segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Antracnose (Colletotrichum gloesporioides.) no fruto do conde (Annona squamosa. L)



Figura 01: Antracnose (Colletotrichum gloesporioides) no fruto do conde (Annona squamosa L. ; A. Sintomas nos frutos, B. Micélio pulverulento e branco do patógeno em placa de petri, C.D. Apressório (barr = 15 µm), E.F. Conídios ovóides e hialinos de C. gloesporioides. (barr = 16 µm).


Antracnose (Colletotrichum gloesporioides.) no fruto do conde (Annona squamosa. L)



Wallisse R. Ribeiro1
1Acadêmico do curso de Agronomia

A fruta-do-conde (Annona squamosa) é uma árvore que apresenta porte pequeno, atingindo cerca de 5m de altura, não-pioneira, da família das anonáceas, que ocorre nos cerrados do Brasil. Possui folhas ovadas, coriáceas, flores amarelas e frutos bacáceos múltiplos, grandes, comestíveis e muito saborosos, com sementes tidas como antidiarréicas. Os frutos apresentam polpa macia, de cor branca ou creme, desprovida de acidez, muito doce, contendo proteínas, cálcio, fósforo, ferro e vitaminas B1, B2 E C (Lopez, 2005).
Também é conhecida pelos nomes de cabeça-de-negro, araticum-do-campo, araticum-dos-lisos e marolinho. Quando está maduro, o fruto abre-se. É conhecido mais comumente como fruta-do-conde pelo fato de a primeira muda da espécie, vinda das Antilhas, ter sido plantada na Bahia, em 1626, pelo governador Diogo Luís de Oliveira, o Conde de Miranda, conforme relato de Pio Corrêa (Wikipedia, 2010).
Vegeta melhor em clima quente, com poucas chuvas e estação seca bem definida, como ocorre no Nordeste. A fruta-do-conde começa a produzir três anos após o plantio. O período de colheita vai de fevereiro a junho, podendo estender-se um pouco mais em culturas irrigadas. A produção varia de 150 a 200 frutos por pé/ano, sendo consumidos ao natural (Lopez, 2005).
A antracnose (Colletotrichum gloeosporioides Penz.) ou podridão-negra-dos- frutos é considerada a moléstia mais importante da fruteira do conde, chegando a provocar até 70% de perdas de frutos quando as chuvas são prolongadas durante a floração e a formação de frutos. Ocorrem em todos os paises que cultiva anonáceas. Incide, preferencialmente nos tecidos jovens de folhas, ramos, folhas e frutos. Na folhagem, produz lesões irregulares no limbo ou nas nervuras, sendo inicialmente pardo-escuras e, depois, esbranquiçadas no centro e cercadas de pontuações pretas e salientes. As folhas atacadas podem cair. Em frutos maduros observam-se pontos escuros que coalescem. O resultado é uma podridão de rápida (Lopez, 2005).
Além do Brasil, houve relatos do Colletotrichum gloeosporioides no fruto-do-conde, na China, Cuba, Florida, Índia, Porto Rico e nas Ilhas Virgens (Farr e Rossman, 2010).
Este trabalho tem por objetivo descrever o Colletotrichum gloeosporioides do fruto-do-conde enfatizando aspectos de sintomatologia, etiologia, epidemiologia e controle (Lopez, 2005).



A coleta foi realizada em um produtor pertencente a cidade de Urutaí,GO onde foi encontrado material infectado com o patógeno presente no fruto-do-conde, em outubro de 2010. Em seguida o material foi levado para laboratório de Microbiologia do Instituto Federal Goiano – Campus Urutaí para análise e identificanção do patógeno.
No Laboratório de Microbiologia do IF Goiano Campus Urutaí, foi analisado o fruto-do-conde, com auxilio do microscópio estereoscópio (lupa), as quais apresentavam sinais do patógeno, e este foi depositado no meio de cultura agar água para crescimento. Após 48 horas fragmentos através do método de pescagem direta foram coletados e transferidos para placas de Petri contendo meio de cultura batata-dextrose-ágar (BDA). Lâminas semi permanentes foram preparadas, coletando propágulos reprodutivos distribuídos na superfície do fruto infectado. Para o preparo de lâminas utilizou-se fixador a base de azul metileno. Após a confecção das lâminas foram feitos os registros microfotográficos em microscópio ótico.
Os sintomas da planta foram fotografados, primeiramente utilizando microscópio estereoscópio (lupa), e em microscópio óptico e os sinais foram fotografados utilizando câmera digital Cânon ® modelo Power Shot A580.


Hospedeiro/cultura: Fruto do conde (Annona squamosa. L)
Família Botânica: Anonaceae
Doença: Antracnose
Agente Causal: Colletotrichum gloesporioides (Penz.)
Local de Coleta: Produtor pertencente a cidade de Urutaí, GO
Data de Coleta: 06/10/2010.
Taxonomia: O gênero Colletotrichum pertencente ao Reino Fungi, grupo dos Fungos Mitospóricos, sub-grupo Coelomicetes. A sua forma teleomórfica pertence aos Reino Fungi, Divisão Ascomycota, Classe Pyrenomycetes, Ordem Phyllachorales, Família Phyllachoraceae.


Sintomatologia: Os sintomas da antracnose apareceram em ramos, folhas, frutos e inflorescências. As folhas apresentam manchas marrons, ovais ou irregulares, de tamanho variável, surgindo no ápice, margem ou centro da folha. Quando a severidade da doença é alta, estas manchas coalescem e rompem, causando deformação.
No ráquis das inflorescências e suas ramificações, surgem manchas de coloração marrom escura, profundas e secas, alongadas no sentido longitudinal, ocasionando a destruição de um grande número de flores e queda de frutos antes de sua maturação. Frutos podem apresentar na sua superfície, desde o pedúnculo, manchas ou lesões levemente deprimidas, escuras e úmidas, sobre estas verifica–se frutificações representadas pelos sinais de coloração alaranjada á salmão (Fig.1 A).
Caso ocorra o rompimento da casca, os frutos infectados, geralmente apodrecem. Frutos novos infectados podem cair prematuramente, ou o patógeno pode permanecer em latência até o amadurecimento do fruto, após perda de grande quantidade de líquido mumifica-se podendo permanecer na árvore (Fig.1 A). (Lopez, 2005).


Etiologia (Sinais): O patógeno cuja sinonímia é conhecida como Ascochyta rufomaculans (Berk.) apresenta como formae specialis as seguintes variações: Colletotrichum gloeosporioides f.sp. alatae R.D., Colletotrichum gloeosporioides f.sp. gloeosporioides (Penz.), Colletotrichum gloeosporioides f.sp. heveae Petch, Colletotrichum gloeosporioides f.sp. melongenae Fournet, Colletotrichum gloeosporioides f.sp. nectrioides Gonz., Colletotrichum gloeosporioides f.sp. aeschynomenes J.T., Colletotrichum gloeosporioides f.sp. clidemiae E.E., Colletotrichum gloeosporioides f.sp. cucurbitae Menten, Colletotrichum gloeosporioides f.sp. cuscutae T.Y., Colletotrichum gloeosporioides f.sp. manihotis Chevaug., Colletotrichum gloeosporioides f.sp. pilosae U.P. e Colletotrichum gloeosporioides f.sp. uredinicola U.P.. Em relação as variedades do patógeno são descritas as seguintes: Colletotrichum gloeosporioides var. aleuritis Saccas & Drouillon, Colletotrichum gloeosporioides var. cephalosporioides A.S. Costa, Colletotrichum gloeosporioides var. gloeosporioides Penz., Colletotrichum gloeosporioides var. gomphrenae Perera, Colletotrichum gloeosporioides var. hederae Pass., Colletotrichum gloeosporioides var. minus J.H., Colletotrichum gloeosporioides var. minus J.H. e Colletotrichum gloeosporioides var. nectrioidea Gonz (Index Fungorun, 2010).

A forma perfeita Glomerella cingulata, é um ascomiceto que forma peritécios em várias partes do hospedeiro, solitários ou agregados, marrom escuros a negros, com ostíolo levemente papilado, circular, provido de perífises. As ascas têm oito ascósporos de formato clavado a cilíndrico, de ápice mais delicado, intercaladas com paráfises, formando grupos na base do peritécio. Os ascósporos são ovais a cilíndricos ou fusiformes, às vezes levemente curvados, unicelulares, uniseptados antes de germinarem e hialinos ou fracamente escurecidos.
A sua forma assexual, C. gloesporioides, forma acérvulos nas áreas lesionadas, geralmente setosos, às vezes glabros, com formato arredondado, alongada ou irregular. O micélio apresentou-se em abundancia, cotonoso, elevado, com bordos lisos e de coloração frente e verso branca a acinzentada (Fig.1 B). As setas têm tamanho variável, com 1 a 4 septos, coloração marrom, apresentando leve alargamento na base e ápice pontiagudo. Os conídios são cilíndricos, às vezes levemente elipsóides, com ápice arredondado e base truncada, hialinos, unicelulares e uninucleados com 12-19 µm de comprimento por 1-6 µm de largura (Fig.1 D). Os conidióforos são unicelulares, hialinos ou levemente pigmentados, cilíndricos e fialídicos (Lopez, 2005).

Tabela 1. Comparação dos elementos morfológicos e morfométricos de Colletotrichum gloesporioides Penz. com os elementos morfológicos descritos por outros autores.
Descrição morfológica Diâmetro (µm) Pimenta, 2009 Oliveira, 2010
Conídio 5 - (4,95) – 4, 75 x 20 - (16,75) -15 5,21 – (3,69) – 4,69 x 22,95 – (18,75) - 15, 62 5 – (4,36) – 3,75 x 22,75 – (17,93) - 15
Apressório 22,5 – (15,75) – 10 x 37,5 – (22,5) - 15 4,17 – (3,87) – 3,12 x 14,58 – (12,47) - 11,46 20 – (13,75) – 10 x 32,5 – (17,5) – 12,5

O gênero Colletotrichum possui 702 espécies relatadas até o momento, segundo o Index fungorum (2010)


Epidemiologia: Os conídios são produzidos durante todo o ano em órgãos infectados da planta, principalmente em lesões de folhas novas, e podem ser disseminados à curta distância por ação da água de chuva, correntes de ar, insetos e aves (Tavares S. C. C., 2004).
Condições climáticas ideais para a produção de esporos são de umidade acima de 95%, presença de água livre e temperaturas entre 10 e 30°C. A infecção é favorecida por temperaturas de 25°C, que é a ideal ao desenvolvimento do apressório, e um período de 12 a 18 horas de umidade, promovido por chuvas de final de tarde ou orvalho noturno. O patógeno sobrevive em outras plantas hospedeiras, em plantas daninhas e no solo (Lopez, 2005).
Em literaturas tem sido registrados os seguintes hospedeiros de Colletotrichum gloeosporioides tais como: Abelmoschus esculentus (Quiabo), Actinidia chinensis (Kiwi), Allium cepa (Cebola), Anacardium occidentale (Cajueiro), Annona muricata (Graviola), Annona pygmaea, Annona reticulata, Annona squamosa (Fruta-do-conde), Anthurium sp., Arachis hypogaea (Amendoim), Artocarpus incisus (Fruta-pão), Artocarpus integrifolia (Jaca), Averrhoa carambola (Carambola), Bombax aquaticum (Mamorana), Capsicum annuum (Pimentão), Capsicum frutescens, Carica papaya (Mamoeiro), Caryocar brasiliense (Pequi), Citrus limon (Limão), Coriandrum sativum (Coentro), Cyclamen persicum (Ciclame), Elaeis guineensis (Dendê), Ficus carica (Figueira), Fragaria ananassa (Morango), Fragaria sp., Fragaria vesca (Morango-silvestre), Hancornia speciosa (Mangaba), Hevea brasiliensis (Seringueira), Hovenia dulcis (Uva-do-japão), Ilex paraguayensis (Erva-mate), Ipomoea batatas (Batata-doce), Jatropha curcas (Pinhão-manso), Lupinus albus (Tremoço), Lycopersicon esculentum (Tomateiro), Malpighia glabra (Acerola), Malus domestica (Macieira), Mangifera indica (Manga), Manihot esculenta (Mandioca), Moquilea tomentosa (Oiti), Musa paradisiaca (Bananeira), Nephrolepis duffii, Oenocarpus sp., Opuntia ficus-indica (Figo-da-India), Passiflora edulis (Maracujá-amarelo), Passiflora sp., Persea americana (Abacate-roxo), Pisum sativum (Ervilha), Prunus persica (Pêssego), Psidium guajava (Goiabeira), Ravenala sp., Ricinus communis (Mamona), Sapindus esculentus, Simmondsia chinensis (Jojoba), Solanum (Berinjela), Spondias dulcis (Cajá-manga), Spondias lutea (Cajá), Spondias purpurea L. (Siriguela), Spondias tuberosa (Umbuzeiro), Stylosanthes guianensis (Capim-meladinho), Syngonium angustatum (Singônio), Theobroma cacao (Cacau) e Vitis vinifera (Uva) (Farr e Rossman, 2010).
Em território brasileiro observou-se cientificamente o patógeno associado à cultura do fruto-do-conde (Annona squamosa) nos estados de São Paulo e Alagoas (Cenargem, 2010).


Controle: Por ser uma doença dependente de condições climáticas como alta umidade, recomenda-se adotar um maior espaçamento do plantio e podas leves e periódicas, afim de favorecer a ventilação e a insolação entre as plantas. Para reduzir as fontes de inóculo do fungo no pomar recomendam-se podas de limpeza, eliminação de galhos secos, frutos velhos remanescentes e o recolhimento de materiais vegetais caídos no chão.
O controle químico é indispensável, principalmente logo após a poda e nos períodos antes da abertura das flores, durante o florescimento e na frutificação. A aplicação deve ser em intervalos variáveis de 15 a 20 dias, dependendo das condições climáticas e da gravidade da doença. Recomenda-se a alternância de fungicidas de contato com os sistêmicos, para evitar o aparecimento de resistência na população do patógeno. No tratamento de pós-colheita, tem-se observado algum efeito positivo de controle da doença com a imersão dos frutos em suspensão de thiabendazole a 0,01%.
Outro tratamento usado é o hidrotérmico já adotado para moscas-das-frutas, utilizado nas mangas exportadas para os EUA. É uma medida eficiente para a antracnose, dispensando qualquer outro tipo de tratamento.
Não foi relatado nenhum produto registrado no Ministério da Agricultura para o controle de Antracnose da fruta-do-conde (Agrofit, 2010).
LITERATURA CITADA:


AGROFIT. Disponível em: . Acesso em: 20 out. 2010.

FARR & ROSSMAN, SBML Systematic Botany of Mycological Resources. Disponível em: . Acessado em: 18 de outubro de 2010.

INDEX FUNGORUM. Banco de dados de táxons fúngicos. disponível em: Acesso em: 19/04/2010.

MENDES, M. A. S.; URBEN, A. F. CERNAGEN - Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, Fungos relatados em plantas no Brasil, Laboratório de Quarentena Vegetal. Brasília, DF, Disponível em: Acesso em: 21/9/2010.

LOPEZ, A. M. Q. Doenças das anonáceas e do urucuzeiro (Annona sp. e Bixa orellana). In: KIMATI, H.; AMORIM, L.; BERGAMIN FILHO, A.; CAMARGO, L.E.A.; REZENDE, J.A.M. (Eds.) Manual de fitopatologia: doenças das plantas cultivadas. 4. ed. São Paulo: Agronômica Ceres, 2005. v.2, p. 74.

TAVARES, S.C.C.H. Cultivo do Fruto-do-Conde. Sistemas de Produção, 2. ISSN 1807-0027 Versão Eletrônica. Embrapa Semi-Árido. Julho/2004.

WIKIPEDIA. Disponível em: . Acessado em: 22 de setembro de 2010.

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