quinta-feira, 28 de abril de 2011

Melhoramento Genético da Cultura do Cafeeiro (Coffea arabica L.)

Aluno: Flávio Henrique da Silva

1. INTRODUÇÃO

O Brasil é o maior produtor mundial de café. Desde sua chegada ao país, em 1727, o café foi o maior gerador de riquezas e o produto mais importante da história nacional. Hoje, o café continua sendo um importante gerador de divisas (US$ 2 bilhões anuais, ou 26 milhões de sacas exportadas ao ano), contribuindo com mais de 2% do valor total das exportações brasileiras, e respondendo por mais de um terço da produção mundial. Um mercado ainda em franca expansão, cujo agronegócio gera, no mundo todo, recursos da ordem de 91 bilhões de dólares ao comercializar os 115 milhões de sacas que, em média, são produzidos. A atividade envolve, ainda, meio bilhão de pessoas da produção ao consumo final (8% da população mundial) (EMBRAPA, 2005).
É nesse mercado gigantesco que estão centrados os interesses da cadeia produtiva do café brasileiro, que contribuiu com mais de 30% da produção mundial nas últimas safras, gerando mais de 8 milhões de empregos diretos e indiretos no país (é o setor do agronegócio brasileiro que mais emprega no Brasil). O aporte tecnológico para o agronegócio café brasileiro é dado por instituições de pesquisa e desenvolvimento que hoje estão reunidas no Consórcio Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento do Café - CBP&D/Café, coordenado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - Embrapa, por meio de uma de suas Unidades Descentralizadas, a Embrapa Café (EMBRAPA, 2005).
O café, produto nobre do agronegócio e da pauta de exportações do Brasil, ocupa um lugar de destaque na história do desenvolvimento do País. Importante fonte de divisas e riquezas, valorizado pelo prazer de uma excelente bebida, vem se revelando como um alimento nutracêutico (nutricional e farmacêutico), capaz de incrementar a qualidade de vida de toda a humanidade (Encarnação e Lima, 2003).
A cadeia produtiva do café, segundo os setores de produção e processamento do café, é considerada a mais importante do complexo industrial brasileiro, principalmente mineiro, e tem, ao longo do tempo, apresentado incessante busca por maior eficiência e competitividade. Os setores de produção e de processamento do café desempenham papel de suma importância na produção, no emprego, na arrecadação de impostos e nas exportações (Santos, 2005).
Assim, tendo em vista a importância econômica do café e das necessidades de melhora em sua produção, este trabalho tem como objetivo apresentar formas de melhoramento genético relacionada com a cultura do café.

2. DESENVOLVIMENTO
2.1 Origem e Histórico do Café

A literatura especializada menciona varias lendas sobre as origens do uso do café como bebida. Não só na Etiópia, berço do excelente Coffea arábica, os seus habitantes descobriram os efeitos estimulantes de cocções de folhas dos cafeeiros, da polpa, dos frutos, e , mais tarde, dos grãos torrados, mas também em outras partes da África, ao que parece, de preferência, no ex-Congo Belga, os habitantes já se valiam do cafeeiro – neste caso de outras espécies de Coffea – para o preparo de infusões muito antes da ocupação destas regiões pelos europeus (Passos et al., 1987).
Quanto às primeiras culturas de café, há dúvida se estas se instalaram na própria Etiópia ou no vizinho Iemen (Arábia), para onde o café foi levado pelos árabes, no início do século XVII ou, talvez, mesmo antes. Foi neste último país que os holandeses obtiveram sementes do Coffea arábica, introduzindo-as já em 1660 na ilha de Java, onde foram estabelecidas as primeiras culturas extensivas desta Rubiácea. Em 1706, um cafeeiro daquela espécie foi levado ao Jardim Botânico de Amsterdam, na Guiana Holandesa em 1714. O mesmo cafeeiro forneceu sementes ao Jardim Botânico de Paris, o qual, poucos anos mais tarde,enviava outras à ilha de Martinica que, por sua vez, se tornou importante centro de distribuição de sementes à Venezuela, Colômbia, toda a América Central e várias regiões das Antilhas. Ao que se sabe, de Surinam o café foi levado à Caiena em 1718 e de lá introduzido em 1727 em Belém do Pará por Mello Palheta (Passos et al., 1987).
Pouco depois de sua introdução na Indonésia, o café atingiu o Ceilão e a Índia para, mais tarde, também invadir outros países asiáticos: Burma, Malaia, Tailândia, Indochina, China, Formosa, Filipinas, etc. Nas Américas, alcançou mais tarde o México. Para alcançar as Américas, fez pois, o cafeeiro Arabica um longa viagem. O fato histórico de que toda população primitiva desta espécie (var. typica), cultivada nas Américas, teve por origem possivelmente um único cafeeiro, explica a relativa uniformidade das primitivas lavouras de café (Passos et al., 1987).
Quanto ao consumo do café, este se propagou lentamente pela Europa e depois pelas Américas. Hoje, a Islândia, os Países Escandinavos e a Finlândia são os países de maior consumo per capita, sendo os EUA os maiores importadores de café do mundo. É interessante ainda notar que o consumo de café é insignificante em vários países produtores da África (Passos et al., 1987).
O café foi introduzido no Brasil no início do século XVIII e, já na quarta década do século XIX, superou o açúcar como o mais importante produto de exportação brasileiro. A partir daí, sempre participou expressivamente da receita cambial brasileira e constitui, ainda hoje, um importante produto agrícola de exportação (Sousa e Silva et al., 1999).
Historicamente, o Brasil tem ocupado a posição de maior produtor e exportador de café no mercado internacional. No ano de 1961, foi responsável por 37% das exportações mundiais do produto,enquanto que em 1995 respondeu por apenas 20% dessas exportações. Apesar desse decréscimo, o Brasil produziu 2 milhões de sacas de café no ano de 1997. Um dos fatores responsáveis pelo declínio da participação brasileira no mercado internacional foi a falta de um padrão de qualidade do produto nacional. A qualidade é determinante de preço e fator imprescindível para a aceitação do café no comercio internacional (Sousa e Silva et al., 1999).
O consumo interno tem apresentado taxas continuas de crescimento e o consumidor está cada vez mais exigente quanto a qualidade. Portanto, há uma tendência cada vez maior de redução de mercado para cafés de baixa qualidade, ou seja, o produtor brasileiro que tem a cafeicultura como objetivo principal deverá se especializar e adotar tecnologias modernas para a produção de cafés de qualidade superior (Sousa e Silva et al., 1999).

2.2 Importância da Produtividade
Na lavoura cafeeira a produtividade é um fator essencial para a determinação dos custos de produção. Dentro de certos limites, verifica-se que os custos são inversamente proporcionais aos níveis de produtividade. Isto ocorre porque uma serie de custos fixos são realizados com intensidade semelhante nos diferentes níveis de produtividade (Malavolta et al., 1986).

2.2.1Fatores que influem na produtividade
Os fatores que influem sobre a produtividade dos cafezais no Brasil podem ser reunidos em 3 categorias principais: fatores econômico-conjunturais, fatores climáticos e manejo da cultura (Malavolta et al., 1986).

2.2.1.1 Econômico-conjunturais
A conjuntura econômica determina condições favoráveis ou desfavoráveis em relação aos preços do café, à disponibilidade e custo dos insumos e da mão-de-obra, ao custo e á disponibilidade de crédito, etc. O balanço destes fatores influi sobre a tomada de decisão dos produtores, que passam a adotar em maior ou menor grau os investimentos nos tratos das lavouras (Malavolta et al., 1986).

2.2.1.2 Climáticos
Quanto às condições climáticas, destaca-se o efeito das geadas, secas e veranicos, com ação bastante conhecida no meio cafeeiro. Estes fatores têm mostrado ação mais marcante na determinação na produtividade da lavoura cafeeira, seja a nível regional ou a nível global (Malavolta et al., 1986).
O ciclo bienal de produção do cafeeiro no Brasil é um fenômeno muito importante que atua sobre a produtividade em determinados anos. Ele ocorre principalmente em função do cultivo das lavouras a pleno sol, que condiciona altas produções num ano, com o conseqüente esgotamento da planta, que assim não tem boa vegetação para voltar a produzir bem no ano seguinte. Este ciclo bienal é mais pronunciado em lavouras mal nutridas, mal tratadas, sendo comum em áreas de “cerrado”, onde, em casos graves, a lavoura leva de 2 a 3 anos para se recuperar após uma boa produção (Malavolta et al., 1986).

2.2.1.3 Manejo da Cultura
Dentre os fatores de ordem técnica pode-se enumerar como os principais influentes na produtividade cafeeira: problemas de solo, sistema de cultivo, cultivares, espaçamento, adubação e calagem, manejo da plantação (praticas culturais), combate a pragas e doenças, proteção contra ventos e irrigação (Malavolta et al., 1986).

2.2.1.3.1 Condições físicas do solo
Nas áreas de cerrado é comum a ocorrência de problemas de física do solo, que devem ser observados por ocasião da escolha das áreas para plantio. Dois aspectos importantes devem ser observados: a profundidade do solo e a sua capacidade de armazenar água (Malavolta et al., 1986).

2.2.1.3.2 Sistema de cultivo
Dois sistemas de cultivo de cafezais podem ser destacados: o sistema rotineiro e o racional. O sistema rotineiro, obviamente, não é satisfatório para as condições de cerrado e somente poderia ser suportado em áreas virgens, férteis, como nas zonas de mata antigamente presentes no Centro-Sul do país e hoje restritas à Amazônia (Malavolta et al., 1986).

2.2.1.3.3 Cultivares
Os cultivares comercias de café arábica em utilização extensiva no país são Mundo Novo e Catuaí, ambos com bom potencial de produção. A escolha entre um e outro, e dentro deles as melhores linhagens, deve levar em consideração os ensaios de adaptação a cada região. Cada um deles possui vantagens e desvantagens (Malavolta et al., 1986).
O Mundo Novo vem sendo preferido ultimamente nas áreas mecanizáveis das regiões de cerrado, por possuir bom vigor, maturação mais uniforme (dando melhor tipo no café colhido) e por ser mais precoce, representando menor risco em áreas sujeitas a geadas (Malavolta et al., 1986)..Este café foi submetido a um intenso trabalho de melhoramento no Instituto Agronômico de Campinas, tendo-se selecionado linhagens das quais destacam-se as seguintes que se caracterizam por sua elevada capacidade produtiva: CP 379-19; CP 376-4; CP 515; CP 464; CP 493-6 (Passos et al., 1987).
Já o Catuaí, um híbrido obtido pelo cruzamento entre o Mundo Novo e o Caturra, de porte intermediário entre estas duas variedades (Passos et al., 1987), tem boa produtividade, porte baixo, facilitando a colheita, especialmente em áreas montanhosas, e quando utilizado em espaçamentos adensados apresenta maior produtividade do que o Mundo Novo. Além disso, é menos prejudicado por deficiências de cálcio, magnésio e zinco, o mesmo ocorrendo em relação à ferrugem do cafeeiro. No entanto, depois de uma carga alta, demora mais a se recuperar (Malavolta et al., 1986).

2.2.1.3.4 Espaçamento
A escolha do espaçamento adequado representa um passo importante para o aumento da produção, especialmente quanto à produtividade. Nas áreas mecanizáveis e plantios extensivos, comuns na região do cerrado, onde já se mecaniza inclusive a colheita do café, os espaçamentos devem ser mais abertos nas ruas, com 3,5 a 4,5m e 1 a 1,5m entre plantas na linha (Malavolta et al., 1986).

2.2.1.3.5 Manejo dos cafezais
A execução de práticas culturais na época correta e de modo adequado representa significativo retorno em produtividade, destacando-se as capinas, a adubação, as pulverizações e as podas, quando necessário. A concorrência de plantas daninhas é mais danosa no período de janeiro a março, coincidindo com o período de máxima demanda de nutrientes para a formação dos frutos do cafeeiro (Malavolta et al., 1986).
As podas devem ser adotadas no inicio do fechamento, obtendo-se, nessa condição, boa resposta com o “decote”. Quando em estagio mais avançado, deve-se usar a recepa alta ou, em caso extremo, a recepa baixa, em todos os casos podendo ser adotadas em toda a área ou em fileiras alternadas, de acordo com a observação local (Malavolta et al., 1986).

2.2.1.3.6 Adubação e calagem
Os solos do cerrado são normalmente ácidos, carentes em cálcio, magnésio e fósforo e com níveis elevados de alumínio e manganês, tóxicos ao cafeeiro. A correção dos solos, com calagem adequada, resulta em aumentos significativos na produtividade. Na formação do cafeeiro, melhores resposta têm sido obtidas com fósforo, magnésio e cálcio (Malavolta et al., 1986).
É importante, portanto, estabelecer adubações equilibradas, avaliando previamente as características químicas dos solos e o estado nutricional dos cafezais, de forma a combinar: calagem, adubação NPK, micronutrientes e, conforme a disponibilidade, palha de café, outros resíduos vegetais e estercos (Malavolta et al., 1986).

2.2.1.3.7 Irrigação
A irrigação não é uma pratica recomendada extensivamente para as regiões zoneadas como climaticamente aptas à cafeicultura de C.arabica no Centro-Sul do país. Vastas áreas de cerrado, em Minas Gerais, São Paulo, Goiás e Mato Grosso do Sul são climaticamente aptas, tanto no aspecto térmico como no balanço hídrico (Malavolta et al., 1986).
O cafeeiro necessita de umidade suficiente no solo no período fenológico que vai do florescimento à granação dos frutos. A partir daí, é vantajoso um período seco facilitar a colheita, dando café de boa qualidade, além de estimular a diferenciação e desenvolvimento das gemas florais. Dentro de uma nova orientação com irrigações programadas para suprir água apenas no período critico, é possível obter bons retornos em produtividade, com menores investimentos e gastos operacionais na irrigação (Malavolta et al., 1986).

2.2.1.3.8 Controle de pragas e doenças
Dentre as pragas do cafeeiro, a que tem se apresentado com maior gravidade é o bicho mineiro, especialmente nas regiões com estação seca mais pronunciada, e com maior intensidade nas plantações jovens e com espaçamentos mais abertos. Perdas médias da ordem de 20-30% são devidas ao ataque deste inseto, que causa desfolhas e, conseqüentemente, menor pegamento de florada e menor produtividade das lavouras (Malavolta et al., 1986).
A broca do café tem reaparecido com maior gravidade nos 2 últimos anos em função do gradativo fechamento dos cafezais e, por isso, propiciando um microclima mais favorável ao desenvolvimento do inseto. As chuvas excessivas durante o período de colheita também influíram favoravelmente, pois darão origem a uma grande quantidade de café remanescente no chão, principal fator para o aumento do ataque no ano seguinte (Malavolta et al., 1986).
Em regiões especificas, prejuízos significativos têm sido ocasionados pelo ataque de cigarras e nematóides nas raízes que, sem controle, provocam a degenerescência gradativa dos cafezais. Nestas lavouras, devido ao seu sistema radicular reduzido, a resposta à adubação e outros tratos é menor (Malavolta et al., 1986).
Das doenças pode-se destacar a ferrugem, a qual influi negativamente na produtividade, com efeitos mais sérios nos anos de carga alta, quando as medidas de controle devem ser adotadas com maiores cuidado, aumentando-se o numero de aplicações para 3 a 4. Nos anos de carga baixa esse número pode ser reduzido para 1 a 2 vezes. Esta doença tem apresentado perdas de produção de até 300-400% em anos específicos. Em média de 4 anos, como o cafeeiro se recupera após ataque serio, as perdas são menores, da ordem de 25-30% (Malavolta et al., 1986).

2.3 Melhoramento Genético do Cafeeiro
Um dos fatores responsáveis pela alta produção do café tem sido a utilização de cultivares altamente produtivos. A obtenção desses cultivares provém de continuo trabalho referente ao melhoramento do cafeeiro, e teve seu inicio no país em 1933 na Seção de Genética do Instituto Agronômico de Campinas, estando em andamento até o presente. Esta continuidade de pesquisa tem sido um fator preponderante na seleção e evolução dos cultivares de café recomendados para o plantio comercial. A partir da década de 70, outras instituições iniciaram trabalhos com o melhoramento do cafeeiro (Malavolta et al., 1986).
O melhoramento genético do cafeeiro da espécie Coffea arabica L., a mais cultivada e a mais apreciada no mundo, disponibilizou até o momento, diversas cultivares com potenciais de produtividade e qualidades excepcionais. Por ser de reprodução autógama e possuir base genética estreita, precisa-se de introgressões de genes de outras espécies, como usado comumente com C. canephora, a segunda espécie mais cultivada do mundo. Nas últimas décadas tem sido explorado com sucesso os genes de C. canephora para os principais problemas como resistência à ferrugem e nematóides, através de transferência bem sucedida de genes por cruzamento interespecífico seguido de retrocruzamentos e seleção. No entanto, características agronômicas de interesse nem sempre encontram-se disponíveis no germoplasma mantido em coleção pelas diversas instituições nacionais de pesquisa. Genes de resistência à broca dos frutos e genes envolvidos diretamente no bloqueio da síntese de cafeína no endosperma são exemplos dessas importantes lacunas (CENARGEN).

A introdução no Brasil de espécies diplóides, assim como, de germoplasma diverso de C. arabica e C. canephora, além de manter as plantas derivadas de cruzamentos realizados pelo programa de melhoramento genético é um investimento estratégico e tem por principal objetivo manter a liderança nacional na produção e exportação além de aumentar a quantidade de café brasileiro de qualidade no mercado internacional e buscar novos nichos de mercado como ausência de cafeína.
Paralelamente, a conservação e caracterização do material genético nas diversas instituições de pesquisa em café se tornam importantes instrumentos de preservação da variabilidade genética do cafeeiro, indispensável ao desenvolvimento dos programas de melhoramento, especialmente visando resistência a estresses bióticos e abióticos (CENARGEN).
As cultivares brasileiras são altamente produtivas e levando em consideração a estreita base genética existente em Coffea arabica, a possibilidade de ganhos efetivos em produtividade de grãos é bastante reduzida dentro dos programas de melhoramento. Além dessa dificuldade em se obter progresso genético em produtividade, a C. arábica como planta perene possui período juvenil e acentuada oscilação anual de produção, sendo necessários vários anos para avaliar a precocidade e longevidade produtiva e realizar a seleção. Portanto, considerando-se todas estas dificuldades do melhoramento genético de café, é de fundamental importância utilizar características auxiliares nos processos de seleção que direta ou indiretamente aumentem a produtividade de grãos. Também se recomenda utilizar metodologias de experimentação e análise dos dados que permitam o máximo de eficiência em cada geração de seleção (Fonseca et al., 2008).
O desenvolvimento de cultivares resistentes e/ou tolerantes às pragas e doenças tem papel importante no aumento de produtividade e diminuição de custos de produção. Mesmo que haja defensivos para o controle, a aplicação pode não ser eficiente e o uso de cultivares resistentes é o método de controle mais eficiente e de menor custo, além de evitar a contaminação do ambiente e de trabalhadores rurais. A ferrugem-alaranjada causada por Hemileia vastatrix é a principal doença da cafeicultura em abrangência e danos. Apesar de já existirem cultivares resistentes à ferrugem disponíveis no mercado, é preciso contínuo trabalho de seleção de progênies. A durabilidade da resistência das cultivares atuais é difícil de ser prevista (Fonseca et al., 2008).
Uma das estratégias utilizadas pelos programas de melhoramento de café do Brasil é o acúmulo de genes de resistência qualitativa, presentes nos materiais derivados de “Híbrido de Timor”, conjuntamente com genes de efeitos quantitativos presentes, por exemplo, em linhagens do “Icatu” bem como em materiais derivados do “Híbrido de Timor”. Outra fonte de resistência utilizada são os materiais possuidores do fator SH3 originário de Coffea liberica que possui efeito qualitativo, mas existem também evidências que este fator é acompanhado por outros genes que conferem resistência horizontal (Fonseca et al., 2008).
Selecionar materiais com maior vigor vegetativo também é uma estratégia que aumenta a produtividade de cultivares, pois indica maior eficiência em absorver nutrientes e é menos vulnerável às condições edafoclimáticas desfavoráveis. Outra característica que está relacionada com a produtividade é o tamanho dos grãos que proporciona maior rendimento na secagem e no beneficiamento (Fonseca et al., 2008).
Devido às particularidades do café como cultura perene, o procedimento analítico padrão recomendado para os estudos em genética quantitativa e também para a prática de seleção é o REML/BLUP. Este procedimento permite a estimação dos componentes de variância por máxima verossimilhança restrita (REML) e a predição de valores genéticos pela melhor predição linear não viciada (BLUP). Outra justificativa para a utilização desta metodologia de modelos mistos é a estimativa de herdabilidades e efeitos genéticos aditivos individuais que em café não é comum de ser realizado. Portanto, considerando que o objetivo na seleção em C. arabica é a obtenção de cultivares do tipo linhagem e a seleção é realizada em plantas individuais dentro de progênies, a predição do valor genético aditivo de cada individuo levará à maximização da possibilidade de selecionar o melhor entre dois indivíduos e, conseqüentemente, a maximização do ganho genético por ciclo de seleção que são propriedades dos preditores BLUP (Fonseca et al., 2008).
A seleção de plantas individuais a partir do efeito genético aditivo, predito pelo método REML/BLUP facilita a escolha dos indivíduos geneticamente melhores e, conseqüentemente, promove a maximização do ganho genético por ciclo de seleção (Fonseca et al., 2008).

2.3.1 Biologia da Reprodução das Espécies de Café
A espécie C. arábica é tetraplóide com 2n=44 cromossomos, sendo incompatível e multiplicando-se predominantemente por autofecundação. Esta autofecundação ocorre em aproximadamente 90% das flores, o que tem sido avaliado durante anos seguidos em Campinas pelo emprego de diferentes mutantes com genótipos recessivos. O mutante mais apropriado para esta determinação é o cera, de endosperma de cor amarelada. Os óvulos do cera quando polinizados pelo pólen do café de endosperma de cor verde dão origem a sementes de cor esverdeada devido ao fenômeno de xênia. De outra parte, os óvulos do cera quando polinizados com pólen da própria planta dão origem a sementes de cor amarela. Desta maneira, mantendo-se os cafeeiros cera rodeados por plantas de endosperma verde e analisando-se as suas sementes, poder-se-ão observar algumas sementes com endosperma verde, resultantes dos cruzamentos naturais. Pelo seu número, avalia-se a porcentagem de fecundação cruzada natural, que é de cerca de 10% em C.arabica. O cafeeiro arábica é portanto autofértil e não tem sido notado efeito desfavorável das autofecundações sucessivas no vigor e produtividade das plantas. A fertilização em C.arabica se dá 24 horas após a polinização, ocorrendo a primeira divisão do zigoto, 60-70 dias após a polinização (Malavolta et al., 1986).

2.3.2 Análise genéticas em C.arabica
Dentre as plantas perenes, o cafeeiro arábica talvez seja a planta mais bem estudada em relação à herança e relação de dominância de fatores genéticos. Mais de 30 mutantes foram analisados, utilizando-se o cultivar Arabica (nacional) de C.arabica como padrão. Alguns genes afetam a forma ou a coloração da folha, outros o crescimento e forma da planta, outros ainda os caracteres da flor, fruto e semente e alguns estão relacionados com resistência a moléstias e pragas (Malavolta et al., 1986).

2.3.2.1 Cultivares de C.arabica recomendados para plantio comercial (suscetíveis a Hemileia vastatrix)
A seguir serão apresentados os cultivares indicados para plantio em regiões de altitude elevada, clima úmido e de temperaturas amenas podendo ser cultivados em regiões com temperatura médias anuais entre 18°C e 22°C.
• Bourbon Amarelo – Precocidade de maturação de seus frutos que, de acordo com a região, pode variar de 20 a 30 dias. Sua produção média é cerca de 50% menor do que o cultivar Mundo Novo. Indicado para contribuir com uma porcentagem menor de cafeeiro na formação de lavouras extensivas, possibilitando uma melhor qualidade do produto devido à possibilidade de uma colheita com maior quantidade de frutos maduros (Malavolta et al., 1986).
• Mundo Novo – Resulta de um cruzamento natural entre os cultivares Sumatra e Bourbon Vermelho de C.arabica. Caracteriza-se por elevada produção de café beneficiado, aliada a um bom aspecto vegetativo. Em plantios adensados pode-se conseguir, nas quatro primeiras colheitas, maiores produções, sendo que os valores variam de acordo com o espaçamento utilizado, em anos de elevada produção, esta pode atingir até 6.000 kg/ha de café beneficiado. Suas linhagens mostram ampla capacidade de adaptação, dando boas produções em quase todas as regiões cafeeiras do Brasil (Malavolta et al., 1986)..
• Acaiá – Significa frutos com semente grandes, provavelmente originado do cultivar Sumatra, o qual participou da origem de Mundo Novo. Suas linhagens dão boa produção de café beneficiado e apresentam-se rústicas. Em plantios adensados consegue-se maiores produções. Pode ser indicado para plantio, principalmente quando se pretende obter um produto com tamanho um pouco maior (Malavolta et al., 1986)..
• Catuaí Vermelho – Originou-se como produto de recombinação, a partir de um cruzamento artificial entre cafeeiros selecionados pela produtividade, dos cultivares Caturra Amarelo e Mundo Novo. Caracterizam-se por serem vigorosos e altamente produtivos. Mostra ampla capacidade de adaptação, dando boas produções na maioria das regiões cafeeiras onde está sendo cultivado. O seu menor porte, além de permitir maior densidade de plantio, torna a colheita mais econômica e facilita os tratos fitossanitários (Malavolta et al., 1986)..
• Catuaí Amarelo – Foi obtido por hibridação entre cafeeiros selecionados de Caturra Amarelo e de Mundo Novo. Suas linhagens são vigorosas e de porte médio. Mostra ampla capacidade de adaptação, dando boas produções na maioria das regiões cafeeiras onde está sendo cultivado. O seu menor porte, além de permitir maior densidade de plantio, torna a colheita mais econômica e facilita os tratos fitossanitários (Malavolta et al., 1986).
• Icatu – Cultivar resistente ao agente da ferrugem. Foi obtido a partir de uma hibridação interespecífica entre um cafeeiro tetraplóide de C. canephora e uma planta do cultivar Bourbon Vermelho. Este cultivar também é indicado como fonte de resistência a nematóides e Colletotrichum caffeanum. Apresenta elevada porcentagem de grãos moca, devido ao fato de se tratar de material resultante de hibridação interespecífica. É indicado apenas para o plantio de pequenos lotes de observação (Malavolta et al., 1986).
• Icatu Amarelo – foi obtido de seleções, após cruzamentos natural de plantas do cultivar Icatu com Bourbon Amarelo ou Mundo Novo Amarelo, ocorridas em um experimento da Seção de Genética do IAC. É indicado apenas para o plantio de pequenos lotes de observação (Malavolta et al., 1986).
• Kouillou ou Conilon – É originário da África e foram trazidas para o Brasil da Indonésia. Plantado em coleção, desenvolveu-se muito bem em Campina, dando abundantes colheitas e várias de suas plantas apresentaram ataque reduzido do agente causal da ferrugem, sugerindo resistência do tipo horizontal a essa moléstia. Nas suas populações encontram-se plantas de maturação precoce, média e tardia. A qualidade de sua bebida é considerada de natureza neutra. É o cultivar mais atacado pela broca do café, Stephenoderes hampei. Pode ser cultivado no planalto paulista, em locais protegidos de ventos frios, porém é mais indicado para regiões do litoral, com clima quente e úmido. Em vista do elevado porte, recomenda-se a poda para reduzi-lo e também poda dos ramos laterais que já produziram em anos anteriores. A eliminação de hastes inteiras, em um sistema alternado de poda, também pode ser indicada.

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O café, uma cultura bastante expressiva no ramo do agronegócio, depende de suas cultivares para uma alta produção de ótima qualidade de grãos, o principal produto comerciado. Assim, como o programa de melhoramento de plantas no Brasil está cada vez mais moderno e com um futuro promissor prometido pelos seqüenciamentos do genoma de várias espécies, o melhoramento genético do café avança. Com esse avanço, objetivando lucratividade com os produtos melhorados, o Brasil terá cada vez mais espécies especializadas, melhoradas, com ótima qualidade e poderá voltar ao topo de qualidade do café.



4. LITERATURA CITADA
CENARGEN. PA2 - Conservação de recursos genéticos de Café Embrapa CENARGEN. Disponível em: acessado em: 15 de abril de 2011.
EMBRAPA. Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – A importância do café nosso de todos os dias. Disponível em: < http://www.embrapa.br/imprensa/noticias/2005/folder.2005-05-02.0812958846/foldernoticia.2005-05-23.5121503068/noticia.2005-06-06.3817640251/> Acessado em: 15 de abril de 2011.
ENCARNAÇÃO, R. O., LIMA, D. R. Café e Saúde Humana. Embrapa Café Brasília-DF. 2003
FONSECA, I. C. B., SERA, T., PETEK, M. R. PREDIÇÃO DE VALORES GENÉTICOS ADITIVOS NA ELEÇÃO VISANDO OBTER CULTIVARES DE CAFÉ MAIS RESISTENTES À FERRUGEM. Bragantia, Campinas, v.67, n.1, p.133-140, 2008.
MALAVOLTA, E., RENA, A.B., ROCHA, M., YAMADA, T. Cultura do Cafeeiro – fatores que afetam a produtividade. Piracicaba SP. 1986.
PASSOS, S. M. G., CANECHIO FILHO, V., JOSÉ, A. Principais culturas Vol. 1. Instituto Campineiro de Ensino Agrícola Campinas SP. 1987.
SANTOS, V. E. A importância da produção e do processamento do café na economia mineira. Viçosa MG. 2005.
SOUSA E SILVA, J., BERBERT, P. A. Colheita, Secagem e Armazenamento de Café. Ed. Aprenda Fácil. Viçosa MG. 1999.

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