sábado, 26 de setembro de 2026

O futuro da bioprospecção de fungos candidatos a bioinsumos: da descoberta de isolados à seleção orientada por genômica, metabolômica e microbiomas

 

O futuro da bioprospecção de fungos candidatos a bioinsumos: da descoberta de isolados à seleção orientada por genômica, metabolômica e microbiomas

Introdução

A bioprospecção de microrganismos para a agricultura está passando de uma abordagem predominantemente baseada no isolamento e na triagem fenotípica para estratégias que integram ecologia microbiana, taxonomia, genômica, metabolômica, transcriptômica, proteômica, bioinformática e ensaios agronômicos. Nesse contexto, os fungos representam uma fonte particularmente ampla de candidatos a bioinsumos, pois podem apresentar funções de biocontrole, promoção do crescimento vegetal, mobilização de nutrientes, indução de resistência e tolerância a estresses abióticos. A diversidade de fungos associados à rizosfera, filosfera, endosfera, sementes, resíduos vegetais e ambientes extremos constitui, portanto, um reservatório ainda parcialmente explorado de características de interesse agrícola (SHARMA et al., 2023; ZENTENO-ALEGRÍA et al., 2024). (PubMed Central (PMC))

O conceito de bioprospecção aplicado aos fungos fitobenéficos não deve ser reduzido à procura de um microrganismo que apresente elevada inibição de um patógeno em placa de Petri. Um candidato a bioinsumo precisa reunir um conjunto de características biológicas e tecnológicas: atividade consistente, capacidade de colonização ou estabelecimento no ambiente-alvo, estabilidade genética e fisiológica, possibilidade de produção em escala, formulação adequada, segurança e desempenho reprodutível em condições agrícolas. A literatura recente destaca justamente a existência de uma lacuna entre resultados obtidos em laboratório e a eficácia observada no campo, tornando a seleção de linhagens e a validação agronômica etapas centrais do desenvolvimento de produtos microbianos (FERREYRA-SUAREZ; GARCÍA-DEPRAECT; CASTRO-MUÑOZ, 2024; AZARBAD et al., 2024). (PubMed)

De onde virão os futuros candidatos?

A primeira transformação da bioprospecção será provavelmente a ampliação dos ambientes utilizados como fontes de novos isolados. Solos agrícolas convencionais continuam sendo importantes, mas ambientes submetidos a condições ambientais extremas — elevada salinidade, seca, temperaturas elevadas ou baixas, radiação ultravioleta e outros estresses — podem selecionar microrganismos com mecanismos de tolerância potencialmente interessantes para sistemas agrícolas submetidos às mudanças climáticas. Fungos extremotolerantes e extremófilos são considerados uma fonte ainda pouco explorada de características relacionadas à adaptação e à promoção do crescimento vegetal sob estresse (ZENTENO-ALEGRÍA et al., 2024). (PubMed)

Outra fonte estratégica será o próprio microbioma das plantas. A rizosfera, a filosfera e, principalmente, a endosfera podem conter fungos adaptados à interação direta com o hospedeiro vegetal. Fungos endofíticos são particularmente interessantes porque alguns podem colonizar tecidos vegetais e contribuir para proteção contra patógenos, aquisição ou mobilização de nutrientes, produção de metabólitos bioativos e modulação das respostas de defesa da planta (SHARMA et al., 2023). (PubMed Central (PMC))

Essa mudança significa que a pergunta da bioprospecção tende a passar de “qual fungo inibe o patógeno?” para “qual microrganismo possui um conjunto de características compatível com determinado sistema agrícola?”. Um isolado proveniente da rizosfera de uma cultura submetida à seca, por exemplo, pode ser selecionado não apenas por sua atividade antagonista, mas também por sua capacidade de colonizar raízes, tolerar baixa disponibilidade hídrica, mobilizar nutrientes e permanecer funcional na presença da microbiota nativa (ZENTENO-ALEGRÍA et al., 2024; SHARMA et al., 2023). (PubMed)

A mudança da triagem fenotípica para a bioprospecção orientada por genômica

Tradicionalmente, a descoberta de candidatos envolve isolamento, identificação, ensaios de antagonismo, testes de promoção do crescimento e posterior avaliação em plantas. Essa abordagem continua sendo necessária, mas a genômica permite antecipar parte do processo. O sequenciamento do genoma pode revelar genes associados à síntese de metabólitos secundários, enzimas hidrolíticas, mecanismos de aquisição de nutrientes, tolerância a estresses e interação com plantas, permitindo priorizar isolados antes de submetê-los a uma grande quantidade de ensaios experimentais (YANG; WU; SUN, 2024). (PubMed Central (PMC))

Em fungos de biocontrole, a análise do genoma permite investigar biosynthetic gene clusters (BGCs), que contêm conjuntos de genes relacionados à biossíntese de metabólitos especializados. A presença de determinados clusters não demonstra, por si só, que um composto será produzido nas condições agrícolas, mas fornece uma indicação do potencial metabólico do isolado. A integração entre genômica, transcriptômica e metabolômica permite avançar da simples previsão de genes para a demonstração de quais vias são efetivamente expressas e quais metabólitos estão associados à atividade biológica (YANG; WU; SUN, 2024). (PubMed Central (PMC))

Um exemplo particularmente interessante é Trichoderma. A bioprospecção desse gênero pode ser realizada utilizando informações genômicas para identificar genes e clusters potencialmente relacionados à produção de compostos antimicrobianos, enzimas, peptídeos e outros mecanismos de biocontrole. A integração de genômica, metabolômica, aprendizado de máquina e outras ferramentas computacionais foi proposta como estratégia para reduzir o caráter essencialmente empírico da descoberta de novas linhagens e produtos baseados em Trichoderma (SABER et al., 2023). (PubMed Central (PMC))

O futuro será provavelmente multiômico

A genômica informa o que o microrganismo potencialmente pode fazer, enquanto a transcriptômica ajuda a compreender quais genes estão sendo expressos em determinada condição. A proteômica permite avaliar as proteínas efetivamente produzidas e a metabolômica fornece informações sobre os metabólitos presentes. A integração dessas camadas pode revelar quais mecanismos estão associados ao fenótipo de interesse e, principalmente, em quais condições ambientais eles são ativados (SHARMA et al., 2023; YANG; WU; SUN, 2024). (PubMed Central (PMC))

Essa abordagem é particularmente importante porque muitos fungos apresentam grande potencial metabólico que não é necessariamente detectado em condições convencionais de cultivo. Um cluster biossintético pode permanecer silencioso ou apresentar baixa expressão no meio utilizado no laboratório, enquanto outras condições nutricionais ou sinais provenientes da interação com a planta ou com um patógeno podem modificar sua expressão. Por isso, a bioprospecção futura deverá explorar diferentes condições de cultivo e interação para revelar o chamado potencial metabólico oculto dos microrganismos (YANG; WU; SUN, 2024). (PubMed Central (PMC))

O exemplo de Trichoderma

Trichoderma continua sendo um dos principais modelos para compreender como a bioprospecção pode evoluir de uma seleção baseada exclusivamente em fenótipo para uma seleção integrada por dados moleculares. Espécies e linhagens desse gênero podem atuar por diferentes mecanismos, incluindo competição, micoparasitismo, produção de metabólitos, produção de enzimas e modulação das respostas de defesa das plantas. Entretanto, essas características variam entre espécies e, principalmente, entre linhagens, o que torna a seleção em nível de isolado fundamental para o desenvolvimento de bioinsumos (SABER et al., 2023; YANG; WU; SUN, 2024). (PubMed Central (PMC))

O futuro da seleção de Trichoderma tende, portanto, a considerar simultaneamente identidade taxonômica, genótipo, potencial biossintético, capacidade de colonização, interação com a planta, interação com o patógeno e estabilidade sob condições ambientais relevantes. A identificação de genes associados ao biocontrole pode auxiliar a priorizar candidatos, mas a validação fenotípica continuará indispensável porque a presença de genes não significa necessariamente expressão funcional ou eficácia agronômica (SABER et al., 2023; YANG; WU; SUN, 2024). (PubMed Central (PMC))

Clonostachys rosea: um modelo de multifuncionalidade

Outro exemplo interessante é Clonostachys rosea, fungo que apresenta mecanismos de biocontrole envolvendo micoparasitismo, competição, produção de enzimas e metabólitos e indução de respostas de defesa vegetal. Estudos genômicos e transcriptômicos demonstram que o organismo possui um repertório de genes potencialmente associado a essas funções, incluindo genes relacionados a enzimas degradadoras de parede celular, transportadores e metabolismo secundário (GEIGER et al., 2025). (DOI)

O interesse em organismos como C. rosea demonstra uma tendência importante: o futuro da bioprospecção não necessariamente buscará fungos com um único mecanismo de ação, mas poderá priorizar linhagens capazes de desempenhar múltiplas funções compatíveis com o sistema agrícola. Entretanto, multifuncionalidade não deve ser presumida apenas a partir de resultados laboratoriais; sua relevância depende da demonstração de eficácia, estabilidade e segurança nas condições de utilização pretendidas (GEIGER et al., 2025). (DOI)

Fungos entomopatogênicos como candidatos multifuncionais

Fungos tradicionalmente estudados como entomopatógenos também estão sendo reconsiderados como candidatos a bioinsumos multifuncionais. Espécies dos gêneros Beauveria, Metarhizium, Cordyceps, Lecanicillium e outros Hypocreales podem apresentar comportamento endofítico e interagir com plantas, além de sua conhecida capacidade de infectar insetos. Estudos recentes discutem a possibilidade de explorar simultaneamente o controle de insetos, a colonização vegetal e a promoção do crescimento das plantas (GUPTA et al., 2024). (PubMed Central (PMC))

Essa possibilidade é particularmente interessante para o desenvolvimento de bioinsumos de função múltipla. Um único microrganismo poderia, dependendo da linhagem e do sistema de aplicação, interagir com a planta, influenciar sua fisiologia e contribuir para a supressão de organismos-praga. Entretanto, as interações entre fungos entomopatogênicos, plantas, insetos e microbiota ainda apresentam mecanismos incompletamente caracterizados, o que torna necessária uma abordagem experimental integrada antes de transformar essas características em uma recomendação agronômica (GUPTA et al., 2024). (PubMed Central (PMC))

O microbioma como fonte de candidatos

Uma das mudanças mais importantes será a transição da busca por “microrganismos isolados” para a compreensão das comunidades microbianas funcionais. A planta não interage com um único microrganismo em condições naturais; ela estabelece relações simultâneas com comunidades de bactérias, fungos e outros organismos. Consequentemente, um fungo que apresenta atividade moderada isoladamente pode desempenhar função importante dentro de uma comunidade microbiana específica (SHARMA et al., 2023; GARBEVA et al., 2024). (PubMed Central (PMC))

Nesse contexto surgem os consórcios microbianos sintéticos, ou SynComs. A estratégia consiste em selecionar microrganismos com funções complementares e reconstruir uma comunidade simplificada, controlada experimentalmente, para investigar interações e desenvolver inoculantes com múltiplas funções. Essa abordagem pode permitir combinar fungos e bactérias com características complementares, desde que sejam demonstradas compatibilidade, estabilidade e eficácia do consórcio (NEGI et al., 2024; NUNES et al., 2024). (PubMed)

A utilização de consórcios, contudo, não deve ser interpretada simplesmente como “quanto mais microrganismos, melhor”. Interações antagônicas entre componentes podem reduzir a sobrevivência ou a atividade de um dos membros, enquanto alterações na composição da microbiota nativa podem modificar o desempenho do consórcio. Por isso, a seleção deverá considerar compatibilidade, nicho ecológico, funções complementares e estabilidade da comunidade (NUNES et al., 2024). (ScienceDirect)

Bioprospecção guiada pelo ambiente

Uma tendência particularmente relevante será a seleção de fungos adaptados ao ambiente onde serão utilizados. Isolados obtidos de ambientes agrícolas semelhantes àqueles onde o produto será aplicado podem apresentar maior compatibilidade ecológica do que organismos selecionados exclusivamente por desempenho em condições laboratoriais. A origem ambiental do isolado, portanto, pode se tornar uma variável estratégica na seleção de candidatos (ZENTENO-ALEGRÍA et al., 2024). (PubMed)

Essa lógica é especialmente importante diante de estresses associados às mudanças climáticas. Fungos provenientes de ambientes naturalmente submetidos a seca, salinidade, temperaturas extremas ou outras condições adversas podem apresentar características fisiológicas úteis para sistemas agrícolas sujeitos a esses mesmos estresses. O objetivo não seria simplesmente encontrar um fungo “resistente”, mas identificar linhagens capazes de manter funções benéficas sob condições ambientais limitantes (ZENTENO-ALEGRÍA et al., 2024). (PubMed)

Da placa de Petri para o campo

Um dos maiores desafios da bioprospecção é evitar que a seleção seja dominada por resultados de laboratório. Ensaios de antagonismo em meio de cultura são úteis para identificar candidatos, mas não reproduzem a complexidade da planta, do solo, da microbiota nativa, do clima e das práticas agrícolas. Uma linhagem que apresenta forte antagonismo in vitro pode apresentar desempenho limitado quando aplicada em sementes, solo, folhas ou raízes (FERREYRA-SUAREZ; GARCÍA-DEPRAECT; CASTRO-MUÑOZ, 2024; AZARBAD et al., 2024). (PubMed)

Por essa razão, a bioprospecção do futuro deverá incorporar ensaios progressivos, começando pela caracterização laboratorial, passando por experimentos em plantas sob condições controladas e avançando para ensaios de campo em diferentes locais e safras. A meta não deve ser simplesmente encontrar o isolado que produz a maior resposta em um experimento, mas identificar aquele que apresenta desempenho consistente diante da variabilidade ambiental (AZARBAD et al., 2024). (PubMed Central (PMC))

Formulação será parte da bioprospecção

Outro aspecto frequentemente subestimado é que a descoberta de um fungo promissor não equivale à descoberta de um bioinsumo. O desenvolvimento de um produto depende de produção em escala, estabilidade, concentração adequada de propágulos, viabilidade durante armazenamento, compatibilidade com o veículo e manutenção da atividade biológica durante aplicação. Revisões recentes sobre biopesticidas e biofertilizantes fúngicos destacam a produção, formulação, qualidade e estabilidade como etapas fundamentais para transformar candidatos biológicos em produtos agrícolas (FERREYRA-SUAREZ; GARCÍA-DEPRAECT; CASTRO-MUÑOZ, 2024). (PubMed)

Isso significa que características tecnológicas deverão entrar cada vez mais cedo no processo de seleção. Um fungo extremamente eficiente biologicamente, mas incapaz de ser produzido em escala ou de permanecer viável durante armazenamento, pode ter menor potencial de desenvolvimento que uma linhagem ligeiramente menos eficiente, porém robusta e formulável. Assim, a seleção futura deverá integrar eficácia biológica e “desenvolvibilidade” tecnológica desde as fases iniciais da pesquisa (FERREYRA-SUAREZ; GARCÍA-DEPRAECT; CASTRO-MUÑOZ, 2024). (PubMed)

O papel da metabolômica na descoberta de novos bioinsumos

A metabolômica apresenta grande potencial para identificar moléculas associadas à atividade biológica dos fungos. Em vez de avaliar somente se determinado isolado inibe um patógeno, pode-se investigar quais metabólitos são produzidos durante a interação, quais aumentam em determinadas condições e quais estão associados ao fenótipo de antagonismo. Essa abordagem pode permitir descobrir novos compostos e relacioná-los aos mecanismos de ação do microrganismo (YANG; WU; SUN, 2024). (PubMed Central (PMC))

A integração entre metabolômica e genômica também pode estabelecer uma conexão entre gene → via biossintética → metabólito → atividade biológica. Essa conexão é especialmente relevante para fungos produtores de metabólitos secundários, pois permite investigar não apenas o organismo como agente vivo, mas também os produtos metabólicos responsáveis por determinadas funções biológicas (YANG; WU; SUN, 2024). (PubMed Central (PMC))

Inteligência artificial e aprendizado de máquina

Outra fronteira da bioprospecção será o emprego de inteligência artificial e aprendizado de máquina para integrar grandes conjuntos de dados. Informações genômicas, metabolômicas, características fenotípicas, origem ambiental, hospedeiro, condições de cultivo e resultados de ensaios podem ser utilizados conjuntamente para identificar padrões associados ao desempenho de determinadas linhagens. Em Trichoderma, por exemplo, já foi proposta a integração entre genômica, dados funcionais e ferramentas computacionais para acelerar a seleção de candidatos com potencial de biocontrole (SABER et al., 2023). (PubMed Central (PMC))

A aplicação de inteligência artificial, entretanto, não elimina a necessidade de experimentação. Modelos preditivos dependem da qualidade e representatividade dos dados utilizados para treinamento. Portanto, a tendência mais consistente é que a inteligência artificial seja empregada como ferramenta de priorização de candidatos, reduzindo o número de isolados que precisam passar por todas as etapas experimentais, e não como substituta da validação biológica e agronômica (SABER et al., 2023). (PubMed Central (PMC))

A nova lógica: do “screening” para o “design” de bioinsumos

A combinação de genômica, metabolômica, microbiomas e modelagem computacional pode modificar profundamente o conceito de bioprospecção. No modelo tradicional, milhares de isolados são testados até que alguns apresentem características interessantes. No modelo emergente, informações genômicas e ecológicas podem ser utilizadas para predizer quais isolados têm maior probabilidade de apresentar determinadas funções, direcionando a experimentação para candidatos previamente priorizados (SHARMA et al., 2023; SABER et al., 2023). (PubMed Central (PMC))

Essa mudança pode ser denominada bioprospecção orientada por dados. O objetivo não é abandonar o isolamento e a experimentação, mas utilizar conhecimento prévio para tornar o processo mais racional. A seleção poderia começar pela definição do problema agrícola, seguida da identificação de ambientes e microbiomas associados à função desejada, seleção de candidatos por dados genômicos e metabólicos, validação fenotípica e, finalmente, testes agronômicos e tecnológicos (SHARMA et al., 2023; FERREYRA-SUAREZ; GARCÍA-DEPRAECT; CASTRO-MUÑOZ, 2024). (PubMed Central (PMC))

Um possível fluxo para a bioprospecção de fungos

EtapaAbordagemPrincipal pergunta
1. Definição do problemaCultura × patógeno × ambienteQual problema agrícola será resolvido?
2. Seleção do ambienteRizosfera, endosfera, filosfera, solo, resíduos, ambientes extremosOnde procurar candidatos adaptados?
3. IsolamentoMétodos culturais e seleção dirigidaQuais fungos podem ser recuperados?
4. IdentificaçãoMorfologia + DNA + filogeniaQuem é o isolado?
5. Triagem fenotípicaAntagonismo, PGP, tolerância a estresseO isolado apresenta a função desejada?
6. GenômicaSequenciamento e mineração de genes/BGCsQual é o potencial funcional?
7. Transcriptômica/proteômicaExpressão durante a interaçãoQuais mecanismos estão ativos?
8. MetabolômicaPerfil de metabólitosQuais compostos estão associados à atividade?
9. Bioinformática/IAPredição e priorizaçãoQuais candidatos merecem maior investimento?
10. CompatibilidadePlanta × microbiota × outros bioinsumosO candidato se estabelece no sistema?
11. FormulaçãoPropágulos, veículo, estabilidadeÉ possível transformar a linhagem em produto?
12. Casa de vegetaçãoEnsaios controladosO efeito permanece na planta?
13. CampoDiferentes ambientes e safrasO desempenho é consistente?
14. Qualidade e segurançaIdentidade, pureza, estabilidade, biossegurançaO produto é seguro e reprodutível?
15. DesenvolvimentoEscala, registro e aplicaçãoO candidato pode se tornar um bioinsumo?

Esse fluxo representa uma síntese conceitual baseada na literatura recente sobre bioprospecção microbiana, fungos endofíticos, multiômica, formulação, consórcios microbianos e validação agronômica (SHARMA et al., 2023; SABER et al., 2023; FERREYRA-SUAREZ; GARCÍA-DEPRAECT; CASTRO-MUÑOZ, 2024; NUNES et al., 2024). (PubMed Central (PMC))

Um ponto crítico: segurança

O avanço da bioprospecção não pode ser baseado exclusivamente na busca pela maior atividade biológica. A seleção de um fungo candidato também precisa considerar identidade taxonômica, potencial de produção de metabólitos indesejáveis, interação com organismos não alvo, capacidade de sobrevivência ambiental, estabilidade genética e possíveis riscos associados à utilização agrícola. A caracterização genômica pode contribuir para identificar características desejáveis e indesejáveis antes do avanço do isolado para etapas mais caras de desenvolvimento (SHARMA et al., 2023; FERREYRA-SUAREZ; GARCÍA-DEPRAECT; CASTRO-MUÑOZ, 2024). (PubMed Central (PMC))

Esse aspecto é especialmente importante quando se considera que fungos podem apresentar grande diversidade metabólica. A descoberta de um novo metabólito ou de uma atividade antagonista não significa automaticamente que o organismo seja adequado para aplicação agrícola. O desenvolvimento de bioinsumos precisa equilibrar eficácia, segurança, estabilidade, produção e compatibilidade ecológica (YANG; WU; SUN, 2024; FERREYRA-SUAREZ; GARCÍA-DEPRAECT; CASTRO-MUÑOZ, 2024). (PubMed Central (PMC))

O futuro: bioinsumos específicos para sistemas agrícolas

A tendência mais interessante não é necessariamente o desenvolvimento de um único fungo capaz de atuar universalmente em todas as culturas. A complexidade das interações entre microrganismo, planta, patógeno, solo, microbiota e ambiente sugere que os bioinsumos do futuro poderão ser mais específicos para determinadas culturas, ambientes e problemas fitossanitários. A seleção de fungos adaptados a determinados nichos e a integração com dados de microbioma podem permitir formulações mais compatíveis com o sistema agrícola de destino (ZENTENO-ALEGRÍA et al., 2024; GARBEVA et al., 2024). (PubMed)

Essa perspectiva aproxima a bioprospecção do conceito de agricultura de precisão microbiológica. Em vez de simplesmente aplicar um microrganismo e esperar uma resposta, o desenvolvimento poderá considerar previamente a cultura, genótipo vegetal, solo, microbioma, pressão de patógenos, condições climáticas e modo de aplicação para selecionar o microrganismo ou consórcio mais compatível com aquele sistema (NUNES et al., 2024; AZARBAD et al., 2024). (ScienceDirect)

Considerações finais

O futuro da bioprospecção de fungos candidatos a bioinsumos está associado à integração entre biodiversidade, taxonomia, microbiologia, genômica, metabolômica, bioinformática, ecologia microbiana e ciência de formulações. A principal transformação não será simplesmente encontrar mais fungos, mas aumentar a capacidade de prever quais isolados têm maior probabilidade de apresentar características úteis, compreender os mecanismos responsáveis por essas características e transformar esse conhecimento em produtos estáveis e eficazes (SHARMA et al., 2023; SABER et al., 2023; YANG; WU; SUN, 2024). (PubMed Central (PMC))

Para a Fitopatologia, essa mudança abre uma perspectiva particularmente relevante: a bioprospecção pode deixar de ser apenas uma busca por antagonistas e passar a constituir uma plataforma de descoberta de funções biológicas. Fungos capazes de antagonizar patógenos, colonizar plantas, modular a imunidade, mobilizar nutrientes, tolerar estresses e interagir positivamente com outros microrganismos poderão ser selecionados de maneira integrada, desde que essas características sejam demonstradas experimentalmente e permaneçam consistentes em condições agrícolas reais (ZENTENO-ALEGRÍA et al., 2024; NUNES et al., 2024). (PubMed)

A questão central para os próximos anos, portanto, não será apenas “qual fungo funciona?”, mas “qual fungo, em qual planta, em qual ambiente, contra qual problema, por qual mecanismo, em qual formulação e com qual comunidade microbiana apresenta desempenho consistente?”. Essa mudança de pergunta representa a passagem de uma bioprospecção essencialmente empírica para uma abordagem orientada por mecanismos, dados e contexto ecológico (FERREYRA-SUAREZ; GARCÍA-DEPRAECT; CASTRO-MUÑOZ, 2024; AZARBAD et al., 2024). (PubMed)

Referências

AZARBAD, H. et al. Biological and experimental factors that define the effectiveness of microbial inoculation on plant traits: a meta-analysis. The ISME Journal, 2024. DOI: 10.1038/s41396-024-01837-0. (PubMed Central (PMC))

FERREYRA-SUAREZ, D.; GARCÍA-DEPRAECT, O.; CASTRO-MUÑOZ, R. A review on fungal-based biopesticides and biofertilizers production. Ecotoxicology and Environmental Safety, v. 283, p. 116945, 2024. DOI: 10.1016/j.ecoenv.2024.116945. (PubMed)

GARBEVA, P. et al. Strategies for tailoring functional microbial synthetic communities. The ISME Journal, 2024. (PubMed Central (PMC))

GEIGER, M. et al. Unveiling the antimicrobial and biocontrol potential of the Ascomycete fungus, Clonostachys rosea: a review. The Microbe, v. 6, p. 100226, 2025. DOI: 10.1016/j.microb.2024.100226. (DOI)

GUPTA, S. et al. Plant–entomopathogenic fungi interaction: recent progress and future prospects on endophytism-mediated growth promotion and biocontrol. 2024. (PubMed Central (PMC))

NEGI, R. et al. Microbial consortia: promising tool as plant bioinoculants for agricultural sustainability. Current Microbiology, 2024. DOI: 10.1007/s00284-024-03755-0. (PubMed)

NUNES, P. S. O. et al. Microbial consortia of biological products: do they have a future? Biological Control, v. 188, p. 105439, 2024. DOI: 10.1016/j.biocontrol.2024.105439. (ScienceDirect)

SABER, W. I. A. et al. Bioprospecting Trichoderma: a systematic roadmap to screen genomes and natural products for biocontrol applications. 2023. (PubMed Central (PMC))

SHARMA, I.; RAINA, A.; CHOUDHARY, M. et al. Fungal endophyte bioinoculants as a green alternative towards sustainable agriculture. Heliyon, v. 9, n. 9, e19487, 2023. DOI: 10.1016/j.heliyon.2023.e19487. (PubMed)

YANG, H.; WU, X.; SUN, C. Unraveling the metabolic potential of biocontrol fungi through omics data: a key to enhancing large-scale application strategies. Acta Biochimica et Biophysica Sinica, v. 56, n. 6, p. 825–832, 2024. DOI: 10.3724/abbs.2024056. (PubMed Central (PMC))

ZENTENO-ALEGRÍA, C. O. et al. Fungi beyond limits: the agricultural promise of extremophiles. Microbial Biotechnology, v. 17, n. 3, e14439, 2024. DOI: 10.1111/1751-7915.14439. (PubMed)


quinta-feira, 24 de setembro de 2026

PATOLOGIA DE SEMENTES DE MILHO: DIVERSIDADE, IDENTIFICAÇÃO, TÉCNICAS DE DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO QUÍMICO

 

PATOLOGIA DE SEMENTES DE MILHO: DIVERSIDADE, IDENTIFICAÇÃO, TÉCNICAS DE DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO QUÍMICO

1 INTRODUÇÃO

A semente constitui a primeira unidade biológica do estabelecimento de uma lavoura e, no caso do milho (Zea mays L.), sua qualidade exerce influência direta sobre a emergência, a uniformidade do estande e o estabelecimento inicial das plantas. Sob a perspectiva da Fitopatologia, entretanto, a semente possui uma importância ainda mais ampla: pode atuar como substrato, veículo de disseminação, fonte de inóculo e elo epidemiológico entre ciclos sucessivos da cultura. Dessa maneira, a qualidade sanitária das sementes não deve ser compreendida como um atributo isolado, mas como parte de um sistema no qual interagem o hospedeiro, os microrganismos, o ambiente e as práticas de produção e armazenamento (AGARWAL; SINCLAIR, 1996).

A associação entre sementes de milho e microrganismos é particularmente complexa. Fungos podem estar presentes externamente, aderidos ao tegumento e às estruturas superficiais, ou internamente, colonizando tecidos da semente. Essa distinção apresenta consequências epidemiológicas importantes, pois a localização do inóculo pode determinar sua sobrevivência, sua capacidade de ser detectado pelos métodos de análise e, sobretudo, seu potencial de transmissão para a plântula. Por essa razão, a simples recuperação de um fungo a partir da semente não é suficiente para estabelecer sua importância como agente fitopatogênico.

Entre os principais grupos de fungos associados às sementes e aos grãos de milho encontram-se espécies de Fusarium, Stenocarpella, Penicillium, Aspergillus, Rhizoctonia, Colletotrichum, Alternaria, Cladosporium e outros táxons cuja ocorrência varia em função do genótipo, ambiente de produção, estádio de desenvolvimento da planta, condições de colheita e armazenamento. Alguns desses organismos estão diretamente relacionados a doenças da cultura; outros participam predominantemente da deterioração das sementes e dos grãos, podendo, em determinadas condições, estar associados à produção de micotoxinas e à redução da qualidade do produto agrícola.

A importância dos fungos associados às sementes de milho não se limita, portanto, à redução da germinação. Determinados patógenos podem provocar podridões de sementes, morte de plântulas em pré e pós-emergência, podridões radiculares e redução do vigor. Em condições ambientais favoráveis, especialmente quando há baixa temperatura e excesso de umidade no solo, a semente pode permanecer exposta durante período prolongado aos fungos presentes no solo. Estudos experimentais demonstram que essa interação pode modificar substancialmente a eficiência dos tratamentos fungicidas e o estabelecimento das plântulas (GOULART, 2000).

A identificação correta dos agentes associados às sementes representa, nesse contexto, uma etapa fundamental do diagnóstico fitossanitário. A identificação tradicional baseada em características culturais e morfológicas continua sendo indispensável, sobretudo pela sua acessibilidade e importância para a rotina laboratorial. Entretanto, a taxonomia de diversos grupos fúngicos tornou-se progressivamente mais complexa, particularmente em gêneros que apresentam elevada variabilidade morfológica ou complexos de espécies. A utilização de ferramentas moleculares, como PCR, PCR multiplex, qPCR e sequenciamento de regiões específicas do DNA, passou a complementar os métodos convencionais, proporcionando maior resolução taxonômica e sensibilidade analítica.

A própria ciência de sementes também vem passando por uma transformação conceitual. A análise sanitária contemporânea não se limita mais à pergunta "qual patógeno está presente?", mas procura compreender a composição da comunidade microbiana associada à semente e sua relação com a qualidade fisiológica, a transmissão de patógenos e o estabelecimento da plântula. A ISTA reconhece essa evolução metodológica e, em sua edição de 2026, reúne procedimentos padronizados para análise de sanidade, abrangendo desde métodos clássicos até ferramentas mais avançadas de diagnóstico.

Dentro dessa perspectiva, o tratamento químico de sementes permanece como uma das ferramentas mais importantes para o manejo de patógenos associados às sementes e ao solo. Entretanto, sua utilização deve ser fundamentada no diagnóstico e na indicação oficial de uso. No Brasil, o AGROFIT, mantido pelo Ministério da Agricultura e Pecuária, constitui a base oficial de consulta dos produtos fitossanitários registrados e de suas respectivas indicações de uso. A plataforma permite consultar produtos por cultura, ingrediente ativo, alvo biológico e modalidade de utilização.

Dessa forma, o estudo da patologia de sementes de milho exige uma abordagem integrada, reunindo conhecimento sobre diversidade microbiana, identificação taxonômica, métodos de diagnóstico, epidemiologia dos patógenos e tratamento químico. Mais do que simplesmente enumerar fungos ou fungicidas, é necessário compreender a relação entre o agente presente, sua importância epidemiológica, o método empregado para detectá-lo e a tecnologia de tratamento disponível para reduzir seu impacto.

2 DESENVOLVIMENTO

2.1 A semente de milho como unidade epidemiológica

A importância epidemiológica da semente decorre da capacidade de transportar organismos de uma geração para outra e de uma região para outra. Um lote aparentemente uniforme pode conter sementes com diferentes níveis de colonização microbiana, e essa heterogeneidade pode produzir respostas distintas durante a germinação e o estabelecimento das plântulas.

A associação entre patógeno e semente pode ocorrer por contaminação superficial, colonização dos tecidos ou infecção. Essas condições não devem ser utilizadas como sinônimos. Um fungo presente superficialmente pode ser eliminado por procedimentos de desinfestação, enquanto um organismo localizado internamente pode permanecer protegido e ser transmitido à plântula durante a germinação.

A importância epidemiológica também depende da capacidade de o patógeno sobreviver e produzir inóculo viável. Por esse motivo, testes de sanidade devem ser capazes de distinguir, tanto quanto possível, presença, viabilidade e potencial de transmissão.

As regras da ISTA constituem referência internacional para padronização desses procedimentos. A edição de 2026 contém métodos específicos para análise da sanidade de sementes e estabelece princípios para amostragem, execução dos testes, controle de qualidade e interpretação dos resultados.

Esse aspecto é particularmente importante em laboratórios de diagnóstico, porque resultados obtidos por metodologias diferentes não são necessariamente diretamente comparáveis. Um método que favoreça a recuperação de fungos saprófitas pode produzir uma comunidade aparente diferente daquela obtida por uma metodologia dirigida a determinado patógeno.

2.2 Diversidade dos fungos associados às sementes de milho

A diversidade fúngica associada ao milho é ampla e resulta da interação entre fatores biológicos e ambientais. A comunidade encontrada nas sementes pode ser influenciada pelo genótipo, condições climáticas durante o enchimento dos grãos, ocorrência de doenças no campo, danos mecânicos, presença de insetos, momento da colheita e condições de secagem e armazenamento.

Entre os organismos de maior importância estão representantes de Fusarium, Stenocarpella, Aspergillus e Penicillium. Esses grupos não possuem necessariamente o mesmo significado epidemiológico.

Espécies de Fusarium, por exemplo, podem estar associadas a podridões de sementes e plântulas e também a problemas relacionados à produção de micotoxinas. A complexidade do gênero exige cuidado na identificação, pois diferentes espécies ou complexos de espécies podem apresentar características epidemiológicas distintas.

Stenocarpella maydis e S. macrospora estão associadas à podridão da espiga e de colmos e podem ser detectadas em sementes de milho. A presença desses fungos possui importância tanto para a sanidade do lote quanto para a epidemiologia das doenças no campo.

Já Aspergillus e Penicillium apresentam particular importância nas condições de armazenamento. A disponibilidade de água, a temperatura e a duração do armazenamento podem favorecer a colonização dos grãos por fungos de armazenamento. Além da deterioração, algumas espécies possuem capacidade de produzir metabólitos secundários de importância para a segurança alimentar e animal.

Estudos contemporâneos sobre fungos associados ao milho demonstram a utilidade da combinação entre isolamento, caracterização morfológica e identificação molecular. Em trabalho recente envolvendo grãos de milho, a identificação dos isolados foi realizada inicialmente por métodos convencionais e posteriormente complementada por análise molecular, demonstrando a utilidade dessa abordagem integrada (MOLECULAR IDENTIFICATION..., 2024).

Essa integração é importante porque a diversidade observada no laboratório depende do método empregado. Meios de cultura, temperatura, atividade de água, período de incubação e desinfestação superficial podem favorecer determinados grupos em detrimento de outros. Assim, a ausência de um organismo em determinado método não deve ser interpretada automaticamente como sua ausência absoluta na amostra.

2.3 Principais grupos fitopatogênicos associados às sementes

Fusarium spp.

O gênero Fusarium ocupa posição central na patologia de sementes e grãos de milho. Diferentes espécies estão associadas a podridões de sementes e plântulas e podem apresentar importância simultânea para a fitopatologia e para a segurança dos alimentos em função da produção de micotoxinas.

A identificação de Fusarium exclusivamente pela morfologia pode ser difícil em determinados grupos. Características como macroconídios, microconídios, clamidósporos, coloração e crescimento micelial fornecem informações importantes, mas podem não resolver adequadamente a identificação em nível de espécie ou complexo de espécies.

Por essa razão, regiões gênicas adicionais podem ser necessárias. Em Fusarium, o fator de elongação da tradução 1-alfa (TEF1-α) é amplamente utilizado em estudos de identificação e filogenia, particularmente quando a região ITS apresenta resolução insuficiente para discriminar espécies próximas.

Métodos baseados em PCR também foram desenvolvidos para a detecção de espécies toxigênicas de Fusarium em milho. Jurado et al. (2006), por exemplo, desenvolveram uma estratégia baseada em PCR para detecção de espécies de Fusarium potencialmente produtoras de micotoxinas em milho, demonstrando o potencial da abordagem molecular para diagnóstico precoce.

Essa possibilidade é especialmente relevante quando a finalidade do diagnóstico não é apenas estabelecer a presença do fungo, mas determinar o risco associado à ocorrência de determinado grupo taxonômico.

Stenocarpella spp.

Stenocarpella maydis e Stenocarpella macrospora são importantes patógenos do milho e podem estar associados às sementes. A ocorrência desses fungos está relacionada às podridões de espigas e colmos e à sobrevivência do patógeno em restos culturais.

Do ponto de vista epidemiológico, a associação com sementes deve ser considerada juntamente com a sobrevivência em resíduos vegetais, pois a importância relativa dessas fontes de inóculo pode variar entre sistemas de produção.

A identificação morfológica baseia-se principalmente nas estruturas reprodutivas, particularmente os picnídios e conídios. Entretanto, quando há necessidade de identificação mais precisa ou diferenciação entre espécies, ferramentas moleculares podem complementar o diagnóstico.

Aspergillus e Penicillium

Os fungos de armazenamento possuem comportamento distinto daqueles que predominam durante o desenvolvimento da cultura no campo. Sua ocorrência é fortemente influenciada pelas condições de armazenamento e pela disponibilidade de água.

A deterioração fúngica dos grãos armazenados está diretamente relacionada à atividade de água. A formação de pontos de aquecimento e aumento localizado da umidade pode criar microambientes favoráveis à proliferação de fungos, aumentando o risco de perdas qualitativas e de contaminação por micotoxinas (INTEGRATED MANAGEMENT..., 2017).

Esse fato reforça a necessidade de não interpretar o teste de sanidade isoladamente. O resultado deve ser relacionado às condições de armazenamento e à qualidade fisiológica e física do lote.

2.4 Métodos clássicos de identificação

A identificação morfológica continua sendo uma das bases da patologia de sementes. O exame direto das sementes, a incubação em papel-filtro, o método do papel-filtro com congelamento, o plaqueamento em meios seletivos ou semisseletivos e o isolamento em meios de cultura constituem procedimentos fundamentais na rotina laboratorial.

O método do papel-filtro (blotter test) apresenta a vantagem de permitir o desenvolvimento de estruturas fúngicas diretamente sobre as sementes, possibilitando a identificação por características morfológicas. Para determinados grupos, o uso de congelamento pode restringir a germinação das sementes e favorecer a manifestação de estruturas fúngicas durante a incubação.

O cultivo em meio de cultura permite o isolamento dos fungos e a obtenção de culturas puras. Essa etapa é particularmente importante quando o objetivo inclui caracterização morfológica, testes de patogenicidade, avaliação de crescimento, testes de sensibilidade a fungicidas ou identificação molecular.

Entretanto, nenhum método convencional é universal. O meio de cultura, a temperatura, o período de incubação e a condição fisiológica do organismo interferem diretamente na capacidade de recuperação.

A ISTA mantém métodos padronizados e atualizados para diferentes grupos de patógenos transmitidos por sementes. O ISTA Handbook on Seed Health Testing descreve técnicas que vão desde métodos clássicos de microscopia até métodos moleculares, constituindo uma referência importante para a implantação e padronização de laboratórios de sanidade de sementes.

2.5 Identificação molecular

A identificação molecular representa uma evolução importante da patologia de sementes porque permite aumentar a especificidade e, em determinados casos, reduzir o tempo necessário para a confirmação do diagnóstico.

A PCR convencional permite amplificar regiões específicas do DNA e confirmar a presença de um determinado organismo ou grupo taxonômico. A PCR multiplex possibilita a detecção simultânea de mais de um alvo. A qPCR acrescenta a possibilidade de quantificação relativa ou absoluta do DNA-alvo, desde que sejam estabelecidos padrões, controles e validação analítica apropriados.

A região ITS do DNA ribossomal é frequentemente utilizada como marcador para fungos, particularmente em estudos de identificação inicial. Contudo, sua resolução pode ser insuficiente para alguns grupos taxonomicamente complexos. Nesses casos, genes como TEF1-α, β-tubulina, calmodulina ou regiões de RNA polimerase podem fornecer maior poder discriminatório.

Em estudos de patologia de sementes, essa combinação é particularmente importante para gêneros complexos como Fusarium. A identificação molecular deve, sempre que possível, ser interpretada conjuntamente com dados morfológicos e epidemiológicos.

A utilização de sequenciamento também permite caracterizar comunidades microbianas. O metabarcoding, por exemplo, possibilita investigar simultaneamente grande número de táxons presentes em uma amostra. Essa abordagem amplia significativamente a capacidade de estudar diversidade, mas não deve ser confundida com demonstração de viabilidade ou patogenicidade.

O DNA detectado pode pertencer a organismos vivos, dormentes ou mortos. Por essa razão, a abordagem molecular deve ser interpretada de acordo com a pergunta científica.

2.6 Técnicas de diagnóstico: uma abordagem hierárquica

Uma estratégia tecnicamente robusta para a análise de sementes de milho pode ser estruturada em diferentes níveis.

O primeiro nível é a triagem sanitária, destinada a determinar a ocorrência geral de fungos e identificar padrões de colonização.

O segundo nível corresponde ao isolamento e identificação morfológica, permitindo obter culturas e caracterizar os principais grupos encontrados.

O terceiro nível é a identificação molecular, direcionada principalmente aos isolados de maior importância fitopatológica ou àqueles cuja identificação morfológica seja insuficiente.

O quarto nível corresponde à confirmação funcional, que pode incluir testes de patogenicidade, transmissão semente-plântula, quantificação do inóculo ou avaliação de impacto sobre germinação e vigor.

Essa sequência é mais consistente do que utilizar PCR indiscriminadamente. O método molecular deve responder a uma pergunta específica e ser validado para a finalidade proposta.

2.7 Relação entre sanidade e qualidade fisiológica

A presença de fungos nas sementes não implica necessariamente redução imediata da germinação. Essa relação depende do organismo, intensidade da colonização, localização do inóculo, genótipo, condição fisiológica da semente e ambiente durante a germinação.

Essa questão foi claramente demonstrada em estudos brasileiros. Goulart (2000) verificou que a eficiência de fungicidas aplicados às sementes de milho variou de acordo com o fungo e com a característica avaliada. Além disso, Fusarium moniliforme associado às sementes não necessariamente reduziu a germinação, enquanto condições de solo frio e úmido favoreceram a ação de fungos do solo sobre o estabelecimento das plântulas.

Esse resultado possui importante significado epidemiológico. O risco associado a um patógeno não depende apenas da quantidade presente na semente, mas da interação entre inóculo, hospedeiro e ambiente.

Consequentemente, a avaliação sanitária deve ser acompanhada por testes de germinação e vigor. Em determinadas situações, o lote pode apresentar elevada germinação em condições ideais, mas apresentar redução expressiva de desempenho sob condições de estresse.

2.8 Tratamento químico de sementes

O tratamento químico de sementes é uma tecnologia destinada a proteger a semente e a plântula durante as fases iniciais do estabelecimento. Os fungicidas utilizados podem apresentar ação de contato, sistêmica ou uma combinação de ambas.

Os fungicidas de contato permanecem predominantemente na superfície da semente e atuam sobre organismos presentes externamente ou sobre o inóculo que entra em contato com o ingrediente ativo. Os fungicidas sistêmicos, por sua vez, podem ser absorvidos pela semente e redistribuídos durante a germinação, oferecendo proteção adicional contra determinados patógenos.

A literatura internacional reconhece o tratamento de sementes como componente importante do manejo de doenças transmitidas por sementes e do solo. Entretanto, também chama atenção para a necessidade de avaliar os efeitos não alvo dos fungicidas, particularmente sobre a microbiota associada às sementes. Fungicidas sistêmicos podem alterar comunidades endofíticas que potencialmente participam da germinação e do estabelecimento inicial das plantas (AYESHA et al., 2021).

Essa questão é particularmente relevante no contexto atual, em que a microbiota das sementes passou a ser reconhecida como componente potencialmente funcional do sistema semente-plântula.

2.9 Fungicidas registrados para tratamento de sementes de milho

No Brasil, a seleção de fungicidas para tratamento de sementes deve obrigatoriamente considerar o registro e a indicação oficial do produto. O AGROFIT é a fonte oficial para consulta dos produtos fitossanitários registrados e permite pesquisar por cultura, alvo, ingrediente ativo e produto comercial.

A base oficial é dinâmica e apresenta atualização diária. Em 20 de setembro de 2026, o conjunto de dados aberto do AGROFIT registrava atualização na mesma data, reforçando que qualquer relação de produtos deve ser considerada temporalmente vinculada à data da consulta.

Entre os ingredientes ativos e associações historicamente registrados para tratamento fungicida de sementes de milho encontram-se:

Ingrediente ativo ou associaçãoPrincipais grupos de interesse no tratamento de sementesExemplos de alvos associados
CaptanaFungicida protetor de contatoPythium, Rhizoctonia, Aspergillus spp.
TiramFungicida protetorFungos associados às sementes e ao solo
Carboxina + tiramFungicida sistêmico + protetorFusarium, Pythium, Rhizoctonia
FludioxonilFungicida de contatoFungos associados às sementes e ao solo
Fludioxonil + metalaxil-MFungicida de contato + fungicida sistêmicoFusarium, Pythium e outros patógenos-alvo
Fludioxonil + metalaxil-M + tiabendazolAssociação de diferentes mecanismos de açãoFungos de sementes e do solo
Tiofanato-metílicoBenzimidazolFusarium e outros fungos-alvo
Piraclostrobina + tiofanato-metílicoEstrobilurina + benzimidazolFungos associados às sementes
Azoxistrobina + tiabendazol + fludioxonil + metalaxil-MAssociação multicomponenteDiversos patógenos-alvo registrados

Uma relação técnica publicada para o sistema produtivo de milho e sorgo apresenta, entre outros, Maxim Advanced, Maxim Quattro, Standak Top e Source Top, com indicações específicas de ingredientes ativos e alvos em sementes de milho. Entretanto, essa relação não deve ser utilizada isoladamente como lista regulatória atual, pois a situação de registro e as recomendações podem ser modificadas. A conferência final deve ser realizada no AGROFIT na data da recomendação ou do experimento.

É importante destacar que o nome comercial não é a unidade científica mais adequada para comparar tratamentos. Para interpretação fitopatológica, deve-se registrar principalmente o ingrediente ativo, concentração, grupo químico, mecanismo de ação, dose de ingrediente ativo e alvo biológico.

2.10 Fludioxonil + metalaxil-M

A associação entre fludioxonil e metalaxil-M constitui um exemplo clássico da combinação entre um fungicida de contato e outro com ação sistêmica.

O fludioxonil apresenta ação predominantemente de contato, enquanto o metalaxil-M é absorvido e translocado durante a germinação. A bula de produto contendo essa associação descreve sua utilização no tratamento de sementes de milho contra doenças causadas por organismos do solo e associados às sementes.

A combinação possui interesse particular porque amplia o espectro de proteção em comparação com o uso isolado de determinados ingredientes ativos. Entretanto, sua eficiência depende do alvo biológico e da condição epidemiológica.

Estudos experimentais demonstram que a eficácia não deve ser presumida apenas a partir do espectro teórico do fungicida. Pinto demonstrou, em sementes de milho, que fludioxonil + metalaxil-M e carboxina + tiram foram eficientes contra Penicillium spp. e forneceram proteção contra fungos do solo, mas não controlaram satisfatoriamente Fusarium subglutinans associado às sementes.

Esse resultado ilustra um princípio fundamental do tratamento de sementes: a eficácia de um fungicida é específica para a interação produto × patógeno × dose × qualidade do tratamento × condição ambiental.

2.11 Associações fungicidas e manejo de diferentes grupos de patógenos

A utilização de associações contendo diferentes mecanismos de ação tem sido uma estratégia recorrente no tratamento de sementes. Produtos comerciais destinados ao milho podem combinar fungicidas de diferentes grupos, buscando ampliar o espectro de ação.

Em material técnico relacionado às safras 2023/2024 e 2024/2025, por exemplo, são apresentados produtos contendo metalaxil-M + tiabendazol + fludioxonil e associações envolvendo azoxistrobina, tiabendazol, fludioxonil e metalaxil-M, além de piraclostrobina + tiofanato-metílico. As indicações incluem organismos como Colletotrichum graminicola, Fusarium moniliforme, Penicillium, Pythium, Alternaria, Aspergillus, Stenocarpella maydis e outros alvos especificados para cada produto.

Entretanto, a presença de múltiplos ingredientes ativos não deve ser interpretada automaticamente como garantia de maior eficiência. A escolha deve considerar o complexo de patógenos realmente presente no lote e o histórico fitossanitário da área.

2.12 Fungicidas e microbiota da semente

A discussão contemporânea sobre tratamento químico de sementes precisa incorporar uma questão que não estava presente com a mesma intensidade na literatura clássica: os efeitos sobre microrganismos não alvo.

A semente abriga comunidades microbianas que podem apresentar funções relacionadas à germinação, ao desenvolvimento inicial e à proteção contra patógenos. Consequentemente, a aplicação de fungicidas pode alterar não apenas os organismos considerados patogênicos, mas também componentes da microbiota potencialmente benéficos.

Ayesha et al. (2021) discutem justamente essa questão e destacam que fungicidas sistêmicos podem interferir na comunidade endofítica das sementes. Os autores defendem uma avaliação mais cuidadosa do tratamento químico, principalmente diante do crescente reconhecimento do papel funcional do microbioma associado às sementes.

Essa questão não significa que o tratamento fungicida deva ser abandonado. Significa que a tecnologia deve ser utilizada de maneira racional, direcionada aos riscos fitossanitários relevantes e fundamentada na necessidade efetiva de proteção.

2.13 Diagnóstico antes da recomendação do tratamento

Do ponto de vista da Fitopatologia, uma das principais mudanças desejáveis no tratamento de sementes é substituir a lógica de aplicação indiscriminada por uma lógica baseada no diagnóstico.

Se o lote apresenta incidência relevante de determinado patógeno, o tratamento deve ser selecionado de acordo com a eficácia comprovada e a indicação oficial para aquele alvo.

Se o problema está predominantemente relacionado a fungos de armazenamento, as estratégias podem ser diferentes daquelas utilizadas para patógenos de campo.

Se o risco decorre principalmente de fungos do solo, a escolha deve considerar a proteção da semente e da plântula durante a emergência.

Essa distinção parece elementar, mas possui grande importância prática. Um fungicida pode apresentar excelente atividade contra determinado grupo e ser pouco eficiente contra outro. O fato de dois organismos serem classificados genericamente como "fungos" não significa que apresentem a mesma sensibilidade ao fungicida.

2.14 Uma visão integrada para a patologia de sementes de milho

A avaliação moderna da patologia de sementes de milho pode ser organizada em quatro níveis complementares.

O primeiro corresponde à caracterização da comunidade microbiana, identificando os principais grupos presentes.

O segundo envolve a identificação taxonômica, utilizando métodos morfológicos e moleculares conforme a necessidade.

O terceiro corresponde à avaliação epidemiológica, determinando quais organismos possuem efetiva importância para a transmissão, emergência e estabelecimento das plantas.

O quarto compreende a intervenção, na qual o tratamento químico, biológico ou integrado é selecionado de acordo com o diagnóstico.

Essa sequência evita um problema frequente: escolher o produto antes de compreender o problema.

A ciência de sementes fornece atualmente ferramentas suficientes para que essa decisão seja muito mais precisa. O laboratório pode combinar blotter test, isolamento em meio de cultura, microscopia, identificação molecular, avaliação de germinação e vigor e, quando necessário, testes de transmissão e patogenicidade.

A análise integrada permite transformar o diagnóstico em informação útil para a tomada de decisão.

3 CONCLUSÕES

A patologia de sementes de milho deve ser compreendida como uma área que integra microbiologia, fitopatologia, ciência de sementes, epidemiologia e tecnologia de tratamento. A semente representa uma unidade epidemiológica particularmente importante porque pode transportar microrganismos, favorecer sua sobrevivência e participar da introdução de patógenos em novos ciclos de cultivo.

A diversidade de fungos associada às sementes e aos grãos de milho é elevada e apresenta forte influência das condições ambientais, do genótipo, do manejo, da colheita e do armazenamento. Por essa razão, a caracterização da micobiota não deve ser reduzida à elaboração de uma lista de gêneros. É necessário distinguir organismos patogênicos, oportunistas, saprófitas e potenciais componentes benéficos da comunidade microbiana.

A identificação correta constitui a base para qualquer decisão fitossanitária. Métodos morfológicos continuam indispensáveis, especialmente para isolamento e caracterização de culturas, mas devem ser complementados por técnicas moleculares quando a resolução taxonômica ou a sensibilidade do diagnóstico forem insuficientes. PCR, qPCR, sequenciamento e outras ferramentas moleculares representam importantes avanços, desde que devidamente validados e interpretados em conjunto com informações epidemiológicas.

A análise sanitária também deve ser acompanhada pela avaliação fisiológica das sementes. Germinação e vigor não constituem apenas indicadores comerciais de qualidade; são respostas biológicas que ajudam a interpretar a importância funcional da associação entre sementes e microrganismos.

O tratamento químico de sementes permanece uma ferramenta relevante para o manejo de patógenos associados às sementes e ao solo. Entretanto, sua eficiência é dependente do alvo, do ingrediente ativo, da dose, da formulação, da qualidade da aplicação e das condições ambientais. Estudos com milho demonstram claramente que fungicidas eficientes contra determinados organismos podem apresentar desempenho limitado contra outros, reforçando a necessidade de diagnóstico prévio.

No Brasil, a seleção de fungicidas deve obrigatoriamente observar o registro e a indicação oficial. O AGROFIT constitui a fonte oficial do MAPA para consulta de produtos, ingredientes ativos, culturas e alvos. Como a base é atualizada diariamente, a condição regulatória de qualquer produto deve ser verificada no momento da recomendação ou da execução experimental.

A utilização de associações contendo ingredientes ativos com diferentes mecanismos de ação pode ampliar o espectro de proteção, mas não deve ser interpretada como substituto do diagnóstico. A escolha racional do tratamento depende da identificação do complexo de patógenos e da compreensão de sua importância epidemiológica.

Finalmente, a patologia contemporânea de sementes precisa incorporar o conceito de microbiota. A semente não abriga apenas organismos potencialmente patogênicos; existe uma comunidade microbiana cuja composição pode participar de processos relacionados à germinação, estabelecimento e proteção da plântula. Assim, o tratamento químico deve ser compreendido como uma intervenção sobre um sistema biológico complexo, e não simplesmente como uma operação destinada a eliminar fungos.

A abordagem mais consistente, portanto, é aquela que estabelece uma sequência lógica entre diagnóstico, identificação, interpretação epidemiológica e intervenção. Nesse modelo, o fungicida deixa de ser o ponto de partida e passa a ser uma das ferramentas utilizadas a partir do conhecimento construído pelo diagnóstico fitopatológico.

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quarta-feira, 23 de setembro de 2026

PATOLOGIA DE SEMENTES DE MAMONA: DIVERSIDADE, IDENTIFICAÇÃO, TÉCNICAS DE DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO QUÍMICO

 

PATOLOGIA DE SEMENTES DE MAMONA: DIVERSIDADE, IDENTIFICAÇÃO, TÉCNICAS DE DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO QUÍMICO

1 INTRODUÇÃO

A semente constitui o ponto de partida biológico de uma nova planta, mas, sob a perspectiva fitopatológica, representa também uma das estruturas mais eficientes para a sobrevivência, o transporte e a introdução de agentes associados a doenças. Essa dualidade é particularmente importante em culturas oleaginosas, nas quais a qualidade fisiológica e sanitária do lote determina, em grande medida, a capacidade de estabelecimento inicial da lavoura. Na mamoneira (Ricinus communis L.), essa relação assume importância especial porque a cultura apresenta suscetibilidade a um amplo conjunto de agentes fitopatogênicos e porque o estabelecimento inicial pode ser severamente comprometido por podridões e tombamentos.

A patologia de sementes moderna não considera, entretanto, toda associação microbiana como sinônimo de doença. Um organismo pode estar presente na superfície da semente, colonizar seus tecidos, sobreviver internamente, contaminar o tegumento ou simplesmente acompanhar o lote como componente da microbiota de armazenamento. Para que essa associação adquira significado epidemiológico, é necessário estabelecer uma sequência de relações: presença do organismo, viabilidade do inóculo, capacidade de sobreviver associado à semente, potencial de transmissão, patogenicidade e possibilidade de estabelecimento da doença. Essa distinção, fundamental nos trabalhos clássicos de Neergaard (1977) e Agarwal e Sinclair (1996), permanece central para a interpretação moderna dos testes de sanidade.

No caso da mamoneira, a literatura brasileira demonstra que a semente pode desempenhar papel efetivo na introdução e disseminação de patógenos. Lima, Batista e Santos (1997), em estudo específico de patologia de sementes de mamona, detectaram diversos fungos associados às sementes e demonstraram experimentalmente que Fusarium sp., Rhizoctonia solani e Alternaria ricini podiam ser transmitidos pelas sementes e causar tombamento de plântulas. Os autores também observaram que Fusarium sp., A. ricini, Aspergillus flavus e Chaetomium sp. estavam associados à podridão das sementes e à redução da germinação.

Essa constatação possui importância prática porque o tratamento da semente não deve ser compreendido apenas como uma medida para "eliminar fungos". Seu objetivo agronômico é reduzir o inóculo potencialmente prejudicial, proteger a semente e a plântula durante o período de germinação e emergência e, quando possível, diminuir a probabilidade de introdução do patógeno em novas áreas.

A literatura internacional contemporânea reforça essa concepção. A movimentação global de sementes aumentou a importância dos patógenos transmitidos por sementes, ao mesmo tempo em que os métodos de diagnóstico se tornaram mais sensíveis e específicos. Munkvold, du Toit e Dunkle (2025) destacam que a sanidade de sementes passou a integrar não somente a produção agrícola, mas também sistemas de certificação, comércio internacional, biossegurança e regulamentação fitossanitária.

Na mamona, essa discussão é particularmente relevante porque a cultura possui importância industrial, energética e socioeconômica em diferentes regiões tropicais e subtropicais. A semente apresenta elevado teor de óleo e constitui a matéria-prima para diferentes cadeias industriais, incluindo produção de biocombustíveis, polímeros, cosméticos e outros produtos. O conhecimento da qualidade sanitária das sementes, portanto, não é uma questão meramente laboratorial, mas componente da sustentabilidade produtiva da cultura.

O objetivo desta revisão é discutir a patologia de sementes de mamona a partir de quatro eixos complementares: diversidade dos organismos associados, identificação e diagnóstico, técnicas utilizadas para avaliação da sanidade e tratamento químico das sementes, com atenção especial às indicações atualmente disponíveis no sistema AGROFIT/MAPA.

2 DESENVOLVIMENTO

2.1 A semente de mamona como componente epidemiológico

A associação de patógenos às sementes pode ocorrer durante a formação dos frutos, na colheita, no beneficiamento ou durante o armazenamento. A localização do microrganismo é determinante para sua importância epidemiológica. Patógenos localizados superficialmente podem ser parcialmente removidos por procedimentos de limpeza ou tratamento; organismos presentes no interior dos tecidos apresentam maior dificuldade de erradicação.

Essa distinção é importante porque a semente pode funcionar simultaneamente como veículo de transporte, estrutura de sobrevivência e fonte de inóculo primário. Quando o patógeno permanece viável durante o armazenamento e posteriormente infecta a plântula, estabelece-se uma relação epidemiológica muito mais relevante do que aquela observada para um simples contaminante superficial.

Em estudo clássico realizado com sementes de mamona, Lima, Batista e Santos (1997) demonstraram justamente essa diferença entre presença e transmissão. Entre os fungos encontrados, Fusarium sp., Rhizoctonia solani e Alternaria ricini apresentaram capacidade de transmissão para plântulas, enquanto outros organismos foram associados principalmente à deterioração e redução da germinação.

A interpretação do teste de sanidade deve, portanto, considerar pelo menos cinco perguntas:

  1. Qual organismo foi detectado?

  2. Onde ele está localizado na semente?

  3. O organismo está viável?

  4. Existe evidência de transmissão para a planta?

  5. Qual é sua importância epidemiológica para a cultura?

Somente depois dessas perguntas é possível estabelecer uma recomendação de manejo.

2.2 Diversidade de fungos associados às sementes de mamona

A diversidade microbiana encontrada em sementes de mamona é ampla. Estudos brasileiros identificaram representantes de diferentes grupos taxonômicos, incluindo Fusarium, Alternaria, Aspergillus, Penicillium, Rhizoctonia, Cladosporium, Bipolaris, Curvularia, Rhizopus, Verticillium, Macrophomina e outros gêneros.

Nascimento et al. (2009), avaliando sementes crioulas de mamona, encontraram elevadas frequências de Fusarium sp. e Penicillium sp., além de Aspergillus niger, A. flavus e actinomicetos. O estudo utilizou tanto o método de papel-filtro quanto o cultivo em BDA, demonstrando que a composição da micobiota pode variar conforme a procedência das sementes e o método empregado.

Outro estudo realizado com diferentes cultivares e épocas de semeadura demonstrou que a composição da micoflora também pode variar em função da época de produção das sementes. O método de papel-filtro permitiu detectar diferenças na diversidade de gêneros entre cultivares e épocas de semeadura, indicando que as condições ambientais durante a formação das sementes podem influenciar diretamente sua qualidade sanitária.

Entre os organismos de maior interesse fitopatológico podem ser destacados:

  • Alternaria ricini;

  • Fusarium spp.;

  • Rhizoctonia solani;

  • Macrophomina phaseolina;

  • Lasiodiplodia theobromae;

  • Aspergillus flavus;

  • Aspergillus niger;

  • Penicillium spp.;

  • Cladosporium spp.;

  • Curvularia spp.;

  • Bipolaris spp.;

  • Verticillium spp.

A presença desses organismos, entretanto, não possui significado equivalente. Rhizoctonia solani, Fusarium spp. e Alternaria ricini, por exemplo, apresentam importância fitopatológica e podem estar relacionados a danos em plântulas. Aspergillus e Penicillium, por outro lado, frequentemente estão associados à deterioração e ao armazenamento, embora determinadas espécies também possam produzir metabólitos de interesse toxicológico.

Esse aspecto é fundamental para evitar um erro recorrente na interpretação dos testes de sanidade: confundir frequência de isolamento com importância epidemiológica.

2.3 Principais patógenos associados às sementes

2.3.1 Fusarium spp.

O gênero Fusarium merece atenção especial pela capacidade de colonizar sementes e permanecer associado aos tecidos vegetais por períodos prolongados. Na mamoneira, espécies de Fusarium estão relacionadas a podridões, tombamento e murchas.

O trabalho de Lima, Batista e Santos (1997) demonstrou que Fusarium sp. estava associado à deterioração das sementes e apresentou capacidade de transmissão para plântulas.

Do ponto de vista diagnóstico, a identificação somente ao nível de gênero pode ser insuficiente quando se pretende estabelecer relações epidemiológicas específicas. Características dos macroconídios, microconídios, clamidósporos e colônias constituem importantes elementos para uma identificação preliminar, mas a utilização de marcadores moleculares pode ser necessária para discriminar espécies filogeneticamente próximas.

2.3.2 Alternaria ricini

Alternaria ricini possui importância histórica na patologia da mamoneira, estando associado a manchas foliares e a problemas em sementes. Lima, Batista e Santos (1997) demonstraram sua transmissão pelas sementes e sua capacidade de provocar tombamento de plântulas.

A identificação morfológica deve considerar características da colônia, conidióforos e conídios. Entretanto, a taxonomia contemporânea do gênero Alternaria demonstra que características morfológicas isoladamente podem não ser suficientes para uma identificação específica segura, especialmente quando se trabalha com grupos taxonomicamente próximos.

2.3.3 Rhizoctonia solani

Rhizoctonia solani apresenta importância particular no estabelecimento inicial da mamoneira. O patógeno é predominantemente associado ao solo, mas pode também estar presente nas sementes.

A transmissão pela semente foi demonstrada experimentalmente por Lima, Batista e Santos (1997), que observaram a ocorrência de tombamento associado a fungos transportados e transmitidos pelas sementes.

Essa característica possui implicação direta para o tratamento químico. O fungicida aplicado à semente pode atuar não apenas sobre o inóculo presente no tegumento, mas também constituir uma zona de proteção ao redor da semente durante a germinação.

2.4 Fungos de armazenamento

Aspergillus, Penicillium e Rhizopus constituem um grupo que merece interpretação distinta.

Esses organismos podem colonizar sementes durante o armazenamento, principalmente quando condições de temperatura e umidade favorecem seu desenvolvimento. A deterioração pode provocar perda de vigor, redução da germinação, alterações metabólicas e comprometimento da qualidade comercial.

Em sementes de mamona, Eicholz et al. (2012) encontraram Aspergillus, Penicillium e Fusarium entre os grupos mais frequentes. O tratamento com carboxina + tiram reduziu a incidência de fungos e melhorou a germinação de sementes de menor qualidade.

Contudo, deve-se evitar chamar indiscriminadamente esses organismos de "patógenos de sementes". Em muitos casos, eles representam principalmente fungos associados à deterioração. O termo mais adequado pode ser fungos associados às sementes, reservando-se a classificação de patógeno para organismos cuja relação causal com a doença esteja estabelecida.

2.5 Métodos de detecção e diagnóstico

A qualidade do diagnóstico depende inicialmente da qualidade da amostragem. Como a distribuição dos microrganismos dentro de um lote pode ser heterogênea, a amostra analisada deve representar adequadamente o lote.

A ISTA mantém as International Rules for Seed Testing, cuja edição atual é a de 2026. O Capítulo 7 é dedicado aos testes de sanidade de sementes e reúne métodos padronizados para diagnóstico e emissão de resultados. A ISTA também disponibiliza um Handbook on Seed Health Testing, que aborda desde preparo e manipulação das amostras até microscopia e métodos moleculares.

Para mamona, entretanto, é importante reconhecer que nem todo patógeno possui um método ISTA específico. Nesses casos, devem ser empregados protocolos cientificamente validados, métodos publicados na literatura e, quando aplicável, procedimentos de organismos internacionais de proteção fitossanitária.

2.6 Blotter test

O blotter test, ou método do papel-filtro, permanece entre as ferramentas mais úteis para levantamento da micoflora de sementes.

O princípio é relativamente simples: sementes são distribuídas sobre substrato úmido e incubadas em condições controladas para estimular a manifestação de estruturas fúngicas. Após o período de incubação, as sementes são examinadas individualmente sob microscópio estereoscópico e, quando necessário, microscópio óptico.

Sua grande vantagem é permitir a detecção simultânea de diferentes gêneros sem necessidade de isolamento prévio.

Em mamona, o método foi empregado em estudos de diversidade e incidência de fungos, inclusive utilizando 200 sementes por cultivar, incubadas por sete dias em condições controladas.

Entretanto, o blotter apresenta limitações. Fungos de crescimento rápido podem mascarar organismos de crescimento lento, enquanto determinados fungos não produzem estruturas reprodutivas suficientemente características para identificação segura.

Por essa razão, a microscopia deve ser complementada pelo isolamento e, quando necessário, por métodos moleculares.

2.7 Desinfestação superficial

A utilização de hipoclorito de sódio ou outros agentes de desinfestação deve ser definida de acordo com o objetivo do diagnóstico.

Se o objetivo é avaliar toda a microbiota associada à semente, a desinfestação superficial pode reduzir artificialmente a incidência dos organismos externos. Se a intenção é diferenciar microrganismos externos de organismos internalizados, a desinfestação pode constituir uma etapa experimental importante.

Essa distinção deve estar claramente descrita no protocolo. A ausência de crescimento após desinfestação não significa necessariamente ausência do patógeno na semente.

2.8 Isolamento em meio de cultura

O isolamento em BDA/PDA é particularmente importante quando se pretende obter culturas puras.

Uma cultura pura permite:

  • caracterização morfológica;

  • preservação do isolado;

  • teste de patogenicidade;

  • avaliação de crescimento;

  • testes de sensibilidade a fungicidas;

  • extração de DNA;

  • PCR e sequenciamento.

Entretanto, o cultivo possui uma limitação conceitual importante: nem todo organismo presente na semente é cultivável nas condições utilizadas.

Assim, um resultado negativo em meio de cultura não deve ser interpretado como ausência absoluta do organismo. Métodos moleculares podem detectar organismos que não foram recuperados pelas condições culturais utilizadas.

2.9 Identificação morfológica

A identificação morfológica continua sendo uma ferramenta essencial para o patologista de sementes.

Em Fusarium, devem ser avaliados macroconídios, microconídios, clamidósporos e características da colônia. Em Alternaria, a morfologia dos conídios e dos conidióforos fornece informações importantes. Em Aspergillus e Penicillium, estruturas de conidiogênese e características coloniais são fundamentais.

A experiência do patologista continua sendo relevante porque a identificação não é simplesmente uma comparação visual com fotografias. É necessário reconhecer a variabilidade fenotípica e compreender quais características possuem valor taxonômico.

Livros especializados, como Principles of Seed Pathology, de Agarwal e Sinclair (1996), e o ISTA Handbook on Seed Health Testing, permanecem importantes referências metodológicas para esse trabalho.

2.10 Identificação molecular

A identificação molecular tornou-se particularmente importante para organismos cuja morfologia apresenta baixa resolução taxonômica.

O sequenciamento da região ITS pode ser utilizado como marcador inicial para muitos fungos, mas nem sempre permite discriminar espécies próximas. Dependendo do grupo, genes como β-tubulina, fator de elongação da tradução 1-alfa e outros marcadores multilocus podem aumentar a resolução.

A estratégia mais robusta é integrar:

morfologia + isolamento + DNA + marcador molecular + comparação filogenética + patogenicidade.

O sequenciamento, por si só, não resolve necessariamente a questão fitopatológica. Uma sequência pode indicar a presença de determinado organismo, mas não comprova que ele esteja viável ou que tenha sido responsável por determinado sintoma.

Essa distinção é particularmente importante em sementes armazenadas.

2.11 PCR e qPCR

A PCR convencional pode ser empregada para confirmar a identidade de um organismo previamente isolado ou detectar diretamente um agente em sementes.

A qPCR acrescenta a possibilidade de maior sensibilidade e, dependendo do desenho experimental, estimativa da quantidade relativa ou absoluta do DNA-alvo.

Entretanto, a interpretação deve ser cuidadosa: DNA detectado não significa necessariamente organismo vivo.

Essa limitação pode ser contornada parcialmente pela associação de métodos moleculares com cultivo, testes de viabilidade, isolamento ou estratégias específicas destinadas à detecção de células metabolicamente ativas.

A evolução dos métodos de diagnóstico de sementes acompanha exatamente essa tendência. A literatura recente aponta para integração entre métodos culturais, microscópicos, imunológicos, moleculares, imagem digital e inteligência artificial.

2.12 Testes de patogenicidade

A patogenicidade constitui o ponto que transforma uma simples associação em uma relação fitopatológica demonstrada.

Quando um fungo é isolado de uma semente, é necessário perguntar se ele efetivamente provoca doença. O teste deve ser conduzido com controles adequados, inoculação padronizada, avaliação dos sintomas e, quando necessário, reisolamento do agente.

Lima, Batista e Santos (1997) realizaram esse tipo de abordagem e demonstraram que Fusarium sp., Rhizoctonia solani e Alternaria ricini apresentavam capacidade de transmissão e de causar tombamento em plântulas de mamona.

Esse tipo de estudo continua sendo essencial porque permite separar os organismos simplesmente associados às sementes daqueles que efetivamente possuem importância epidemiológica.

2.13 Relação entre sanidade e qualidade fisiológica

A qualidade fisiológica não pode ser interpretada independentemente da qualidade sanitária.

Uma semente pode apresentar elevado potencial germinativo em condições ideais, mas apresentar redução de vigor quando submetida a estresse ou quando contaminada por organismos capazes de deteriorar tecidos.

Em mamona, estudos demonstraram que o tratamento fungicida pode ser particularmente importante em lotes de menor qualidade. Eicholz et al. (2012) observaram melhoria da germinação e redução da incidência de fungos após tratamento com carboxina + tiram.

Outro estudo, realizado durante 12 meses de armazenamento, demonstrou que sementes tratadas com fungicidas químicos tradicionais apresentaram qualidade fisiológica e sanitária superior às sementes não tratadas ou tratadas com algumas alternativas, especialmente quando armazenadas em condições ambientais menos favoráveis.

Esses resultados reforçam uma conclusão importante: o tratamento químico não deve ser utilizado para compensar sementes originalmente deficientes. Seu papel é proteger e preservar a qualidade de um lote dentro de um sistema integrado de produção e armazenamento.

2.14 Tratamento químico de sementes

Historicamente, o tratamento químico das sementes de mamona apresentou uma particularidade no Brasil. Durante muitos anos, trabalhos científicos testaram fungicidas sem que houvesse produtos registrados especificamente para tratamento de sementes da cultura.

Kobori (2011), em tese de doutorado desenvolvida na ESALQ/USP, avaliou diferentes tratamentos fungicidas justamente porque, naquele período, não havia defensivos químicos registrados para a ricinocultura destinados ao tratamento de sementes.

De maneira semelhante, Coutinho et al. (2012) destacaram que não havia fungicidas registrados para tratamento de sementes de mamona e avaliaram misturas contendo carboxina + tiram, captana + tiofanato-metílico e triadimenol + tolilfluanida + pencicurom. Todas as misturas reduziram a micobiota das sementes e apresentaram atividade sobre fungos como Alternaria ricini, Amphobotrys ricini, Lasiodiplodia theobromae, Macrophomina phaseolina e Rhizoctonia solani.

Esses resultados possuem valor científico, mas precisam ser interpretados corretamente: eficácia experimental não equivale a autorização legal de uso.

Essa distinção é particularmente importante para recomendações agronômicas.

2.15 Situação atual do AGROFIT para mamona

O AGROFIT é o banco oficial do Ministério da Agricultura e Pecuária para consulta dos produtos agroquímicos registrados no Brasil. A plataforma permite pesquisar produtos por cultura, ingrediente ativo, marca comercial e alvo biológico. O conjunto de dados aberto do AGROFIT apresenta atualização em setembro de 2026, evidenciando que a base possui atualização contínua.

A legislação brasileira de sementes também estabelece que os padrões de identidade e qualidade de diferentes espécies, incluindo a mamona, são disciplinados pelo sistema oficial de sementes e mudas. Atualmente, a página oficial do MAPA lista, entre outras normas, a Lei nº 10.711/2003, o Decreto nº 10.586/2020 e a Instrução Normativa nº 45/2013, além de atualizações posteriores.

A situação atual da mamona merece destaque porque houve alteração importante em relação à literatura mais antiga.

2.16 Fungicida atualmente identificado para tratamento químico de sementes de mamona

Na documentação regulatória vigente consultada, destaca-se o:

MONCEREN 250 SC

  • Registro MAPA: 00404

  • Ingrediente ativo: pencicurom

  • Concentração: 250 g/L

  • Formulação: SC — suspensão concentrada

  • Grupo químico: fenilureia

  • Modo de ação: fungicida protetor

  • Alvo em mamona: Rhizoctonia solani

  • Doença: tombamento

  • Modalidade: tratamento de sementes

  • Dose indicada: 0,3 L/100 kg de sementes

  • Número máximo de aplicações: 1

  • Aplicação: antes do plantio.

A bula atualizada do produto é particularmente importante porque inclui explicitamente mamona entre as culturas autorizadas para o tratamento contra R. solani. Para o conjunto formado por feijão, amendoim, ervilha, feijões, grão-de-bico, lentilha, girassol, canola, gergelim, linhaça e mamona, a bula estabelece uma aplicação única antes do plantio, com dose de 0,3 L por 100 kg de sementes.

A documentação também estabelece que o tratamento deve ser realizado com o produto devidamente distribuído sobre as sementes e que o plantio deve ocorrer após o tratamento. Para melhor cobertura, a bula admite adição de água em proporção máxima de 1:1 em relação ao produto.

É importante destacar que pencicurom não deve ser apresentado como fungicida de amplo espectro para a microbiota da mamona. A indicação registrada é específica para Rhizoctonia solani. Portanto, não seria tecnicamente correto extrapolar essa indicação para Fusarium, Alternaria, Aspergillus, Penicillium ou outros organismos apenas porque esses fungos podem ocorrer nas sementes.

Esse ponto diferencia uma revisão científica tecnicamente rigorosa de uma simples compilação de produtos.

2.17 Tratamentos experimentais versus produtos registrados

A literatura científica apresenta diversos resultados positivos com fungicidas que foram utilizados experimentalmente em sementes de mamona.

Carboxina + tiram, por exemplo, reduziu a incidência de fungos e melhorou a germinação em determinados estudos.

Coutinho et al. (2012) também demonstraram atividade de misturas envolvendo carboxina + tiram, captana + tiofanato-metílico e outras combinações sobre a micobiota de sementes de mamoneira.

Araújo et al. (2019) observaram que sementes tratadas com produtos químicos apresentaram qualidade fisiológica e sanitária superior durante o armazenamento, enquanto alguns tratamentos alternativos, especialmente Trichoderma, sorbato de potássio e alho, apresentaram resultados promissores.

Esses resultados são cientificamente relevantes para o desenvolvimento tecnológico, mas não autorizam automaticamente o uso desses produtos na cultura da mamona.

A recomendação agronômica deve obedecer à indicação vigente no AGROFIT e à bula do produto. O próprio MAPA esclarece que o AGROFIT deve ser utilizado para consulta dos produtos registrados e suas indicações de uso.

2.18 Tratamento térmico como alternativa

O tratamento térmico representa uma alternativa interessante para a redução de microrganismos associados às sementes.

Estudo realizado especificamente com sementes de mamona comparou calor seco e água quente com tratamento fungicida à base de carbendazim + tiram. Os tratamentos térmicos reduziram a contaminação microbiana, e o tratamento com água quente, nas condições avaliadas, não comprometeu significativamente a germinação.

Entretanto, a termoterapia apresenta uma janela estreita entre eficiência sanitária e segurança fisiológica. Temperatura, tempo de exposição, teor de água da semente e cultivar precisam ser controlados rigorosamente.

Assim, a termoterapia deve ser entendida como tecnologia específica e não como substituição universal do tratamento químico.

2.19 Tratamento biológico

O uso de agentes de controle biológico representa uma alternativa adicional.

Trichoderma spp. apresentam potencial para colonização da superfície das sementes e competição com fungos fitopatogênicos. Em estudos de armazenamento de sementes de mamona, produtos à base de Trichoderma apresentaram resultados promissores entre os tratamentos alternativos avaliados.

Entretanto, assim como ocorre com os fungicidas químicos, é necessário distinguir eficácia experimental de produto registrado e recomendado para determinada modalidade de aplicação.

A integração entre tratamento químico, biológico, qualidade fisiológica e condições adequadas de armazenamento tende a ser mais consistente do que a dependência exclusiva de uma única tecnologia.

2.20 Qualidade da aplicação do tratamento de sementes

A eficiência do tratamento depende também da qualidade operacional.

A dose precisa ser distribuída uniformemente entre as sementes. Uma parte do lote subdosada pode permanecer desprotegida, enquanto sementes excessivamente tratadas podem apresentar maior risco de fitotoxicidade.

Os principais parâmetros de controle incluem:

  • dose de produto por massa de sementes;

  • volume de calda;

  • uniformidade de cobertura;

  • calibração do equipamento;

  • qualidade da água;

  • compatibilidade entre produtos;

  • intervalo entre tratamento e semeadura;

  • qualidade fisiológica inicial da semente.

A bula do MONCEREN 250 SC, por exemplo, determina que o tratamento seja realizado antes do plantio e chama atenção para a necessidade de regulagem da semeadora com a semente tratada, uma vez que o tratamento pode alterar as propriedades físicas de fluxo das sementes.

2.21 Proposta de fluxo diagnóstico para laboratório de patologia de sementes de mamona

Para um laboratório de fitopatologia que trabalhe com sementes de mamona, uma estratégia tecnicamente consistente pode ser organizada como:

amostragem representativa → avaliação visual → teste de germinação/vigor → blotter test → microscopia → isolamento → cultura pura → identificação morfológica → PCR/sequenciamento quando necessário → teste de patogenicidade → interpretação epidemiológica → recomendação de manejo.

Esse fluxo é mais seguro do que depender de uma única técnica.

O blotter fornece uma visão ampla da micobiota; o isolamento permite preservar o organismo; a microscopia oferece informação estrutural; o sequenciamento aumenta a resolução taxonômica; a PCR pode proporcionar diagnóstico específico; e o teste de patogenicidade estabelece a relação entre organismo e doença.

A combinação desses métodos está alinhada com a tendência internacional da ciência de sementes, que caminha para sistemas diagnósticos integrados e progressivamente mais sensíveis.

3 CONCLUSÕES

A patologia de sementes de mamona deve ser compreendida como uma área que integra microbiologia, taxonomia, fisiologia de sementes, epidemiologia, diagnóstico molecular e tecnologia de tratamento de sementes.

As sementes de Ricinus communis apresentam ampla diversidade de organismos associados, incluindo fungos de importância fitopatológica e fungos relacionados principalmente à deterioração e ao armazenamento. Entre os organismos de maior relevância destacam-se Fusarium spp., Alternaria ricini e Rhizoctonia solani, além de diferentes espécies de Aspergillus, Penicillium e outros gêneros.

A presença de um organismo na semente, entretanto, não é suficiente para estabelecer sua importância como patógeno. A interpretação deve considerar localização, viabilidade, capacidade de transmissão, patogenicidade e importância epidemiológica.

O blotter test permanece uma ferramenta fundamental para levantamentos de sanidade, especialmente pela capacidade de detectar diferentes fungos simultaneamente. O isolamento em meio de cultura complementa o diagnóstico e permite estudos posteriores de patogenicidade, caracterização e preservação dos isolados.

A identificação morfológica continua indispensável, mas apresenta limitações para grupos taxonomicamente complexos. A utilização de PCR, qPCR e sequenciamento proporciona maior resolução e especificidade, especialmente quando a identificação ao nível de espécie possui implicações epidemiológicas ou quarentenárias.

A integração entre métodos tradicionais e moleculares é, portanto, mais adequada do que a substituição completa da microscopia pela biologia molecular.

Do ponto de vista do manejo, o tratamento químico constitui uma ferramenta importante para proteger a semente e a plântula durante o estabelecimento inicial. Entretanto, os resultados experimentais encontrados na literatura não devem ser confundidos com autorização de uso.

Essa distinção é especialmente importante para a mamona porque grande parte da literatura experimental brasileira foi produzida em período no qual não havia fungicidas registrados especificamente para tratamento de sementes da cultura. Estudos com carboxina + tiram, captana + tiofanato-metílico, triadimenol + tolilfluanida + pencicurom e outros produtos demonstraram eficácia experimental, mas esses resultados possuem natureza científica e não representam, por si mesmos, autorização regulatória.

A situação atual é diferente. A documentação vigente consultada identifica o MONCEREN 250 SC, registro MAPA nº 00404, à base de pencicurom, como fungicida registrado para tratamento de sementes de mamona contra Rhizoctonia solani, com indicação de 0,3 L/100 kg de sementes e uma aplicação antes do plantio.

Assim, para uma recomendação técnica realizada em 2026, a indicação deve ser construída a partir da seguinte hierarquia:

AGROFIT/MAPA → bula vigente → cultura → modalidade de aplicação → alvo biológico → dose registrada.

Essa hierarquia é indispensável para evitar a extrapolação de resultados experimentais para usos não registrados.

Finalmente, a qualidade sanitária da semente deve ser entendida como componente de um sistema mais amplo de produção. O uso de sementes de elevada qualidade, armazenamento adequado, diagnóstico laboratorial, tratamento químico ou biológico tecnicamente justificado e estabelecimento rápido e uniforme da cultura constituem, conjuntamente, as bases para reduzir os riscos associados aos patógenos transmitidos por sementes de mamona.

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