quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Doenças do Cajueiro (Anacardium occidentale L.)


Ranieri Martins Silva

Matricula: 0810722

1 INTRODUÇÃO

O cajueiro (Anacardium occidentale L.) pertence ao gênero Anacardium, família Anacardeaceae. Atualmente existem dez espécies conhecidas de Anacardium, podendo haver outras espécies, não descritas, necessitando de mais estudos na área de sistemática para melhorar a classificação taxonômica do gênero.

O cajueiro, Anacardium occidentale, é considerado, por vários pesquisadores, originário da região litorânea do Nordeste do Brasil. Alem desta, varias outras espécies do gênero encontradas na Região Norte apresentam ampla distribuição geográfica, sendo citadas em países de vários continentes (Kimati et al., 2005).

O cajueiro é nativo do nordeste brasileiro. Os colonizadores portugueses foram os responsáveis pela introdução do cajueiro em países da África Centro-Oriental e posteriormente na Índia. (Cultura, 2010).

Atualmente, o cajueiro é uma cultura de importância econômica, estimulada pela exportação do produto industrializado e pelo consumo interno. Do pseudofruto (pedúnculo hipertrofiado) são fabricados vários produtos, tais como sucos, cajuína, néctar de caju, caju em calda, caju-ameixa, caju cristalizado, geléia, doce em massa, licor, aguardente, vinagre e vinho. Do fruto (castanha), alem da amêndoa, destinada grande parte à exportação, é também extraído o LCC (líquido da castanha de caju) utilizado na indústria química para obtenção de resinas, fabricação de tintas, vernizes, esmaltes, lonas de freio para veículos, etc. (Kimati et al., 2005).

O cajueiro ocupa lugar de destaque dentre as plantas frutíferas tropicais, em face da crescente comercialização de seus produtos principais: a amêndoa e o líquido contido no mesocarpo da castanha indiscutível a importância que o caju representa para o Nordeste, como uma atividade econômica e social de grande expressão (Cultura, 2010).

O cajueiro é encontrado em quase todos os Estados da Federação, sendo que a Região Nordeste é responsável por 99,7% da produção nacional, no ano de 1984. Assim, a expressão econômica da cultura restringe-se somente ao Nordeste e, nesta Região, em termos de exploração agrícola (Cultura, 2010).

Existem, no entanto, muitos problemas na cajucultura, como sejam a baixa produtividade, pragas, e doenças, irregularidade nas precipitações pluviométricas, além da falta de uniformidade de plantio, com reflexos negativos sobre na qualidade da matéria-prima (Cultura, 2010).

O objetivo deste trabalho é identificar, descrever e apontar medidas de controle das doenças incidente em Anacardium occidentale.

2 DESENVOLVIMENTO

2.1 Doenças Causadas por Fungos

São as doenças que ocorrem com maior incidência na cultura do cajueiro.

2.1.1 Antracnose - Glomerella cingulata (Colletotrichum gloeosporioides)

A antracnose é a doença mais importante da cultura, podendo ocorrer em qualquer fase de desenvolvimento da planta. No Nordeste, a doença encontra-se disseminada em todas as áreas de cultivo do cajueiro, sendo bastante severa em épocas mais úmidas e temperaturas amenas, ao redor de 25°C (Kimati et al., 2005).

Sintomas - os sintomas da antracnose aparecem nos tecidos jovens da planta. Nas folhas, as manchas necróticas apresentam coloração pardo-avermelhada, formato irregular e de tamanho variável de acordo com o local de penetração do patógeno. Quando as manchas necróticas aparecem na margem de um dos lados da folha, esta se apresenta distorcida, com curvatura pronunciada devido ao crescimento desigual do tecido sadio em relação ao tecido afetado. Na inflorescência, os sintomas manifestam-se na forma de queima e queda de flores. É comum a formação de lesões necróticas escuras na haste floral, de formato alongado, que evoluem de modo a atingir toda a inflorescência que seca completamente (Kimati et al., 2005).

Nos ramos lesões necróticas, deprimidas, escuras, podendo apresentar fendilhamento do tecido afetado. Nos frutos, a doença pode ocorrer em todas as fases de seu desenvolvimento. Os frutos novos tornam-se escuros, deformados e atrofiados, enquanto os maduros apresentam lesões necróticas escuras, deprimidas, atingindo boa extensão da superfície e, freqüentemente, exibindo fendilhamento da área necrosada (Kimati et al., 2005).

Etiologia - O agente etiológico da antracnose é o fungo Colletotrichum gloeosporioides. Nesta fase anamórfica, produz conídios hialinos, unicelulares, em acérvulos, ou sem setas que, em condições úmidas, exibem uma massa conidial de coloração alaranjada, creme ou escura, na superfície do tecido afetado. No processo de infecção, os conídios do patógeno, em contato com a superfície do hospedeiro, germinam, produzindo apressórios que possibilitam a fixação e penetração direta em qualquer órgão da planta. A fase perfeita desse fungo é Glomerella cingulata, pertence à classe dos Ascomicetos, ordem Xylariales, família Polystigmataceae, que pode apresentar formas homotálicas (autoférteis) e heterotálicas, dando origem a peritécios contendo ascos com oito ascósporos unicelulares hialinos (Kimati et al., 2005).

O fungo sobrevive como saprófita no tecido morto, podendo ser disseminado por respingos de chuva, insetos e mudas infectadas. As condições favoráveis a sua multiplicação são a alta umidade e temperatura amena, em torno de 25°C, que ocorre nos períodos chuvosos, época favorável a doença região Nordeste do Brasil (Kimati et al., 2005).

Epidemiologia – Em condições de altas temperaturas (25°C a 28°C) e umidade elevada (acima de 80%), formam-se, sobre as lesões, massas rosadas de consistência gelatinosa contendo numerosos conídios do patógeno. Na presença de água livre de orvalho, germinam, emitindo um curto tubo germinativo, tendo na extremidade um apressório globoso, que penetra diretamente nos tecidos foliares (Duarte, 2003).

A longa distancia, a disseminação do patógeno dá-se pelo vento, que transporta esporos e folhas infectadas para os sadios. Dentro da plantação, ocorre por intermédio de respingos de chuvas ou de orvalho, que conduzem os esporos dos órgãos infectados para os sadios. Em condições de ambiente desfavorável, o fungo sobrevive como saprófita nos tecidos necrosados ou no solo (Duarte, 2003).

Controle - A antracnose do cajueiro pode ser controlada através do emprego de produtos químicos, como oxicloreto de cobre, hidróxido de cobre e mancozeb, aplicados em pulverizações iniciais quando da emissão das folhas novas, logo após as primeiras chuvas, e também durante a floração, em intervalos quinzenais. Em geral, três a quatro aplicações são suficientes para se obter um bom controle da doença. Entretanto devido a altura das plantas e desuniformidade das copas encontradas no “cajueiro comum”, o tratamento químico é feito com certa dificuldade. Todavia, no tipo varietal “cajueiro anão-precoce”, também chamado cajueiro-de-seis-meses, de porte baixo e copa uniforme, o controle químico de antracnose pode ser conduzido com alta eficiência (Kimati et al., 2005).

O uso de variedades resistentes constitui uma boa perspectiva de controle. Em condições de campo, plantas exibindo sintomas típicos de antracnose, o que sugere A ocorrência de fontes naturais de resistência. O emprego dessas plantas como matrizes para reprodução assexuada, é altamente desejável. No Nordeste, programas de melhoramento genético do cajueiro direcionados para o tipo anão-precoce vêm sendo conduzidos na Unidade de Pesquisa do Litoral - EPACE (Pacajús, Ceará) (Kimati et al., 2005).

O emprego de medidas de sanidade, como poda de limpeza e queima do material doente antes do inicio da brotação, representa uma medida de controle auxiliar de controle por reduzir o potencial de inoculo presente na área (Kimati et al., 2005).

Estudos realizados em condição de laboratórios revelaram alta sensibilidade de C. gloeosporioides à presença de algumas espécies de Trichoderma (T. harzianum, T. polysporum e T.pseudokoningii), as quais, além de inibirem o crescimento do patógeno, induziram profundas alterações morfológicas nas células das hifas do patógeno em decorrência do antagonismo. Esta informação pode ser de grande valor para realização de futuros trabalhos de pesquisa visando o biocontrole de C.gloesporioides (Kimati et al., 2005).

Produtos registrados para o controle da doença são Agrinose e Cupra 500 (Agrofit, 2010).

2.1.2 Oídio - Erysiphe polygoni (Oidium anacardii)

O oídio , também denominado cinza do cajueiro, é uma doença comum, porem de pequeno impacto econômico no Nordeste. No entanto, na África, causa sérios problemas à cultura do cajueiro, principalmente quando incide sobre a inflorescência, impedindo a formação dos frutos. A doença torna-se mais severa logo após o período chuvoso, quando a umidade relativa e a temperatura são elevadas (Kimati et al., 2005).

Sintomas - Os sinais são caracterizados por um delicado crescimento branco-acinzentado, na superfície das folhas e inflorescência, constituído por micélio, conidióforos e conídios do patógeno. O fungo emite haustórios para o interior das células epidérmicas, de onde absorvem os nutrientes. Em decorrência disto, o tecido afetado exibe pontos neuróticos, escuros, mais pronunciados na face inferior da folha. Com a evolução dos sintomas, pode ocorrer a queda prematura de folhas e flores. O patógeno pode penetrar no tecido da planta em qualquer fase de seu desenvolvimento (Kimati et al., 2005).

Etiologia - O agente causal é o fungo Oidium anacardii. Seus conídios hialinos são produzidos em conidióforos curtos, em cadeias eretas, formando um ângulo reto com a superfície do hospedeiro. Na fase perfeita ou teleomórfica, Erysiphe polygoni, forma cleistotécios escuros, dotados de apêndices, sobre o micélio superficial, contendo vários ascos e, dentro destes, ascósporos hialinos e unicelulares (Kimati et al., 2005).

O patógeno pode ser facilmente disseminado pelo vento e pelos insetos. Como o crescimento é superficial, chuvas pesadas removem o micélio do limbo foliar ou de qualquer outro órgão afetado. As condições que favorecem a doença são alta umidade relativa, sem ocorrência de chuva, e temperatura em torno de 28 °C (Kimati et al., 2005).

Epidemiologia - O. anacardii pode ser encontrado sobre plantas de cajueiro durante todo o ano, não obstante exerça sua patogênese com maior intensidade de julho a dezembro, quando as temperaturas variam de 23 a 32° C. Mesmo durante este período, normalmente a época mais seca no Nordeste, a umidade relativa pode chegar a atingir 80%, facilitando a patogênese do fungo. Os conídios são disseminados pelo vento e requerem 90 a 100% de umidade relativa para a germinação e uma faixa ótima de temperatura de 26 a 28 °C. A partir de janeiro, caso se inicie o período chuvoso, somente é possível encontrar o fungo em folhas do interior da copa, protegido da insolação e da chuva (Stadnik et al., 2001).

Ao contrario do que ocorre no Brasil, nos paises africanos é, mais comum o fungo infectar órgãos jovens, provocando quase sempre efeitos devastadores na produção. Após o período chuvoso o patógeno atinge seu pico populacional na África, geralmente de junho a setembro, afetando folhas, brotações, inflorescências e maturis (o conjunto pseudofruto + castanha jovem). Mudas e plantas jovens mostram-se extremamente suscetíveis (Stadnik et al., 2001).

Controle - O controle do Oídio do cajueiro pode ser feito com aplicações de benzimidazóis espaçadas de 15 dias. Duas aplicações são eficientes para eliminar o patógeno da superfície do órgão afetado, desde que a pulverização tenha atingido toda a copa da planta. Fungicidas a base de enxofre também são eficientes no controle da doença, tendo-se o cuidado de não aplicar o produto nas horas quentes do dia devido a problema de fitotoxidez (Kimati et al., 2005).

Não existem produtos registrados para o controle da doença do O. anacadii (Agrofit, 2010).

2.1.3 Mancha De Pestalotia - Pestalotiopsis guepinii (Sin. Pestalotia guepinii)

A mancha de pestalotia, também chamada “pestalosiose”, é de ocorrência comum e geralmente associada à antracnose. A importância da mancha de pestalotia é secundaria, embora ocorra praticamente durante o ano todo mascarada pela antracnose (Kimati et al., 2005).

Sintomas – Os sintomas são caracterizados por manchas necróticas pequenas, aproximadamente, circulares quando distribuídas no limbo foliar, e maiores, quando localizados no ápice ou bordo da folha. As manchas são de coloração pardo-acinzentada, com bordo mais escuro em relação à parte central. Em condições favoráveis ao desenvolvimento da doença, ocorre coalescencia de lesões. Na área foliar afetada, em condições mais úmidas, são observadas pontuações escuras, representadas pelos acérvulos do fungo. Os frutos também podem ser afetados, apresentando lesões necróticas escuras e deprimidas (Kimati et al., 2005).

Etiologia – O agente causal da doença é Pestalotiopsis guepinii. O patógeno forma acérvulos no tecido afetado, produzindo conídios com cinco células, sendo as três medianas de cor marrom-olivácea e as das extremidades, hialinas. A célula apical apresenta dois ou mais apêndices hialinos e a basal, somente um. O ascomiceto do gênero Pestalosphaeria, que apresenta ascos cilíndrico, pedicelo curto e ápice amilóide, com ascósporos tricelulares, sendo a célula mediana marrom e as das extremidades hialinas, sem apêndices, é, possivelmente, o teleomorfo do agente causal da doença (Kimati et al., 2005).

Condições de umidade elevada e alta temperatura favorecem o desenvolvimento dos sintomas. Os conídios são produzidos em abundancia nos acérvulos, podendo ser facilmente disseminados, principalmente pelo vento, insetos e respingos de chuva (Kimati et al., 2005).

Epidemiologia – A doença é comum no fim da época da seca, com temperaturas diurnas altas (28°C a 32ºC) e noturnas amenas (19°C a 22°C). A disseminação dá-se pelo vento e por ácaros, de ocorrência freqüente na época menos chuvosa (Duarte, 2003).

Controle – Como a pestalosiose, na maioria das vezes, esta associada à antracnose, podem ser empregados os mesmos produtos químicos, o que possibilita o controle simultâneo das duas doenças (Kimati et al., 2005).

Não existem produtos registrados para o controle de Pestalotiopsis guepinii (Agrofit, 2010).

2.1.4 Mancha de Phomopsis - Phomopsis anacardii - O agente causal da doença foi relatado como uma nova espécie atacando folhas de cajueiro no Kênia, Nigéria, Guiné e Cuba. No Brasil, mais precisamente no Nordeste, a mancha de Phomopsis foi detectada em material coletada em Fortaleza (CE), João Pessoa (PB) e Recife (PE). Os sintomas podem ser observados nas folhas e inflorescência do cajueiro. Nas folhas, são formadas pequenas lesões necróticas, circulares, de aproximadamente 3,0 mm de diâmetro, coloração pardo-escura com halo amarelo, distribuídas na superfície do limbo. Na inflorescência, ocorre a queima e queda de flores, podendo ser estes sintomas confundidos com a antracnose. Na haste floral morta, podem ser visualizados, com o auxilio de uma lupa, os picnídios. O fungo Phomopsis anacardii, no meio de BDA, apresenta coloração creme esbranquiçada, com picnídios escuros, distribuídos na superfície da colônia. O exame dos picnídios ao microscópio mostra a presença de conídios alfa e beta, hialinos, unicelulares, sendo o conídio alfa fusiforme medindo 5-9 x 2-2,5µm, e o beta filiforme, com uma das estremidades curva, medindo 20-25 x 0,5 µm. A doença é observada após o período das chuvas, quando a umidade do ar e a temperatura são elevadas (Kimati et al., 2005).

2.1.5 Mofo Preto - Perisporiopsella anacardii (Diploidium anacardiacearm) - Este fungo cresça na superfície inferior da folha, onde forma uma massa escura. Emite haustório para dentro do tecido foliar, o que leva ao aparecimento de manchas cloroticas, que se tornam necrosadas. Produz conídios castanhos, ovalados, com um septo central. Embora de ocorrência freqüente, principalmente em períodos úmidos e quentes, há escassez de estudos sobre a doença (Kimati et al., 2005).

2.1.6 Fumagina - Capnodium spp - A fumagina é caracterizada por um revestimento preto, de aspecto fuliginoso, cobrindo a superfície da folha. Sua freqüência esta associada a presença de coccídeos que secretam substancias açucaradas nas folhas da qual o fungo se nutre. Esta fuligem pode ser facilmente removida da folha. As espécies de Capnodium (C. brasiliense, C. citri e Capnodium sp.) interferem no processo fotossintético, prejudicando o metabolismo normal da planta. A doença pode ser controlada, indiretamente, por meio de controle de cochonilhas com óleo mineral+produto químico fosforado (Kimati et al., 2005).

2.1.7 Mancha de Alga - Cephaleuros virescens (Sin. C. mycoidea) - A mancha de alga é mais frequentemente em condições de temperatura e umidade elevadas, ocorrendo principalmente nas folhas mais sombreadas da planta. As manchas são distribuídas na face ventral do limbo foliar, apresentando um formato circular, de coloração alaranjada ou ferruginosa, e de aspecto saliente, semelhante a feltro. Com a idade, a mancha apresenta uma superfície lisa e de coloração pardo-acinzentada. Como sua ocorrência esta associada a locais mais sombreados da copa, a realização de podas desfavorece o agente causal da mancha, por emitir melhor arejamento da planta e penetração de raios solares na copa (Kimati et al., 2005).

2.1.8 Podridão de Sclerotium - Athelia rolfsii (Sclerotium rolfsii) - A doença foi relatada em condições de viveiro, causando lesões necróticas no colo de plantas de um a três meses de idade. No tecido necrosado pode ser observada a presença de estruturas do patogeno, representadas por um micélio branco bem desenvolvido e escleródios, inicilamente brancos e que se tornam escuros quando maduros. Como sintomas reflexos da doença, ocorrem murcha e morte da planta. O teleomorfo Athelia rolfsii (sin. Pellicularia rolfsii) pertence à classe dos Basidiomicetos. Produz basidiósporos unicelulares hialinos em basídeas não-septadas. Tratamentos erradicantes no solo do viveiro constituem-se eficientes medidas de controle (Kimati et al., 2005).

2.1.9 Resinose - Lasiodiplodia theobromae (Sin. Botryodiplodia theobromae) - A resinose é caracterizada por uma coloração escura dos tecidos da casca e do câmbio vascular, com exsudação de goma em casos avançados da doença. Na região Nordeste estes sintomas estão frequentemente associados com o corte da planta para substituição e uniformização da copa. Como conseqüência, há ocorrência de murcha e morte das brotações emergentes, cuja base apresenta-se necrosada e escura. No tecido afetado, são visíveis os sinais do patógeno. O agente causal, Lasiodiplodia theobromae, é considerado sinonímia de Botryodiplodia theobromae, fase anamórfica de Botryosphaeria rhodina. É um fungo comum em áreas tropicais e já foi relatado em vários hospedeiros (cacau, algodão, café, manga, mamona, amendoim, etc.). Na Nigéria, o patógeno ocorre causando “dieback” do pedúnculo floral, havendo a morte e escurecimento do tecido da extremidade para a base. Os frutos imaturos afetados tornam-se escuros e podem permanecer presos à planta por varias semanas. A doença prevalece durante o período de florescimento do cajueiro. Lasiodiplodia theobromae, no meio de BDA, forma micélio cinza-escuro e picnídios também escuros distribuídos na superfície da colônia. Os picnídios, quando fisiologicamente maduros, apresentam dois tipos de conídios: unicelulares hialinos e bicelulares escuros dotados de parede espessa (Kimati et al., 2005).

A disseminação do patógeno é facilitada pelo instrumento de corte utilizado na substituição de copa. Tentativa de controle foi efetuada mediante uso de produtos químicos no pincelamento do tronco após o corte, onde a combinação benzimidazol, óleo e oxicloreto de cobre mostrou efeito promissor quando comparado com os dois fungicidas isoladamente (Kimati et al., 2005).

2.1.10 Queima de Mudas - Phytophthora spp. - A queima de mudas de cajueiro ocorre na Região Nordeste, onde inicialmente foi constatada em viveiros da Estação Experimental de Pacajús-CE (EMBRAPA-CNPAT), em fevereiro de 1995. Um dos agentes causais foi identificado como Phytophthora heveae. Posteriormente, a doença foi registrada em alguns municípios dos Estados do Piauí, Rio Grande do Norte e Alagoas. Na Índia, há relatos da ocorrência da damping-off causado por Phytophthora palmivora em plantas de viveiros e também de Phytophthora nicotinae em plantas de adultas induzindo necrose de brotações jovens e quedas de folhas. Em geral, os sintomas induzidos nas plantas de viveiros são caracterizados por lesões necróticas do pecíolo caule e queima foliar rápida, podendo resultar na morte das mudas. Quando o patógeno incide no sistema radicular ou na região da base do caule, ocorre amarelecimento e murcha da planta, podendo ser seguido de tombamento e morte. Na EMBRAPA/CNPAT, o controle da doença foi inicialmente efetuado através da eliminação das mudas mais afetadas e aplicações do fungicida metalaxyl, na proporção de 1g do produto químico/1L de água. Atualmente, a mudança no sistema de plantio permitiu a redução dos patógenos nos viveiros. Esta mudança consistiu na produção de mudas em tubetes, enxertadas com borbulhas e mantidas a pleno sol, com irrigação controlada (Kimati et al., 2005).

2.1.11 Bolor Verde - Penicillium digitatum - O bolor verde é uma doença de pos colheita, ocorrendo durante o armazenamento dos frutos. Caracteriza-se pela presença de um crescimento verde-oliváceo que reveste a amêndoa, tornando-a ressequida com perda de peso e óleo (Kimati et al., 2005).

2.2 Doenças Causadas por nematóides

2.2.1 Nematose - Xiphinema sp., Criconemoides sp. e Scutellonema sp. - Os nematóides citados foram encontrados associados a rizosfera do cajueiro, havendo relato de que Xiphinema sp. parasita as raízes mais finas, causando lesões necróticas. Entretanto, no presente momento, nada se sabe o efeito desses organismos na redução da produção e produtividade do cajueiro. É possível que o parasitismo desses nematóides em plantas de viveiro resultem em maior dano, pois o volume do sistema radicular é bem menor comparado ao da planta adulta (Kimati et al., 2005).

3 PRINCÍPIOS GERAIS DE CONTROLE

Na busca de controlar as doenças tanto primaria quanto secundaria com aplicação de produtos químicos, evitar o uso irracional de agrotóxicos no cajueiro, em função do risco de contaminação de mananciais e de seus produtos. O controle de pragas e doenças deve ser feito através de práticas de manejo integrado, com prioridades para controle biológico, buscando a associação de métodos que sejam eficientes no controle.

Para se ter o máximo de eficiência, precisa-se de ter conhecimentos da etiologia da doença; conhecimentos quanto às condições climáticas e culturais favoráveis à ocorrência da doença; conhecimento do ciclo das relações patógeno-hospedeiro; eficiência dos métodos de controle disponíveis.

Princípios de Whetzel (Whetzel et al, 1925; 1929): exclusão; erradicação; proteção; imunização; terapia.

Princípio de Marchionato (1949) – Princípio da regulação e da evasão (tática de fuga).

Os princípios gerais de controle são:

· Evasão (ambiente e patógeno) – fuga

Visa à prevenção de doenças através de táticas de fuga dirigidas contra o patógeno e/ou contra o ambiente favorável ao desenvolvimento da doença; na ausência de variedades resistentes, constitui-se na primeira opção de controle de doenças.

· Regulação (ambiente) - interferir no ambiente

Possibilita o controle de doenças bióticas e abióticas. A eficiência depende do grau de influência de um determinado fator ambiente no desencadeamento do processo patológico e/ou epidemiológico; Depende da possibilidade de controle deste fator.

· Terapia (hospedeiro) - remediar o tecido doente

Visa restabelecer a sanidade de uma planta com a qual o patógeno já estabelecera uma íntima relação parasítica, mediante a eliminação do patógeno infectante; melhoria das condições de reação das plantas.

· Proteção (hospedeiro) – prevenção

Visa à prevenção do contato do patógeno com o hospedeiro, mediante uso de fungicidas, bactericidas ou inseticidas (controle de vetores). A eficiência depende da: toxidez inerente do fungicida; estabilidade; época, dose e número de aplicações; condições operacionais.

· Imunização (hospedeiro) - tornar biologicamente resistente

Baseia-se no desenvolvimento de plantas resistentes visando o seu cultivo em área infestada com o patógeno. Tipos de imunização: imunização genética - variedades imunes, resistentes ou tolerantes; imunização química - fungicidas sistêmicos e indutores de resistência; imunização biológica – pré-imunização ou proteção cruzada.

· Exclusão (patógeno) - prevenir a entrada

Visa à prevenção da entrada e estabelecimento de um patógeno em área ainda indene.

Modo de aplicação da Exclusão: através da proibição, fiscalização e interceptação de plantas e/ou partes vegetais, quando necessário; visa, essencialmente, impedir a entrada de patógenos de alto potencial destrutivo, através de medidas quarentenárias e legislações fitossanitárias, promulgadas por órgãos governamentais, nacionais e internacionais.

· Erradicação (patógeno) - eliminação completa do patógeno

Visa à eliminação de um patógeno de uma determinada área ou região. A viabilidade depende de: espectro de hospedeiros; capacidade de disseminação; viabilidade econômica. Pode ter conotação ampla e restrita.

O Manejo Integrado envolve três aspectos principais: 1- determinar como o ciclo vital de um patógeno precisa ser modificado, de modo a mantê-lo em níveis toleráveis, ou seja, abaixo do limiar de dano econômico; 2- combinar o conhecimento biológico com a tecnologia disponível para alcançar a modificação necessária, ou seja, exercer a ecologia aplicada; 3- desenvolver métodos de controle adaptados às tecnologias disponíveis e compatíveis com aspectos econômicos e ecológico-ambientais, ou seja, conseguir aceitação econômica e social.

O “Manejo integrado da cultura” envolve todas as atividades do sistema de produção e é composto por diversas atividades de manejo, cada uma focalizando um aspecto particular do sistema, como manejo integrado de pragas, manejo integrado de nutrientes, manejo integrado da água, etc. O manejo integrado da cultura trata do manejo do sistema de produção e visa melhorar o uso dos recursos naturais, reduzir o risco para o ambiente e maximizar a produção. Os objetivos de um determinado sistema de manejo são dependentes dos recursos naturais, socioeconômicos e tecnológicos e de suas inter-relações. Seja qual for o sistema a ser adotado, se manejo integrado de pragas e doenças ou um sistema mais abrangente de manejo integrado da cultura, o que se procura é a obtenção de: 1- maior estabilidade da produção; 2- padronização de procedimentos de controle integrado; 3- exploração de novas áreas agricultáveis ou a exploração de áreas velhas com novas culturas; 4- maiores rapidez e flexibilidade na resposta a surtos epidêmicos de pragas e patógenos; 5-menor agressão ao meio ambiente.

3.1 Fatores Relacionados ao Clima

Os fatores do clima que mais se relacionam com a incidência e a severidade das doenças no caju são: temperatura, precipitação pluviométrica, umidade relativa, duração do molhamento foliar e ventos fortes. Antes da implantação do pomar, torna-se importante consultar publicações sobre o zoneamento agroclimático da região. Regiões onde predominam clima quente e estresse hídrico desfavorecem doenças denominadas antracnoses.

Controle da Antracnose: a) Realizar uma poda de limpeza no fim do período chuvoso e antes do início do fluxo foliar, cuidando para não eliminar os ramos produtivos. b) Eliminar e queimar os ramos e folhas mais atacados ou secos. c) Manter os viveiros longe de plantas doentes d) Pulverizar com fungicidas registrados no Ministério da Agricultura, durante o período de floração e a fase inicial de frutificação. O numero e intervalos de aplicação serão definidos de acordo com o nível de infecção e prevalência. e) condições climáticas favoráveis a doença.

Controle do Oídio: a) Criar microambiente desfavorável á doença através de podas fitossanitárias feitas em tempo adequado e sob recomendação dum técnico devidamente formado. b) Utilizar em doses e época apropriada: o uso de fungicidas no oídio do cajueiro começou com três produtos: enxofre em pó, anvil e bayfidan Todavia, empresas distribuidoras e INIA continuam a trabalhar no sentido de baixar o custo dos tratamentos. Assim, novos produtos e técnicas de utilização são divulgados em cada ano. Consulte o agrofit sobre o registro para utilizar fungicidas. c) O maneio do oídio é mais eficaz quando uma grande comunidade contínua adere ao programa do maneio, assim influenciar o vizinho para adotar as técnicas de maneio pode ser benéfico para ambos. d) Porque o maneio do oídio pode levar á produção de muita castanha limpa, outros problemas podem surgir: insetos sugadores a antracnose são comuns, então esteja atento às formas de maneio dos problemas que possam surgir.

3.2 Fatores relacionados ao Solo – Impedimento Físico

Solos com deficiência de drenagem e com impedimento físico devem ser evitados. O acúmulo de umidade favorece patógenos habitantes do solo como espécies de Phytophthora e Pythium.

3.3 Fatores Relacionados ao Solo – Impedimento Químico (Acidez e Baixa Fertilidade)

Solos ácidos devem ser corrigidos de acordo com as exigências da cultura, antes da implantação. Após, a cada dois anos deve-se fazer análise do solo para saber se necessita ser corrigido ou não com calcário. Entretanto, deve-se tomar o cuidado com a quantidade de calcário a ser empregada.

Excesso de calcário (pH >7,0) indisponibiliza a maioria dos micronutrientes, altera a fauna e flora do solo e pode tornar as plantas suscetíveis a determinadas doenças. Solos com baixo teor de fósforo devem receber fosfatagem em toda a área, antes do plantio, pois, após o plantio, essa correção torna-se difícil devido à sua baixa mobilidade.

3.4 Emprego de Mudas de Baixa Qualidade

A qualidade genética ou fitossanitária da muda reflete diretamente na qualidade e no sucesso do pomar. As mudas podem disseminar doenças que podem inviabilizar o pomar, como nematóides, bactérias, fungos de solos, e doenças foliares. Dessa forma, o produtor, ao adquirí-las, deve exigir o certificado fitossanitário de origem;

3.5 Plantio de Cultivares Susceptíveis a Doenças e não adaptadas à Região

Para escolher uma cultivar bem adaptada, o produtor deve levar em consideração, além do clima e o solo, a altitude e os estádios fenológicos da planta. Caso o alvo para a doença sejam flores ou frutos, a variedade/cultivar escolhida deve florar e desenvolver os frutos no período mais seco e/ou frio do ano, mesmo que haja necessidade de podas programadas.

3.6 Monocultura

A monocultura facilita a proliferação e a disseminação de doenças. Sistemas de policultivos ou sistemas de cultivos integrados ou consorciados entre culturas diferentes ou entre cultivares geneticamente heterogêneas, diversificam e aumentam as populações de vertebrados, artrópodes não pragas e de microrganismos não patogênicos no rizoplano e fitoplano. Muitos desses organismos são benéficos por serem simbiontes, predadores de pragas e de agentes fitopatogênicos. (Nas entrelinhas pode se cultivar muitas outras culturas que tem o ciclo diferenciado e ataque de pragas diferentes).

3.7 Método do Sistema de Irrigação

O sistema de aspersão ou pivô central não adequado para fruteiras por molhar a parte aérea da planta, acarretando problemas na polinização e aumentando a incidência de doenças. Por outro lado, reduzem a população de ácaros. Estes sistemas lavam os defensivos e fertilizantes foliares, fazendo com que os intervalos de aplicação sejam reduzidos, aumentando, dessa forma, o volume de defensivos e o custo de produção. Neste caso, para reduzir a incidência ou severidade das doenças, recomenda-se que a irrigação seja feita pela manhã para dar tempo suficiente para as folhas secarem antes da noite. O sistema de microaspersão distribui bem a água, mas aumenta a incidência de ervas daninhas. O sistema de gotejamento não distribui bem a água e aumenta a incidência de podridão de raízes, caso os emissores sejam colocados muito perto do tronco. O excesso de água durante a irrigação aumenta a incidência de doenças e lixívia os nutrientes.

3.8 Desconhecimento da Epidemiologia das Doenças

Conhecer o ciclo e a epidemiologia da doença é de extrema importância no seu controle e na redução do uso de agroquímicos. Sabe-se que a incidência de antracnose ocorre de dezembro a março. Dessa forma, as pulverizações devem ser feitas somente nesse período. Sabe-se também que o patógeno sobrevive durante o período seco, em ramos mortos e frutos secos caídos ou remanescentes na planta. A eliminação destes restos de cultura vai diminuir a densidade do inóculo primário da doença.

4 CONCLUSÃO

Conhecimentos sistematizados ou contidos em literatura especializada sobre doenças do cajueiro e métodos de controle ainda são escassos no Brasil, e os que existem são poucos acessíveis, principalmente para os pequenos produtores. Na falta ou insuficiência de informações confiáveis, os cajuicultores adotam alguns produtos químicos para combater doenças, com resultados muitas vezes danosos do ponto de vista social e econômico. Quando usados de maneira inadequada, esses produtos colocam em risco a saúde dos agricultores e dos consumidores de caju, além de causar danos ao meio ambiente.

Conhecendo as doenças que afetam o caju, através de seus sintomas, identificação do agente causal e sua etiologia e conhecendo também a epidemiologia, podemos traçar estratégias de manejo para controle desses patógenos, usando táticas que beneficiarão para o sucesso da produção do pseudofruto.

O uso de variedades resistentes à pragas e doenças, observação de fatores climáticos adversos que possam colocar em risco a lavoura, o manejo da irrigação, são peças chave no manejo da cultura e para o melhoramento de populações produtoras de frutos de caju, objetivando o melhor desenvolvimento e aproveitamento da lavoura, menor custo com insumos, maior lucro do produtor, adaptadação à situações adversas, principalmente as edafoclimáticas predominantes em uma determinada região produtora.

O controle de doenças de plantas é o mais importante objetivo prático da fitopatologia. O controle visa à redução na incidência e na severidade e deve ter conotação econômica e biológica.

5 LITERATURA CITADA

AGROFIT, , acessado em outubro de 2010.

CULTURA, a cultura do cajueiro , acessado em outubro de 2010.

DUARTE M.L.R., Doenças de plantas no Trópico Úmido Brasileiro, Embrapa informação Tecnológica, Brasília DF., 2003.

H. KIMATI; L. AMORIN; J. A. M. REZENDE; A. BERGAMIN FILHO; L. E. A. Camargo Manual de Fitopatologia 4. ed.,São Paulo: Agronômica Ceres, 2005.

STADNIK. M.J.; RIVERA. M. C., Oídios /[Eds.]: Embrapa Meio Ambiente, Jaguariúna SP., 2001.

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