domingo, 20 de setembro de 2026

Patologia de sementes de feijão: diversidade de microrganismos, qualidade sanitária e fisiológica e aplicações da análise multivariada

Introdução

A semente de feijão-comum (Phaseolus vulgaris L.) constitui simultaneamente uma unidade de propagação, um reservatório de nutrientes e um possível veículo de disseminação de microrganismos associados à cultura. Por essa razão, a avaliação da qualidade das sementes não deve ser restrita ao teste de germinação, mas deve integrar atributos fisiológicos e sanitários. Fungos associados às sementes podem permanecer na superfície, no tegumento ou internamente nos tecidos, podendo atuar como contaminantes, colonizadores, endófitos ou patógenos capazes de comprometer a germinação, a emergência e o estabelecimento inicial das plantas (SILVA et al., 2008; MARCENARO; VALKONEN, 2016; BATTILANI et al., 2023).

A patologia de sementes, portanto, ocupa uma posição estratégica na Fitopatologia porque estabelece uma conexão entre sanidade do lote, qualidade fisiológica, transmissão de patógenos e estabelecimento da cultura. Em feijão, essa relação é particularmente importante porque diferentes organismos podem estar associados às sementes sem necessariamente produzir sintomas visíveis no lote, enquanto a presença de determinados patógenos pode resultar em podridões, redução da germinação, tombamento, lesões em plântulas e introdução de doenças em novas áreas (BATTILANI et al., 2023; MARCENARO; VALKONEN, 2016).

A semente como unidade sanitária e fisiológica

A qualidade de um lote de sementes pode ser compreendida por diferentes componentes, entre os quais se destacam a qualidade física, fisiológica, genética e sanitária. Na perspectiva fisiológica, germinação e vigor estão relacionados à capacidade da semente de produzir plântulas normais e estabelecer uma população adequada sob determinadas condições ambientais. O vigor apresenta caráter mais abrangente que a germinação, pois permite detectar diferenças no potencial de desempenho entre lotes que podem apresentar porcentagens semelhantes de germinação em condições favoráveis (MARCOS FILHO, 2015).

No feijão, a qualidade fisiológica pode variar entre cultivares e linhagens. Silva et al. (2008), avaliando sementes de feijão provenientes de Goiás, encontraram diferenças entre cultivares nos testes de germinação e vigor, demonstrando que determinados materiais apresentavam melhor desempenho fisiológico enquanto outros apresentavam maior proporção de sementes mortas e menor desempenho de plântulas normais. Esses resultados reforçam que a avaliação da qualidade fisiológica deve ser realizada em conjunto com a caracterização do material genético e das condições de produção e armazenamento (SILVA et al., 2008).

Diversidade de fungos associados às sementes de feijão

A diversidade de fungos associada às sementes de P. vulgaris é considerável e varia de acordo com cultivar, região de produção, condições ambientais, práticas agrícolas, colheita, secagem e armazenamento. Em sementes de feijão provenientes de Goiás, Silva et al. (2008) detectaram Fusarium sp., Aspergillus spp., Penicillium spp., Phoma sp., Rhizopus sp. e Botrytis sp. por meio de testes de sanidade, demonstrando a coexistência de diferentes grupos ecológicos de fungos em um mesmo sistema de produção de sementes (SILVA et al., 2008).

Estudos realizados em outras regiões também demonstram ampla diversidade. Em sementes de feijão avaliadas na Croácia, foram encontrados Cladosporium spp., Alternaria spp., Aspergillus spp., Rhizopus spp., Penicillium spp., Fusarium spp., Botrytis spp., Trichothecium spp. e Chaetomium spp., evidenciando que a comunidade fúngica associada às sementes pode incluir tanto organismos relacionados ao campo quanto fungos favorecidos durante armazenamento (DOMIJAN et al., 2005).

A diversidade observada em sementes não deve, entretanto, ser interpretada como sinônimo de diversidade de patógenos. A comunidade fúngica pode conter patógenos, fungos sapróbios, contaminantes, fungos de armazenamento e endófitos, e a simples detecção de um gênero não demonstra necessariamente que ele seja responsável pela redução da qualidade fisiológica ou pela doença observada (PARSA et al., 2016; MARCENARO; VALKONEN, 2016).

Patógenos transmitidos por sementes

Entre os fungos fitopatogênicos associados ao feijão, Colletotrichum lindemuthianum, agente da antracnose, possui particular importância por sua associação com sementes e capacidade de introdução e disseminação do patógeno por meio do material propagativo. Revisões sobre patógenos transmitidos por sementes de leguminosas incluem C. lindemuthianum entre os principais fungos associados às sementes de P. vulgaris, ressaltando a importância da sanidade das sementes na epidemiologia da doença (BATTILANI et al., 2023).

A diversidade de fungos potencialmente patogênicos pode ser ainda maior quando são empregados métodos de isolamento associados à identificação molecular e testes de patogenicidade. Marcenaro e Valkonen (2016), avaliando sementes do cultivar ‘INTA Rojo’ na Nicarágua, obtiveram 133 isolados fúngicos e verificaram que 87 apresentaram capacidade de causar sintomas em plântulas de Phaseolus lunatus. Os isolados patogênicos pertenciam a oito gêneros e incluíam Fusarium, Lasiodiplodia, Macrophomina, Penicillium, Corynespora, Colletotrichum, Aspergillus e Diaporthe, demonstrando que a diversidade de fungos associados às sementes pode ser muito maior do que aquela revelada por avaliações exclusivamente morfológicas ou por uma lista pré-estabelecida de patógenos (MARCENARO; VALKONEN, 2016).

Esse trabalho também apresenta uma questão metodológica fundamental: detectar um fungo na semente e demonstrar que ele é patogênico são etapas diferentes. No estudo de Marcenaro e Valkonen (2016), os isolados foram submetidos a inoculação em plantas e avaliados quanto à capacidade de produzir sintomas, permitindo separar a simples associação do fungo à semente da evidência de patogenicidade. Essa abordagem é particularmente importante para interpretar corretamente resultados de testes de sanidade (MARCENARO; VALKONEN, 2016).

Fungos de campo e fungos de armazenamento

A origem ecológica do microrganismo associado à semente é uma dimensão importante da patologia de sementes. Alguns fungos estão predominantemente relacionados às condições de produção e infecção no campo, enquanto outros são favorecidos por condições inadequadas de secagem e armazenamento. Aspergillus spp. e Penicillium spp., por exemplo, são frequentemente associados à deterioração durante armazenamento, enquanto determinados patógenos de plantas podem ser transportados pelas sementes provenientes do campo (FRANCISCO; USBERTI, 2008; SILVA et al., 2008).

A relação entre armazenamento e sanidade foi demonstrada experimentalmente por Francisco e Usberti (2008), que avaliaram sementes de feijão armazenadas em diferentes teores de água e temperaturas. Os autores verificaram que as condições de armazenamento influenciaram a incidência de fungos e a qualidade das sementes, mostrando que teor de água e temperatura constituem fatores determinantes para a dinâmica da microbiota associada ao armazenamento (FRANCISCO; USBERTI, 2008).

Essa relação é importante porque a deterioração fisiológica da semente e a colonização fúngica podem ocorrer simultaneamente. Entretanto, associação estatística não significa necessariamente causalidade direta. A redução do vigor pode favorecer determinados fungos, enquanto a atividade metabólica de determinados fungos também pode contribuir para deterioração, dependendo do organismo, da carga de inóculo, do tecido colonizado e das condições ambientais (FRANCISCO; USBERTI, 2008; SILVA; SILVA, 2000).

Sanidade e fisiologia: duas dimensões que precisam ser interpretadas conjuntamente

A qualidade sanitária e a qualidade fisiológica não são variáveis independentes. Fungos associados às sementes podem alterar a germinação e o vigor, mas a magnitude desse efeito depende da espécie, da intensidade da associação, da localização do fungo no tecido, do estado fisiológico da semente e das condições de incubação ou germinação. Silva e Silva (2000), estudando sementes de feijão submetidas ao envelhecimento artificial, observaram que a presença de fungos, especialmente Aspergillus spp., poderia interferir negativamente no comportamento das sementes e na interpretação dos resultados de vigor (SILVA; SILVA, 2000).

A interação entre sanidade e fisiologia também aparece em avaliações realizadas com cultivares de feijão. Silva et al. (2008) encontraram diferenças simultâneas em germinação, vigor e incidência de fungos entre cultivares, demonstrando que a caracterização de um lote deve considerar o conjunto das variáveis e não apenas uma porcentagem de germinação ou a incidência isolada de determinado fungo (SILVA et al., 2008).

O conceito de vigor é fundamental

O teste de germinação fornece uma medida importante do potencial fisiológico, mas pode não detectar diferenças de desempenho entre lotes que apresentam germinação semelhante em condições favoráveis. O vigor procura justamente discriminar essas diferenças, permitindo avaliar características relacionadas à velocidade e uniformidade da germinação, emergência, tolerância a condições de estresse e capacidade de estabelecimento das plântulas (MARCOS FILHO, 2015).

Entre os testes utilizados na avaliação fisiológica de sementes de feijão encontram-se primeira contagem de germinação, germinação padrão, teste de tetrazólio, condutividade elétrica, envelhecimento acelerado, emergência em campo e características de crescimento de plântulas. Silva et al. (2023), trabalhando com 20 linhagens de feijão, demonstraram variabilidade genética para a qualidade fisiológica e identificaram, por análise de componentes principais, grupos de linhagens associados a diferentes padrões de vigor (SILVA et al., 2023).

Diversidade fúngica: da identificação morfológica à identificação molecular

A identificação dos fungos associados às sementes também está passando por uma transformação metodológica. Características morfológicas continuam sendo importantes, mas podem não ser suficientes para distinguir espécies próximas. Marcenaro e Valkonen (2016), por exemplo, combinaram características morfológicas e crescimento em meio de cultura com sequenciamento da região ITS para caracterizar fungos patogênicos isolados de sementes de feijão, demonstrando a utilidade da identificação molecular na caracterização da diversidade (MARCENARO; VALKONEN, 2016).

Essa abordagem é especialmente importante para gêneros que apresentam complexos de espécies, como Fusarium, Colletotrichum e Diaporthe. Nesses grupos, a identificação até espécie pode exigir marcadores adicionais e análise filogenética, pois a similaridade morfológica e mesmo a sequência ITS podem não fornecer resolução suficiente para todos os táxons. Portanto, a patologia de sementes moderna tende a integrar isolamento, morfologia, identificação molecular e filogenia quando a resolução específica é necessária (MARCENARO; VALKONEN, 2016).

A semente como habitat microbiano

Uma perspectiva mais recente amplia ainda mais o conceito de patologia de sementes. A semente não deve ser considerada apenas como um substrato passivo colonizado por patógenos; ela abriga uma comunidade microbiana que pode incluir fungos potencialmente patogênicos, endófitos e outros microrganismos associados à superfície ou ao interior dos tecidos. Parsa et al. (2016), avaliando 582 sementes germinadas pertencentes a 11 cultivares colombianas, obtiveram 394 isolados endofíticos pertencentes a 42 táxons, demonstrando a elevada diversidade de fungos associados às sementes de feijão (PARSA et al., 2016).

Nesse estudo, Aureobasidium pullulans foi o endófito predominante, enquanto Fusarium oxysporum, Xylaria sp. e Cladosporium cladosporioides também foram detectados. A colonização variou entre cultivares e entre partes das plântulas, demonstrando que o microbioma associado às sementes pode apresentar forte componente dependente do genótipo e da região da planta colonizada (PARSA et al., 2016).

A espermosfera: uma nova fronteira para a patologia de sementes

A germinação modifica profundamente o ambiente imediatamente ao redor da semente. Durante a embebição e a germinação, a semente libera compostos orgânicos e inorgânicos que formam a chamada espermosfera, uma região caracterizada por intensa interação entre exsudatos da semente e microrganismos. Esse ambiente pode influenciar a composição da comunidade microbiana e, consequentemente, as primeiras interações entre a semente e o ambiente (SACCARAM et al., 2025).

Um estudo publicado em 2025 em mSystems representa um avanço importante nesse campo ao integrar metabolômica e microbioma da espermosfera de sementes de oito genótipos de feijão produzidos em duas regiões. Os autores detectaram 2.467 características metabólicas e identificaram 19 famílias bacterianas e 23 famílias fúngicas. A composição química da espermosfera foi predominantemente influenciada pelo genótipo, enquanto as comunidades microbianas foram influenciadas pelo genótipo e pelo local de produção (SACCARAM et al., 2025).

A caracterização fúngica realizada nesse estudo mostrou predominância de Ascomycota e Basidiomycota, com destaque para Pleosporaceae. Alternaria e Stemphylium foram os gêneros fúngicos mais abundantes, enquanto espécies como Stemphylium herbarum, Botrytis fabae, Alternaria infectoria e Cladosporium delicatulum estavam entre os táxons detectados em elevada frequência. Esses resultados mostram que a diversidade microbiana da semente pode ser muito mais ampla do que aquela revelada por testes convencionais destinados exclusivamente à detecção de patógenos (SACCARAM et al., 2025).

O trabalho de Saccaram et al. (2025) é particularmente relevante porque demonstra que genótipo e ambiente podem atuar simultaneamente sobre a comunidade microbiana associada à semente. A análise mostrou que a localização de produção explicava parcela importante da variação da comunidade fúngica, enquanto o genótipo apresentava forte influência sobre a composição metabólica da espermosfera. Isso sugere que a qualidade sanitária das sementes pode ser interpretada dentro de um contexto ecológico mais amplo, no qual genótipo, ambiente e microbiota estão interligados (SACCARAM et al., 2025).

Abordagem multivariada na patologia de sementes

A complexidade da relação entre fungos, germinação, vigor, genótipo, ambiente e armazenamento torna a análise multivariada particularmente útil. Quando um experimento apresenta simultaneamente incidência de vários fungos, germinação, primeira contagem, comprimento de plântulas, condutividade elétrica, envelhecimento acelerado, emergência e outras variáveis, analisar cada característica isoladamente pode dificultar a compreensão das relações existentes. A análise multivariada permite considerar as variáveis conjuntamente e identificar padrões de associação entre amostras e características (SILVA et al., 2023).

A análise de componentes principais (PCA) é particularmente útil porque transforma um conjunto de variáveis correlacionadas em componentes ortogonais que representam proporções decrescentes da variância total. Em estudos de sementes, isso permite visualizar amostras ou genótipos em um espaço multivariado e identificar quais variáveis apresentam maior contribuição para a separação dos grupos (SILVA et al., 2023).

Em feijão, Silva et al. (2023) avaliaram massa de mil sementes, primeira contagem, germinação, tetrazólio, condutividade elétrica, envelhecimento acelerado, emergência em campo e desempenho de plântulas em 20 linhagens. A PCA permitiu identificar grupos de linhagens com diferentes padrões de desempenho fisiológico e indicou primeira contagem, germinação, comprimento de plântulas em campo, envelhecimento acelerado e índice de velocidade de emergência como variáveis importantes para caracterizar o potencial fisiológico das linhagens (SILVA et al., 2023).

PCA aplicada simultaneamente à sanidade e à fisiologia

A abordagem multivariada torna-se ainda mais interessante quando as variáveis sanitárias e fisiológicas são analisadas conjuntamente. Em vez de perguntar apenas se “a incidência de Fusarium aumentou ou diminuiu”, pode-se investigar se a incidência desse fungo está associada a menor germinação, maior número de sementes mortas, menor comprimento de plântulas ou maior condutividade elétrica. A PCA pode revelar essas associações como vetores orientados no mesmo ou em sentidos opostos, embora a interpretação de correlação não deva ser confundida com demonstração de causalidade (SILVA et al., 2023).

Um exemplo diretamente relacionado à patologia de sementes de feijão foi apresentado por Carvalho et al. (2014), que avaliaram cinco isolados de Trichoderma harzianum contra Fusarium oxysporum f. sp. phaseoli e posteriormente utilizaram os antagonistas no tratamento de sementes. A análise de componentes principais foi utilizada para integrar variáveis relacionadas ao antagonismo, metabólitos voláteis, incidência do patógeno e germinação. O isolado CEN287 destacou-se no agrupamento relacionado ao aumento da germinação de sementes infectadas, enquanto os isolados CEN287 e CEN316 reduziram a incidência do patógeno e aumentaram a germinação (CARVALHO et al., 2014).

Esse exemplo é particularmente importante porque mostra que a PCA pode funcionar como uma ferramenta de integração de mecanismos e respostas, e não apenas como uma representação gráfica de grupos. Quando diferentes variáveis de sanidade e fisiologia são analisadas simultaneamente, torna-se possível identificar quais atributos estão associados aos tratamentos ou isolados de maior interesse, orientando a seleção de candidatos para experimentos subsequentes (CARVALHO et al., 2014).

Quais análises multivariadas podem ser utilizadas?

MétodoAplicação na patologia de sementesExemplo de pergunta
PCARedução de dimensionalidade e visualizaçãoQuais variáveis explicam a maior parte da variação entre lotes?
Análise de agrupamentoFormação de grupos de lotes ou genótiposQuais lotes apresentam padrões sanitários/fisiológicos semelhantes?
Heatmap + clusteringVisualização simultânea de fungos e atributos fisiológicosQuais fungos apresentam padrões semelhantes de ocorrência?
CCA/RDARelação entre comunidade fúngica e variáveis ambientaisQuanto do microbioma é explicado por umidade, genótipo ou local?
PERMANOVATeste de diferenças na composição multivariadaGenótipo, local ou armazenamento alteram a comunidade?
PCoAOrdenação de matrizes de distânciaComo os lotes se distribuem em função da composição microbiana?
PLS-DAClassificação supervisionadaÉ possível discriminar lotes por qualidade ou condição sanitária?
Redes de correlaçãoRelações entre microrganismos e metabólitosQuais fungos estão associados a determinados metabólitos?

A escolha do método deve estar relacionada à natureza da pergunta e dos dados. PCA é apropriada para explorar padrões de variáveis quantitativas correlacionadas; PCoA e PERMANOVA são especialmente úteis para matrizes de comunidade microbiana; e análises de correlação ou redes podem ser utilizadas quando o objetivo é investigar associações entre microrganismos, metabólitos e atributos fisiológicos. O estudo de Saccaram et al. (2025), por exemplo, combinou PCA, PCoA, PERMANOVA, heatmaps e redes de correlação para integrar metabolômica e microbioma da espermosfera do feijão (SACCARAM et al., 2025).

Um desenho experimental integrado para patologia de sementes de feijão

Um experimento destinado a estudar a relação entre diversidade fúngica e qualidade de sementes poderia organizar as variáveis em quatro grandes blocos: genótipo, sanidade, fisiologia e ambiente. No bloco genético poderiam ser avaliados cultivares ou linhagens; no sanitário, incidência e riqueza de fungos; no fisiológico, germinação, primeira contagem, IVG, comprimento e massa de plântulas, condutividade elétrica e envelhecimento acelerado; e no ambiental, local de produção, safra, armazenamento, temperatura, umidade e teor de água das sementes (SILVA et al., 2023; FRANCISCO; USBERTI, 2008).

Um desenho desse tipo permitiria construir uma matriz na qual cada linha correspondesse a um lote ou amostra e cada coluna representasse uma variável. A matriz poderia conter, por exemplo, incidência de Fusarium, Colletotrichum, Aspergillus, Penicillium, Alternaria, Rhizopus e outros táxons, simultaneamente com germinação, vigor, condutividade elétrica, comprimento de plântula e emergência. A PCA poderia então indicar quais fungos e atributos fisiológicos mais contribuiriam para a diferenciação dos lotes (SILVA et al., 2008; SILVA et al., 2023).

Uma segunda abordagem poderia utilizar matrizes de abundância ou incidência dos fungos para avaliar a estrutura da comunidade. Nesse caso, métodos como PCoA, PERMANOVA e análise de diversidade poderiam determinar se genótipo, local de produção, safra ou armazenamento explicam diferenças na composição da micobiota. O estudo recente da espermosfera do feijão demonstra a utilidade dessa estratégia ao identificar efeitos distintos de genótipo e localização sobre as comunidades microbianas (SACCARAM et al., 2025).

Da análise de fungos isolados à abordagem de microbioma

A patologia de sementes está avançando de uma abordagem baseada exclusivamente em organismos cultiváveis para uma perspectiva de comunidade microbiana. Métodos dependentes de cultivo continuam sendo indispensáveis para obter isolados, realizar testes de patogenicidade e caracterizar candidatos a controle biológico, mas técnicas de metabarcoding permitem detectar uma parcela mais ampla da comunidade microbiana presente nas sementes e na espermosfera (PARSA et al., 2016; SACCARAM et al., 2025).

No estudo de Saccaram et al. (2025), o sequenciamento da região ITS foi utilizado para caracterizar a comunidade fúngica da espermosfera, enquanto dados de metabolômica por LC-MS/MS foram integrados às informações microbiológicas. A análise identificou 2.467 características metabólicas e 23 famílias fúngicas, permitindo construir redes de associação entre metabólitos e microrganismos. Essa abordagem representa uma mudança importante em relação ao simples levantamento de “fungos presentes” (SACCARAM et al., 2025).

Uma nova interpretação da sanidade de sementes

A sanidade de sementes pode, portanto, ser compreendida em diferentes níveis. No nível clássico, pergunta-se “qual patógeno está presente?”. Em uma abordagem ecológica, pergunta-se “qual é a composição da comunidade microbiana?”. Em uma abordagem funcional, busca-se compreender “quais microrganismos estão associados à perda ou manutenção da qualidade fisiológica?”. E, em uma abordagem multiômica, pode-se avançar para “quais metabólitos, microrganismos e características do genótipo estão associados à qualidade sanitária e fisiológica?” (PARSA et al., 2016; SACCARAM et al., 2025).

Essa mudança não significa abandonar o teste de sanidade convencional. O blotter test, isolamento em meio de cultura, identificação morfológica e testes específicos continuam sendo ferramentas fundamentais para diagnóstico e controle de qualidade. A evolução está na integração dessas metodologias com identificação molecular, análises quantitativas e estatística multivariada, permitindo interpretar a sanidade da semente como um fenômeno complexo e não apenas como uma lista de fungos detectados (SILVA et al., 2008; MARCENARO; VALKONEN, 2016).

Perspectivas para a pesquisa em patologia de sementes de feijão

Uma perspectiva particularmente promissora é integrar patologia de sementes, fisiologia e microbioma. A combinação de testes convencionais com metabarcoding, metabolômica e análises multivariadas pode permitir identificar não apenas os agentes potencialmente prejudiciais, mas também comunidades microbianas associadas à manutenção do vigor. O trabalho de Saccaram et al. (2025) demonstra que o genótipo do feijão influencia fortemente o ambiente químico da espermosfera e que esse ambiente está associado à estrutura das comunidades microbianas durante a germinação (SACCARAM et al., 2025).

Outra perspectiva está relacionada ao uso da análise multivariada para seleção de genótipos e lotes. Em vez de selecionar uma linhagem apenas pela maior germinação, pode-se considerar simultaneamente germinação, vigor, emergência, integridade de membranas, incidência de fungos e outros atributos. A PCA e outras técnicas de agrupamento podem auxiliar na identificação de materiais que apresentem conjuntos favoráveis de características, desde que os resultados sejam posteriormente confirmados por análises estatísticas apropriadas e experimentos independentes (SILVA et al., 2023).

A abordagem multivariada também pode ser particularmente útil na avaliação de tratamentos de sementes com agentes biológicos. O trabalho de Carvalho et al. (2014) demonstra isso ao integrar antagonismo, metabólitos, incidência de F. oxysporum f. sp. phaseoli e germinação em uma análise de componentes principais. Esse tipo de estratégia pode ser expandido para comparar fungicidas, agentes de biocontrole, bioinsumos, tratamentos físicos e combinações de tratamentos, considerando simultaneamente eficácia sanitária e efeitos fisiológicos sobre as sementes (CARVALHO et al., 2014).

Modelo conceitual para um estudo integrado

Um estudo moderno sobre patologia de sementes de feijão poderia ser estruturado da seguinte maneira:

Genótipo → produção → colheita → beneficiamento → armazenamento → microbiota da semente → germinação → espermosfera → estabelecimento da plântula.

Em cada etapa poderiam ser avaliados indicadores sanitários e fisiológicos, permitindo construir uma rede de relações entre ambiente, comunidade microbiana e desempenho da semente. A utilização de PCA, PCoA, PERMANOVA, análise de agrupamento, correlações e, quando apropriado, redes de interação permitiria investigar essas relações de maneira integrada (SILVA et al., 2023; SACCARAM et al., 2025).

O resultado seria uma mudança de paradigma: em vez de avaliar a semente apenas como “germinável ou não germinável” ou “infectada ou não infectada”, seria possível caracterizá-la como um sistema biológico no qual genótipo, estado fisiológico, comunidade microbiana, ambiente de produção e condições de armazenamento interagem para determinar o desempenho inicial da cultura. Essa perspectiva é consistente com a evolução recente da pesquisa em fisiologia, microbiologia e patologia de sementes (MARCOS FILHO, 2015; PARSA et al., 2016; SACCARAM et al., 2025).

Conclusão

A patologia de sementes de feijão está deixando de ser uma área restrita à detecção de fungos associados às sementes e avançando para uma abordagem integrada de diversidade microbiana, sanidade, fisiologia e ecologia da semente. Os estudos realizados com P. vulgaris demonstram a ocorrência de uma comunidade fúngica diversificada, incluindo patógenos, fungos de armazenamento e endófitos, cuja composição pode variar de acordo com genótipo, ambiente e condições de armazenamento (SILVA et al., 2008; PARSA et al., 2016; SACCARAM et al., 2025).

A análise multivariada oferece uma ferramenta particularmente importante para integrar essa complexidade. PCA, agrupamento, PCoA, PERMANOVA e redes de correlação permitem ultrapassar a interpretação isolada de cada variável e investigar padrões conjuntos entre fungos, qualidade fisiológica, genótipo e ambiente. Em feijão, trabalhos recentes já demonstraram a eficiência da PCA na caracterização da variabilidade fisiológica e na integração de respostas associadas ao tratamento de sementes (SILVA et al., 2023; CARVALHO et al., 2014).

O próximo avanço consiste na integração entre patologia de sementes convencional, identificação molecular, microbioma, metabolômica e estatística multivariada. O estudo da espermosfera do feijão publicado em 2025 demonstra concretamente essa possibilidade, mostrando que a composição química da semente e a estrutura da comunidade microbiana podem ser estudadas simultaneamente para compreender os fatores que influenciam a saúde e o vigor das sementes (SACCARAM et al., 2025).

Assim, uma perspectiva contemporânea para a pesquisa pode ser sintetizada pela sequência “identificar → quantificar → relacionar → explicar → predizer”. Identificar os microrganismos presentes, quantificar sua incidência e os atributos fisiológicos, relacionar essas variáveis por métodos multivariados, explicar as associações por experimentos de patogenicidade ou interação e, finalmente, utilizar os padrões encontrados para predizer quais genótipos, lotes ou tratamentos apresentam maior potencial de qualidade sanitária e fisiológica. Essa integração pode tornar a patologia de sementes uma ferramenta ainda mais estratégica para o diagnóstico, o melhoramento genético, a tecnologia de sementes e o desenvolvimento de tratamentos biológicos (MARCENARO; VALKONEN, 2016; SILVA et al., 2023; SACCARAM et al., 2025).

Referências

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MARCOS FILHO, J. Seed vigor testing: an overview of the past, present and future perspective. Scientia Agricola, Piracicaba, v. 72, n. 4, p. 363–374, 2015. DOI: 10.1590/0103-9016-2015-0007.

PARSA, S.; GARCÍA-LEMOS, A. M.; CASTILLO, K.; ORTIZ, V.; BECERRA LÓPEZ-LAVALLE, L. A.; BRAUN, J.; VEGA, F. E. Fungal endophytes in germinated seeds of the common bean, Phaseolus vulgaris. Fungal Biology, Amsterdam, v. 120, n. 5, p. 783–790, 2016. DOI: 10.1016/j.funbio.2016.01.017.

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