segunda-feira, 2 de maio de 2011

Incidência de Oidio (Oidium sp.) em folhas de Ipê-roxo (Tabebuia impetiginosa)

Nathalia Munique de Faria Melo.



1. Introdução


Pertencentes à família das bignoniáceas, os ipês são incluídos nos gêneros Tabebuia sp., Tecoma sp. e Zeiheria sp., palavra de origem tupi-guarani que significa pau ou madeira que flutua com a qual os índios denominavam a caxeta, árvore que nasce na zona litorânea do Brasil (Época, 2001).
O Ipê é a árvore brasileira mais conhecida, a mais cultivada e, sem dúvida nenhuma, a mais bela. É na verdade um complexo de nove ou dez espécies com características mais ou menos semelhantes, com flores brancas, amarelas ou roxas. Não há região do país onde não exista pelo menos uma espécie dela. (Época, 2001)
Os ipês são árvores da América tropical, que possuem madeira de excelente qualidade, usada em construções pesadas, fabricação de móveis, esquadrias, assoalhos e cabos de ferramenta. Além dessa qualidade, as espécies T. serratifolia (ipês-amarelo), T. chrysotricha (ipê-mulato), T. odontodiscus (ipê-branco), T. impetiginosa (ipê-roxo) e Z. tuberculosa (ipê-preto) possuem florada de rara beleza e, por isso, são muito usadas como árvores ornamentais no sudeste brasileiro. Tabebuia serratifolia, o ipê amarelo, considerada árvore- símbolo do Brasil é então, a espécie de ipê mais difundida em MG, em termos de plantio artificial, sendo muito usados na arborização de ruas, avenidas, jardins particulares em arboretos de parques e espaços livres. (Ferreira, 1989).
As doenças registradas em condições urbanas são encontradas também em condições naturais, na mata, em capoeiras, ou mesmo em pastagens, onde o ipê se destaca pela sua beleza. Existem poucos estudos que relacionem o ambiente urbano com a ocorrência de doenças em árvores, no Brasil. Sabe-se, porém, que existe uma grande chance de surgirem problemas de origem abiótica, como as injúrias por descargas elétricas, as ações de origem antrópica ou distúrbios fisiológicos decorrentes do estresse, em áreas urbanas. (Auer, 2001).
As amostras de T. impetiginosa foram coletadas com a incidência de oidio, caracterizada por um crescimento branco bem visível, em manchas esparsas nas folhas. Em condições de temperatura amena e alta umidade, as folhas podem ficar totalmente cobertas. Com o desenvolvimento, essas manchas escurecem, tornando-se pardas. O oidio pode ser causado por diferentes espécies de fungos, pertencentes aos gêneros Oidium e Ovulariopsis (fase assexual) e Uncinula e Phyllactinia (fase sexual). No caso deste trabalho o oidio apresentou somente a fase assexual, devido o período de coleta.
São 481 espécies pertencentes gênero Oidium sp. registradas em literaturas para este gênero, sendo 33 variedades (Index Fungorum, 2011). No Brasil são registrados cerca de 132 hospedeiros do fungo (Cenargen, 2011).

2. MATERIAIS E MÉTODOS


As amostras de folhas do ipê roxo (Tabebuia impetiginosa) com sintomas de oidio foram coletadas no campo do Instituto Federal Goiano – Campus Urutaí, e conduzidas para análises no Laboratório de Microbiologia do Campus.
As amostras onde se observou maior quantidade de sinais foram analisadas preparando lâminas através do método de “pescagem direta”. Ambas as lâminas foram preparadas utilizando fixador a base de azul-de-metileno, após o preparo das mesmas estas foram vedadas com base (esmalte) para a conservação do material, sendo posteriormente analisadas em microscópio óptico, onde foram realizados registros de macro e microfotografia digital utilizando máquina digital (Sony CANON Power Shot A580). Foram realizadas medições de Comparação de caracteres morfológicos e morfométricos do isolado, encontrado com os critérios estabelecidos para Oidium sp. obtidos por outros autores como: tamanho da lesão, dimensões dos conídio e conidióforos e ainda dimensões da célula conidiogênica. As fotos, contendo diferentes estruturas do fungo Oidium sp. e os sintomas da doença nas folhas, foram organizadas em uma prancha de fotos, sendo as mesmas identificadas.


3. RESULTADOS E DISCUSSÃO



Hospedeiro/ Cultura: ipê roxo – Tabebuia impetiginosa
Família botânica: Bignoniáceas
Descrição botânica: Árvore hermafrodita medindo até 10 m, glabra salvo diminutas glândulas lepidotas nas folhas, pecíolo, ramos da inflorescência, cálice, ovário e frutos. Frutificação: frutos imaturos a partir de julho, maturação de setembro a outubro. Folhas opostas, compostas digitadas, folíolos 5 a 7, os laterais freqüentemente subsésseis ou curto-peciolulados, os centrais com peciólulo de até metade do comprimento do folíolo, limbo com 6 a 15 x 3,5 a 12 cm, oblongo, elíptico ou oboval, ápice de obtuso a arredondado; base de obtusa a arredondada; nervação um tanto elevada na face ventral. Inflorescência panícula terminal corimbosa, congesta, com aproximadamente 70 flores. Flores com aproximadamente 8 cm de comprimento, levemente zigomorfas; cálice tubuloso, irregularmente lobado; corola amarela, infundibuliforme, com 5 lobos arredondados, imbricados; estames 4, didínamos, epipétalos; antera rimosas com teças divaricadas; ovário supero, bilocular, com muitos óvulos axilares; estilete 1, filiforme; estigma 1, bilamelar; disco nectarífero cupular. Fruto cápsula loculicida, com ate 15 cm de comprimento, cinza-escuro, linear, cilíndrico; muitas sementes, branco-rosadas, oblongas, bi-aladas, com núcleo seminífero central (Almeida et al., 1989).
Agente Causal (Anamorfo): Oidium sp.


Local da Coleta: Instituto Federal Goiano - Campus Urutaí.

Data da Coleta: 18 de março de 2011.
Taxonomia: Reino: Fungi; Divisão: Eumycota; Sub-divisão: Ascomycotina; Classe: Pyrenomycetes; Ordem: Erysiphales; Família: Erysiphaceae; Gêneros: Oidium e Ovulariopsis, fase anamórfica (Auer, 2001; Index Fungorum, 2011).

Sintomatologia:
A doença é caracterizada por um crescimento pulverulento branco bem visível, em manchas esparsas nas folhas (Fig. 1AB). Em condições de temperatura amena e alta umidade, as folhas podem ficar totalmente cobertas (Fig. 1C). Os sintomas de pulverulência podem não estar presentes na face abaxial das folhas (Fig. 1D) (Duarte, 1999). Com o desenvolvimento, essas manchas escurecem, tornando-se pardas. Os sintomas não se diferenciam de outros hospedeiros, sendo facilmente reconhecido pelo aspecto do micélio e estruturas reprodutivas assexuais do patógeno (Ferreira , 1989).

Etiologia (sinais):
Eflorescência formada de micélio, conidióforos e conídios.
Anamorfo - O micélio primário dos Oidios é hialino, septado e com paredes finas. As paredes da hifa, conídios e estruturas peridiais são estruturalmente muito uniformes. A largura das células da hifa varia de 2 a 10 µm e o comprimento entre 20 a 150 µm. As hifas se ramificam em ângulos aproximadamente retos, variam de retas flexíveis até geniculadas e podem ser evanescentes ou algo persistentes. No entanto, muitas vezes, o micélio primário torna-se algo acinzentado ou amarelado, ou tornam-se alguns marrons com a idade. Um micélio secundário mais ou menos colorido e com paredes grossas pode ser produzido em algumas espécies de oidios (Stadnik et al., 2001).
Apressórios - são estruturas protuberantes laterais das hifas, responsáveis pela fixação do micélio à superfície foliar e iniciação foliar e iniciação dos haustórios. Eles também ocorrem no final dos tubos germinativos de conídios. A forma, tamanho e arranjo dos apressórios podem ser úteis para a classificação de oidios. Quanto à sua definição, os apressórios podem ser distintos ou indistintos. Os apressórios indistintos apresentam apenas uma leve dilatação da hifa. Quanto à sua forma, os apressórios distintos podem ser: mamiliformes (em algumas espécies a superfície do apressório pode ser adicionalmente crenulada); lobulados (sendo que a forma pode variar de levemente lobulado até multi-lobulado); curvados ou elongados. Quanto à sua disposição, os apressórios podem ser arranjados de diferentes maneiras. Aqueles não lobulados são formados com freqüência isoladamente numa hifa, enquanto que os lobulados ocorrem tanto isoladamente como em numero de um a quatro, e, freqüentemente dois ou mais estão presentes, opostos ou em seqüência (Stadnik et al., 2001).
Haustórios - os haustórios são formados dentro de células epidérmicas ou, raramente em células de camadas mais profundas. Em espécies com micélio endofítico, os haustórios surgem da hifa interna e são produzidos em camadas mais profundas, no mesófilo ou palissada do tecido foliar. Na maioria dos casos, os haustórios aparecem como estruturas globosas a periformes, variando de 6 a 32 µm de diâmetro (Stadnik et al., 2001).
A célula basal é seguida por uma célula generativa (célula generativa subterminal), denominada de célula-mãe, que é responsável pela conidiogênese artroconidial. Essa célula alonga-se e dividi-se formando um conídio menor no seu ápice. A célula basal retém a capacidade generativa e assim, este processo pode se repetir inúmeras vezes. A variabilidade do arranjo das células do conidióforo é atribuída aos diferentes estádios de desenvolvimento dos conídios. A maturação dos conídios começa pelo conídio mais distal em direção à base da cadeia (Stadnik et al., 2001).
Conídios – os conídios são hialinos, unicelulares, uninucleados, vacuolados, de parede fina, contêm gota de óleo e vários grânulos. A composição e função destas estruturas permanecem, no entanto, ainda desconhecida. Os corpos de fibrosina são somente detectados em conídios frescos e desaparecem em conídios de amostras secas. O comprimento de conídios pode variar de 5 µm até 110 µm (Fig. 1EH), o tamanho de conídios pode ser influenciado por fatores abiótico (umidade, estação do ano) e bióticos (hospedeiro, idade das folhas). Os conídios são produzidos em cadeia sobre conidióforos curtos não ramificados (Fig. 1FG). Além disso, o tamanho e a forma dos conídios podem ser diferentes nas superfícies superiores e inferiores da folha. A forma conidial apresenta grande diversidade e é taxonomicamente relevante. Os conídios podem ter apenas uma forma ou ser caracteristicamente dimórficos. Os conídios podem ser angulares, cilíndricos, clavados, doliformes, elipsóides e lanceolados (Stadnik et al., 2001).

Epidemiologia:
O agente causal da doença é um fungo parasita obrigatório e sua sobrevivência, entre estações de cultivo, ocorrem em plantas voluntárias, plantas cultivadas ou silvestres. O inóculo primário, para iniciar a epidemia da doença, constitui-se de conídios que podem ser dispersos a longas distâncias pelo vento (Kurozawa e Pavan 1997).
O fungo afeta um grande número de plantas cultivadas e selvagens e há várias raças fisiológicas que diferem quanto à capacidade de infectar diferentes espécies.
Sob condições favoráveis, os conídios permanecem viáveis por 7 a 8 dias. Em cultivares muito suscetíveis e condições ambientais favoráveis a doença desenvolve-se rapidamente e seu ciclo completo pode levar de 3 a 7 dias, sendo produzida uma quantidade muito grande de esporos em cada lesão. As condições favoráveis à doença incluem cultivo muito adensado e baixa intensidade de luz. Umidade relativa alta é favorável para a infecção e sobrevivência dos conídios, entretanto a infecção pode ocorrer em umidade de até 50%. Condições de clima seco favorecem a colonização, esporulação e dispersão do fungo. A ótima temperatura para ocorrência de epidemias severas da doença é de 20 a 27°C, entretanto a infecção pode ocorrer na faixa de 10 a 32°C (Zitter et al., 1996; Stadnik et al., 2001).
Viegas (1961) identificou a incidência de oidio (Oidium sp.) infectando Tabebuia pentaphylla. Há incidência de oidio também em ipê amarelo-da-mata (Tabebuia serratifolia), Tabebuia sp., Tecoma serratifolia (ipê-do-cerrado) e em Tecoma sp. (Cernagem, 2011).

Controle: Como controle recomenda-se pulverizações com fungicidas, com produtos alternativos (bicarbonato de sódio). Existe a possibilidade do uso do controle biológico com os fungos Trichoderma harzianum e T. viride, para a redução da população de patógenos presentes nas sementes e sem danos para a germinação das mesmas (Auer, 2001).
No Sistema de Agrotóxicos Fitossanitários, AGROFIT, não há registros de produtos no controle de oidio em ipê.

4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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CENARGEN disponível em: < http://www.cenargen.embrapa.br > acessado em 07 de abril de 2011.

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FERREIRA, F. A., Patologia florestal – principais doenças florestais no Brasil. Viçosa, MG, 1989.

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