terça-feira, 26 de outubro de 2010

Oídio (Oidium mangiferae) incidente em folhas de manga (Mangifera indica)


André Cirilo de Sousa Almeida
Acadêmico do curso de Agronomia


A mangueira (Mangifera indica L – Anacardiaceae) é uma fruteira perene nativa da Índia, pais que detem 58,7% da população mundial do fruto, ocupando o Brasil o sexto lugar na produção mundial desta fruteira (Duarte, 2003).
O cultivo da mangueira no Brasil pode ser dividido em duas fases distintas: a primeira, teve como principal característica os plantios de forma extensiva, com variedades locais e pouco ou nenhum uso de tecnologias; e a segunda, caracterizada pelo elevado nível tecnológico, como indução floral, irrigação e variedades melhoradas. É intensamente utilizada para consumo da fruta “in natura” e na forma de sorvetes sucos e doces, além de fonte de alimento, a mangueira tem sido a principal espécie utilizada na arborização urbana, proporcionando uma bonita paisagem (Freire et al., 2003).
A cultura da mangueira é suscetível a uma série de doenças em todas as fases do seu desenvolvimento, todas as partes da planta, ou seja, tronco, ramos, galhos, folhas, flores, pecíolos e frutos são atacados por diferentes patógeno. Entre as doenças o oídio causado pelo fungo Oidium mangiferae Berthet, Boln Agric., São Paulo. (1914) na qual foi relatada pela primeira vez no Brasil em 1914, e posteriormente foi relatada em vários outros países (Duarte, 2003).
As perdas provocadas por esse patógeno podem variar de 5 a 20%, dependendo das condições meteorológicas. Em algumas regiões produtoras de outros paises, sob condições favoráveis, o Oídio pode causar percas de 80 a 90% da produção Os frutos afetados não crescem e pode cair antes de atingir o tamanho de uma ervilha, O fungo é um parasita biotrófico, ou seja, é capaz de se desenvolver somente em tecidos vivos da planta hospedeira (Schoeman, 1994).
O patógeno sobrevive em folhas velhas, em condições não favoráveis, onde produz conídios que ira infectar outras folhas flores e frutos, podendo ser caracterizado pelo crescimento de um micélio pulverulento branco-acinzentado. No qual pode causar injúrias que mais tarde ira favorecer a infecção por antracnose (Junqueira, 2001).
Este trabalho tem por objetivo descrever o oídio da manga enfatizando aspectos de sintomatologia, etiologia, epidemiologia e controle.


Folhas de manga apresentando sintomas de oídio foram coletadas no campo experimental do Instituto Federal Goiano-Campus Urutaí, e levadas ao Laboratório de Microbiologia. Utilizando o método de “pescagem direta”, foram preparadas laminas semi-permanentes, utilizando o corante azul de algodão. Após a confecção, as laminas foram observadas em microscópio óptico, onde foram analisadas as estruturas morfológicas para a caracterização. As laminas semi-permanentes após serem analisadas foram vedadas com esmalte-de-unha para visualização.
Com o auxilio do microscópio estereoscópico foram feitos cortes transversais do mesófilo foliar da folha de manga, com lamina de barbear (gilete) onde foi observada a interação patógeno-hospedeiro.
Foi depositado de duas a três gotas do fixador azul-de-algodão, em uma lamina de microscópio, e os cortes anatômicos feitos no microscópio estereoscópico foi depositado na lamina contendo o fixador, logo após foi adicionado uma lamínula e realizado a vedação com esmalte-de-unha

Feito às observações das laminas contendo a estrutura do patógeno e a interação patógeno-hospedeiro, no microscópio ótico, foram realizados procedimentos de macro e microfotografia digital utilizando câmara digital (Sony Camon® Power Shot A580).
As fotos foram identificadas e organizadas em uma prancha de fotos, feita com o auxilio do computador e dos softwares Power Point, Picture Manager e Word.

Hospedeiro/cultura: Manga (Mangifera indica L.).
Família Botânica: Anacardiaceae
Doença: Oídio-da-Manga
Agente Causal (Teleomorfo): Oidium mangiferae, Berthet, Boln Agric., São Paulo. (1914) cuja fase teleomófica corresponde a Erysiphe polygoni DC. Fl. Agenaise, (1821).
Local de Coleta: Instituto Federal Goiano Campus Urutaí
Data de Coleta: 31/08/10.
Taxonomia: O anamorfo pertence ao Reino Fungi, grupo Fungos Mitospóricos, hifomicetos. Já a forma teleomórfica, pertente ao Reino Fungi, Divisão Ascomycota, Classe Leotiomycetes, Ordem Erysiphales, Família Erysiphaceae.

Sintomatologia: As folhas, inflorescência e frutinhos novos da mangueira ficam recobertos por um crescimento pulverulento (Fig.1A), (“powdery mildew”), branco-acinzentado constituído pelas estruturas do patógeno (Fig.1B). Nas folhas novas, causa deformações, crestamento e queda, e nas velhas e frutos desenvolvidos, ocasiona manchas irregulares. Nas inflorescências o patógeno cresce rapidamente abafando as flores, impedindo sua abertura e determinando sua queda, resultando em severos danos. A epiderme do órgão atacado adquire coloração avermelhada e rompimento da casca que após a cicatrização apresentará profundas fendas. Nesta fendas ficarão abrigados conídios de Colletotrichum responsável pela antracnose. Os pedúnculos afetados mostram-se mais finos e quebradiços nos locais lesionados, favorecendo a queda dos frutos na fase final de desenvolvimento principalmente quando sobre ação de ventos fortes (Bianchini et al., 2005).

Etiologia (Sinais): Esta doença é causada por Oidium mangiferae, que formam hifas hialinas e septadas que medem de 4,9 a 8,2 µm, de onde se originam conidióforos (Fig.1DE), simples e eretos (64 a 163 µm), com duas ou mais células basais que vão se originar conídios hialinos (Fig.1C), cilíndricos, dispostos em cadeia que medem cerca de 42,9x 18 -21,9 µm (Freire et al., 2003).
As hifas formam também os haustórios, que são estruturas especializadas na retirada de nutrientes diretamente das células do hospedeiro. Estas estruturas, proveniente do intumescimento da extremidade das hifas que penetram no interior das células, permitem que o fungo exerça uma forma evoluída de parasitismo, proporcionando uma longa convivência entre patógeno e hospedeiro (Kimati et al., 1995).
Conidióforos das espécies de Oidium consistem de diversas células. A célula basal, freqüentemente chamada de “célula-pé”, é geralmente seguidas por uma ou três células. O comprimento dessa célula é variável e frequentemente característico para cada espécie. A célula basal é seguida por uma célula germinativa, denominada célula-mãe, que é responsável pela conidiogênese artroconidial. Essa célula elonga-se e divide-se formando um conídio menor no seu ápice. A célula basal tem a capacidade germinativa, e assim esse processo pode se repetir inúmeras vezes. A variabilidade do arranjo das células do conidióforo é atribuída aos diferentes estádios de desenvolvimento dos conídios. A maturação dos conídios começa pelo conídio mais distal em direção a base da cadeia. (Stadnik e Riviera, 2001).

O gênero Oidium possui 482 espécies relatadas até o momento, não possuindo subespécies, possui seis sinonímias representadas por Acrosporium mangiferae, Oidium erysiphoides, Erysiphe communis, Ischnochaeta polygoni, Microsphaera betae, Microsphaera polygoni. (Index Fungorum, 2010).



Tabela 1. Comparação dos elementos morfológicos e morfométricos de Oidium mangiferae com os elementos morfológicos e morfológicos descritos por outros autores

Descrição morfológica e morfométrica Presente Estudo
Diâmetro (µm) Boesewinkel, 1980 Stadnik e Riviera, 2001
Dimensões do Conídio 17,5-(15)-12,5x 27,5-(26,2)-25 22-28x 33-43 10-16x25-44
Dimensões da célula conidiogenica 9-(7,5)-6x24-(25,5)-27 -- 7,5-11,4x9,5-12
Dimensões do Conidióforo 13,5-(12,5)-11 x 51-(47,5)-45 64-163 5,7-8,5x19-66,5
Presença de constrição nos conídios Presente -- --
Presença de corpos de fibrosina nos conídios Ausente -- --
. Presença de vaculo nos conídios Ausente -- --


Segundo Stadnik e Riviera (2001) o tamanho de conídios pode ser influenciado por fatores abióticos (umidade, estação do ano) e por fatores bióticos (hospedeiro e idade das folhas). Portanto as medidas de conídios, conidióforos e célula conidiogenica feitas no presente estudo estão próximas, ou não apresentam diferenças das medidas encontradas na literatura consultada.
Epidemiologia: O oídio é um parasita biotrófico, ou seja, é um parasita obrigatório que depende de um hospedeiro vivo para sua sobrevivência, crescimento e reprodução. Pode ser encontrado em países como Brasil, África do Sul, Argentina, África, Austrália, Ásia, China, Cuba, Etiópia, Grécia, Guatemala, Honduras, Índia, Jamaica, Kenya, Malawi, Mauritânia, México, Myanmar, Nepal, Nova Calcedônia, América do Norte, Paquistão, América do Sul, Taiwan, Tanzânia, Tailândia, Zâmbia (Farr e Rossman, 2010).
No Brasil o gênero Oidium mangiferae ocorre nos estados de Mato Grosso do Sul, São Paulo, Mato Grosso, Goiás, Bahia, Pernambuco. (Cenargem, 2010).
Os conídios do fungo germinam numa ampla faixa de temperatura, de 9 a 30 oC, os percentuais mais elevados de germinação ocorre a 20 oC e a umidade relativa entre 20 a 25 %. A presença do fungo se da em tecidos pouco túrgidos, quando as plantas murcham por excesso de calor ou falta de umidade. As chuvas são desfavoráveis a ocorrência da doença. Estudos realizados na África mostram que a doença atinge níveis epidêmicos em temperaturas variando entre 20 e 25 oC. Em Israel a doença independe da umidade, pois é severa tanto no litoral quanto no deserto. Em São Paulo a temperatura parecer ser o fator mais importante para o desenvolvimento da doença. Os conídios não precisam de um filme de água para germinar, sua germinação dura cerca de 5 a 7 horas a 23 oC e 20 % de umidade relativa do ar (Stadnik e Riviera, 2001).

Controle: Em regiões produtoras onde o fungo ocorre com incidência, torna-se necessário a adoção de medidas eficazes de controle da doença a fim de garantir uma boa produção. Seguindo os princípios gerais de controle, o principio de proteção temos como exemplo, a pulverização de fungicidas como uma medida mais recomendada para o controle do oídio. No Ministério da Agricultura possui 15 fungicidas registrados para o controle da doença sendo eles, Comet, piraclostrobina (estrobilurina), 40 ml/100 L de água, Condor 200 SC, bromuconazol (triazol), 400 ml/ha, Constant, tebuconazol (triazol), 100 ml/100 L de água, Elite, tebuconazol (triazol), 100 ml/100 L de água, Flare, difenoconazol (triazol), 20 ml/100 L de água, Folicur 200 EC, tebuconazol (triazol), 100 ml/100 L de água, Kumulus DF, enxofre (inorgânico), 300 g/100 L de água, Kumulus DF-AG, enxofre (inorgânico), 300 g/100 L de água, Morestan BR, quinometionato (quinoxalina), 75 g/100 L de água, Riza 200 EC, tebuconazol (triazol), 100 ml/100 L de água, Score, difenoconazol (triazol), 20 ml/100 L de água, Sulficamp, enxofre (inorgânico), 700 g/100 L de água, Tecto SC, tiabendazol (benzimidazol), 200 ml/100 L de água, Triade, tebuconazol (triazol), 100 ml/100 L de água, Trifmine, triflumizol (imidazol), 50 g/100 L de água (Agrofit, 2010).
A recomendação mais econômica e que tem surtidos bons efeitos são aplicações de enxofre em polvilhamento antes da abertura das flores, após a queda das pétalas e no pegamento dos frutinhos.
Outra forma de controle é a utilização de variedades resistentes, que é um exemplo do principio de controle de imunização. Em nossas condições são consideradas resistentes ao oídio as variedades Brasil, Carlota, Espada, Imperial, Oliveira, Neto, Coquinho, Tommy Arkins, e Keit. São consideradas altamente suscetíveis ao patógeno as variedades Haden e Coração de Boi (Freire et al., 2003).

LITERATURA CITADA:

AGROFIT. disponível em: Acesso em: 02/10/2010

BERGAMIN FILHO, A., KIMATI, H. & AMORIM, L. Manual de fitopatologia: princípios e conceitos. 3a Ed., Vol. 1, pág. 866-871– Editora Agronômica Ceres Ltda., São Paulo SP , 1997.

BIANCHINI, A.; MARINGONI, A. C. e CARNEIRO, S.M.T.P.G.; Doenças da Mangueira (Mangifera indica). KIMATI, H.; AMORIM, L.; REZENDE, J.A.M.; BERGAMIN FILHO, A.; CAMARGO, L.E.A.; Manual de fitopatologia: Doenças das plantas cultivadas. 4ª Ed. Vol. 2, pag. 459-460 – São Paulo: Agronômica Ceres, 2005.

BOESEWINKEL, H. J., The morphology of the imperfect states of powdery mildews (Erysiphaceae), The Botanical Review, New York, v. 46, 1980.

CENARGEM Banco de Dados Brasileiro de Micologia. Disponível em < id="1584"> Acesso em 02/10/2010.

DUARTE, M.L.R. Doenças de Plantas no Tropico Úmido Brasileiro, Embrapa Informação e Tecnologia, Brasília, 2003.

FARR, D.F., & ROSSMAN, A.Y. Fungal Databases, Systematic Mycology and Microbiology Laboratory, ARS, USDA. Disponível em: http://nt.ars grin.gov/fungaldatabases/. Acessado em 02/10/2010.

FREIRE, F.C.O. CARDOSO, J.E. VIANA, F.M. P Doenças de Fruteiras Tropicais de Interesse Agroindustriais, p. 449-453, Embrapa Informação e Tecnologia, Brasília, 2003.

INDEX FUNGORUM. Banco de dados de táxons fúngicos. disponível em: Acesso em: 02/10/2010

JUNQUEIRA, N. T. V., CUNHA, M. M RAMOS, V. H. V. Doenças da mangueira. In: MANICA, I. (Ed.) Manga. Tecnologia, produção, agroindústria e exportação. Porto Alegre: Editora Cinco Continentes, 2001. P. 361-417

SCHOEMAN, M.H., MANICOM, B.Q., Epidemiology of Powdery Mildew on Mango Blossoms. Accepted for publication 2 November 1994. The American Phytopathological Society

STADNIK, M. J: RIVIERA, M. C; Oídios, Embrapa Meio Ambiente, Jaguariúna, São Paulo, 2001.

Um comentário:

  1. Doença da Mangueira – Mangifera indica L.
    Eric Balmer - Manual de Fitopatologia Doenças das Plantas Cultivadas Vol 2. (1980)

    OÍDIO

    Oídio, também conhecido por Cinza, é uma doença que pode causar sérios prejuízos, sendo estes decorrentes principalmente da ocorrência do agente causal sobre as inflorescências.
    A incidência de Oídio se caracteriza por um crescimento branco, pulverulento, sobre as folhas, inflorescência e frutos da mangueira. O crescimento branco notado sobre as partes mencionadas são as próprias estruturas do patógeno.
    Quando a infecção ocorre nas inflorescências, pode resultar na queda das flores, reduzindo desta forma a produção da planta.
    O agente casual da doença é oidium mangifere Bert., da classe dos fungos Imperfeitos, que corresponde, na sua fase sexuada, a erysiphe polygoni D. C., da casse dos Ascomicetos.
    Os onídios jovens do fungo germinam rapidamente e com grande facilidade em uma atmosfera úmida, estado higrométrico elevado, mesmo em ausência da água em estado liquido. As chuvas não são necessárias ao desenvolvimento dos Oídios de modo geral. A penetração do fungo nos tecidos das plantas é favorecida por toda causa que conduz a uma perda de turgescência nos mesmos. O Maximo de turgescência dos tecidos resulta, por outro lado, na maior resistência destes ao oídios. As chuvas violentas se mostram desfavoráveis ao fungo, enquanto que aos lugares abrigados são mais propícios.
    O crescimento branco sobre as partes afetadas da planta é constituído pelas estruturas do patógeno, isto é, micélio, conidióforos e conídios. O fungo retira as substancias nutritivas do hospedeiro por meio de haustórios que atravessam a cutícula e penetram nas células epidérmicas.
    Os oídios, de modo geral, são controlados mediante aplicações de enxofre, na forma de pó molhável. Para a aplicação do enxofre, deve-se evitar as horas mais quentes do dia. Outro fungicida que mostrou um bom controle para oídios, de modo geral, foi o karathane.
    Para regiões onde o Oídio da mangueira chega a construir um problema sério, pode-se recomendar 3 aplicações. A primeira aplicação devera ser feita antes da abertura das flores, a segunda após a queda das pétalas, e a última por ocasião de formação dos frutos, quando ainda novos, Ito é, 15 a 20 dias após a segunda aplicação.
    Oxitioquinox, Dinocap e Tiofanato metílico também têm sido recomendados para o controle do Oídio da mangueira, com aplicações espaçadas entre si de 15 dias, iniciando os tratamentos por ocasião do inicio do florescimento.

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