PATOLOGIA DE SEMENTES DE MAMONA: DIVERSIDADE, IDENTIFICAÇÃO, TÉCNICAS DE DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO QUÍMICO
1 INTRODUÇÃO
A semente constitui o ponto de partida biológico de uma nova planta, mas, sob a perspectiva fitopatológica, representa também uma das estruturas mais eficientes para a sobrevivência, o transporte e a introdução de agentes associados a doenças. Essa dualidade é particularmente importante em culturas oleaginosas, nas quais a qualidade fisiológica e sanitária do lote determina, em grande medida, a capacidade de estabelecimento inicial da lavoura. Na mamoneira (Ricinus communis L.), essa relação assume importância especial porque a cultura apresenta suscetibilidade a um amplo conjunto de agentes fitopatogênicos e porque o estabelecimento inicial pode ser severamente comprometido por podridões e tombamentos.
A patologia de sementes moderna não considera, entretanto, toda associação microbiana como sinônimo de doença. Um organismo pode estar presente na superfície da semente, colonizar seus tecidos, sobreviver internamente, contaminar o tegumento ou simplesmente acompanhar o lote como componente da microbiota de armazenamento. Para que essa associação adquira significado epidemiológico, é necessário estabelecer uma sequência de relações: presença do organismo, viabilidade do inóculo, capacidade de sobreviver associado à semente, potencial de transmissão, patogenicidade e possibilidade de estabelecimento da doença. Essa distinção, fundamental nos trabalhos clássicos de Neergaard (1977) e Agarwal e Sinclair (1996), permanece central para a interpretação moderna dos testes de sanidade.
No caso da mamoneira, a literatura brasileira demonstra que a semente pode desempenhar papel efetivo na introdução e disseminação de patógenos. Lima, Batista e Santos (1997), em estudo específico de patologia de sementes de mamona, detectaram diversos fungos associados às sementes e demonstraram experimentalmente que Fusarium sp., Rhizoctonia solani e Alternaria ricini podiam ser transmitidos pelas sementes e causar tombamento de plântulas. Os autores também observaram que Fusarium sp., A. ricini, Aspergillus flavus e Chaetomium sp. estavam associados à podridão das sementes e à redução da germinação.
Essa constatação possui importância prática porque o tratamento da semente não deve ser compreendido apenas como uma medida para "eliminar fungos". Seu objetivo agronômico é reduzir o inóculo potencialmente prejudicial, proteger a semente e a plântula durante o período de germinação e emergência e, quando possível, diminuir a probabilidade de introdução do patógeno em novas áreas.
A literatura internacional contemporânea reforça essa concepção. A movimentação global de sementes aumentou a importância dos patógenos transmitidos por sementes, ao mesmo tempo em que os métodos de diagnóstico se tornaram mais sensíveis e específicos. Munkvold, du Toit e Dunkle (2025) destacam que a sanidade de sementes passou a integrar não somente a produção agrícola, mas também sistemas de certificação, comércio internacional, biossegurança e regulamentação fitossanitária.
Na mamona, essa discussão é particularmente relevante porque a cultura possui importância industrial, energética e socioeconômica em diferentes regiões tropicais e subtropicais. A semente apresenta elevado teor de óleo e constitui a matéria-prima para diferentes cadeias industriais, incluindo produção de biocombustíveis, polímeros, cosméticos e outros produtos. O conhecimento da qualidade sanitária das sementes, portanto, não é uma questão meramente laboratorial, mas componente da sustentabilidade produtiva da cultura.
O objetivo desta revisão é discutir a patologia de sementes de mamona a partir de quatro eixos complementares: diversidade dos organismos associados, identificação e diagnóstico, técnicas utilizadas para avaliação da sanidade e tratamento químico das sementes, com atenção especial às indicações atualmente disponíveis no sistema AGROFIT/MAPA.
2 DESENVOLVIMENTO
2.1 A semente de mamona como componente epidemiológico
A associação de patógenos às sementes pode ocorrer durante a formação dos frutos, na colheita, no beneficiamento ou durante o armazenamento. A localização do microrganismo é determinante para sua importância epidemiológica. Patógenos localizados superficialmente podem ser parcialmente removidos por procedimentos de limpeza ou tratamento; organismos presentes no interior dos tecidos apresentam maior dificuldade de erradicação.
Essa distinção é importante porque a semente pode funcionar simultaneamente como veículo de transporte, estrutura de sobrevivência e fonte de inóculo primário. Quando o patógeno permanece viável durante o armazenamento e posteriormente infecta a plântula, estabelece-se uma relação epidemiológica muito mais relevante do que aquela observada para um simples contaminante superficial.
Em estudo clássico realizado com sementes de mamona, Lima, Batista e Santos (1997) demonstraram justamente essa diferença entre presença e transmissão. Entre os fungos encontrados, Fusarium sp., Rhizoctonia solani e Alternaria ricini apresentaram capacidade de transmissão para plântulas, enquanto outros organismos foram associados principalmente à deterioração e redução da germinação.
A interpretação do teste de sanidade deve, portanto, considerar pelo menos cinco perguntas:
Qual organismo foi detectado?
Onde ele está localizado na semente?
O organismo está viável?
Existe evidência de transmissão para a planta?
Qual é sua importância epidemiológica para a cultura?
Somente depois dessas perguntas é possível estabelecer uma recomendação de manejo.
2.2 Diversidade de fungos associados às sementes de mamona
A diversidade microbiana encontrada em sementes de mamona é ampla. Estudos brasileiros identificaram representantes de diferentes grupos taxonômicos, incluindo Fusarium, Alternaria, Aspergillus, Penicillium, Rhizoctonia, Cladosporium, Bipolaris, Curvularia, Rhizopus, Verticillium, Macrophomina e outros gêneros.
Nascimento et al. (2009), avaliando sementes crioulas de mamona, encontraram elevadas frequências de Fusarium sp. e Penicillium sp., além de Aspergillus niger, A. flavus e actinomicetos. O estudo utilizou tanto o método de papel-filtro quanto o cultivo em BDA, demonstrando que a composição da micobiota pode variar conforme a procedência das sementes e o método empregado.
Outro estudo realizado com diferentes cultivares e épocas de semeadura demonstrou que a composição da micoflora também pode variar em função da época de produção das sementes. O método de papel-filtro permitiu detectar diferenças na diversidade de gêneros entre cultivares e épocas de semeadura, indicando que as condições ambientais durante a formação das sementes podem influenciar diretamente sua qualidade sanitária.
Entre os organismos de maior interesse fitopatológico podem ser destacados:
Alternaria ricini;
Fusarium spp.;
Rhizoctonia solani;
Macrophomina phaseolina;
Lasiodiplodia theobromae;
Aspergillus flavus;
Aspergillus niger;
Penicillium spp.;
Cladosporium spp.;
Curvularia spp.;
Bipolaris spp.;
Verticillium spp.
A presença desses organismos, entretanto, não possui significado equivalente. Rhizoctonia solani, Fusarium spp. e Alternaria ricini, por exemplo, apresentam importância fitopatológica e podem estar relacionados a danos em plântulas. Aspergillus e Penicillium, por outro lado, frequentemente estão associados à deterioração e ao armazenamento, embora determinadas espécies também possam produzir metabólitos de interesse toxicológico.
Esse aspecto é fundamental para evitar um erro recorrente na interpretação dos testes de sanidade: confundir frequência de isolamento com importância epidemiológica.
2.3 Principais patógenos associados às sementes
2.3.1 Fusarium spp.
O gênero Fusarium merece atenção especial pela capacidade de colonizar sementes e permanecer associado aos tecidos vegetais por períodos prolongados. Na mamoneira, espécies de Fusarium estão relacionadas a podridões, tombamento e murchas.
O trabalho de Lima, Batista e Santos (1997) demonstrou que Fusarium sp. estava associado à deterioração das sementes e apresentou capacidade de transmissão para plântulas.
Do ponto de vista diagnóstico, a identificação somente ao nível de gênero pode ser insuficiente quando se pretende estabelecer relações epidemiológicas específicas. Características dos macroconídios, microconídios, clamidósporos e colônias constituem importantes elementos para uma identificação preliminar, mas a utilização de marcadores moleculares pode ser necessária para discriminar espécies filogeneticamente próximas.
2.3.2 Alternaria ricini
Alternaria ricini possui importância histórica na patologia da mamoneira, estando associado a manchas foliares e a problemas em sementes. Lima, Batista e Santos (1997) demonstraram sua transmissão pelas sementes e sua capacidade de provocar tombamento de plântulas.
A identificação morfológica deve considerar características da colônia, conidióforos e conídios. Entretanto, a taxonomia contemporânea do gênero Alternaria demonstra que características morfológicas isoladamente podem não ser suficientes para uma identificação específica segura, especialmente quando se trabalha com grupos taxonomicamente próximos.
2.3.3 Rhizoctonia solani
Rhizoctonia solani apresenta importância particular no estabelecimento inicial da mamoneira. O patógeno é predominantemente associado ao solo, mas pode também estar presente nas sementes.
A transmissão pela semente foi demonstrada experimentalmente por Lima, Batista e Santos (1997), que observaram a ocorrência de tombamento associado a fungos transportados e transmitidos pelas sementes.
Essa característica possui implicação direta para o tratamento químico. O fungicida aplicado à semente pode atuar não apenas sobre o inóculo presente no tegumento, mas também constituir uma zona de proteção ao redor da semente durante a germinação.
2.4 Fungos de armazenamento
Aspergillus, Penicillium e Rhizopus constituem um grupo que merece interpretação distinta.
Esses organismos podem colonizar sementes durante o armazenamento, principalmente quando condições de temperatura e umidade favorecem seu desenvolvimento. A deterioração pode provocar perda de vigor, redução da germinação, alterações metabólicas e comprometimento da qualidade comercial.
Em sementes de mamona, Eicholz et al. (2012) encontraram Aspergillus, Penicillium e Fusarium entre os grupos mais frequentes. O tratamento com carboxina + tiram reduziu a incidência de fungos e melhorou a germinação de sementes de menor qualidade.
Contudo, deve-se evitar chamar indiscriminadamente esses organismos de "patógenos de sementes". Em muitos casos, eles representam principalmente fungos associados à deterioração. O termo mais adequado pode ser fungos associados às sementes, reservando-se a classificação de patógeno para organismos cuja relação causal com a doença esteja estabelecida.
2.5 Métodos de detecção e diagnóstico
A qualidade do diagnóstico depende inicialmente da qualidade da amostragem. Como a distribuição dos microrganismos dentro de um lote pode ser heterogênea, a amostra analisada deve representar adequadamente o lote.
A ISTA mantém as International Rules for Seed Testing, cuja edição atual é a de 2026. O Capítulo 7 é dedicado aos testes de sanidade de sementes e reúne métodos padronizados para diagnóstico e emissão de resultados. A ISTA também disponibiliza um Handbook on Seed Health Testing, que aborda desde preparo e manipulação das amostras até microscopia e métodos moleculares.
Para mamona, entretanto, é importante reconhecer que nem todo patógeno possui um método ISTA específico. Nesses casos, devem ser empregados protocolos cientificamente validados, métodos publicados na literatura e, quando aplicável, procedimentos de organismos internacionais de proteção fitossanitária.
2.6 Blotter test
O blotter test, ou método do papel-filtro, permanece entre as ferramentas mais úteis para levantamento da micoflora de sementes.
O princípio é relativamente simples: sementes são distribuídas sobre substrato úmido e incubadas em condições controladas para estimular a manifestação de estruturas fúngicas. Após o período de incubação, as sementes são examinadas individualmente sob microscópio estereoscópico e, quando necessário, microscópio óptico.
Sua grande vantagem é permitir a detecção simultânea de diferentes gêneros sem necessidade de isolamento prévio.
Em mamona, o método foi empregado em estudos de diversidade e incidência de fungos, inclusive utilizando 200 sementes por cultivar, incubadas por sete dias em condições controladas.
Entretanto, o blotter apresenta limitações. Fungos de crescimento rápido podem mascarar organismos de crescimento lento, enquanto determinados fungos não produzem estruturas reprodutivas suficientemente características para identificação segura.
Por essa razão, a microscopia deve ser complementada pelo isolamento e, quando necessário, por métodos moleculares.
2.7 Desinfestação superficial
A utilização de hipoclorito de sódio ou outros agentes de desinfestação deve ser definida de acordo com o objetivo do diagnóstico.
Se o objetivo é avaliar toda a microbiota associada à semente, a desinfestação superficial pode reduzir artificialmente a incidência dos organismos externos. Se a intenção é diferenciar microrganismos externos de organismos internalizados, a desinfestação pode constituir uma etapa experimental importante.
Essa distinção deve estar claramente descrita no protocolo. A ausência de crescimento após desinfestação não significa necessariamente ausência do patógeno na semente.
2.8 Isolamento em meio de cultura
O isolamento em BDA/PDA é particularmente importante quando se pretende obter culturas puras.
Uma cultura pura permite:
caracterização morfológica;
preservação do isolado;
teste de patogenicidade;
avaliação de crescimento;
testes de sensibilidade a fungicidas;
extração de DNA;
PCR e sequenciamento.
Entretanto, o cultivo possui uma limitação conceitual importante: nem todo organismo presente na semente é cultivável nas condições utilizadas.
Assim, um resultado negativo em meio de cultura não deve ser interpretado como ausência absoluta do organismo. Métodos moleculares podem detectar organismos que não foram recuperados pelas condições culturais utilizadas.
2.9 Identificação morfológica
A identificação morfológica continua sendo uma ferramenta essencial para o patologista de sementes.
Em Fusarium, devem ser avaliados macroconídios, microconídios, clamidósporos e características da colônia. Em Alternaria, a morfologia dos conídios e dos conidióforos fornece informações importantes. Em Aspergillus e Penicillium, estruturas de conidiogênese e características coloniais são fundamentais.
A experiência do patologista continua sendo relevante porque a identificação não é simplesmente uma comparação visual com fotografias. É necessário reconhecer a variabilidade fenotípica e compreender quais características possuem valor taxonômico.
Livros especializados, como Principles of Seed Pathology, de Agarwal e Sinclair (1996), e o ISTA Handbook on Seed Health Testing, permanecem importantes referências metodológicas para esse trabalho.
2.10 Identificação molecular
A identificação molecular tornou-se particularmente importante para organismos cuja morfologia apresenta baixa resolução taxonômica.
O sequenciamento da região ITS pode ser utilizado como marcador inicial para muitos fungos, mas nem sempre permite discriminar espécies próximas. Dependendo do grupo, genes como β-tubulina, fator de elongação da tradução 1-alfa e outros marcadores multilocus podem aumentar a resolução.
A estratégia mais robusta é integrar:
morfologia + isolamento + DNA + marcador molecular + comparação filogenética + patogenicidade.
O sequenciamento, por si só, não resolve necessariamente a questão fitopatológica. Uma sequência pode indicar a presença de determinado organismo, mas não comprova que ele esteja viável ou que tenha sido responsável por determinado sintoma.
Essa distinção é particularmente importante em sementes armazenadas.
2.11 PCR e qPCR
A PCR convencional pode ser empregada para confirmar a identidade de um organismo previamente isolado ou detectar diretamente um agente em sementes.
A qPCR acrescenta a possibilidade de maior sensibilidade e, dependendo do desenho experimental, estimativa da quantidade relativa ou absoluta do DNA-alvo.
Entretanto, a interpretação deve ser cuidadosa: DNA detectado não significa necessariamente organismo vivo.
Essa limitação pode ser contornada parcialmente pela associação de métodos moleculares com cultivo, testes de viabilidade, isolamento ou estratégias específicas destinadas à detecção de células metabolicamente ativas.
A evolução dos métodos de diagnóstico de sementes acompanha exatamente essa tendência. A literatura recente aponta para integração entre métodos culturais, microscópicos, imunológicos, moleculares, imagem digital e inteligência artificial.
2.12 Testes de patogenicidade
A patogenicidade constitui o ponto que transforma uma simples associação em uma relação fitopatológica demonstrada.
Quando um fungo é isolado de uma semente, é necessário perguntar se ele efetivamente provoca doença. O teste deve ser conduzido com controles adequados, inoculação padronizada, avaliação dos sintomas e, quando necessário, reisolamento do agente.
Lima, Batista e Santos (1997) realizaram esse tipo de abordagem e demonstraram que Fusarium sp., Rhizoctonia solani e Alternaria ricini apresentavam capacidade de transmissão e de causar tombamento em plântulas de mamona.
Esse tipo de estudo continua sendo essencial porque permite separar os organismos simplesmente associados às sementes daqueles que efetivamente possuem importância epidemiológica.
2.13 Relação entre sanidade e qualidade fisiológica
A qualidade fisiológica não pode ser interpretada independentemente da qualidade sanitária.
Uma semente pode apresentar elevado potencial germinativo em condições ideais, mas apresentar redução de vigor quando submetida a estresse ou quando contaminada por organismos capazes de deteriorar tecidos.
Em mamona, estudos demonstraram que o tratamento fungicida pode ser particularmente importante em lotes de menor qualidade. Eicholz et al. (2012) observaram melhoria da germinação e redução da incidência de fungos após tratamento com carboxina + tiram.
Outro estudo, realizado durante 12 meses de armazenamento, demonstrou que sementes tratadas com fungicidas químicos tradicionais apresentaram qualidade fisiológica e sanitária superior às sementes não tratadas ou tratadas com algumas alternativas, especialmente quando armazenadas em condições ambientais menos favoráveis.
Esses resultados reforçam uma conclusão importante: o tratamento químico não deve ser utilizado para compensar sementes originalmente deficientes. Seu papel é proteger e preservar a qualidade de um lote dentro de um sistema integrado de produção e armazenamento.
2.14 Tratamento químico de sementes
Historicamente, o tratamento químico das sementes de mamona apresentou uma particularidade no Brasil. Durante muitos anos, trabalhos científicos testaram fungicidas sem que houvesse produtos registrados especificamente para tratamento de sementes da cultura.
Kobori (2011), em tese de doutorado desenvolvida na ESALQ/USP, avaliou diferentes tratamentos fungicidas justamente porque, naquele período, não havia defensivos químicos registrados para a ricinocultura destinados ao tratamento de sementes.
De maneira semelhante, Coutinho et al. (2012) destacaram que não havia fungicidas registrados para tratamento de sementes de mamona e avaliaram misturas contendo carboxina + tiram, captana + tiofanato-metílico e triadimenol + tolilfluanida + pencicurom. Todas as misturas reduziram a micobiota das sementes e apresentaram atividade sobre fungos como Alternaria ricini, Amphobotrys ricini, Lasiodiplodia theobromae, Macrophomina phaseolina e Rhizoctonia solani.
Esses resultados possuem valor científico, mas precisam ser interpretados corretamente: eficácia experimental não equivale a autorização legal de uso.
Essa distinção é particularmente importante para recomendações agronômicas.
2.15 Situação atual do AGROFIT para mamona
O AGROFIT é o banco oficial do Ministério da Agricultura e Pecuária para consulta dos produtos agroquímicos registrados no Brasil. A plataforma permite pesquisar produtos por cultura, ingrediente ativo, marca comercial e alvo biológico. O conjunto de dados aberto do AGROFIT apresenta atualização em setembro de 2026, evidenciando que a base possui atualização contínua.
A legislação brasileira de sementes também estabelece que os padrões de identidade e qualidade de diferentes espécies, incluindo a mamona, são disciplinados pelo sistema oficial de sementes e mudas. Atualmente, a página oficial do MAPA lista, entre outras normas, a Lei nº 10.711/2003, o Decreto nº 10.586/2020 e a Instrução Normativa nº 45/2013, além de atualizações posteriores.
A situação atual da mamona merece destaque porque houve alteração importante em relação à literatura mais antiga.
2.16 Fungicida atualmente identificado para tratamento químico de sementes de mamona
Na documentação regulatória vigente consultada, destaca-se o:
MONCEREN 250 SC
Registro MAPA: 00404
Ingrediente ativo: pencicurom
Concentração: 250 g/L
Formulação: SC — suspensão concentrada
Grupo químico: fenilureia
Modo de ação: fungicida protetor
Alvo em mamona: Rhizoctonia solani
Doença: tombamento
Modalidade: tratamento de sementes
Dose indicada: 0,3 L/100 kg de sementes
Número máximo de aplicações: 1
Aplicação: antes do plantio.
A bula atualizada do produto é particularmente importante porque inclui explicitamente mamona entre as culturas autorizadas para o tratamento contra R. solani. Para o conjunto formado por feijão, amendoim, ervilha, feijões, grão-de-bico, lentilha, girassol, canola, gergelim, linhaça e mamona, a bula estabelece uma aplicação única antes do plantio, com dose de 0,3 L por 100 kg de sementes.
A documentação também estabelece que o tratamento deve ser realizado com o produto devidamente distribuído sobre as sementes e que o plantio deve ocorrer após o tratamento. Para melhor cobertura, a bula admite adição de água em proporção máxima de 1:1 em relação ao produto.
É importante destacar que pencicurom não deve ser apresentado como fungicida de amplo espectro para a microbiota da mamona. A indicação registrada é específica para Rhizoctonia solani. Portanto, não seria tecnicamente correto extrapolar essa indicação para Fusarium, Alternaria, Aspergillus, Penicillium ou outros organismos apenas porque esses fungos podem ocorrer nas sementes.
Esse ponto diferencia uma revisão científica tecnicamente rigorosa de uma simples compilação de produtos.
2.17 Tratamentos experimentais versus produtos registrados
A literatura científica apresenta diversos resultados positivos com fungicidas que foram utilizados experimentalmente em sementes de mamona.
Carboxina + tiram, por exemplo, reduziu a incidência de fungos e melhorou a germinação em determinados estudos.
Coutinho et al. (2012) também demonstraram atividade de misturas envolvendo carboxina + tiram, captana + tiofanato-metílico e outras combinações sobre a micobiota de sementes de mamoneira.
Araújo et al. (2019) observaram que sementes tratadas com produtos químicos apresentaram qualidade fisiológica e sanitária superior durante o armazenamento, enquanto alguns tratamentos alternativos, especialmente Trichoderma, sorbato de potássio e alho, apresentaram resultados promissores.
Esses resultados são cientificamente relevantes para o desenvolvimento tecnológico, mas não autorizam automaticamente o uso desses produtos na cultura da mamona.
A recomendação agronômica deve obedecer à indicação vigente no AGROFIT e à bula do produto. O próprio MAPA esclarece que o AGROFIT deve ser utilizado para consulta dos produtos registrados e suas indicações de uso.
2.18 Tratamento térmico como alternativa
O tratamento térmico representa uma alternativa interessante para a redução de microrganismos associados às sementes.
Estudo realizado especificamente com sementes de mamona comparou calor seco e água quente com tratamento fungicida à base de carbendazim + tiram. Os tratamentos térmicos reduziram a contaminação microbiana, e o tratamento com água quente, nas condições avaliadas, não comprometeu significativamente a germinação.
Entretanto, a termoterapia apresenta uma janela estreita entre eficiência sanitária e segurança fisiológica. Temperatura, tempo de exposição, teor de água da semente e cultivar precisam ser controlados rigorosamente.
Assim, a termoterapia deve ser entendida como tecnologia específica e não como substituição universal do tratamento químico.
2.19 Tratamento biológico
O uso de agentes de controle biológico representa uma alternativa adicional.
Trichoderma spp. apresentam potencial para colonização da superfície das sementes e competição com fungos fitopatogênicos. Em estudos de armazenamento de sementes de mamona, produtos à base de Trichoderma apresentaram resultados promissores entre os tratamentos alternativos avaliados.
Entretanto, assim como ocorre com os fungicidas químicos, é necessário distinguir eficácia experimental de produto registrado e recomendado para determinada modalidade de aplicação.
A integração entre tratamento químico, biológico, qualidade fisiológica e condições adequadas de armazenamento tende a ser mais consistente do que a dependência exclusiva de uma única tecnologia.
2.20 Qualidade da aplicação do tratamento de sementes
A eficiência do tratamento depende também da qualidade operacional.
A dose precisa ser distribuída uniformemente entre as sementes. Uma parte do lote subdosada pode permanecer desprotegida, enquanto sementes excessivamente tratadas podem apresentar maior risco de fitotoxicidade.
Os principais parâmetros de controle incluem:
dose de produto por massa de sementes;
volume de calda;
uniformidade de cobertura;
calibração do equipamento;
qualidade da água;
compatibilidade entre produtos;
intervalo entre tratamento e semeadura;
qualidade fisiológica inicial da semente.
A bula do MONCEREN 250 SC, por exemplo, determina que o tratamento seja realizado antes do plantio e chama atenção para a necessidade de regulagem da semeadora com a semente tratada, uma vez que o tratamento pode alterar as propriedades físicas de fluxo das sementes.
2.21 Proposta de fluxo diagnóstico para laboratório de patologia de sementes de mamona
Para um laboratório de fitopatologia que trabalhe com sementes de mamona, uma estratégia tecnicamente consistente pode ser organizada como:
amostragem representativa → avaliação visual → teste de germinação/vigor → blotter test → microscopia → isolamento → cultura pura → identificação morfológica → PCR/sequenciamento quando necessário → teste de patogenicidade → interpretação epidemiológica → recomendação de manejo.
Esse fluxo é mais seguro do que depender de uma única técnica.
O blotter fornece uma visão ampla da micobiota; o isolamento permite preservar o organismo; a microscopia oferece informação estrutural; o sequenciamento aumenta a resolução taxonômica; a PCR pode proporcionar diagnóstico específico; e o teste de patogenicidade estabelece a relação entre organismo e doença.
A combinação desses métodos está alinhada com a tendência internacional da ciência de sementes, que caminha para sistemas diagnósticos integrados e progressivamente mais sensíveis.
3 CONCLUSÕES
A patologia de sementes de mamona deve ser compreendida como uma área que integra microbiologia, taxonomia, fisiologia de sementes, epidemiologia, diagnóstico molecular e tecnologia de tratamento de sementes.
As sementes de Ricinus communis apresentam ampla diversidade de organismos associados, incluindo fungos de importância fitopatológica e fungos relacionados principalmente à deterioração e ao armazenamento. Entre os organismos de maior relevância destacam-se Fusarium spp., Alternaria ricini e Rhizoctonia solani, além de diferentes espécies de Aspergillus, Penicillium e outros gêneros.
A presença de um organismo na semente, entretanto, não é suficiente para estabelecer sua importância como patógeno. A interpretação deve considerar localização, viabilidade, capacidade de transmissão, patogenicidade e importância epidemiológica.
O blotter test permanece uma ferramenta fundamental para levantamentos de sanidade, especialmente pela capacidade de detectar diferentes fungos simultaneamente. O isolamento em meio de cultura complementa o diagnóstico e permite estudos posteriores de patogenicidade, caracterização e preservação dos isolados.
A identificação morfológica continua indispensável, mas apresenta limitações para grupos taxonomicamente complexos. A utilização de PCR, qPCR e sequenciamento proporciona maior resolução e especificidade, especialmente quando a identificação ao nível de espécie possui implicações epidemiológicas ou quarentenárias.
A integração entre métodos tradicionais e moleculares é, portanto, mais adequada do que a substituição completa da microscopia pela biologia molecular.
Do ponto de vista do manejo, o tratamento químico constitui uma ferramenta importante para proteger a semente e a plântula durante o estabelecimento inicial. Entretanto, os resultados experimentais encontrados na literatura não devem ser confundidos com autorização de uso.
Essa distinção é especialmente importante para a mamona porque grande parte da literatura experimental brasileira foi produzida em período no qual não havia fungicidas registrados especificamente para tratamento de sementes da cultura. Estudos com carboxina + tiram, captana + tiofanato-metílico, triadimenol + tolilfluanida + pencicurom e outros produtos demonstraram eficácia experimental, mas esses resultados possuem natureza científica e não representam, por si mesmos, autorização regulatória.
A situação atual é diferente. A documentação vigente consultada identifica o MONCEREN 250 SC, registro MAPA nº 00404, à base de pencicurom, como fungicida registrado para tratamento de sementes de mamona contra Rhizoctonia solani, com indicação de 0,3 L/100 kg de sementes e uma aplicação antes do plantio.
Assim, para uma recomendação técnica realizada em 2026, a indicação deve ser construída a partir da seguinte hierarquia:
AGROFIT/MAPA → bula vigente → cultura → modalidade de aplicação → alvo biológico → dose registrada.
Essa hierarquia é indispensável para evitar a extrapolação de resultados experimentais para usos não registrados.
Finalmente, a qualidade sanitária da semente deve ser entendida como componente de um sistema mais amplo de produção. O uso de sementes de elevada qualidade, armazenamento adequado, diagnóstico laboratorial, tratamento químico ou biológico tecnicamente justificado e estabelecimento rápido e uniforme da cultura constituem, conjuntamente, as bases para reduzir os riscos associados aos patógenos transmitidos por sementes de mamona.
4 BIBLIOGRAFIA
AGARWAL, V. K.; SINCLAIR, J. B. Principles of seed pathology. 2. ed. Boca Raton: CRC Press, 1996.
ARAÚJO, R. F.; ZONTA, J. B.; ARAÚJO, E. F.; LEAL, C. A. M. Tratamentos alternativos para conservação de sementes de mamona (Ricinus communis L.). Summa Phytopathologica, v. 45, n. 1, p. 89–96, 2019. DOI: 10.1590/0100-5405/187494.
AZEVEDO, D. M. P. de; BELTRÃO, N. E. de M. (org.). O agronegócio da mamona no Brasil. 2. ed. Brasília, DF: Embrapa Informação Tecnológica, 2007. 504 p.
BATISTA, F. A. S.; LIMA, E. F.; SOARES, J. J.; AZEVEDO, D. M. P. de. Doenças e pragas da mamoneira (Ricinus communis L.) e seu controle. Campina Grande: EMBRAPA-CNPA, 1996. 53 p. (Embrapa-CNPA. Circular Técnica, 21).
BRASIL. Ministério da Agricultura e Pecuária. AGROFIT: Sistema de Agrotóxicos Fitossanitários. Brasília, DF: MAPA, 2026.
BRASIL. Ministério da Agricultura e Pecuária. Legislação de sementes e mudas. Brasília, DF: MAPA, 2026.
COUTINHO, W. M.; ALMEIDA, R. P.; DANTAS, F. V.; SOARES, D. J.; MILANI, M. Eficácia de misturas de fungicidas químicos na micobiota e na qualidade fisiológica de sementes de mamoneira. Campina Grande: Embrapa Algodão, 2012. 22 p. (Embrapa Algodão. Boletim de Pesquisa e Desenvolvimento, 91).
EICHOLZ, E. D.; ZANATTA, Z. G. C. N.; AIRES, R. F.; UENO, B.; LUCCA FILHO, O. A.; SILVA, S. D. A. Germinação de sementes de mamona em diferentes substratos e com tratamento fungicida. Pesquisa Agropecuária Gaúcha, v. 18, n. 1, p. 37–43, 2012.
ISTA. International Rules for Seed Testing 2026. Wallisellen: International Seed Testing Association, 2026. Cap. 7: Seed Health Testing.
ISTA. ISTA Handbook on Seed Health Testing. Wallisellen: International Seed Testing Association, 2026. ISBN 978-3-906549-79-8.
KIMATI, H. Doenças da mamoneira (Ricinus communis L.). In: GALLI, F. et al. Manual de fitopatologia: doenças das plantas cultivadas. São Paulo: Agronômica Ceres, 1980. v. 2, p. 347–351.
KOBORI, N. N. Tratamento fungicida e qualidade de sementes de mamona. 2011. Tese (Doutorado em Fitotecnia) — Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, Universidade de São Paulo, Piracicaba, 2011. DOI: 10.11606/T.11.2011.tde-02052011-085132.
LIMA, E. F.; BATISTA, F. A. S.; SANTOS, J. W. dos. Fungos causadores de tombamento transportados e transmitidos pela semente da mamoneira. Pesquisa Agropecuária Brasileira, Brasília, DF, v. 32, n. 9, p. 915–918, 1997. DOI: 10.1590/S1678-3921.pab1997.v32.4740.
MUNKVOLD, G. P. Seed pathology progress in academia and industry. Annual Review of Phytopathology, v. 47, p. 285–311, 2009. DOI: 10.1146/annurev-phyto-080508-081916.
MUNKVOLD, G.; DU TOIT, L.; DUNKLE, R. Seed pathology: challenges and advances in ensuring a safe global seed supply. Annual Review of Phytopathology, v. 63, p. 43–62, 2025. DOI: 10.1146/annurev-phyto-121423-093855.
NASCIMENTO, A. L.; MARTINS, C. P. S.; MAGALHÃES, H. M.; SALES, N. L. P.; ESCOBAR, Á. C. N.; BRANDÃO, A. A. Sanidade de sementes crioulas de mamona. Cadernos de Agroecologia, v. 4, n. 1, 2009.
NEERGAARD, P. Seed pathology. London: Macmillan Press, 1977. 2 v.
ZHANG, et al. Detection and identification methods and control techniques for crop seed diseases. Agriculture, v. 13, n. 9, 1786, 2023. DOI: 10.3390/agriculture13091786.
ABNT. ABNT NBR 10520:2023: informação e documentação — citações em documentos — apresentação. Rio de Janeiro: Associação Brasileira de Normas Técnicas, 2023.
ABNT. ABNT NBR 6023:2025: informação e documentação — referências — elaboração. Rio de Janeiro: Associação Brasileira de Normas Técnicas, 2025.