos entre cultivares, demonstrando que a caracterização de um lote deve considerar o conjunto das variáveis e não apenas uma porcentagem de germinação ou a incidência isolada de determinado fungo (SILVA et al., 2008).

O conceito de vigor é fundamental

O teste de germinação fornece uma medida importante do potencial fisiológico, mas pode não detectar diferenças de desempenho entre lotes que apresentam germinação semelhante em condições favoráveis. O vigor procura justamente discriminar essas diferenças, permitindo avaliar características relacionadas à velocidade e uniformidade da germinação, emergência, tolerância a condições de estresse e capacidade de estabelecimento das plântulas (MARCOS FILHO, 2015).

Entre os testes utilizados na avaliação fisiológica de sementes de feijão encontram-se primeira contagem de germinação, germinação padrão, teste de tetrazólio, condutividade elétrica, envelhecimento acelerado, emergência em campo e características de crescimento de plântulas. Silva et al. (2023), trabalhando com 20 linhagens de feijão, demonstraram variabilidade genética para a qualidade fisiológica e identificaram, por análise de componentes principais, grupos de linhagens associados a diferentes padrões de vigor (SILVA et al., 2023).

Diversidade fúngica: da identificação morfológica à identificação molecular

A identificação dos fungos associados às sementes também está passando por uma transformação metodológica. Características morfológicas continuam sendo importantes, mas podem não ser suficientes para distinguir espécies próximas. Marcenaro e Valkonen (2016), por exemplo, combinaram características morfológicas e crescimento em meio de cultura com sequenciamento da região ITS para caracterizar fungos patogênicos isolados de sementes de feijão, demonstrando a utilidade da identificação molecular na caracterização da diversidade (MARCENARO; VALKONEN, 2016).

Essa abordagem é especialmente importante para gêneros que apresentam complexos de espécies, como Fusarium, Colletotrichum e Diaporthe. Nesses grupos, a identificação até espécie pode exigir marcadores adicionais e análise filogenética, pois a similaridade morfológica e mesmo a sequência ITS podem não fornecer resolução suficiente para todos os táxons. Portanto, a patologia de sementes moderna tende a integrar isolamento, morfologia, identificação molecular e filogenia quando a resolução específica é necessária (MARCENARO; VALKONEN, 2016).

A semente como habitat microbiano

Uma perspectiva mais recente amplia ainda mais o conceito de patologia de sementes. A semente não deve ser considerada apenas como um substrato passivo colonizado por patógenos; ela abriga uma comunidade microbiana que pode incluir fungos potencialmente patogênicos, endófitos e outros microrganismos associados à superfície ou ao interior dos tecidos. Parsa et al. (2016), avaliando 582 sementes germinadas pertencentes a 11 cultivares colombianas, obtiveram 394 isolados endofíticos pertencentes a 42 táxons, demonstrando a elevada diversidade de fungos associados às sementes de feijão (PARSA et al., 2016).

Nesse estudo, Aureobasidium pullulans foi o endófito predominante, enquanto Fusarium oxysporum, Xylaria sp. e Cladosporium cladosporioides também foram detectados. A colonização variou entre cultivares e entre partes das plântulas, demonstrando que o microbioma associado às sementes pode apresentar forte componente dependente do genótipo e da região da planta colonizada (PARSA et al., 2016).

A espermosfera: uma nova fronteira para a patologia de sementes

A germinação modifica profundamente o ambiente imediatamente ao redor da semente. Durante a embebição e a germinação, a semente libera compostos orgânicos e inorgânicos que formam a chamada espermosfera, uma região caracterizada por intensa interação entre exsudatos da semente e microrganismos. Esse ambiente pode influenciar a composição da comunidade microbiana e, consequentemente, as primeiras interações entre a semente e o ambiente (SACCARAM et al., 2025).

Um estudo publicado em 2025 em mSystems representa um avanço importante nesse campo ao integrar metabolômica e microbioma da espermosfera de sementes de oito genótipos de feijão produzidos em duas regiões. Os autores detectaram 2.467 características metabólicas e identificaram 19 famílias bacterianas e 23 famílias fúngicas. A composição química da espermosfera foi predominantemente influenciada pelo genótipo, enquanto as comunidades microbianas foram influenciadas pelo genótipo e pelo local de produção (SACCARAM et al., 2025).

A caracterização fúngica realizada nesse estudo mostrou predominância de Ascomycota e Basidiomycota, com destaque para Pleosporaceae. Alternaria e Stemphylium foram os gêneros fúngicos mais abundantes, enquanto espécies como Stemphylium herbarum, Botrytis fabae, Alternaria infectoria e Cladosporium delicatulum estavam entre os táxons detectados em elevada frequência. Esses resultados mostram que a diversidade microbiana da semente pode ser muito mais ampla do que aquela revelada por testes convencionais destinados exclusivamente à detecção de patógenos (SACCARAM et al., 2025).

O trabalho de Saccaram et al. (2025) é particularmente relevante porque demonstra que genótipo e ambiente podem atuar simultaneamente sobre a comunidade microbiana associada à semente. A análise mostrou que a localização de produção explicava parcela importante da variação da comunidade fúngica, enquanto o genótipo apresentava forte influência sobre a composição metabólica da espermosfera. Isso sugere que a qualidade sanitária das sementes pode ser interpretada dentro de um contexto ecológico mais amplo, no qual genótipo, ambiente e microbiota estão interligados (SACCARAM et al., 2025).

Abordagem multivariada na patologia de sementes

A complexidade da relação entre fungos, germinação, vigor, genótipo, ambiente e armazenamento torna a análise multivariada particularmente útil. Quando um experimento apresenta simultaneamente incidência de vários fungos, germinação, primeira contagem, comprimento de plântulas, condutividade elétrica, envelhecimento acelerado, emergência e outras variáveis, analisar cada característica isoladamente pode dificultar a compreensão das relações existentes. A análise multivariada permite considerar as variáveis conjuntamente e identificar padrões de associação entre amostras e características (SILVA et al., 2023).

A análise de componentes principais (PCA) é particularmente útil porque transforma um conjunto de variáveis correlacionadas em componentes ortogonais que representam proporções decrescentes da variância total. Em estudos de sementes, isso permite visualizar amostras ou genótipos em um espaço multivariado e identificar quais variáveis apresentam maior contribuição para a separação dos grupos (SILVA et al., 2023).

Em feijão, Silva et al. (2023) avaliaram massa de mil sementes, primeira contagem, germinação, tetrazólio, condutividade elétrica, envelhecimento acelerado, emergência em campo e desempenho de plântulas em 20 linhagens. A PCA permitiu identificar grupos de linhagens com diferentes padrões de desempenho fisiológico e indicou primeira contagem, germinação, comprimento de plântulas em campo, envelhecimento acelerado e índice de velocidade de emergência como variáveis importantes para caracterizar o potencial fisiológico das linhagens (SILVA et al., 2023).

PCA aplicada simultaneamente à sanidade e à fisiologia

A abordagem multivariada torna-se ainda mais interessante quando as variáveis sanitárias e fisiológicas são analisadas conjuntamente. Em vez de perguntar apenas se “a incidência de Fusarium aumentou ou diminuiu”, pode-se investigar se a incidência desse fungo está associada a menor germinação, maior número de sementes mortas, menor comprimento de plântulas ou maior condutividade elétrica. A PCA pode revelar essas associações como vetores orientados no mesmo ou em sentidos opostos, embora a interpretação de correlação não deva ser confundida com demonstração de causalidade (SILVA et al., 2023).

Um exemplo diretamente relacionado à patologia de sementes de feijão foi apresentado por Carvalho et al. (2014), que avaliaram cinco isolados de Trichoderma harzianum contra Fusarium oxysporum f. sp. phaseoli e posteriormente utilizaram os antagonistas no tratamento de sementes. A análise de componentes principais foi utilizada para integrar variáveis relacionadas ao antagonismo, metabólitos voláteis, incidência do patógeno e germinação. O isolado CEN287 destacou-se no agrupamento relacionado ao aumento da germinação de sementes infectadas, enquanto os isolados CEN287 e CEN316 reduziram a incidência do patógeno e aumentaram a germinação (CARVALHO et al., 2014).

Esse exemplo é particularmente importante porque mostra que a PCA pode funcionar como uma ferramenta de integração de mecanismos e respostas, e não apenas como uma representação gráfica de grupos. Quando diferentes variáveis de sanidade e fisiologia são analisadas simultaneamente, torna-se possível identificar quais atributos estão associados aos tratamentos ou isolados de maior interesse, orientando a seleção de candidatos para experimentos subsequentes (CARVALHO et al., 2014).

Quais análises multivariadas podem ser utilizadas?

MétodoAplicação na patologia de sementesExemplo de pergunta
PCARedução de dimensionalidade e visualizaçãoQuais variáveis explicam a maior parte da variação entre lotes?
Análise de agrupamentoFormação de grupos de lotes ou genótiposQuais lotes apresentam padrões sanitários/fisiológicos semelhantes?
Heatmap + clusteringVisualização simultânea de fungos e atributos fisiológicosQuais fungos apresentam padrões semelhantes de ocorrência?
CCA/RDARelação entre comunidade fúngica e variáveis ambientaisQuanto do microbioma é explicado por umidade, genótipo ou local?
PERMANOVATeste de diferenças na composição multivariadaGenótipo, local ou armazenamento alteram a comunidade?
PCoAOrdenação de matrizes de distânciaComo os lotes se distribuem em função da composição microbiana?
PLS-DAClassificação supervisionadaÉ possível discriminar lotes por qualidade ou condição sanitária?
Redes de correlaçãoRelações entre microrganismos e metabólitosQuais fungos estão associados a determinados metabólitos?

A escolha do método deve estar relacionada à natureza da pergunta e dos dados. PCA é apropriada para explorar padrões de variáveis quantitativas correlacionadas; PCoA e PERMANOVA são especialmente úteis para matrizes de comunidade microbiana; e análises de correlação ou redes podem ser utilizadas quando o objetivo é investigar associações entre microrganismos, metabólitos e atributos fisiológicos. O estudo de Saccaram et al. (2025), por exemplo, combinou PCA, PCoA, PERMANOVA, heatmaps e redes de correlação para integrar metabolômica e microbioma da espermosfera do feijão (SACCARAM et al., 2025).

Um desenho experimental integrado para patologia de sementes de feijão

Um experimento destinado a estudar a relação entre diversidade fúngica e qualidade de sementes poderia organizar as variáveis em quatro grandes blocos: genótipo, sanidade, fisiologia e ambiente. No bloco genético poderiam ser avaliados cultivares ou linhagens; no sanitário, incidência e riqueza de fungos; no fisiológico, germinação, primeira contagem, IVG, comprimento e massa de plântulas, condutividade elétrica e envelhecimento acelerado; e no ambiental, local de produção, safra, armazenamento, temperatura, umidade e teor de água das sementes (SILVA et al., 2023; FRANCISCO; USBERTI, 2008).

Um desenho desse tipo permitiria construir uma matriz na qual cada linha correspondesse a um lote ou amostra e cada coluna representasse uma variável. A matriz poderia conter, por exemplo, incidência de Fusarium, Colletotrichum, Aspergillus, Penicillium, Alternaria, Rhizopus e outros táxons, simultaneamente com germinação, vigor, condutividade elétrica, comprimento de plântula e emergência. A PCA poderia então indicar quais fungos e atributos fisiológicos mais contribuiriam para a diferenciação dos lotes (SILVA et al., 2008; SILVA et al., 2023).

Uma segunda abordagem poderia utilizar matrizes de abundância ou incidência dos fungos para avaliar a estrutura da comunidade. Nesse caso, métodos como PCoA, PERMANOVA e análise de diversidade poderiam determinar se genótipo, local de produção, safra ou armazenamento explicam diferenças na composição da micobiota. O estudo recente da espermosfera do feijão demonstra a utilidade dessa estratégia ao identificar efeitos distintos de genótipo e localização sobre as comunidades microbianas (SACCARAM et al., 2025).

Da análise de fungos isolados à abordagem de microbioma

A patologia de sementes está avançando de uma abordagem baseada exclusivamente em organismos cultiváveis para uma perspectiva de comunidade microbiana. Métodos dependentes de cultivo continuam sendo indispensáveis para obter isolados, realizar testes de patogenicidade e caracterizar candidatos a controle biológico, mas técnicas de metabarcoding permitem detectar uma parcela mais ampla da comunidade microbiana presente nas sementes e na espermosfera (PARSA et al., 2016; SACCARAM et al., 2025).

No estudo de Saccaram et al. (2025), o sequenciamento da região ITS foi utilizado para caracterizar a comunidade fúngica da espermosfera, enquanto dados de metabolômica por LC-MS/MS foram integrados às informações microbiológicas. A análise identificou 2.467 características metabólicas e 23 famílias fúngicas, permitindo construir redes de associação entre metabólitos e microrganismos. Essa abordagem representa uma mudança importante em relação ao simples levantamento de “fungos presentes” (SACCARAM et al., 2025).

Uma nova interpretação da sanidade de sementes

A sanidade de sementes pode, portanto, ser compreendida em diferentes níveis. No nível clássico, pergunta-se “qual patógeno está presente?”. Em uma abordagem ecológica, pergunta-se “qual é a composição da comunidade microbiana?”. Em uma abordagem funcional, busca-se compreender “quais microrganismos estão associados à perda ou manutenção da qualidade fisiológica?”. E, em uma abordagem multiômica, pode-se avançar para “quais metabólitos, microrganismos e características do genótipo estão associados à qualidade sanitária e fisiológica?” (PARSA et al., 2016; SACCARAM et al., 2025).

Essa mudança não significa abandonar o teste de sanidade convencional. O blotter test, isolamento em meio de cultura, identificação morfológica e testes específicos continuam sendo ferramentas fundamentais para diagnóstico e controle de qualidade. A evolução está na integração dessas metodologias com identificação molecular, análises quantitativas e estatística multivariada, permitindo interpretar a sanidade da semente como um fenômeno complexo e não apenas como uma lista de fungos detectados (SILVA et al., 2008; MARCENARO; VALKONEN, 2016).

Perspectivas para a pesquisa em patologia de sementes de feijão

Uma perspectiva particularmente promissora é integrar patologia de sementes, fisiologia e microbioma. A combinação de testes convencionais com metabarcoding, metabolômica e análises multivariadas pode permitir identificar não apenas os agentes potencialmente prejudiciais, mas também comunidades microbianas associadas à manutenção do vigor. O trabalho de Saccaram et al. (2025) demonstra que o genótipo do feijão influencia fortemente o ambiente químico da espermosfera e que esse ambiente está associado à estrutura das comunidades microbianas durante a germinação (SACCARAM et al., 2025).

Outra perspectiva está relacionada ao uso da análise multivariada para seleção de genótipos e lotes. Em vez de selecionar uma linhagem apenas pela maior germinação, pode-se considerar simultaneamente germinação, vigor, emergência, integridade de membranas, incidência de fungos e outros atributos. A PCA e outras técnicas de agrupamento podem auxiliar na identificação de materiais que apresentem conjuntos favoráveis de características, desde que os resultados sejam posteriormente confirmados por análises estatísticas apropriadas e experimentos independentes (SILVA et al., 2023).

A abordagem multivariada também pode ser particularmente útil na avaliação de tratamentos de sementes com agentes biológicos. O trabalho de Carvalho et al. (2014) demonstra isso ao integrar antagonismo, metabólitos, incidência de F. oxysporum f. sp. phaseoli e germinação em uma análise de componentes principais. Esse tipo de estratégia pode ser expandido para comparar fungicidas, agentes de biocontrole, bioinsumos, tratamentos físicos e combinações de tratamentos, considerando simultaneamente eficácia sanitária e efeitos fisiológicos sobre as sementes (CARVALHO et al., 2014).

Modelo conceitual para um estudo integrado

Um estudo moderno sobre patologia de sementes de feijão poderia ser estruturado da seguinte maneira:

Genótipo → produção → colheita → beneficiamento → armazenamento → microbiota da semente → germinação → espermosfera → estabelecimento da plântula.

Em cada etapa poderiam ser avaliados indicadores sanitários e fisiológicos, permitindo construir uma rede de relações entre ambiente, comunidade microbiana e desempenho da semente. A utilização de PCA, PCoA, PERMANOVA, análise de agrupamento, correlações e, quando apropriado, redes de interação permitiria investigar essas relações de maneira integrada (SILVA et al., 2023; SACCARAM et al., 2025).

O resultado seria uma mudança de paradigma: em vez de avaliar a semente apenas como “germinável ou não germinável” ou “infectada ou não infectada”, seria possível caracterizá-la como um sistema biológico no qual genótipo, estado fisiológico, comunidade microbiana, ambiente de produção e condições de armazenamento interagem para determinar o desempenho inicial da cultura. Essa perspectiva é consistente com a evolução recente da pesquisa em fisiologia, microbiologia e patologia de sementes (MARCOS FILHO, 2015; PARSA et al., 2016; SACCARAM et al., 2025).

Conclusão

A patologia de sementes de feijão está deixando de ser uma área restrita à detecção de fungos associados às sementes e avançando para uma abordagem integrada de diversidade microbiana, sanidade, fisiologia e ecologia da semente. Os estudos realizados com P. vulgaris demonstram a ocorrência de uma comunidade fúngica diversificada, incluindo patógenos, fungos de armazenamento e endófitos, cuja composição pode variar de acordo com genótipo, ambiente e condições de armazenamento (SILVA et al., 2008; PARSA et al., 2016; SACCARAM et al., 2025).

A análise multivariada oferece uma ferramenta particularmente importante para integrar essa complexidade. PCA, agrupamento, PCoA, PERMANOVA e redes de correlação permitem ultrapassar a interpretação isolada de cada variável e investigar padrões conjuntos entre fungos, qualidade fisiológica, genótipo e ambiente. Em feijão, trabalhos recentes já demonstraram a eficiência da PCA na caracterização da variabilidade fisiológica e na integração de respostas associadas ao tratamento de sementes (SILVA et al., 2023; CARVALHO et al., 2014).

O próximo avanço consiste na integração entre patologia de sementes convencional, identificação molecular, microbioma, metabolômica e estatística multivariada. O estudo da espermosfera do feijão publicado em 2025 demonstra concretamente essa possibilidade, mostrando que a composição química da semente e a estrutura da comunidade microbiana podem ser estudadas simultaneamente para compreender os fatores que influenciam a saúde e o vigor das sementes (SACCARAM et al., 2025).

Assim, uma perspectiva contemporânea para a pesquisa pode ser sintetizada pela sequência “identificar → quantificar → relacionar → explicar → predizer”. Identificar os microrganismos presentes, quantificar sua incidência e os atributos fisiológicos, relacionar essas variáveis por métodos multivariados, explicar as associações por experimentos de patogenicidade ou interação e, finalmente, utilizar os padrões encontrados para predizer quais genótipos, lotes ou tratamentos apresentam maior potencial de qualidade sanitária e fisiológica. Essa integração pode tornar a patologia de sementes uma ferramenta ainda mais estratégica para o diagnóstico, o melhoramento genético, a tecnologia de sementes e o desenvolvimento de tratamentos biológicos (MARCENARO; VALKONEN, 2016; SILVA et al., 2023; SACCARAM et al., 2025).

Referências

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