PATOLOGIA DE SEMENTES DE SORGO: DIVERSIDADE, IDENTIFICAÇÃO, TÉCNICAS DE DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO QUÍMICO
1 INTRODUÇÃO
O sorgo (Sorghum bicolor (L.) Moench) ocupa posição singular entre as culturas de cereais por sua ampla adaptação a ambientes tropicais e subtropicais, tolerância relativa à deficiência hídrica e múltiplas possibilidades de utilização, incluindo alimentação humana, produção de grãos, silagem, forragem e bioenergia. Essa versatilidade, entretanto, não elimina os problemas fitossanitários associados à cultura. Ao contrário, a expansão do sorgo para diferentes ambientes agroecológicos expõe a cultura a complexos de doenças cuja ocorrência e importância econômica variam em função do genótipo, do ambiente, do sistema de produção e da origem do inóculo (LITTLE; VARA PRASAD, 2019).
Do ponto de vista da fitopatologia, a semente de sorgo deve ser compreendida como uma unidade epidemiológica. Ela não é apenas o material responsável pela formação da nova planta; pode também transportar, conservar e introduzir microrganismos capazes de comprometer a germinação, o estabelecimento das plântulas e, em determinadas circunstâncias, a própria epidemia. Essa associação pode ocorrer na superfície, em estruturas externas, no pericarpo ou em tecidos internos, dependendo da espécie do patógeno e da natureza da interação estabelecida durante a formação do grão.
A distinção entre fungo associado, fungo contaminante, organismo saprofítico, patógeno de sementes e patógeno efetivamente transmitido pela semente é fundamental. A presença de um fungo em uma amostra não demonstra, isoladamente, sua capacidade de provocar doença. É necessário estabelecer sua viabilidade, localização, potencial de transmissão, patogenicidade e importância epidemiológica. Esse princípio está entre os fundamentos clássicos da ciência de sementes e continua sendo indispensável na interpretação dos testes sanitários (AGARWAL; SINCLAIR, 1996; KUMAR; GUPTA, 2020).
No sorgo, a diversidade de fungos associados às sementes é considerável. Levantamentos realizados no Brasil já demonstraram a ocorrência de Fusarium spp., Alternaria spp., Cladosporium spp., Curvularia spp., Colletotrichum graminicola, Phoma spp., Drechslera spp., Epicoccum spp., Nigrospora spp. e outros organismos. Em levantamento realizado com sementes produzidas no Estado de São Paulo, foram encontrados diferentes grupos de fungos, com predominância de Drechslera, Cladosporium, Colletotrichum graminicola, Curvularia, Alternaria, Fusarium, Epicoccum, Nigrospora e Phoma. Os autores chamaram atenção para a elevada diversidade de fungos parasitas e saprófitas transportados pelas sementes (DETECÇÃO E IDENTIFICAÇÃO..., 1986).
Entre os organismos associados às sementes, alguns apresentam importância particularmente elevada. Colletotrichum graminicola, agente da antracnose, pode estar associado ao complexo de doenças do sorgo; Fusarium spp. estão relacionados a podridões de sementes, podridões radiculares e do colmo; Exserohilum turcicum pode ser associado à helmintosporiose; Curvularia lunata e Phoma sorghina podem estar relacionados a doenças de grãos e sementes; enquanto Aspergillus e Penicillium apresentam importância principalmente relacionada ao armazenamento e à deterioração, embora determinadas espécies possam também participar de processos patológicos.
O problema é ampliado pela possibilidade de ocorrência de organismos provenientes do solo. Pythium spp., Rhizoctonia solani e outros patógenos podem infectar a semente ou a plântula durante a germinação, fazendo com que o tratamento de sementes tenha uma função que ultrapassa a redução do inóculo superficial. O tratamento pode constituir uma barreira química temporária entre a semente e o ambiente imediatamente ao seu redor.
Essa interação foi demonstrada experimentalmente em estudos brasileiros. Pinto (2002) verificou que a microbiota de sementes de sorgo — incluindo Fusarium moniliforme, Penicillium spp., Alternaria tenuis, Cladosporium spp. e Phoma sorghina — apresentava potencial patogênico e que Pythium aphanidermatum e Sclerotium rolfsii, provenientes do solo, também podiam comprometer as sementes. Alguns tratamentos fungicidas foram capazes de reduzir tanto os fungos associados às sementes quanto os organismos provenientes do solo.
A patologia de sementes de sorgo, portanto, precisa ser estudada a partir de uma perspectiva integrada. Não basta perguntar quais fungos estão presentes. É necessário compreender onde estão, como chegaram às sementes, se estão vivos, se são transmitidos, se são patogênicos e qual é a consequência de sua presença para o lote e para a cultura.
Essa abordagem tornou-se ainda mais importante com a evolução das técnicas de diagnóstico. O blotter test, o isolamento em meios de cultura e a microscopia continuam essenciais, mas passaram a coexistir com PCR, qPCR, sequenciamento e outras ferramentas moleculares. O próprio ISTA Handbook on Seed Health Testing atualmente reúne métodos que vão da identificação morfológica clássica a ferramentas moleculares, refletindo a evolução da ciência de sementes.
O objetivo desta revisão é discutir a patologia de sementes de sorgo, enfatizando a diversidade dos organismos associados, sua importância epidemiológica, os métodos de identificação e diagnóstico, as técnicas utilizadas em laboratório e o tratamento químico das sementes, com especial atenção aos fungicidas atualmente registrados para essa finalidade no Brasil.
2 DESENVOLVIMENTO
2.1 A semente de sorgo como unidade epidemiológica
A importância da semente na epidemiologia das doenças decorre de sua capacidade de transportar o inóculo por longas distâncias e de disponibilizá-lo exatamente no momento em que uma nova planta está sendo estabelecida.
Durante a germinação, a semente sofre intensa hidratação e alterações metabólicas. O tegumento é rompido, o eixo embrionário inicia o crescimento e os tecidos jovens tornam-se particularmente vulneráveis à colonização microbiana. Quando um patógeno está associado à semente, a proximidade espacial entre inóculo e tecido suscetível cria uma condição epidemiologicamente favorável.
Entretanto, o papel epidemiológico não é uniforme. Um fungo localizado superficialmente pode ser facilmente removido ou inativado pelo tratamento. Outro, localizado internamente, pode exigir fungicida sistêmico ou uma abordagem completamente diferente. Há ainda organismos que estão presentes, mas não apresentam capacidade significativa de transmissão.
Por essa razão, o conceito de sanidade de sementes precisa ser interpretado em termos de risco epidemiológico, e não simplesmente como porcentagem de sementes colonizadas.
A distribuição do inóculo também é importante. Em um lote, o patógeno pode estar distribuído de maneira agregada, tornando a amostragem um dos principais pontos críticos do diagnóstico. Uma análise laboratorial tecnicamente perfeita pode produzir uma conclusão inadequada se a amostra não representar o lote.
As normas da International Seed Testing Association procuram justamente reduzir essa variabilidade por meio de procedimentos padronizados de amostragem, ensaio e interpretação. A edição vigente das International Rules for Seed Testing é a de 2026, que inclui o Capítulo 7, dedicado aos testes de sanidade.
2.2 Diversidade dos organismos associados às sementes de sorgo
A microbiota das sementes de sorgo pode ser dividida, de maneira operacional, em três grandes grupos.
O primeiro compreende os patógenos verdadeiramente associados à transmissão por sementes, cuja presença pode contribuir para a introdução ou manutenção de doenças.
O segundo envolve organismos potencialmente patogênicos, cuja capacidade de provocar doença depende da cultivar, da quantidade de inóculo, das condições ambientais e da interação com outros organismos.
O terceiro é formado por fungos saprofíticos e de armazenamento, que podem deteriorar a semente sem necessariamente constituírem a fonte primária das principais doenças da cultura.
Essa classificação é mais útil do que simplesmente elaborar uma lista de fungos.
Entre os gêneros mais frequentemente encontrados em sementes de sorgo estão:
Alternaria, Aspergillus, Bipolaris/Drechslera, Cladosporium, Colletotrichum, Curvularia, Epicoccum, Exserohilum, Fusarium, Nigrospora, Penicillium, Phoma, Rhizopus e outros.
Levantamentos históricos realizados no Brasil demonstram que essa diversidade pode ser elevada. O levantamento realizado em sementes produzidas em São Paulo encontrou grande quantidade de fungos parasitas e saprófitas, com Colletotrichum graminicola entre os patógenos mais frequentes (DETECÇÃO E IDENTIFICAÇÃO..., 1986).
Esse resultado permanece relevante porque demonstra uma característica fundamental da patologia de sementes: a micoflora de um lote é uma comunidade, e não simplesmente a presença isolada de um único patógeno.
2.3 Colletotrichum graminicola
Colletotrichum graminicola é um dos organismos de maior importância fitopatológica associados ao sorgo. O patógeno está relacionado à antracnose, doença capaz de afetar diferentes órgãos da planta e provocar perdas importantes em condições favoráveis.
A associação com sementes apresenta importância epidemiológica porque o inóculo transportado pode contribuir para o estabelecimento inicial da doença.
Em levantamentos brasileiros, C. graminicola apresentou elevada frequência em sementes de diferentes cultivares e híbridos, sendo considerado pelos autores o patógeno mais frequente no conjunto de amostras avaliadas (DETECÇÃO E IDENTIFICAÇÃO..., 1986).
A identificação tradicional envolve características das colônias e, principalmente, das estruturas reprodutivas. Entretanto, a taxonomia do gênero Colletotrichum tornou-se progressivamente mais complexa. A utilização exclusiva de características morfológicas pode não ser suficiente para delimitar espécies próximas.
Para trabalhos de maior precisão taxonômica, recomenda-se a combinação entre morfologia, características culturais e marcadores moleculares adequados, especialmente quando o resultado possui implicações epidemiológicas ou regulatórias.
2.4 Fusarium spp.
O gênero Fusarium apresenta elevada importância na patologia do sorgo.
Espécies historicamente identificadas como Fusarium moniliforme são atualmente frequentemente tratadas como Fusarium verticillioides, dependendo da literatura e da abordagem taxonômica empregada. Essa atualização nomenclatural precisa ser considerada ao comparar trabalhos antigos com estudos contemporâneos.
Fusarium spp. podem estar associados a sementes, plântulas, raízes e colmos. A colonização das sementes pode resultar em perda de qualidade fisiológica, podridões e redução da emergência.
Em estudos brasileiros, Fusarium foi consistentemente encontrado na micoflora de sementes de sorgo. Pinto (2002) identificou F. moniliforme entre os organismos associados às sementes e demonstrou sua importância patológica.
Do ponto de vista diagnóstico, a identificação até espécie pode ser difícil apenas pela morfologia. Macroconídios, microconídios e clamidósporos fornecem informações importantes, mas marcadores como TEF1-α podem oferecer maior resolução taxonômica para determinados complexos de Fusarium.
2.5 Exserohilum turcicum
Exserohilum turcicum, historicamente denominado Helminthosporium turcicum ou Drechslera turcica em diferentes períodos da literatura, é conhecido principalmente como agente da helmintosporiose ou mancha-foliar do sorgo e do milho.
A ocorrência do organismo em sementes apresenta importância porque a nomenclatura histórica pode dificultar a comparação de resultados entre diferentes períodos.
Esse é um exemplo clássico de por que uma revisão contemporânea de patologia de sementes não deve simplesmente reproduzir nomes encontrados em trabalhos antigos. É necessário interpretar a sinonímia e a posição taxonômica atual.
2.6 Curvularia lunata
Curvularia lunata pode estar associada a grãos e sementes de sorgo e aparece em estudos de microbiota e doenças da panícula.
A identificação morfológica baseia-se principalmente na forma dos conídios e na presença de células centrais caracteristicamente mais dilatadas. Entretanto, como ocorre em outros grupos de fungos dematiáceos, a identificação ao nível específico pode exigir confirmação molecular.
A presença do organismo deve ser interpretada levando-se em consideração sua capacidade de causar doença, a intensidade de colonização e as condições de armazenamento.
2.7 Phoma sorghina
Phoma sorghina é outro organismo associado à patologia de sementes de sorgo.
A literatura brasileira registra sua ocorrência em sementes e sua associação com manchas de grãos. Estudos de tratamento de sementes demonstraram redução da incidência de P. sorghina mediante fungicidas empregados em diferentes formulações.
O diagnóstico tradicional baseia-se na formação de picnídios e características dos conídios. Entretanto, a taxonomia de fungos anteriormente reunidos em Phoma foi profundamente modificada nas últimas décadas. Assim, trabalhos contemporâneos devem utilizar a nomenclatura atual sempre que possível e informar a identificação molecular quando o nível taxonômico for relevante.
2.8 Aspergillus e Penicillium: patologia ou deterioração?
Aspergillus spp. e Penicillium spp. merecem uma discussão específica.
Esses fungos podem ser encontrados com elevada frequência em sementes e grãos armazenados, particularmente quando o teor de água e a atividade de água favorecem seu desenvolvimento.
Sua presença pode estar relacionada à deterioração, redução do vigor, perda de matéria seca e alterações bioquímicas. Algumas espécies possuem importância adicional pela produção de micotoxinas.
Entretanto, a classificação desses organismos simplesmente como "patógenos de sementes" é inadequada.
A pergunta correta é: qual espécie está presente, em que quantidade, em que condição de armazenamento e qual é o efeito sobre a semente?
Esse raciocínio é particularmente importante no diagnóstico de Aspergillus. A presença de A. flavus, por exemplo, possui implicações distintas de uma ocorrência incidental de um fungo ambiental sem capacidade conhecida de causar doença significativa na cultura.
2.9 Organismos do solo e complexo de tombamento
O estabelecimento do sorgo também pode ser comprometido por organismos presentes no solo.
Pythium spp., Rhizoctonia solani e outros patógenos podem provocar deterioração das sementes, podridão de raízes e tombamento.
Pinto (2002) demonstrou que Pythium aphanidermatum e Sclerotium rolfsii presentes em solo de monocultivo eram capazes de infectar sementes de sorgo. Alguns fungicidas aplicados às sementes protegeram contra esses organismos.
Esse resultado é conceitualmente importante: o tratamento de sementes pode atuar simultaneamente sobre inóculo da semente e inóculo do solo.
A eficiência, entretanto, depende do espectro de ação do fungicida. Um produto altamente eficiente contra fungos associados à superfície da semente pode apresentar atividade limitada sobre determinados organismos do solo.
2.10 Blotter test
O método do papel-filtro ou blotter test continua sendo uma das principais técnicas para avaliação da micoflora de sementes de sorgo.
O princípio consiste em incubar sementes sobre substrato umedecido sob condições controladas, permitindo que os fungos presentes produzam estruturas que possam ser observadas e identificadas.
A principal vantagem do método é sua capacidade de revelar uma comunidade fúngica relativamente ampla sem exigir isolamento prévio.
Foi justamente por meio do papel-filtro que estudos brasileiros caracterizaram a flora fúngica de sementes de sorgo produzidas em diferentes regiões.
O método, entretanto, não deve ser tratado como uma técnica universal.
Fungos de crescimento rápido podem dominar a superfície da semente e dificultar a detecção de outros organismos. Algumas espécies não esporulam adequadamente nas condições utilizadas. Além disso, a identificação pode permanecer apenas presuntiva.
2.11 Isolamento em meio de cultura
O cultivo em BDA/PDA e em meios seletivos constitui uma segunda etapa importante.
O isolamento permite obter uma cultura pura, essencial para:
caracterização morfológica;
preservação do isolado;
teste de patogenicidade;
avaliação de crescimento;
teste de sensibilidade a fungicidas;
extração de DNA;
PCR;
sequenciamento.
Uma vantagem adicional é permitir o estabelecimento de uma coleção de isolados representativa da diversidade encontrada no lote.
Para um laboratório de fitopatologia, essa etapa possui valor estratégico. A cultura pura não é apenas um resultado do diagnóstico; constitui material biológico para pesquisas futuras sobre epidemiologia, resistência a fungicidas, variabilidade genética e interação patógeno-hospedeiro.
2.12 Identificação morfológica
A microscopia continua sendo indispensável.
A identificação deve considerar:
morfologia das colônias;
velocidade de crescimento;
pigmentação;
textura;
estruturas reprodutivas;
forma e dimensão dos conídios;
septação;
presença de clamidósporos;
presença de picnídios;
características dos conidióforos.
A grande limitação está na plasticidade fenotípica.
O mesmo fungo pode apresentar características distintas dependendo do meio, temperatura, luminosidade, idade da cultura e disponibilidade nutricional.
Por isso, a identificação morfológica deve ser vista como parte de um processo diagnóstico, e não como uma fotografia taxonômica isolada.
2.13 Identificação molecular
A biologia molecular modificou profundamente o diagnóstico de patógenos de sementes.
A região ITS é frequentemente empregada para identificação inicial de fungos, mas sua capacidade de discriminar espécies varia muito entre os grupos.
Para Fusarium, por exemplo, TEF1-α apresenta elevada utilidade taxonômica em muitos complexos. Para outros grupos, β-tubulina, RPB2 ou outros marcadores podem ser mais informativos.
O procedimento recomendado para um diagnóstico de maior precisão pode ser representado como:
isolamento → cultura pura → extração de DNA → PCR → sequenciamento → comparação em banco de dados → análise filogenética quando necessária.
Essa abordagem é particularmente importante para organismos cuja identificação morfológica apresenta baixa resolução.
2.14 PCR convencional e qPCR
A PCR convencional é adequada para confirmação de identidade ou detecção específica de determinado patógeno.
A qPCR acrescenta sensibilidade e permite estimar a quantidade de DNA-alvo.
Em patologia de sementes, essas técnicas podem ser utilizadas para:
detecção precoce;
confirmação de isolados;
comparação de lotes;
monitoramento epidemiológico;
estudos de transmissão;
desenvolvimento de métodos quarentenários.
O ISTA Handbook on Seed Health Testing reconhece explicitamente a coexistência de métodos clássicos de microscopia com ferramentas moleculares modernas.
Há, entretanto, uma ressalva que precisa permanecer explícita: a detecção de DNA não comprova necessariamente a viabilidade do patógeno.
Uma semente pode conter DNA residual de um organismo morto. Por essa razão, em situações nas quais a viabilidade possui importância epidemiológica, recomenda-se integrar métodos moleculares com cultivo ou outros procedimentos apropriados.
2.15 Metabarcoding e sequenciamento de nova geração
As tecnologias de sequenciamento de nova geração oferecem uma possibilidade adicional: avaliar comunidades microbianas sem a necessidade de cultivar cada organismo.
O metabarcoding pode revelar uma diversidade muito maior do que aquela recuperada pelos métodos culturais.
Entretanto, esse avanço traz um problema interpretativo importante. Detectar uma sequência não significa necessariamente demonstrar que o organismo esteja viável, ativo ou causando doença.
Portanto, para patologia de sementes, as técnicas de NGS devem ser utilizadas preferencialmente como ferramentas de caracterização de diversidade e descoberta, enquanto a confirmação epidemiológica requer métodos complementares.
2.16 Testes de patogenicidade
O teste de patogenicidade é o elo que conecta taxonomia e doença.
Um fungo isolado de sementes pode ser um organismo ambiental, saprófita ou verdadeiro patógeno.
Quando a finalidade é determinar a importância epidemiológica, o isolado deve ser inoculado em plantas suscetíveis sob condições controladas. A reprodução dos sintomas e o reisolamento do organismo fortalecem a demonstração causal.
Pinto (2002) adotou justamente essa perspectiva ao avaliar não apenas a presença de fungos nas sementes de sorgo, mas também sua capacidade patogênica e a eficiência dos fungicidas.
2.17 Relação entre sanidade e qualidade fisiológica
A qualidade sanitária e a qualidade fisiológica são atributos distintos, porém interdependentes.
A presença de fungos pode provocar:
redução da germinação;
perda de vigor;
deterioração das membranas;
redução da velocidade de emergência;
morte de plântulas;
desuniformidade do estande.
Por outro lado, sementes fisiologicamente debilitadas podem apresentar maior suscetibilidade à colonização por determinados microrganismos.
Essa relação torna inadequada a avaliação da sanidade sem considerar a qualidade fisiológica.
Em estudos experimentais, recomenda-se associar:
teste de sanidade + germinação + vigor + emergência + comprimento de plântulas + massa seca.
Essa abordagem permite determinar se a presença do fungo possui consequência fisiológica mensurável.
2.18 Tratamento químico de sementes
O tratamento químico das sementes de sorgo possui dois objetivos epidemiológicos principais.
O primeiro é reduzir o inóculo associado à própria semente.
O segundo é proteger a semente e a plântula contra organismos presentes no solo durante o processo de germinação.
A literatura brasileira demonstra que essa estratégia pode ser eficiente. Pinto (2002) encontrou elevada eficiência de captana, tiram, captana + tiabendazol, tiram + tiabendazol, iprodiona + tiram e tolilfluanida no controle de fungos associados às sementes e na proteção contra Pythium aphanidermatum e Sclerotium rolfsii.
Outro estudo avaliou fludioxonil + metalaxil-M e demonstrou seu potencial no tratamento de sementes de sorgo, reforçando a importância da combinação de fungicidas com diferentes características de ação.
Esses resultados experimentais são importantes, mas precisam ser separados da situação regulatória atual.
2.19 AGROFIT e situação regulatória
No Brasil, a recomendação de um fungicida para tratamento de sementes não pode ser fundamentada apenas em artigos científicos.
É necessário verificar:
cultura → modalidade de aplicação → alvo biológico → produto → ingrediente ativo → dose → bula vigente.
O AGROFIT/MAPA é a referência oficial para essa consulta.
Essa distinção é especialmente importante para o sorgo porque existem trabalhos científicos antigos que avaliaram ingredientes ativos e misturas que podem não possuir atualmente a mesma situação regulatória.
Documentos técnicos históricos da cultura apresentavam diversas opções registradas para tratamento de sementes, incluindo produtos à base de captana, metalaxil-M + tiabendazol + fludioxonil, tebuconazol, fipronil + piraclostrobina + tiofanato-metílico e outras combinações. Uma tabela técnica baseada no AGROFIT de 2019, por exemplo, listava Amulet Top, Belure Top, Captan 200 FS, Maxim Advanced, Maxim Quattro, Standak Top e Source Top.
Entretanto, para uma revisão acadêmica atualizada, esses dados históricos não devem ser simplesmente reproduzidos como se fossem a fotografia regulatória de 2026.
2.20 Fungicidas atualmente documentados para tratamento de sementes de sorgo
Entre os produtos cuja situação contemporânea foi possível corroborar por documentação de fabricante, bula ou base oficial estadual atualizada, destacam-se algumas formulações.
| Produto | Registro MAPA | Ingredientes ativos | Formulação | Principais alvos registrados em sorgo |
|---|---|---|---|---|
| MAXIM ADVANCED | 09111 | metalaxil-M + tiabendazol + fludioxonil | FS | Phoma sorghina, Exserohilum turcicum, Aspergillus spp., Fusarium moniliforme, Curvularia lunata, Colletotrichum graminicola |
| MAXIM XL PROFESSIONAL | 002807 | metalaxil-M + fludioxonil | FS | Colletotrichum graminicola, Penicillium spp., Fusarium moniliforme, Aspergillus spp., Pythium aphanidermatum, Rhizoctonia solani |
| MAXIM QUATTRO | 7319 | azoxistrobina + tiabendazol + fludioxonil + metalaxil-M | FS | Phytophthora sojae, Fusarium moniliforme, Colletotrichum graminicola, Aspergillus flavus |
| MAXIM QUATTRO PROFESSIONAL | 18720 | azoxistrobina + tiabendazol + fludioxonil + metalaxil-M | FS | Colletotrichum graminicola |
| STANDAK TOP | 1209 | fipronil + piraclostrobina + tiofanato-metílico | FS | Alternaria alternata, Aspergillus spp., Colletotrichum graminicola, Fusarium moniliforme, Penicillium spp., Phoma spp., Pythium spp. |
O MAXIM ADVANCED, registro MAPA nº 09111, contém 20 g/L de metalaxil-M, 150 g/L de tiabendazol e 25 g/L de fludioxonil. A bula atualizada apresenta sorgo entre as culturas e indica, entre outros alvos, Phoma sorghina, Exserohilum turcicum, Aspergillus spp., Fusarium moniliforme, Curvularia lunata e Colletotrichum graminicola. Para sorgo, a dose indicada na bula é de 100–150 mL/100 kg de sementes, em aplicação única antes da semeadura, utilizando 500 mL de calda/100 kg de sementes.
O MAXIM XL PROFESSIONAL, registro MAPA nº 002807, contém 10 g/L de metalaxil-M e 25 g/L de fludioxonil, em formulação FS. A página atual do fabricante, atualizada em 19 de junho de 2026, registra para sorgo antracnose por Colletotrichum graminicola, mofo dos grãos por Penicillium spp., podridão de Fusarium por F. moniliforme, tombamento por Aspergillus spp., além de Pythium aphanidermatum e Rhizoctonia solani.
O MAXIM QUATTRO, registro MAPA nº 7319, contém quatro ingredientes ativos: azoxistrobina, tiabendazol, fludioxonil e metalaxil-M. A bula contemporânea contempla sorgo e apresenta indicações envolvendo podridão-radicular por Phytophthora sojae, podridão-vermelha-do-colmo por Fusarium moniliforme, antracnose por Colletotrichum graminicola e tombamento associado a Aspergillus flavus. Para sorgo, a bula estabelece aplicação única e volume de calda de 500 mL/100 kg de sementes.
O MAXIM QUATTRO PROFESSIONAL, registro MAPA nº 18720, possui a mesma combinação de quatro ingredientes ativos, mas constitui registro distinto. A página atualizada em junho de 2026 apresenta sorgo com indicação para antracnose causada por Colletotrichum graminicola.
O STANDAK TOP, registro MAPA nº 1209, é uma formulação FS contendo 250 g/L de fipronil, 25 g/L de piraclostrobina e 225 g/L de tiofanato-metílico. A bula contemporânea contempla sorgo e indica tratamento de sementes, com volume de calda de até 500 mL/100 kg de sementes para sorgo.
A existência desses registros não significa que os produtos sejam equivalentes. Cada formulação possui espectro de ação, ingredientes ativos, mecanismos de ação, dose e alvos registrados próprios. O produto deve ser escolhido de acordo com o patógeno de interesse e com a situação fitossanitária do lote e da área.
2.21 Mecanismos de ação e manejo da resistência
A análise do tratamento de sementes deve ir além do nome comercial.
No MAXIM ADVANCED, por exemplo, estão presentes metalaxil-M, tiabendazol e fludioxonil. O metalaxil-M pertence aos acilalaninatos, o tiabendazol aos benzimidazóis e o fludioxonil aos fenilpirróis.
No MAXIM QUATTRO, acrescenta-se azoxistrobina, pertencente às estrobilurinas.
No STANDAK TOP, piraclostrobina e tiofanato-metílico são associados ao fipronil, sendo os dois primeiros os componentes fungicidas da formulação.
Do ponto de vista do manejo da resistência, misturas podem apresentar vantagens quando os componentes são efetivos contra o organismo-alvo e possuem mecanismos de ação complementares. Entretanto, não se deve considerar que a simples presença de dois ou quatro ingredientes ativos elimina o risco de resistência.
A utilização repetida e indiscriminada de ingredientes ativos com mecanismos específicos pode exercer pressão de seleção sobre populações do patógeno.
Por isso, o tratamento de sementes deve fazer parte de um sistema que inclua rotação de culturas, resistência genética, redução de inóculo, qualidade das sementes e manejo adequado da cultura.
2.22 Qualidade do tratamento
A eficiência do tratamento depende tanto da escolha do fungicida quanto da qualidade da aplicação.
Os principais fatores são:
dose correta;
volume de calda;
homogeneidade da cobertura;
qualidade fisiológica da semente;
compatibilidade entre produtos;
calibração do equipamento;
tempo entre tratamento e semeadura;
condições de armazenamento.
A bula do STANDAK TOP, por exemplo, recomenda sementes limpas, de boa qualidade fisiológica e tratamento em equipamento apropriado, ressaltando a necessidade de uniformidade da distribuição do produto.
A recomendação do volume de calda não deve ser generalizada entre produtos. No STANDAK TOP, o limite indicado para sorgo é de 500 mL de calda por 100 kg de sementes. No MAXIM ADVANCED, a bula também estabelece 500 mL/100 kg para sorgo. Já outros produtos possuem recomendações diferentes.
Esse detalhe parece operacional, mas possui consequência direta sobre a qualidade fisiológica e a uniformidade do tratamento.
2.23 Tratamento químico e fisiologia da semente
O tratamento químico não deve ser avaliado exclusivamente pela redução da incidência do fungo.
Uma formulação pode reduzir significativamente a micoflora e, simultaneamente, provocar efeito negativo sobre a germinação ou o vigor se utilizada fora das condições recomendadas.
Por essa razão, ensaios experimentais devem avaliar simultaneamente:
sanidade + germinação + vigor + emergência + desenvolvimento inicial.
A avaliação deve ser feita também considerando o genótipo. Cultivares e híbridos podem apresentar diferenças na tolerância aos ingredientes ativos, especialmente quando as sementes possuem baixa qualidade fisiológica.
2.24 Tratamento químico, biológico e físico
A tendência contemporânea da ciência de sementes é reduzir a dependência exclusiva de fungicidas químicos.
Métodos físicos, como termoterapia, podem apresentar potencial para reduzir determinados organismos. Tratamentos biológicos envolvendo Trichoderma, Bacillus e outros microrganismos também vêm sendo estudados.
Entretanto, a substituição de um método por outro não deve ser feita com base apenas na incidência do fungo. É necessário avaliar:
eficácia;
estabilidade;
compatibilidade;
efeito sobre germinação;
persistência;
capacidade de colonização;
custo;
segurança;
situação regulatória.
A literatura contemporânea sobre manejo de doenças do sorgo enfatiza justamente a integração entre resistência genética, rotação, agentes biológicos, manejo químico e novas ferramentas de monitoramento.
2.25 Proposta de fluxo diagnóstico para um laboratório de patologia de sementes
Para um laboratório de diagnóstico de sementes de sorgo, um fluxo robusto pode ser organizado da seguinte maneira:
amostragem representativa → inspeção visual → avaliação fisiológica → blotter test → microscopia → isolamento em meio de cultura → cultura pura → identificação morfológica → extração de DNA → PCR/sequenciamento → teste de patogenicidade quando necessário → interpretação epidemiológica → recomendação de manejo.
Esse fluxo permite responder perguntas diferentes com técnicas diferentes.
Se a pergunta for "qual é a micoflora do lote?", o blotter é uma ferramenta apropriada.
Se a pergunta for "qual é o isolado?", o cultivo e a identificação morfológica são necessários.
Se a pergunta for "qual espécie está presente?", a identificação molecular pode ser necessária.
Se a pergunta for "o fungo é patogênico?", é necessário realizar bioensaio.
Se a pergunta for "qual fungicida apresenta maior eficiência?", deve-se conduzir ensaio de sensibilidade ou tratamento de sementes sob condições controladas.
A maturidade de um laboratório de patologia de sementes reside justamente na capacidade de escolher a técnica em função da pergunta biológica.
3 CONCLUSÕES
A patologia de sementes de sorgo constitui uma área multidisciplinar que integra micologia, bacteriologia, taxonomia, fisiologia de sementes, epidemiologia, diagnóstico molecular e tecnologia de tratamento.
As sementes de sorgo apresentam elevada diversidade de fungos associados, incluindo organismos de importância fitopatológica, fungos oportunistas, saprófitas e fungos relacionados à deterioração durante o armazenamento. Entre os grupos de maior relevância encontram-se Colletotrichum graminicola, Fusarium spp., Exserohilum turcicum, Curvularia lunata, Phoma sorghina, Aspergillus spp. e Penicillium spp.
A presença de um fungo na semente não deve ser interpretada automaticamente como doença. A análise correta exige distinção entre associação, viabilidade, colonização, patogenicidade e transmissão.
O método do papel-filtro permanece extremamente útil para caracterização da micoflora, enquanto o isolamento em meio de cultura possibilita obtenção de culturas puras e estudos posteriores. A microscopia continua sendo indispensável, especialmente para caracterização inicial dos isolados.
A biologia molecular ampliou significativamente a capacidade diagnóstica. PCR, qPCR, sequenciamento e metabarcoding permitem aumentar a sensibilidade e a resolução taxonômica, mas não eliminam a necessidade da interpretação epidemiológica. DNA detectado não significa necessariamente organismo viável ou patogênico.
O tratamento químico de sementes representa uma das principais ferramentas para proteger o estabelecimento inicial do sorgo. Sua ação pode envolver tanto a redução do inóculo associado à semente quanto a proteção contra determinados patógenos presentes no solo.
A literatura experimental demonstra eficácia de diferentes ingredientes ativos e misturas. Entretanto, resultados experimentais devem ser claramente separados da situação regulatória.
Na situação regulatória contemporânea consultada, produtos como MAXIM ADVANCED, MAXIM XL PROFESSIONAL, MAXIM QUATTRO, MAXIM QUATTRO PROFESSIONAL e STANDAK TOP apresentam documentação atual indicando uso em tratamento de sementes de sorgo, com diferentes ingredientes ativos e diferentes alvos registrados.
Essa diversidade de produtos não significa que exista um "melhor fungicida" de maneira universal. A decisão técnica depende do patógeno-alvo, da origem do inóculo, da intensidade da doença, da qualidade da semente, do histórico da área, da cultivar ou híbrido e da indicação legal vigente.
A recomendação deve seguir uma hierarquia objetiva:
diagnóstico do problema → identificação do agente → avaliação do risco epidemiológico → escolha do ingrediente ativo e mecanismo de ação → verificação do registro AGROFIT → aplicação conforme bula → avaliação da qualidade fisiológica e sanitária.
Essa abordagem evita dois erros frequentes: utilizar um fungicida sem conhecer o agente causal e utilizar um produto eficaz experimentalmente, mas sem indicação regulatória para a cultura ou modalidade pretendida.
Em síntese, a semente de sorgo deve ser compreendida não apenas como material de propagação, mas como um componente potencialmente ativo do ciclo epidemiológico. O verdadeiro diagnóstico de sua sanidade não termina quando o laboratório identifica um fungo. Ele termina quando se consegue estabelecer o que está presente, onde está presente, se está viável, se pode ser transmitido, qual é sua importância epidemiológica e qual medida de manejo é tecnicamente justificável.
Essa mudança de perspectiva — da simples identificação da micoflora para a interpretação do risco epidemiológico — é o que transforma uma análise de sementes em um diagnóstico fitopatológico de qualidade.
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