domingo, 18 de dezembro de 2011

Aspectos Gerais e Morfológicos de Alternaria Padwickii

Aspectos gerais e morfológicos de Alternaria Padwickii.

Aline Suelen da Silva
Acadêmica do Curso de Agronomia

INTRODUÇÃO

          A agricultura brasileira é bastante diversificada e abrange praticamente todo o território nacional, entre as cultivares que mais se destacam está o arroz, produto de suma importância para a população, pois abrange metade da ingestão energética de cada indivíduo (Naves e Bassinelo, 2006). Um dos fatores que atinge sua produção é a ocorrência de pragas e doenças que podem ser causadas por insetos, pássaros e fungos, entre outros (COUCEIRO, 1995).
          Dentre os fungos que prejudicam a produção da cultura de arroz os mais incidentes são: Pyricularia grisea, Bipolaris oryzae, Cercospora janseana, Rhizoctonia solani, Gerlachia oryzae, Phoma sorghina, Alternaria padwickii, Alternaria spp., Curvularia lunata e Nigrospora oryzae. Alguns desses patógenos costumam causar as chamadas manchas dos grãos. No Brasil existem registros da ocorrência dessa doença causada pelo fungo A. padwickii, encontrada no Rio Grande do Sul em associações com sementes de arroz (FARIAS et al., 2007).
            As espécies de fungos do gênero Alternaria sp., que possuem como planta hospedeira o arroz (Oryza sativa) são A. alternata, descrita por Shaw, D. E. publicado em Microorganismos em Papua Nova Guiné.Departamento Primário Ind., Res. Touro. 33: 1-344 (1984) , A. longíssima, descrita por Deighton, F. C., na revista de Micologia. 113: 1-15. (42123) (1968), A. oryzae, descrita por Shaw, D. E. na revista Microorganismos em Papua Nova Guiné.Departamento Primário Ind., Res. Touro. 33: 1-344. (6277) (1984), A. padwickii, descrita por Richardson, M. J. na revista Uma lista anotada de Seed-Borne Diseases. Quarta Edição. Teste internacional de Associação de sementes, 387 (1990), A. raphani. Descrita por Tai, F. L. em Sylloge Fungorum Sinicorum. (1979), A. tenuis, descrita por Wu, W. em  A sobrevivência de fungos nas sementes de arroz em Taiwan 78: 316. (1994) e  A. tenuissima, descrita por Ahmad, S. et al em Fungos do Paquistão.,Sultan Ahmad Sociedade Micológica do Paquistão(1997) (FARR & ROSSMAN 2011).

 Entre os anos de 2004 e 2005 foram conduzidos estudos nas regiões de Vilhena, em Rondônia, Sinop, no Mato-Grosso e em Santo Antônio de Goiás com o objetivo de avaliar a qualidade de sementes de arroz onde foi registrada a ocorrência do fungo A. padwickii (LOBO et al., 2006).
A nomenclatura atual do patógeno causador da doença conhecida como mancha do grão é A. padwickii, que foi descrita por M.B. Ellis, publicada na revista Índex of Fungi 4: 55 (1971-1980) (INDEX FUNGORUM 2011).
            Apresenta como sinonímias Trichoconiella padwickii (Ganguly) BL Jaiin 1976 e Trichoconis padwickii Ganguly 1948 (Zipcodezoo 2011) e Lewia scrophulariae (Desm.) ME Barr & EG Simmons, em Simmons (1986) (INDEX FUNGORUM, 2011).           
A forma teleomórfica de A. padwickii pertence ao filo Ascomycota, classe Ascomycetes, ordem Pleosporales, família Hypogastruoidea e gênero Alternaria (ZIPECODEZOO, 2011).
            De acordo com o Index Fungorum (2011) a forma anamórfica pertence ao reino Fungi, filo Ascomycota, classe Dothideomycetes, ordem Pleosporomycetidae, sub-ordem Pleosporales, família Pleosporaceae e ao gênero Lewia.
         A doença da mancha nos grãos de arroz é causada por a mais de um fungo ou bactéria.  As espécies de patógenos mais ocorrentes são Dreschslera oryzae (Breda de Haan) Subram & Jain, Phoma sorghina (Sacc.) Boerema, Dorenbosch & Van Kesteren, A. padwickii (Ganguly) Ellis (EMBRAPA, 2011a).
          Os sintomas aparecem desde o surgimento de panículas até o amadurecimento. As condições climáticas interferem no agravamento da doença sendo os principais fatores umidade e precipitação, que favorecem o surgimento de manchas (EMBRAPA, 2011a).
           Milheto e Sorgo são espécies hospedeiras de A. padwickii, apresentando as mesmas características da doença que ocorrem no arroz (Ufpel, 2011). Outras hospedeiras encontradas foram Brachiara Decumbens e Pinus khasya (FARR e ROSSMAN 2011).      
            De acordo com Vidotto (2004) não houve nenhum registro de A.padwickii em micologia médica, como era de se esperar, pois este fungo é de importância fitopatogênica uma vez que provoca a mancha nos grãos de arroz (Oryza sativa), causando perdas significativas na cultura do arroz em diversos estados nacionais e internacionais.
           Os primeiros relatos da doença foram registrados em Paiva, no norte da Itália, em 1995. A doença foi identificada pelas colônias presentes em sementes incubadas em meios agar batata  dextrose e pela sua morfologia de conídios (APSNET, 2011).
A mancha nos grãos de arroz estão associadas a mais de um patógeno. Os principais são Drechslera oryzae, Phoma sorghina, Pyricularia grisea, Microdochium oryzae, Sarocladium Pyricularia grisea, Microdochium oryzae, além de diferentes espécies de Sarocladium, Nigrospora e Fusarium (EMBRAPA, 2011a).
Segundo a Embrapa (2011b), entre as cultivares recomendadas para plantio no estado do Tocantins nenhuma oferece total resistência a doença da mancha nos grãos, existem apenas variedades que apresentam moderada resistência, como as cultivares BRS Alvorada e BRSGO Guará, moderada suscetibilidade nas cultivares Mética 1, BRS Formoso, BRS Biguá e BRS Jaçanã, e suscetibilidade, apresentada apenas na BRS Jaburu.
 Os métodos de controle existentes para o tratamento da doença são a aplicação de fungicidas, como estratégia para diminuir o inóculo inicial, e a utilização de práticas culturais já empregadas em outros cultivos, buscando diminuir a incidência das manchas nos grãos (EMBAPA, 2011a).
Nas literaturas não foram encontrados registros do uso industrial do fungo A. padwckii e nos anais do Congresso Brasileiro de Fitopatologia não foi obtida nenhuma informação a respeito do mesmo.
O objetivo deste trabalho é apresentar aspectos gerais e morfológicos de Alternaria padwickii.




MATERIAIS E MÉTODOS

O trabalho foi realizado no laboratório de micologia da EMBRAPA Cenargem, localizada na Asa Norte, Brasilia-DF, 2010. Os propágulos de semente de arroz foram plaqueados e deixados em condição de câmara úmida, e após este processo foram analisados em microscópio estereoscópico onde  foram encontradas estruturas fúngicas.
Essas estruturas forma pescadas com auxílio de um estilete ou uma pinça de ponta fina e transferidas para uma lâmina contendo uma gota de fixador a base de lacto fenol (composto por ácido lático, ácido acético, glicerina e água) na qual logo após foi depositada uma lamínula e levada ao microscópio óptico, onde foram encontradas estruturas, as quais comparadas com a literatura constatou-se que eram do fungo pertencente ao gênero Alternaria da espécie padwickii, após isso a lâmina foi vedada com esmalte e etiquetada.
 Os fungos foram classificados, conforme as suas características morfológicas e morfométricas, medindo o tamanho dos conidióforos, células conidiogênicas, conídios e rostros, utilizando a ocular micrométrica (WF10 X 118), totalizando 25 medições para cada estrutura diferente encontrada, e confeccionando fotos micrométricas das estruturas citadas.
            No microscópio óptico a primeira objetiva a ser usada deve ser a menor (4x) para que se possam focalizar os propágulos depositados na lâmina, após a observação destes aumentou-se a objetiva para 10x e logo em seguida para a objetiva de 40x onde se observou com mais detalhes as estruturas fúngicas.
          Para esse trabalho foram realizadas microfotografias das estruturas fúngicas no microscópio ótico utilizando câmera digital Canon® modelo Power Shot A580 do professor Milton Luiz da Paz Lima para confecção da prancha de fotos que foram editadas com o Windows Live Galeria de Fotos e a prancha confeccionada no Microsoft Office Power Point 2007.

RESULTADOS E DISCUSSÃO
Figura 1. Aspectos morfológicos de Alternaria padwckii em folhas de arroz. A. conídio ovalado com septos transversais, ligado a conidióforo (bar = 81 µm), B. Conidióforo em formação e célula conidiogênica (bar = 143 µm), C. Conídio jovem com formato ovóide, com septos transversais e rosto (bar = 86 µm), D. Conídio maduro feodicto com septos transversais (bar = 104 µm).

DESCRIÇÃO MICOLÓGICA
     
Apresenta conidióforos com até 260 μm (Figura 1A), muitas vezes minuciosamente equinulados. Conídio em linha reta (Figura 1C), fusiforme, obclavado e rostrado, muitas vezes o bico é mais da metade com comprimento dos conídios, primeiro hialino (Figura 1C), depois cor-de-palha ao marrom dourado (Figura 1 D), lisas ou minuciosamente equinulado, muitas vezes equinulado somente perto da cicatriz, 40-92, 5 (64,75)μm de comprimento, 10-17, 5 (12)μm de espessura na parte mais larga, com 3-6 (mais comum 4) septos transversais (Figura 1 A).
 O fungo cresce bem em cultura de batata em dextrose-ágar, formando colônias acinzentadas, muitas vezes rosa ou roxa o sentido inverso, livre esporulação, especialmente quando expostos a radiação UV próxima.
 Esclerócios pretos e pequenos com paredes distintamente reticuladas e são formados em culturas antigas.
Manchas necróticas nas raízes e coleóptilos levam a morte de mudas. As manchas foliares são circulares ou ovais, até um centímetro fraca, com uma margem escura, o centro torna-se pálido e tem os esclerócios negros. As sementes são invadidas e se tornam descoloridas ou murchas. Os esclerócios são formados em toda a área infectada (SIVANESAN, 1990)


Tabela 1. Comparação dos elementos morfológicos e morfométricos de Alternaria padwickii     com os elementos morfológicos e morfométricos descritos por outros autores.
Descrição morfológica
Diâmetro (µm)
Ellis,
(1971).
Resultado
Dimensões de Conídio
40-92,5 (64,75) μm C x 10-17,5 (12) μm L
95-170 (130) μm C x 11-20 (15,7) μm L
A diferença foi pouca
Conidióforo
80-260 (151,5) μm
180x3-4 μm
A diferença foi pouca
Rosto
25-317,5 (126,5) μm
________
Não foi possível realizar comparação

LITERATURA CITADA

APSNET. Disponível em:
Acessado em: 26/10/2011.

COUCEIRO, G.; Moléstia e Pragas que ocorrem nas principais culturas da região Bragantina N. Agron., Belém, 2(2) : 17-24, dezembro.,1995 In: EMBRAPA, Arroz, Resumos Informativos vol.1 Ed. Embrapa, Goiânia, GO, 1981.

ELLIS, M. B.; Dematiaceous Hyphomycetes. England: Commonwealth Mycological Institute, 1971. p. 494-495.

EMBRAPA. Arroz e Feijão, Sistemas de Cultivo. Disponível em: Acessado em: 26/10/2011 a.

EMBRAPA. Informações Técnicas para a Cultura do Arroz Irrigado no Estado do Tocantins. Disponível em: <http://www.agencia.cnptia.embrapa.br/Repositorio/doc_218_000g0qz6ick02wx5ok026zxpg0lrxr0k.pdf> Acessado em: 28/10/2011 b.

FARIAS, C. R. J.; AFONSO, A. P. S.; BRANCÃO, M. F.; PIEROBOM, C. R.; Ocorrência de Alternaria padwickii (Ganguly) em arroz (Oryza sativa L) (Poaceae) produzida em quatro regiões orizícolas do Rio Grande do Sul e seu efeito sobre plântulas. Edi. Arquivo Instituto Biológico, São Paulo, SP, 2007, vol. 74, n°3, pág. 245-249.

FARR & ROSMAN, SBML Systematic Botany of Mycological Resources. Disponível em: Acessado em: 26/10/2011.

INDEX FUNGORUM, Banco de Dados para Consulta de Táxons Fúngicos Disponível em: Acessado em: 26/10/2011.

LOBO, V.L.S.; FILIPPI, M.C.; UTUMI,M.M.; MORAIS,O.P.; CASTRO, E.M.; BRITO, A.M. Perfil sanitário e fisiológico de sementes de arroz provenientes de um ensaio de valor de cultivo e uso em três locais. In: Comunicado técnico ISSN 1677-961X .Ed. Embrapa Santo Antônio de Goiás, GO, 2006.

NAVES; M.M.V.; BASSINELO; P.Z. Importância da nutrição humana In: SANTOS, A.B. et al., A Cultura do Arroz no Brasil 2ª Ed.Revista e Ampliada, Ed. Embrapa Arroz e Feijão, Santo Antônio de Goiás, GO, 2006.

UFPEL. Universidade Federal de Pelotas. Disponível em: Acessado em: 26/10/2011.

VIDOTTO, V. Manual de Micologia Médica. Ed. Tecmedd, Ribeirão Preto-SP, 204p, 2004.

ZIPECODEZOO.  Disponível em:                                                                                      < http://zipcodezoo.com/Fungi/A/Alternaria_padwickii/> Acessado em: 26/10/11.

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