sábado, 14 de janeiro de 2012

Boletim Técnico: Ferrugem do Gonçalo-Alves [Astronium fraxinifolium Schott] causada por Kimuromyces cerradensis Dianese


Guilherme Augusto Mendes Padovani
Acadêmico do Curso de Agronomia

1. INTRODUCÃO    

          Gonçalo-Alves (Astronium fraxinifolium Schott) é uma espécie arbórea de cerrado que, de acordo com a Portaria IBAMA n. 37-N, de 3 de abril de 1992 IBAMA (1992), está ameaçada de extinção. Da família Anacardiaceae, é considerada uma espécie pioneira e heliófita, característica de terrenos rochosos e secos, onde forma agrupamentos isolados LORENZI 1992), e de maior densidade em áreas de solos com melhores condições químicas (ALMEIDA et al., 1998).
Essa espécie possui madeira pesada (densidade de 1,09 g.cm-3), compacta, rígida, de grande durabilidade sob condições naturais, o que a classifica como adequada para uso na construção civil e naval, na marcenaria, para confecção de dormentes a portas de fino acabamento, além de ser uma opção para o paisagismo por seu porte médio e beleza da copa (LORENZI, 1992).
          As ferrugens podem ter ação devastadora sobre seu hospedeiro e têm sido reconhecidas pelo homem desde a antiguidade. Estas doenças provocam constantemente enormes perdas em varias culturas, principalmente em gramíneas, como trigo, cevada, milho e cana. Além das gramíneas, café, soja, feijão, várias ornamentais, frutíferas e hortaliças sofrem redução na produção devido ao ataque de doenças deste grupo. As plantas doentes têm seu processo fotossintético afetado tanto pela retirada de nutrientes promovida pelo fungo como pela destruição de áreas foliar, decorrente da formação de pústulas e da queda de folhas provocada pelo patógeno (KIMATI et al., 2005).
    O objetivo deste trabalho foi demostrar a incidência da ferrugem causada por Kimuromyces cerradensis em Gonçalo-Alves e as características da doença, colocando a disposição os métodos de controle.


2.MATERIAIS E METODOS

O trabalho foi feito no Laboratório de Microbiologia do Instituto Federal Goiano campus Urutaí.
As amostras de folhas de Gonçalo Alves infectadas com Kimuromyces cerradensis foram coletadas na cidade de Brasília – DF, no mês de outubro de 2011. Estas folhas foram levadas para o Laboratório de Microbiologia e foram feitos corte histológico e pescagem, direta sendo colocadas em lâmina semi-permanente, as estruturas do patógeno com corante azul de metileno e vedada com esmalte para a visualização no microscópio estetoscópio. Após a visualização dos propágulos, estes foram coletados da superfície foliar com o auxílio de uma pinça e colocados em uma lâmina contendo uma gota de fixador lactofenol cotton-blue, em seguida colocou-se uma lamínula sobre a lâmina. Retirou-se o excesso de corante com papel higiênico, logo após vedou-se com esmalte e levou o conjunto para visualização em microscópio ótico.
Foram feitos vários cortes histológicos, porém a interação entre o patógeno e a estrutura do hospedeiro no microscópio óptico foi observado apenas as estruturas assexuais.
Para esse trabalho foram realizadas microfotografias das estruturas fúngicas no microscópio ótico e das frutificações fúngicas na epiderme das folhas no microscópio estereoscópico, utilizando câmera digital Canon® modelo Power Shot SD750.


3. RESULTADO E DISCUSSÕES

Reino: Plantae; Divisão: Magnoliophyta; Classe: Magnoliopsida; Ordem: Anacardiaceae
Gênero: Astronium sp.; Espécie: Astronium fraxinifolium

Sintomatologia

    Ferrugens são assim denominadas em razão das lesões amareladas, de aspecto ferruginoso, que causam nos hospedeiros atacados. Estas lesões, também referidas como pústulas, são constituídas, na maior parte, por estruturas reprodutivas do fungo, que emergem do tecido vegetal atacado através do rompimento da epiderme do hospedeiro. As pústulas são geralmente salientes em relação à superfície vegetal e liberam facilmente os propágulos do fungo representados por urediniósporos e teliósporos (KIMATI et al., 2005).
    A ferrugem pode causar danos maiores ou menores, dependendo do estádio do desenvolvimento da planta e da severidade do ataque do patógeno. Assim, são observados em plantas atacadas a destruição de área foliar, necrose de brotações e queda precoce de folhas, flores e frutos. Como consequência, pode ocorrer a morte de plantas jovens, o enfraquecimento de plantas adultas e a sensível redução na produção de frutos ou órgãos (KIMATI et al., 2005).
    Os sintomas de ferrugens manifestam-se predominantemente nas folhas, embora possam ocorrer, em alguns casos, em outras partes vegetais, como bainhas, colmos, ramos novos, órgãos florais e frutos em início de desenvolvimento (KIMATI et al., 2005).    Nas folhas, os sintomas tem início com pequenas manchas amareladas, geralmente circulares ou elípticas, recobertas pela cutícula da planta. (KIMATI et al., 2005).
    Ramos e frutos, a ferrugem produz manchas recobertas por uma densa massa pulverulenta de coloração amarela, constituída por urediniósporos do patógeno. Quando ocorre a coalescência destas lesões, os ramos novos e os frutos jovens podem ficar totalmente recobertos por esta massa. As manchas, com o decorre do tempo, pode se tornar necróticas (KIMATI et al., 2005).

Etiologia

    Esta família tem seus espermagônios segundo Cummins & Hiratsuka (2003) no grupo VI tipo 5 ou 7, apresenta teliósporos separados dentro do télio, bicelulares ou com mais células, pedicelados, nos anamorfos geralmente as paráfises são ausentes e quando presentes são rugosas somente no ápice ou quando lisas, os urediniósporos são bilaminados.
    O fungo Kimuromyces sp. foi descrito por Dianese et al. (1995) o qual apresenta K. cerradensis como a única espécie conhecida. Segunda estes autores, a morfologia dos seus teliósporos, a espécie de hospedeiro e a forma característica dos uredínios e urediniósporos diferenciam Kimuromyces dos demais gêneros neotropicais com teliósporos bicelulares e septo transversal. Apesar de não ser conhecido o estagio espermogonial, Dianese et al (1995) justificaram a inclusão de K. cerradensis na família Uropyxidaceae devido a semelhança existente entre este gênero e Porotenus  com relação a morfologia geral e germinação dos teliosporos.
 A espécie Kimuromyces cerradensis pertence ao Reino Fungi, Divisão Basidiomycota, Classe Teliomycetes, Ordem Uredinales, Família Puccineaceae, Gênero Kimuromyces (INDEX FUNGORUM, 2011).
O seu estado telemorfo não apresenta sinonímia conhecida ou registrada. (MYCOBANK 2011).
 


 
Figura 1. Ferrugem causada por Kimuromyces cerradensis incidente em folhas de Gonçalo Alves. A. sintomas na face abaxial; B. pústulas de coloração marron pulverulentas na face abaxial, C. urediniosporos de formato elíptico e de parede espessa, D. urédia em corte transversal da folha, E. urediniósporos de formato losangular.

EPIDEMIOLOGIA

Condições favoráveis são clima seco e quente (20-25 OC) e o teor de umidade acima de 95% para germinarem, Possuem ampla gama de hospedeiros causando perdas principalmente em gramíneas (trigo, cevada, milho e cana) e soja, café, feijão, ornamentais, etc. (KIMATI et al., 2005).
Os agentes causais de ferrugens, por serem parasitas obrigatórios, necessitam de hospedeiro vivo para seu desenvolvimento e, em função da sua especialização em relação ao hospedeiro, geralmente não possuem hospedeiros alternativos. Estas características têm influencia direta sobre a forma de sobrevivência dos mesmos. Assim, nos trópicos, os patógenos sobrevivem principalmente na forma de urediniósporos que, geralmente, permanecem sobre plantas voluntarias após a colheita. Nos países de clima temperados, e comum urediniósporos serem trazidos pelo vento de regiões longínquas.                        Em muitas situações, os teliósporos atuam como estruturas de resistência e garantem a sobrevivência do patógeno na ausência do hospedeiro. Disseminação pode ocorrer a curta ou longa distancias através do vento, água, insetos e outros agentes disseminadores. A água, na forma de respingos, tem papel importante na disseminação de esporos dentro da planta ou para plantas vizinhas. O vento, no entanto, e o agente de maior importância. Além de promover a disseminação dentro da planta e para plantas próximas a fonte de inoculo, o vento e responsável por levar esporos a grandes distancias promovendo uma distribuição eficiente do inoculo em amplas áreas geográficas. Os esporos, predominantemente representados pelos urediniósporos, ao atingir uma planta suscetível passa a desenvolver a etapa de infecção. A fase de germinação tem inicio quando a umidade do ar esta próxima a saturação, sendo muito favorecida quando um filme de água cobre a superfície foliar; nestas condições, o urediniósporo germina, produzindo um promicélio e, posteriormente, o apressório. A penetração ocorre através dos estômatos e a colonização ocorre através de micélio intercelular e emissão de haustórios para o interior da célula. Como conseqüência da colonização dos tecidos, surgem os sintomas, na forma de manchas inicialmente punctiformes e coloração levemente amarelada (KIMATI et al., 2005).
          Existem registros de 12 espécies de fungo, infectando A. fraxinifolium Schott sendo a planta hospedeira para as seguintes espécies: Kimuromyces cerradensis Dianese, GO, SP, PA, MT, MS, MG, CE, Meliola brachyodonta Syd., Meliola geniculata var. minor Hansf. MT, Meliola weigeltii Kunze, Meliola weigeltii var. fraxinifolii Bat. PE, Oidium sp. DF, Pestalotiopsis heterospora Bat., Poroca & J.L. Bezerra MA, Phyllachora astronii Speg. sin. Puiggarina astronii (Speg.) Speg. GO, Pseudocercospora astronii A. Hern.-Gut. & Dianese MG, Pseudocercospora astroniicola U. Braun & F.O. Freire CE, Puccinia sp. Pers. (CENARGEN, 2011).
          Existem 4 registros de hospedeiras para Kimuromyces cerradensis em Astronium fraxinifolium, Astronium lecointei e Astronium sp. descritas por Mendes, M.A.S., da Silva, V.L., Dianese, J.C., and et al. (1998). e Hennen, J.F., Figueiredo, M.B., de Carvalho, A.A., Jr., and Hennen, P.G. (2005). Farr e Rosmann (2011). Todos os registros sendo feitos no Brasil nos seguintes estados: GO, CE, MT, MS, MG, PA, SP, sendo este o primeiro registro de K. Cerradensis no Distrito Federal (CENARGEN, 2011).

CONTROLE

    Genético - O controle das ferrugens tem sido desenvolvido com base em variedades resistentes, utilização de produtos químicos e erradicação de hospedeiros intermediários (ferrugens de ciclo heteroécios). Apesar da disponibilidade de materiais resistentes e de fungicidas eficientes, as ferrugens continuam causando sensíveis reduções na produção de alimentos em todo o mundo (KIMATI et al., 2005).
    Químico – Produtos químicos de espectro amplo ou especifico aumentam o custo de produção. Em alguns casos, porem, tais produtos tem se mostrado bastante eficientes e devem ser considerados como uma alternativa potencial de controle, principalmente na ausência de material geneticamente resistente (FILHO et al,. 1995).
Não existem registros para o controle químico de K. cerradensis no Ministério da Agricultura (AGROFIT, 2011).
    Biológico – O controle biológico de patógenos na parte aérea, com a compreensão da natureza física, química e microbiológica da superfície foliar tornou-se largamente conhecido que grandes populações de microrganismos epifíticos vivem na superfície foliar e são capazes de influenciar as espécies patogênicas no processo de infecção de folhas e caules (FILHO et al,. 1995).
    Cultural – Nos intervalos entre períodos de parasitismos os patógenos encontram-se em uma ambiente menos favorável e, provavelmente, mais vulnerável as praticas de controle cultural (FILHO et al,. 1995).
    O conhecimento da biologia de um fitopatógeno leva ao entendimento de onde, como e por quanto tempo ele sobrevive na ausência da planta hospedeira cultivada e de como pode ser racionalmente controlado (FILHO et al,. 1995).
    A erradicação de hospedeiros intermediários constitui-se uma medida de caráter especifico para o caso das ferrugens que necessitam de mais de um hospedeiro para completar seu ciclo vital (FILHO et al,. 1995).
    Físico – Nesta modalidade de controle são utilizados vários agentes físicos para reduzir o inoculo ou desenvolvimento das doenças. Os principais são a temperatura radiação, a ventilação e a luz (FILHO et al,. 1995).

4. LITERATURA CITADA

AGROFIT – Disponível em < http://extranet.agricultura.gov.br/agrofit_cons/principal_agrofit_cons > Acessado em: 17 de dezembro de 2011.

ALMEIDA, S. P. et al. Cerrado: espécies vegetais úteis. Planaltina: Embrapa-CPAC, 1998. p.67-71.

CENARGEN - Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia - MENDES, M. A. S.; URBEN, A. F.; Fungos relatados em plantas no Brasil, Laboratório de Quarentena Vegetal. Brasília, DF. Disponível em: < HTTP://pragawall.cenargem.embrapa.br/aiqweb.>                                                                             Acesso em: <5/11/2011>.

CUMMINS, G. B. & HIRATSUKA, Y. 2003. Illustrated genera of rust fungi. 3 ed. American Phithopathological Society, St. Paul.

DIANESE, J.C., SANTOS, L.T.P., MEDEIROS, & R.BFURLANETTO, C. 1995. Kimuromyces Cerradensis gen. et sp nov., the rust fungus “Gonçalves Alves” (Astronium fraxinifolium – Anacardiaceae). Fitopatologia Brasileira 20: 251-255.

FARR E ROSMANN Disponível em: < http://nt.asgrin.gov/fungaldatabases/new_all    lViewgenBank.cfm?whichone=all&thisName=Kimuromycescerradensis&organismtype=Fungus&fromAllCount=Yes >    acessado 4 de novembro de 2011.

FILHO, A. B., KIMATI, H., AMORIM, L., Manual de Fitopatologia, vol. 1, princípios e conceitos  3° ed. cap. 34, pág 676, São Paulo: Agronômicas Ceres, 1995.

HENNEN, J.F., FIGUEIREDO, M.B., DE CARVALHO, A.A., JR., AND HENNEN, P.G. 2005. Catalogue of the species of plant rust fungi (Uredinales) of Brazil. Unknown journal or publisher, 490 pages.

IBAMA - Portaria Nº 37-N, 3 de abril de 1992. Disponível em:http://www.cetesb.sp.gov.br/licenciamentoo/legislacao/federal/portarias/1992_Port_IBAMA_37.pdf.>

INDEX FUNGORUM – Disponível em < http://www.indexfungorum.org/names/NamesRecord.asp?RecordID=413267 > Acessado em 23 de novembro de 2011.

KIMATI, H., AMORIM, L., REZENDE, J.A.M., BERGAMIN FILHO, A., Manual de Fitopatologia, vol. 2, doenças das plantas cultivadas 4° ed. cap. 53, pág 469, São Paulo: Agronômicas Ceres, 2005.

LORENZI, H. Árvores brasileiras: Manual de identificação e cultivo de plantas arbóreas nativas do Brasil. Nova Odessa: Plantarum, 1992. 352p.

MENDES, M.A.S., DA SILVA, V.L., DIANESE, J.C., and et al. 1998. Fungos em Plants no Brasil. Embrapa-SPI/Embrapa-Cenargen, Brasilia, 555 pages.

MYCOBANK 2011 disponivel em: < http://www.mycobank.org/MycoTaxo.aspx?Link=T&Rec=413267 > acessado em 04 de novembro de 2011.
 

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