terça-feira, 6 de agosto de 2013

Trabalho acadêmico da Disciplina de Microbiologia II: SINTOMATOLOGIA, EPIDEMIOLOGIA E CONTROLE DE Heliobacter sp.

Ariane Guimarães
Acadêmica do Curso de Ciências Biológicas


INTRODUÇÃO

 

Em 1983, foram detectados bacilos negativos que assemelhavam-se a  Campylobacter em pacientes que sofrem de gastrite tipo B (inflamação crônica do antro gástrico). Estes organismos foram classificados no início como Campylobacter, mas posteriormente reclassificados como um novo gênero, Helicobacter.

Atualmente são reconhecidas 23 espécies, das quais duas têm sido isoladas exclusivamente do homem (H. fennelliae, H westmeadii) e dez com potencial para infectar homem e animais (caráter zoonótico). As outras espécies têm sido isoladas de diversas espécies de mamíferos e aves. Das espécies que podem ser encontradas em associação com processos infecciosos do homem, quatro encontram-se associadas com o epitélio gástrico (H. pylori, H. felis, H. bizzozironi e H. heilmannii). As outras oito se encontram em associação com o epitélio intestinal.

A bactéria Helicobacter coloniza o trato gastrointestinal superior, especificamente o estômago, provocando lesões na mucosa gástrica, dando início a gastrite, úlceras e até câncer (COUTO, 2001). Das espécies do gênero Helicobacter, a H. pylori é a principal espiroqueta localizada na mucosa gástrica humana, podendo ser encontrada também em animais (COUTO, 2001).

A Helicobacter pylori é a espécie tipo do gênero e foi isolada, pela primeira vez, da mucosa gástrica do homem, em 1982, por Marshall e Warren. Originalmente foi denominado como GCLO (gastric Campylobacter like organism). C. pyloridis, C. pyloricus e C. pylori, recebendo, em 1889, o nome definitivo de Helicobacter pylori.

A infecção se dá pelas vias gastro-oral e/ou fecal-oral, podendo ser sintomática ou assintomática. Taxas de infecções atuais variam de nação à  nação sendo o índice mais elevado em países em desenvolvimento  (BLASER, 2005).

O presente trabalho tem como objetivo apresentar informações a respeito da sintomatologia, epidemiologia e controle de Heliobacter sp.

 

DESENVOLVIMENTO

 

Fisiologia e Estrutura

As espécies de Helicobacter são classificadas por meio da análise da sequência de seus genes 16S rRNA, a composição de sua gordura e presença celular de flagelos polares. A H. pylori é muito móvel (motilidade saca-rolhas) e sintetiza muitas moléculas de urease. O crescimento de H. pylori e Helicobacter requer um  meio complexo complementado por sangue, soro, carvão vegetal, amido ou gema de ovo, condições microaeróbicas (baixa de oxigênio e dióxido de carbono aumentada) e um intervalo de temperatura de 30 ° C a 37 ° C.

 

Fatores de Virulência

A maioria das pesquisas sobre os fatores de virulência Helicobacter tem se concentrado em H. pylori. Múltiplos fatores envolvidos na inflamação gástrica, rompimento da produção de ácido gástrico e destruição dos tecidos  são características da doença de H. pylori. A colonização inicial é facilitada por: 1) inibição da  produção de ácido por inibição da proteína bacteriana ácido, e 2) a neutralização do ácido gástrico pela amoníaco gerado pela atividade de urease bacteriana. A atividade da urease bacteriana é aumentada por uma proteína de choque térmico (HspB) que é co-expressa com urease na superfície da bactéria. Células de Helicobacter possuem mobilidade elevada podendo penetrar no muco e aderir às células epiteliais gástricas. Dano tecidual localizado é mediado por resíduos de urease, mucinase, fosfolipases
e formando vacúolos que danificam as células epiteliais e, em conjunto com o urease e lipopolissacarídeo bacteriano, estimulam a resposta inflamatória.

 

Motilidade

É considerada fator de colonização, pois a alta motilidade conferida pelos flagelos e mencionada no tópico anterior, permite á bactéria atravessar rapidamente a camada viscosa de muco que recobre o estômago, para atingir a superfície epitelial e as criptas. Dessa forma, evita, também, o efeito destrutivo do suco gástrico, bem como resiste ás contraturas musculares do estômago.

 

Epidemiologia

Desde 1984, quando foi isolado pela primeira vez este organismo na cultura, reuniu-se uma grande quantidade de informações sobre a prevalência do H. pylori (MURRAY, 2007). É uma bactéria de distribuição mundial que tem sido isolada somente do epitélio gastroduodenal do ser humano. Não sendo reconhecidos reservatórios animais ou ambientais, embora existam evidências da colonização do epitélio gástrico de gatos e macacos (TRABULSI, 2008).

A taxa de portadores é  alta nos países em desenvolvimento, em que 70% a 90% da população é colonizado, mais antes dos 10 anos. Ao contrário disto, em países desenvolvidos como os EUA observou-se que o incidência de colonização por H. pylori em indivíduos saudáveis ​​é relativamente baixo na infância, mas aumenta para cerca de 45% em adultos. Esses estudos também demonstraram que 70% a 100% dos pacientes com gastrite, úlceras gástricas e duodenais estão infectados por FI. pylori. Acredita-se que a diferença nas taxas de colonização entre países em desenvolvimento e países desenvolvidos é devido às melhores condições de higiene do último. O ser humano é o principal reservatório do H. pylori, e transmissão provavelmente segue uma rota fecal-oral. Assim, espera-se que diminua o risco de colonização com melhoria das condições de higiene (MURRAY, 2007).

 

Doenças Clínicas

Espécies de Helicobacter são subdivididos em helicobacteria gástrica (como H. pylori) e entérico helicobacteria (conforme H. cinaedi, H. fennelliae, H. canis, H. canadensis, H. pullorum). A doença associada com Helicobacter apresenta relação direta com a localização da colonização. Por exemplo, H. pylori está associada com gastrite, enquanto espécies entérico originam gastroenterite.

Há agora uma grande experiência clínica que H. pylori é o agente causador em praticamente todos os casos de gastrite tipo B. Estes sinais incluem: 1) quase 100% de associação entre a gastrite e infecção pelas bactérias, produção 2) de infecção experimental em animais e seres humanos, e 3) a resolução das alterações patológicas histológicas ao utilizar um tratamento específico para a erradicação do organismo (MURRAY, 2007).

 

Sintomatologia

A grande maioria dos pacientes contaminados pelo H. pylori não apresenta qualquer tipo de sintoma ou complicação. Há cepas da bactéria mais agressivas e há cepas mais indolentes, o que explica, em parte, a ocorrência de sintomas apenas em poucas pessoas contaminadas. O Helicobacter pylori em si não causa sintomas. Os pacientes contaminados com H. pylori que apresentam queixas o fazem pela presença de gastrite ou úlceras pépticas provocadas pela bactéria. Nestes casos, os sintomas mais comuns são: dor ou desconforto, na parte superior do abdômen; sensação de inchaço barriga; saciação rápida da fome. No caso de úlceras, os seguintes sinais e sintomas também são comuns: náuseas ou vômitos, fezes escuras, anemia (GOODMAN, 2005).

Diagnóstico

O diagnóstico pode ser realizado por métodos invasivos e não-invasivos.

§  métodos invasivos

È feito a partir de amostras de biópsias gástricas ou duodenais obtidas por endoscopia.

§  observação  microscópica direta

A coloração pelo Gram destas amostras revela os típicos bacilos Gram-negativos curvos, os quais também podem ser pesquisados utilizando-se outros corantes como o alaranjado de acridina, brometo de etídio e coloração com prata, como é o método de Warthin-Starry (TRABULSI, 2008).

§  urease

Uma prova rápida, presuntiva, muito difundida na prática clínica, é a pesquisa da urease no tecido gástrico. Faz-se depositando uma porção da biópsia num tubo contendo 0,5 ml de uréia de Christensen. A urease presente no tecido hidrolisa a uréia, e o meio muda de cor, do amarelo ao vermelho. Esta prova pode ser positiva em mais de 60% dos casos nos primeiros 15 minutos, aumentando a positividade até 90% depois de três horas de incubação. Kits comerciais também estão disponíveis para realizar esta prova.

§  histologia

O estudo histopatológico da biópsia permite diagnosticar a inflamação da mucosa bem como as diferentes formas de gastrite e os processos metaplásicos, mas também, permite observar a presença da bácteria.

§  cultura

A cultura deve ser feita o mais rápido possível após a obtenção da biópsia, para se evitar a perda da viabilidade, pela dessecação ou pelo efeito nocivo do oxigênio sobre o H. pylori.

§  métodos não-invasivos

Estes correspondem a métodos diagnósticos que utilizam amostras obtidas sem necessidade de recorrer á obtenção de biópsia gástrica.

§  teste do bafo ou da uréia marcada

Visando a realização de um diagnóstico não-invasivo do H. pylori foi desenvolvida a técnica do bafo (urea breath test) através da qual os pacientes ingerem uma quantidade conhecida de uréia marcada com carbono radioativo (*C13 ou *C14). Trinta minutos depois da ingestão é medida a relação *C/C no ar exalado pelos pacientes. Nas pessoas infectadas com H. pylori detecta-se aumento significativo de *CO2 (TRABULSI, 2008).

SOROLOGIA

Uma vez que existe estreita correlação entre a presença da bácteria e o desenvolvimento de anticorpos séricos, vários testes sorológicos têm sido utilizados com fins diagnósticos. Um dos mais utilizados é a técnica de ELISA empregando diversos antígenos somáticos na pesquisa dos anticorpos específicos. Também têm sido utilizados como antígenos a urease e a citotoxina VacA produzidas pelo H. pylori. A PCR ("Polymerase chain reaction") tem sido proposta e utilizada na demonstração do genoma desta bactéria em amostras de saliva.

Mas recentemente, têm sido desenvolvidos vários testes que procuram antígenos de H. pylori nas fezes, os quais são muito utilizados em controle de tratamento (TRABULSI, 2008).

 

Tratamento

Foram avaliados vários regimes de antibióticos no tratamento de infecções de FI. pylori. A maior taxa de sucesso na cura de gastrite ou a úlcera péptica tem sido alcançado através da combinação um inibidor da bomba de protões (por exemplo, omeprazol), com um ou mais (por exemplo, antibióticos, tetraciclina, claritromicina, amoxicilina, metronidazol).

Atualmente são utilizados vários esquemas de tratamento; No entanto, o tratamento com a combinação de tetraciclina, metronidazol, bismuto e omeprazol durante 2 semanas está associada a uma taxa mais elevada de erradicação de 90% (MURRAY, 2007).

 

Prevenção

A forma mais eficaz de prevenir a infecção seria o desenvolvimento de uma vacina.  Postula-se que uma vacina ideal seria terapêutica, bem tolerada, segura, de fácil administraçãoo e capaz de previnir ou reduziir a infecção a níveis de 50% ou menos nos vacinados. Atualmente, estão sendo pesquisados vários antígenos, bem como modelos animais para o desenvolvimento de vacinas. Porém, enquanto uma vacina não estiver disponível, o conhecimento da epidemiologia da bácteria em diferentes partes do mundo permitirá proposta de estrátegias eficazes de prevenção de infecção (MURRAY, 2007).

 

 CONCLUSÕES

 

Conclui-se que a Helicobacter é um gênero de bactérias com distribuição universal e morfologicamente corresponde a um bacilo Gram-negativo curvo ou espiralado, que possui entre quatro e oito flagelos envelopados com bulbo terminal, com crescimento lento e que requer uma atmosfera de microaerófilia estrita a temperatura ótima de 37Cº para se desenvolver.

Acometem humanos e animais; coloniza o trato gastrointestinal superior, especificamente o estômago, provocando lesões na mucosa gástrica, dando origem a gastrite, úlceras e até câncer.

 
Referências Bibliográficas

BLASER, M. J.; Scientific América  Brazil; Espécie em extinção no estômago; mar/2005; p. 68-75.

COUTO, C. G.; NELSON, R. W.; Medicina Interna de pequenos animais –  2ª Ed.; Guanabara – Koogan; Rio de  Janeiro – RJ; 2001; p. 332 – 335.

JONES, T. C.; HUNT, R. D.; KING, N.  W.; Patologia Veterinária; 6ª Ed.; Monolli; Barueri – SP; 2000; p. 442 – 444.

MURRAY, Patrick R. et al. Microbiología médica. 5ª ed. Elsevier, 2007.

TRABULSI, L. R. Microbiologia. 5ª ed. São Paulo: Atheneu, 2008.

GOODMAN_2005>Goodman K, O'rourke K, Day R, Wang C, Nurgalieva Z, Phillips C, Aragaki C, Campos A, de la Rosa J. (2005). "Dynamics of Helicobacter pylori infection in a US-Mexico cohort during the first two years of life.". Int J Epidemiol 34 (6): 1348-55.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Seguidores

Postagens populares da Ultima Semana