segunda-feira, 8 de novembro de 2010

“ASPECTOS GERAIS E MORFOLÓGICOS DE Cladosporium sp.


Odilon C. Lima Neto1 & Milton L. Paz Lima2

1Acadêmico do curso de Agronomia

2Prof. Dr. em Fitopatologia


1. INTRODUÇÃO


O gênero Cladosporium sp. foi descritor por Link (1815) ex Fries (1821) e apresenta como sinonímios Sporocladium Chevallier, 1826; Myxocladium Corda, 1837; Didymotrichum Bonordem, 1851; Heterosporium Klotzsch in Cooke,1877 (Index Fungorium, 2010).

A forma anamórfica pertence ao Reino Fungi, grupo incerto dos fungos mitospóricos, sub-grupo hifomicetos (Kirk et al., 2001). A forma teleomórfica pertence ao Reino Fungi, Divisão Ascomycota, Classe Dothideomycetes, Subclasse Dothideomycetidae, Ordem Capnodiales, Família Davidiellaceae (Index Fungorum, 2010). O gênero é representado por 735 espécies catalogadas e descritas em literatura, apresentando 73 variedades e 43 formas especiais (Index Fungorium, 2010). No Brasil são conhecidas 26 espécies do gênero Cladosporium (Embrapa Cernagem, 2010).

Espécies de do gênero Cladosporium sp. encontram-se na serrapilheira de regiões tropicais e subtropicais, mas também são registradas em lagos e oceanos de regiões temperadas (Hughes & Chamut 1971, Shearer 1972, Booth 1983, Kolhmeyer & Volkmann-Kolhmeyer 1987) apud Da Silva (2007). Ocorrem em grande variedade de substratos vegetais estando largamente distribuídas (Rao & Rao, 1964, apud Da Silva, 2007).

Há registros de 4790 casos de ocorrências de Cladosporium sp. causando doenças em vários hospedeiros (Farr & Rosman, 2010).

Foram registradas 915 hospedeiras distribuídas em vários países, como: Acacia decurrens (Malásia), Bauhinia variegata (Índia), Tabebuia sp. (Brasil), Citrus aurantifolia (México), Phoenix dactylifera (Califórnia) (SBML, 2010.).

O gênero Cladosporium sp. tem sido relatado como agente patogênico em frutos de pessegueiro (Prunnus persicae) provocando danos em pós-colheita (Martins et al., 2006); fazendo parte da microbiota das sementes de cagaiteira (Eugenia dysenterica) (Gomide et al., 1994); provocando verrugose em maracujazeiro (Passiflora edulis), sendo esta doença uma das mais importantes da cultura (Negreiros et al., 2004).

É um dos mais comuns e importantes patógenos causadores de alergias em humanos, sendo elas do Tipo I ou alergias comuns (febre do feno, asma) e Tipo III (pneumonite por hipersensibilidade) (Emlab P&K, 2010).

A espécie de Cladosporium carrionii é uma das responsáveis pela transmissão da cromoblastomicose , uma infecção localizada crônica da pele e tecido subcutâneo preferencialmente envolvendo membros inferiores e caracterizada por lesões geralmente verrucosas. Em muitos casos, as lesões são unilaterais. A doença é muito comum em regiões tropical e subtropical. A infecção ocorre pela inoculação traumática do fungo na pele e a micose é muito prevalecente entre indivíduos com ocupações ao ar livre e que andam descalços, sendo comum nos homens. Ainda é uma doença fúngica presente principalmente na população rural brasileira (Ribeiro et al., 2006).

Em animais silvestres causam ceratomicose e alergias (Microbiologia ICB/UFMG, 2010)

Não houve nenhum registro do fungo Cladosporium sp. sendo utilizado na alimentação, tanto humana quanto animal. Este fungo produz toxinas, como a fusariais (ata), nome derivado da intoxicação causada pela toxina aleuxia toxica alimentar, produzida pelo fungo em grãos armazenados, como o milho (Zea mays), trigo (Triticum aestivum) e na cevada (Oliveira e Paz Lima, 2010)

A espécide de Cladosporium herbarum é utilizada na produção de enzimas que são utilizadas na transformação de intermediários de esteróides, tais como pregnenolona e progesterona, hormônios biologicamente importantes utilizados na produção industrial de contraceptivos orais (Emlab P&K, 2010).

Segundo Pereira et al. (2001), o fungo Cladosporium sp. tem sido relatado associado a cafés de boa qualidade em várias regiões, o que despertou o interesse para o seu uso como agente antagonista aos fungos deletérios a qualidade do café, mostrando grande potencial no controle biológico.

Foi detectada a presença de Cladosporium sp. provocando má formação foliar e apodrecimento do rizoma de mudas de melão no estado de Alagoas. (Embrapa Cernagen, 2005).

Há ocorrências do fungo Cladosporium sp. em grãos de sorgo sendo responsável por perdas na qualidade sanitária, física e nutricional, podendo durante o processo de deterioração dos grãos, colori-los, degradar proteínas, açucares e carboidratos. (Embrapa Cernagen, 2003).

A germinação de conídios do gênero Cladosporium sp. sob diferentes gruas de temperaturas, apresentou um efeito significativo na infecção de mudas de maracujazeiro. Em temperaturas ao redor de 25ºC apresentam os maiores percentuais de germinação, enquanto ao redor de 30ºC a incidência e a severidades foram menores, sendo um método aliado e utilizado no controle do patógeno sob a cultura (Souza et al., 2009).

Verificou-se a ocorrência de Cladosporium sp. em plantas de Tanacetum parthenium (L.) Schutz Bip causando manchas amareladas no mesofilo foliar da referida planta, efeito muito peculiar causado por este patógeno ( Caldeira Júnior et al, 2007).

Foi observada a incidência de Cladosporium sp. associado a frutos de Noz Pecan (Carya illinoensis K.) nos cultivares Burkett, Frotscher e Moneymaker, promovendo rancificação das amêndoas e cascas (Terabe et al.,200.8)

Estudos realizados nas cidades de Marechal Rondon-PR e Vinhedos - MS coletou folhas de mandioca que apresentavam ninfas de moscas-branca mortas e colonizadas por uma massa de conídios e que depois de realizadas as analises contatou-se a presença de fungos do gênero Cladosporium sp. e que estavam presentes em todas as folhas coletadas. (Miranda et al., 2009).

O experimento realizado na cidade de Chapecó-SC, Brasil, com o objetivo de verificar a incidência de fungos filamentosos no bocal de telefones públicos desta mesma cidade, evidenciou a presença de Cladosporium sp. no total de 51% das amostras coletas e devido à esta alta incidência, é necessário ter um maior cuidado ao utilizar o equipamento, evitando assim uma contaminação, principalmente àquelas pessoas que se apresentam imunodepremidas (Spada e Fuentefria, 2008).

O objetivo desse trabalho é apresentar aspectos gerais e morfológicos de Cladosporium sp.


2. MATERIAIS E MÉTODOS


O trabalho foi realizado no Laboratório de Microbiologia Geral em parceira com o Laboratório de Biologia Celular, ambos do Instituto Federal Goiano campus Urutaí, no período de setembro a outubro de 2010.

Os propágulos do fungo foram retirados de uma placa de Petri que anteriormente já fora contamina com amostras de solos procedentes da Fazenda Pedra Branca na cidade de Urutaí-Go, e que permaneceram inoculadas em câmara de crescimento por 7 dias.

Inicialmente a placa de Petri foi levada para a visualização em microscópio estereoscópico com a finalidade de se encontrar propágulos fúngicos.

Após a visualização dos propágulos, foram coletados pequenos fragmentos da superfície da placa de Petri, com o auxílio de uma pinça, e em seguida colocados em uma lâmina contendo uma gota de fixador lactofenol cotton-blue (2,6 de ml ácido acético; 62,5 ml de ácido lático; 100 de ml glicerina; 100 ml de água destilada; 1g de corante, 10 ml de água; etanol 70%), e, posteriormente colocou-se uma lamínula sobre a lâmina. Retirou-se o excesso de corante com papel higiênico, logo após vedou-se com esmalte, a fim de se produzir uma lâmina semi-permanente. Em seguida, levou-se o conjunto para visualização em microscópio ótico, com o intuito de observar as estruturas fúngicas com maiores detalhes.

Comparamos as estruturas observadas com estruturas descritas em literatura para identificar o gênero ao qual o fungo pertence.

Utilizando um micrômetro, foram medidas 50 estruturas de cada uma das unidades fúngicas necessárias para a identificação do agente micológico, sendo elas: conidióforo, célula conidiogênica, célula ampuliforme do conidióforo e conídio, pareadas e distribuídas da seguinte maneira: a-b x c-d µm para cada uma delas. Realizou-se também a verificação da presença de outros caracteres distintivos morfológicos ou morfométricos, como a presença de estroma e de equinulação dos conídios.

Compararam-se as estruturas observadas com as estruturas descritas em literatura para identificar o gênero ao qual o fungo pertence. Nesse trabalho o fungo identificado pertenceu ao gênero Cladosporium sp..

As macrofotografias e microfotografias foram feitas com a máquina digital marca Canon® modelo PowerShot SD750, 7.1 megapixels. As fotografias foram editadas no programa Microsoft Office Picture Manager 2007 e organizadas na forma de prancha no programa Microsoft PowerPoint 2007.



3. RESULTADOS E DISCUSSÃO



Figura 1. Aspectos morfológicos de Cladosporium sp. A. Conidióforo (Cn) (bar = 20 µm) B. Detalhe da base do conidióforo (Bcn) (bar = 15 µm), C. Ramificação do conidióforo multisseptado escuro (rcn) (bar = 20 µm), D. Detalhe do corpo de frutificação (bar = 25 µm), E. Conidiogênese enteroblástica (Con) (bar = 10µm), F. Conídio unisseptado escuro (Co) (bar = 2 µm), G. Detalhe da célula conidiogênica (Cc) (bar = 15 µm).

Descrição micológica

Apresentam colônias efusas ou ocasionalmente puntiformes, possuem coloração muitas vezes olivácea podendo ser também acinzentadas à marrom escuro. A superfície desse fungo pode ter aparência de pelos ou flocosas. O micélio normalmente é imerso ou muitas vezes superficiais. Os estromas (fig. 1B) algumas vezes estão presentes e apresentam setas e os hifopódes são ausentes. Os conidióforos (fig. 1A) são macronematosos ou semi–macronematosos e em alguns casos podendo ser micronematosos. Os conidióforos macronematosos normalmente são retos ou flexuosos (curvados), muitos não ramificados ou com ramificações restritas na região apical, formando um estipe ou uma cabeça de coloração marrom olivácea à marrom, podem ter superfície lisa ou verrugosa. As células conidiogênicas (fig. 1G) são poliblásticas usualmente integradas, terminais, intercalares, mais muitas vezes discretas, simpodiais e de formato cilíndrico, cicatrizadas, com proeminência na célula conidiogênicas. Os conídios (fig. F) podem ser produzidos em cadeias (fig. 1C), sendo catenulados, podem ser muitas vezes solitários em algumas espécies, onde os conídios são mais largos e algumas vezes são ramificados em cadeia acropleurógena, são simples, cilíndricos, ovóides, doliformes, fusiformes, elipsóides, esféricos ou sub-esféricos. Muitas vezes com distinta protuberância em conseqüência do resíduo de secessão no final de cada conídio (fig. 1D). Possuem coloração marrom olivácea escuro ou marrom, a superfície do conídio pode ser lisa, verrugosa ou equinulada com 0–3 septos ocasionalmente. Estes elementos morfológicos se adequaram as informações descritas para o gênero por Ellis, 1971.

Para a identificação do agente micológico foi realizada uma comparação dos elementos morfológicos e morfométricos encontrados durante as medições com o elementos morfológicos e morfométricos descritos por outros autores. Comparação que pode ser vista na tabela seguinte:

Tabela 1. Tabela Comparativa dos elementos morfológicos e morfométricos de Cladosporium sp. com os elementos morfológicos e morfométricos descritos por outros autores.

As medias descritas em literatura tanto para o autor Watanabe (1994) quanto para o autor Ellis (1971), pertencem ao fungo Cladosporium cladosporioides e que foram utilizadas com o intuito de realizar-se a comparação morfométrica.

Os elementos morfológicos e morfométricos que sofreram sucessivas medições – conídios, conidióforos, células conidiogênicas, presença de estroma e de equinulação dos conídios - estão de acordo para o gênero Cladosporium sp. e próximos dos elementos morfológicos descritos por Ellis (1971).


4. LITERATURA CITADA


CALDEIRA JÚNIOR, C. F. et al. Ocorrência de Cladosporium sp. em Tanacetum parthenium (L.) Schutz Bip. Revista Brasileira de Biociências, Porto Alegre, v. 5, supl. 2, p. 309-311, jul. 2007.

EMBRAPA CENARGEN disponível em: , acessado em outubro de 2010.

DA SILVA, P.: Fungos anamorfos decompositores do folhedo de Caesalpina echinata Lam. Provenientes de exemplares estabelecidos em áreas com e sem impacto de poluição aérea. Disponível em: www.biodiversidade.pgibt.ibot.sp.gov.br/teses_dissert/Priscila2007.pdf. Acesso em: 18/10/2010.

ELLIS, M. B. Deuteromicetos e hifomicetos. Ed. CAB – Comunidade Micológica - Instituto Kem. Inglaterra: Surre, 1971.

EMlab P&K – Empresa TestAmérica de análise laboratorial de microorganismos. Disponível em: http://www.emlab.com/app/fungi/Fungi.,

acessado em novembro de 2010.

FARR, D.F. & ROSSMAN, A.Y. Bancos de dados de fungos, Micologia sistemática e Laboratório de Microbiologia, ARS, USDA. Disponível em:

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GOMIDE, C.C.C.; FONSECA, C.E.L.; NASSER, C.B.; CHARCHAR, M.J.D.; FARIAS NETO, A.L. Identificação e controle de fungos associados a sementes armazenadas de cagaita (Eugenia dysenterica DC.). Pesquisa Agropecuária Brasileira, Brasíilia, vol. 29, n.6, p.885-890, jun.1994.

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KIRK, P. M.; CANNON, P. F.; DAVID, J. C.; STALPERS, J. A.; Dictionary of the Fungi. 9 th Edition, CABI Bioscience. Surrey, UK, 2001.

MARTINS, M.C.; LOURENÇO, S.A.; GUTIERREZ, A.S.D.; JACOMINO, A.P.; AMORIM, L. Quantificação de Danos Pós- Colheita em Pêssegos no Mercado Atacadista de São Paulo. Fitopatologia Brasileira, vol. 31(1), p.5-10, jan - fev 2006.

MIRANDA, A. M. et al. Ocorrência natural de cladosporium sp. sobre a mosca-branca (bemisia tuberculata bondar) (hemiptera: aleyrodidae) no Mato Grosso e Paraná. XIII Congresso Brasileiro de Mandioca p.493-496, 2009.

Micoses sistêmicas - Doenças em animais silvestres. Disponível em http://www.icb.ufmg.br/mic/mic/m-25.html. Acessado em Outubro de 2010.

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WATANABE, T. Atlas Pictórico de fungos de solos e de sementes. Tókio: Lewis Publisher, 1994.








22 comentários:

  1. A prancha ficaria menos carregada se colocasse apenas as abreviações

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  2. Poderia ter colocado somente as setas na prancha, e ter caracterizado somente na legenda.

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  3. Deveria ter especificado as estruturas na legenda.

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  4. Cássio: Faltou colocar a composição do fixador.

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  5. Faltou colocar a composiçao do fixador!
    mais ficou bom o trabalho!
    abrass

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  6. não deve citar a lente utilizada no microscópio

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  7. Falta colocar alguns nomes científicos em itálico

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  8. melhorar os paragrafos. no demais ta muito bom.

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  9. Tálita Borges.

    Reorganizar resultados e discussões.

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  10. Poderia ter abreviado o nome das estruturas na prancha.

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  11. Alicionon Oliveira: Somente organizar os Resultados e discussoes. Mas muito bom.

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  12. A prancha ficou com um pouco de excesso, no mais o trabalho ficou muito bom.

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  13. Marcelo Mueller: Em alguns parágrafos o nome do fungo não está em itálico.

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  14. Edvan Müller: acho que ja falaram tudo. seu trabalho ficou muito bom.

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  15. Ficou bom o trabalho, não tem muita coisa a mudar.

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  16. Alisson : na prancheta de fotos nao necessitava colocar todo nome da estrura nas fotos, poderia ser so uma abreviaçao.

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  17. tirando o excesso de informação na prancha de fotos, o que dificulta o entendimento, ficou um otimo trabalho.

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