sábado, 24 de dezembro de 2011

Aspectos gerais e morfológicos de Colletotrichum truncatum



Aspectos gerais e morfológicos de Colletotrichum truncatum

José Carlos Marra Filho
Acadêmico do curso de agronomia


INTRODUÇÃO
      Colletotrichum truncatum (Schwein) foi descrito pela primeira vez por Andrus e W. D. Moore (1935). Seu anamorfo possui a seguinte posição taxonômica: família Glomerellaceae, subclasse Sordariomycetidae, classe Sordariomycetes, divisão Ascomycota e reino Fungi (INDEX FUNGORUM, 2011).
      O C. truncatum é um fungo mitospórico, cujo teleomorfo pertence ao gênero Glomerella classificado como pertencente ao filo Ascomycota, ordem Phyllachorales, família Phyllacoraceae (HAWKSWORTH et al., 1995).
      Segundo Cannon (2005), C. truncatum possui alguns sinônimos como, Vermicularia truncata, Colletotrichum dematium sp (INDEX FUNGORUM, 2011).
            Existem 265 registros de ocorrência de C. truncatum infectando diversas hospedeiras no mundo. Deste total de registros ocorridos no mundo, 118 hospedeiras de C. truncatum foram encontradas registradas no banco de dados Farr e Rosmman (2011).
            As famílias botânicas que são infectadas com maior frequência por C. truncatum são: Fabaceae, Poaceae, Solanaceae, Malvaceae (FARR E ROSMMAN, 2011).
            No Brasil, 20 hospedeiras encontram-se registradas, segundo Farr e Rosmman (2011), representadas por Aeschynomene paniculata (LENNE, 1990), Galactia striata (LENNE, 1990), Glycine max (MENDES et al., 1998), Lupinus albus (MENDES et al., 1998), Lupinus luteus (MENDES et al., 1998), Phaseolus lunatus (Anthracnose.) (MENDES et al., 1998), Phaseolus lunatus var. macrocarpus (MENDES et al., 1998), Phaseolus vulgaris (Anthracnose; stem anthracnose) (MENDES et al., 1998) , (DAMM, 2009), Stylosanthes capitata (LENNE, 1990), Stylosanthes guianensis (LENNE, 1990), Stylosanthes hamata (LENNE, 1990), Stylosanthes humilis (LENNE, 1990), Stylosanthes pilosa (LENNE, 1990), Stylosanthes scabra (LENNE, 1990), Stylosanthes sp. (MENDES et al., 1998), Vigna unguiculata (MENDES et al., 1998), Zornia glabrata (LENNE, 1990), Zornia glochidiata (LENNE, 1990), Zornia latifolia (LENNE, 1990) e Zornia sp. (LENNE, 1990).
           
      A antracnose é uma das principais doenças do cerrado. Em ambiente de alta umidade ela causa a abertura das vargens, o apodrecimento das vargens e sementes da soja, à morte prematura das vargens e germinação dos grãos em formação (YORINORI et al., 1993).
      O fungo pode atacar também regiões como, São Paulo, Minas Gerais e sul do Brasil. Apesar de causar bastantes danos em locais com umidade alta, plantios densos ou em caso da planta madura ficar no campo por questão de chuvas, a antracnose de modo geral não se mostra como prejuízo sério de maneira geral para as lavouras. Em tais condições observam-se plantas amareladas o que é referido como “mosqueado” (ELKE, 1980).
      A doença pode prejudicar também a haste e outras partes das plantas causando manchas castanho-escuras, além de possivelmente ser causadora da podridão do pecíolo que, nos últimos anos, tem trazido muitos danos e perdas nas lavouras do cerrado (YORINORI et al., 1993).
      Segundo Yorinori, et al. (1993), na região sul, em épocas com um prolongamento maior da chuva, após o plantio direto da soja sobre a palhada do trigo, há bastante morte entre os trinta dias de plântulas, dependendo das vezes tendo que fazer o replantio do mesmo. Alta incidência de morte de plântulas por antracnose tem sido observada nas variedades Primavera e Invicta. Algumas observações feitas no campo mostram que, a doença não atinge a cultura por inteiro mais sim alguns grupos de plantas, o que alguns pesquisadores pensam que certas plantas têm resistência genética.
      Inóculo proveniente de restos de cultura e sementes infectadas pode causar necrose dos cotilédones, que pode acabar se estendendo para o hipocólito, causando o tombamento de pré e pós-emergência. O fungo ataca as partes laterais da planta, pecíolos e vargens em qualquer estagio de formação. A doença pode causar a queda total das vargens ou deterioração das sementes em colheita retardada. Nos estágios R3-R4 as plantas começam a adquirir as manchas e ficam retorcidas. Em altas umidades o fungo já começa a ser visível por pontuações negras na planta, ou seja, são as frutificações do fungo (ALMEIDA et al., 2005).
      No período de março de 2004 a janeiro de 2005 foi avaliada a resistência de 48 cultivares comerciais de soja a Colletotrichum truncatum. Plântulas de soja foram inoculadas no estádio V1/Ve, após as inoculações, foram mantidas em casa de vegetação, sob condições de umidade relativa do ar acima de 95%, durante 10 dias. Após esse período, as plântulas foram avaliadas para determinar a reação das cultivares. A severidade dos sintomas foi obtida pela avaliação das lesões nas folhas, determinando-se os graus de resistência das plântulas através de uma escala de notas de severidade, com valores de 1 a 9. Somente as cultivares Tabarana, Cometa e EMGOPA 316 foram suscetíveis a Colletotrichum truncatum (SCIELO, 2011).
      C. truncatum é um patógeno de plantas que vem mostrando resultados como um bio-herbicida contra a planta daninha Sesbania exaltata. Estudos anteriores mostraram uma quantidade similar de esporos produzidos por mililitros de meio de cultura em fermentação líquida e em estado sólido. Neste estudo, os esporos do fungo foram produzidos em líquido (LC), sólido por vermiculita (SV) e sólido por perlite, fubá e ágar (SP). Após a secagem à temperatura ambiente com fluxo de ar, SV e SP manteve com mais viabilidade. Cada produto foi então armazenado há 4º, 15º e 25º C. Dos três produtos armazenados, SP manteve maior viabilidade. Eficácia com base em ensaios utilizando o mesmo número de esporos viáveis, os esporos do meio SV e SP, mostraram sintomas da doença mais grave do que no meio LC (SCIENCI DIRECT, 2011).
      O fungo C. truncatum não é utilizado em alimentos e não tem importância industrial, pois ele é um patógeno vegetal, não fazendo mal algum a animais e seres humanos (PAUL, 2005).
            A espécie em estudo é um parasita obrigatório podendo ocorrer em variadas espécies de plantas (SBFITO, 2011).
            O gênero desse fungo possui aproximadamente 706 espécies válidas em literatura, onde a maioria são fitopatogênicos (INDEX FUNGORUM, 2011).
            O objetivo deste trabalho é apresentar os aspectos gerais e morfológicos do fungo Colletotrichum truncatum.

 MATERIAIS E MÉTODOS

      O trabalho foi feito no Laboratório de Microbiologia do Instituto Federal Goiano campus Urutaí.
      O processo para encontrar os propágulos do e verificar suas estruturas é a visualização em microscópio estereoscópico.
      Após a visualização dos propágulos devemos coletá-los da superfície foliar com o auxílio de uma pinça e colocá-los em uma lâmina contendo uma gota de fixador lactofenol cotton-blue, em seguida colocar-se uma lamínula sobre a lâmina. Retirar-se o excesso de corante com papel higiênico, logo após vedar-se com esmalte e levar o conjunto para visualização em microscópio ótico. No microscópio a primeira objetiva a ser usada deve ser a menor (4x), para que possamos observar se os propágulos foram depositados na lâmina, após a observação destes, aumentamos as objetivas para os aumentos de 10x e 40x, para se observar as estruturas fúngica com mais detalhes.
      Para esse trabalho foram realizadas microfotografias das estruturas fúngica no microscópio ótico e das frutificações fúngica no microscópio estereoscópico, utilizando câmera digital Canon® modelo Power Shot A580 do professor Milton Luiz da Paz Lima.

 RESULTADOS E DISCUSSÃO
Figura 1. Aspectos morfológicos de Colletotrichum truncatum. A., B. e C. setas (s) (bar = 62c µm) e acérvulos (ac), D. e E. Conídios hialinos (c) (bar = 17,5c µm x 51 µm).

Descrição Micológica:
            O fungo Colletotrichum truncatum possui ciclo sexual ou forma teleomórfica desconhecida ou ausente (NEYLSON, 1993).
            Na amostra analisada foi encontrado o fungo na sua forma anamórfica, onde os acérvulos eram circulares (Fig. 1B e C). Os conídios podem ser em formato hialino, oval, oblongo ou falcado. Na figura o fungo tem formato hialino (Fig. 1D e E). A massa de conídios com coloração rósea. Podem estar presentes no acérvulo com setas longas, septadas e pigmentadas podendo se formar juntamente ao tecido de seu hospedeiro, setas escuras com tonalidades pretas (Fig. 1A) com célula basal arredondada (CARDOSO, 1978).
            Os conídios são levemente curvos, mais largos no centro e gradativamente mais finos em direção às extremidades, onde a largura corresponde a aproximadamente metade da região central. Quando maduros, possuem coloração marrom e freqüentemente germinam através das células apicais e basais. Os tubos germinativos originários destas células formam apressório. O número de núcleos presentes em cada célula do conídio pode variar de 1-14, sendo mais comumente encontradas células binucleadas (UESB, 2011).
            Alguns fatores do ambiente podem influenciar o desenvolvimento do fungo. A temperatura ótima para esporulação está em torno de 28°C, embora possa ocorrer esporulação desde 10 até 35°C. A liberação de esporos não é muito influenciada pela temperatura e normalmente ocorre na faixa de 15 a 35°C. Em relação à germinação, temperaturas compreendidas entre 25 e 28°C favorecem o processo. Quanto à umidade, a produção de conídios sobre as lesões tem início quando a umidade relativa atinge no mínimo 93%. Para a germinação, há necessidade de água livre, pois raramente o esporo germina sob condições de ar saturado. O desenvolvimento do micélio é favorecido por umidade relativa próxima de 93% também. A luz também pode ter influência sobre o micélio e os esporos. Embora o crescimento do micélio, a germinação de conídios e a elongação do tubo germinativo sejam processos inibidos pela luz, a alternância da mesma tem um papel importante sobre a produção de esporos. Estes começam a ser liberados tão logo escureça, alcançam um máximo em poucas horas e praticamente cessam na alvorada; sob condições de luz ou escuro contínuo, a esporulação cai a níveis muito baixos, voltando a aumentar quando os períodos de luz e escuro novamente voltarem a se alternar (UESB, 2011).

Tabela 1. Comparação dos elementos morfométricos de C. truncatum.
Descrição Morfológica
Marra (2011)
Eken e Demirci (2000)
Paz Lima (2011)
Conídios
15-19,5 x 3-5,1
16,3-20,6 x 3,1-4,5
8-16 x 2-5,5
Setas
60,5-72 x 6,3-8
-
62-70,3 x 6-8,3

            Eken e Demirci (2000) desenvolveram um estudo sobre o fungo C. truncatum na Turquia onde eles observaram o primeiro caso do mesmo em alfafa. Ao desenvolverem o estudo eles fizeram a descrição micológica e a medida das estruturas (Fig. 2) como os conídios, que se apresentavam hialinos, unicelulares, falcados e quase reto, com uma área de destaque clara no centro do citoplasma altamente granular (APS, 2011).
            Com base na tabela pode-se dizer que as medidas ficaram proporcionais, ou seja, não houve uma variação muito grande entre as medidas de cada autor.

 LITERATURA CITADA.

APS – AMERICAN PHYTOPATHOLOGICAL SOCIETY, banco de dados para consulta de publicações. Disponível em:, acessado em dezembro de 2011. 
DAMM, U., WOUDENBERG, J.H.C., CANNON, P.F., AND CROUS, P.W. Colletotrichum species with curved conidia from herbaceous hosts. Fung. Diversity 39: 45-87. 2009.
FARR, D.F., & ROSSMAN, A.Y. Fungal Databases, Systematic Mycology and Microbiology Laboratory, ARS, USDA. Disponível em: , acessado em 12 de dezembro de 2011.
FRANCISCO V. J., Soja planta, clima, pragas, moléstias e invasoras Vol. 1. Editora R. Vieira. Campinas – SP, 1983.
HAWKSWORTH, D.L.; KIRK, P.M.; SUTTON, B.C.; PEGLER, D.N. AINSWORTH & BISBY’S. Dictionary of the fungi. Cambridge: CAB International, 8º ed., 616 p. 1995.
INDEX FUNGORUM, banco de dados para consulta de táxons fúngicos. Disponível em:, acessado em dezembro de 2011.
KIMATI, H. et al., Manual de Fitopatologia Vol. 2, Doenças das Plantas Cultivadas, 4ª edição. Editora Agronômica Ceres. São Paulo, 2005.
LENNE, J. M.. World List of Fungal Diseases of Tropical Pasture Species. Phytopathol. Pap. 31: 1-162. 1990.
MENDES, M.A.S., DA SILVA, V.L., DIANESE, J.C., AND ET AL. Fungos em Plantas no Brasil. Embrapa-SPI/Embrapa-Cenargen, Brasilia, 555 pages. 1998.
NEYLSON E. A., PLÍNIO I. M. S., Cultura de soja nos serrados. Editora Ave – Maria. Piracicaba – SP, 1993.
PAUL, S. Mycelium running, How Mushrooms Can Help Save the World. Editora Berkeley Toronto – USA, 2005.
SCIENCI DIRECT, banco de dados para consulta de artigos. Disponível em:, acessado em dezembro de 2011.
SCIELO – SCIENTIFIC ELECTRONIC LIBRARY ONLINE, banco de dados para consulta de artigos. Disponível em:, acessado em dezembro de 2011.
SBFITO – SOCIEDADE BRASILEIRA DE FITOPATOLOGIA, banco de dados para consulta de publicações. Disponível em:, acessado em dezembro de 2011.
UESB – UNVERSIDADE ESTADUAL DO SUDESTE DA BAHIA, Fitopatologia, banco de dados para consulta. Disponível em:, acessado 31 de outubro de 2011.

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