terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Boletim Técnico: Incidência de Podridão negra das crucíferas causada por Xanthomonas (Xanthomonas campestris pv. campestris) em Repolho (Brassica oleracea var. captata L.)

Adriano Alves Caixeta
Acadêmico do Curso de Agronomia

A agricultura brasileira e mundial é bastante afetada por várias doenças causadas por espécies do gênero Xanthomonas, ocasionando assim perdas substanciais em várias culturas de grande importância econômica. A podridão negra causada por Xanthomonas campestris pv. campestris, é considerada umas das doenças mais destrutivas de crucíferas. A família Cruciferae/Brassicaceae inclui uma grande variedade de culturas de importância econômica cultivadas para alimentação, preparo de condimentos e plantas ornamentais. A podridão negra ocorre em todas as regiões produtoras de crucíferas em todo o mundo causando perdas na produção e qualidade das culturas (CENARGEN, 2011).
Xanthomonas é um gênero da família da Pseudomonaceae. Com exceção da bactéria Xanthomonas maltophilia todos os outros microrganismos desse gênero são fitopatogênicos. As bactérias pertencentes ao gênero Xanthomonas podem produzir goma xantana, um polissacarídeo de enorme interesse para as industrias de alimentos, farmacêuticos e de petróleo. A goma apresenta capacidade de formar soluções viscosas e géis hidrossolúveis que lhe fornecem propriedades reológicas únicas (UEL, 2011).
O objetivo desse trabalho e desenvolver um boletim técnico da podridão negra das crucíferas em repolho levando em consideração aspectos da sua sintomatologia, etiologia, epidemiologia e controle.
MATERIAS E MÉTODOS
As amostras de folhas de repolho (Brassica oleracea var. captata) com sintomas de podridão negra foram recolhidas na cidade de Bento Gonçalves (RS) e Urutaí (GO), e levadas para análise no laboratório de Microbiologia do Instituto Federal Goiano – Campus Urutaí.
Para isolamento da bactéria foi extraído um fragmento do tecido da amostra (assepcia superficial com solução álcool [50%], hipoclorito de sódio [3%], e água) e colocado em um recipiente com água destilada estéreo, foi feito um processo de maceração (desfragmentando do tecido) para se obter uma solução, utilizando uma alça de platina colocou-se uma pequena quantidade dessa solução e a transferiu para um meio de cultura 523 pelo processo de riscagem, e em seguida esse meio foi colocado em câmara de crescimento por 48 horas. Os sintomas e o meio de cultura foram fotografados com a câmera digital Canon® modelo Power Shot A580, utilizando microscópio estereoscópico (lupa).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Hospedeiro/Cultura: Repolho – Brassica oleracea var. captata L.
Família Botânica: Brassicaceae
Agente causal: Xanthomonas campestris pv. campestris
Local da coleta: Bento Gonçalves, RS; e Urutaí, GO.
Taxonomia: Reino Procariontes, Divisão Gracilicutes, Classe Proteobacteria, Ordem Pseudomonadales, Família Pseudominadaceae, Gênero Xanthomonas, Espécie Xanthomonas campestris pv. campestris
Sintomatologia
 A presença do patógeno é inicialmente manifestada pelo escurecimento dos vasos nas margens das folhas (Fig. 1A). A região afetada aumenta rapidamente das bordas para o centro das folhas (Fig. 1B), resultando no aparecimento de áreas cloróticas em forma de “V” fechando dos bordos para o centro do limbo (Fig. 1C). A infecção das nervuras progride para o pecíolo e talo, com a descoloração do tecido vascular. As folhas infectadas amarelecem rapidamente e murcham. As áreas em forma de “V” necrosam, podendo cair e deixar as nervuras expostas. A podridão se apresenta dura e seca. As cabeças de repolho, quando infectadas de um só lado, podem apresentar assimetria ou deformação. A bactéria prolifera nos tecidos vasculares, podendo exsudar quando o talo é cortado. A podridão causada pelo patógeno exala forte odor (UFRGS, 2010).
Etiologia
O agente causal dessa enfermidade é a bactéria Xanthomonas campestris pv. campestris. O patógeno e uma bactéria gram-negativa, aeróbica e baciliforme (UFRGS, 2011).
A variabilidade de populações de patógenos pode estar relacionada à adaptação a diferentes genótipos do hospedeiro, resposta a fungicidas e antibióticos, habilidade para tolerar substâncias tóxicas, utilizar substâncias para o crescimento e mudar a virulência em relação às plantas hospedeiras (CASELA & GUIMARÃES, 1996). Alguns estudos têm constatado variabilidade de isolados de X. campestris em relação a antibióticos e produção de esterases (ADHIKARI & BASNYAT, 1999).




Figura 1. Podridão negra das crucíferas causado por Xanthomonas campestris pv. campestris em repolho. A. Folha de repolho com sintomas, B. Lesão necrótica, C. detalhe da lesão amarelecendo e necrosando o tecido em forma de “V”. D. colônias bacterianas de coloração amarelada, E. colônias bacterianas em microscópio estereoscópio.

Epidemiologia
Em 2001, levantamentos em plantios orgânicos de brócolos (Brassica oleracea var. italica L.), couve-chinesa (Brassica pekinnensis L.), couve-flor (Brassica oleracea var. botrytis L.) e couve-manteiga (Brassica oleracea L. var. acephala DC.) no estado de Pernambuco, registraram elevadas prevalências da podridão-negra, sendo de até 88,9% em couve-flor. Isto indica a importância da podridão-negra para as culturas de brássicas em Pernambuco e destaca a adaptabilidade do patógeno aos ambientes e aos hospedeiros (PERUCH et al., 2006).
X. campestris pv. campestris sobrevive em sementes, alojando-se na sua superfície e/ou no seu interior, em restos culturais fibrosos de plantas doentes, em plantas daninhas e em plantas hospedeiras, como epífita, sem entrar em contato com o interior do tecido da planta. A disseminação do patógeno, a longas distâncias, é realizada através de sementes ou de mudas doentes e, a curtas distâncias, por respingos de água de chuva ou de irrigação, geralmente na direção dos ventos predominantes. Também pode ser disseminados durante tratos culturais (KIMATI et al., 2005). As epidemias de podridão negra são favorecidas por temperatura e umidade elevadas (UFRGS, 2011). Temperaturas entre 28 e 30oC e presença de água de irrigação, de chuva ou de condensação são favoráveis para penetração da bactéria. A penetração ocorre através de aberturas naturais (estômatos e hidatódios) ou por ferimentos provocados na superfície da parte aérea (KIMATI et al., 2005).
Controle
Atualmente, essa doença tem sido parcialmente controlada pela utilização de cultivares resistentes. Entretanto, essa bactéria ainda representa uma ameaça para agricultura do país e, portanto, métodos mais eficientes de controle dessa doença dever ser desenvolvidos. Embora a sequência do genoma de X. campestris pv. campestris tenha sido revelada, informações a respeito da expressão de proteínas e genes desse patógeno em condições controladas ou na interação com a planta hospedeira permanecem escassos (CENARGEN, 2011).
O emprego de sementes sadias é indispensável para controle dessa bacteriose. Pesquisas tem demonstrado que a infecção máxima tolerável em sementes de brócolis, nos EUA, é de 0,01%. O tratamento térmico de sementes de repolho e de couve-de-bruxelas (imersão em água a 50oC, durante 25min) e de sementes de brócolis na mesma temperatura, durante 20min, é indicado. Trabalhos desenvolvidos no Brasil demonstram a eficácia do tratamento com água a 50oC, por 30min, para erradicação de X. c. pv. campestris de sementes de repolho. Sementes tratadas nessas condições deram origem a menos de 2% de plantas doentes, enquanto a testemunha originou 70% de plantas com sintomas de podridão negra (KIMATI et al., 2005).
Outra possibilidade de controle é o tratamento de sementes com antibióticos. Pode-se usar imersão por 30min em solução de aureomicina ou terramicina, na dosagem de 1 a 3g do antibiótico por litro de água. O excesso do antibiótico é neutralizado imergindo-se as sementes, por 30min, em salmoura (15g de sal de cozinha por litro de água) (KIMATI et al., 2005).
É recomendado a eliminação total, por meio de aração profunda, de restos culturas infectados, plantas voluntárias e plantas daninhas hospedeiras do patógeno. Em áreas anteriormente cultivadas com crucíferas, é aconselhável a rotação de culturas por um período de dois anos. O plantio de variedades ou híbridos com maiores níveis de resistência é recomendado (KIMATI et al., 2005).
Também é recomendado:
- Escolher a época de plantio adequada, preferencialmente períodos mais secos e frios, especialmente para os genótipos mais suscetíveis.
- Selecionar o local de plantio, evitando-se solos infestados e proximidade de plantios contaminados.
- Conservar bons níveis de N, P, K e micronutrientes no solo, pois a deficiência aumenta a propensão das plântulas à doença.
- Utilizar sementes certificadas.
- Efetuar o tratamento químico das sementes pelos seguintes procedimentos:
- Tratamento seco por 16 horas com hipoclorito de cálcio na proporção de 10 a 20g do p.a. por kg de sementes.
- Tratamentos com Nyolate (desinfetante à base de ácido lático e hipoclorito de sódio) por 30 a 60 minutos (UFRGS, 2011).
Apesar de algumas pesquisas sobre o controle biológico de X. campestris pv. campestris em citros, feijão, algodão, arroz e soja, muito pouca informação existe sobre o controle biológico da podridão negra em crucíferas (SCIELO, 2011).



LITERATURA CITADA
ADHIKARI TB; BASNYAT R. 1999. Phenotypic characteristics of Xanthomonas campestris pv. campestris from Nepal. European Journal of Plant Pathology 105:303-305.
ASSIS, S.M.L., MARIANO, R.L.R., MICHEREFF, S.J., SILVA, G., MARANHAO, E.A.A. Antagonismo de leveduras a Xanthomonas campestris pv. campestris no filoplano de repolho no campo. Revista de Microbiologia 30:191-195 1999.
CASELA CB; GUIMARÃES FB. 1996. Especialização fisiológica de fungos fitopatogênicos. Revisão Anual de Patologia de Plantas 4:75-93.
CENARGEM, Boletin de Pesquisa e Desenvolvimento. Disponível em: <http://www.cenargen.embrapa.br/publica/trabalhos/bp093.pdf>, acessado em: outubro de 2011.
KIMATI, H., AMORIM, L., REZENDE, J.A.M., BERGAMIN FILHO, A., Manual de Fitopatologia, vol. 2, doenças das plantas cultivadas 4o ed. Cap. 31, São Paulo: Agronômicas Ceres, 2005.
PERUCH LAM; MICHEREFF SJ; ARAÚJO IB. 2006. Levantamento da intensidade da alternariose e da podridão negra em cultivos orgânicos de brássicas em Pernambuco e Santa Catarina. Horticultura Brasileira 24:464-469.
SCIELO, Levantamento da intensidade da alternariose e da podridão negra em cultivos orgânicos de brássicas em Pernambuco e Santa Catarina. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/%0D/hb/v24n4/14.pdf>, acessado em: outubro de 2011.
UFRGS. Disponível em: <http://www6.ufrgs.br/agronomia/fitossan/fitopatologia/ficha.php?id=177>, acessado em: outubro de 2011.


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