PATOLOGIA DE SEMENTES DE ALGODÃO: DIVERSIDADE, IDENTIFICAÇÃO, TÉCNICAS DE DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO QUÍMICO
1 INTRODUÇÃO
A semente de algodão representa muito mais do que a unidade propagativa responsável pelo estabelecimento da cultura. Do ponto de vista fitopatológico, constitui um importante componente epidemiológico, capaz de transportar microrganismos entre lotes, propriedades, regiões e, em determinadas circunstâncias, entre países. A associação entre patógenos e sementes pode ocorrer externamente, superficialmente ou internamente, envolvendo diferentes estruturas da semente e diferentes graus de interação com os tecidos do hospedeiro. Essa condição explica por que a avaliação da qualidade sanitária das sementes ocupa posição estratégica na prevenção de doenças e na obtenção de estandes uniformes.
A literatura clássica de patologia de sementes estabelece que a simples presença de um microrganismo em uma semente não deve ser automaticamente interpretada como infecção ou como capacidade de transmissão. É fundamental distinguir contaminação, associação, infecção, transporte e transmissão. Um fungo pode estar presente na superfície da semente sem estabelecer colonização dos tecidos e sem necessariamente originar doença. Da mesma maneira, determinados fungos associados às sementes podem representar principalmente deteriorantes ou componentes da microbiota de armazenamento, enquanto outros possuem capacidade comprovada de infectar a plântula e iniciar uma epidemia. Essa distinção, estabelecida nos fundamentos da patologia de sementes por Neergaard e por Agarwal e Sinclair, continua sendo essencial para a interpretação dos resultados dos testes de sanidade (Neergaard, 1977; Agarwal; Sinclair, 1996).
No algodoeiro (Gossypium hirsutum L.), essa questão assume particular importância. Revisões brasileiras clássicas registraram mais de 40 espécies de fungos e pelo menos uma bactéria associadas às sementes de algodoeiro, evidenciando uma microbiota sanitária consideravelmente diversa. Entre os organismos de maior relevância epidemiológica destacam-se Colletotrichum gossypii, Colletotrichum gossypii var. cephalosporioides, Fusarium oxysporum f. sp. vasinfectum, Rhizoctonia solani, Verticillium dahliae, Sclerotinia sclerotiorum, Alternaria spp. e Xanthomonas spp. A importância relativa de cada organismo, entretanto, varia de acordo com a região produtora, cultivar, sistema de produção, condições ambientais durante a formação e colheita das sementes e condições de beneficiamento e armazenamento (Soares et al., 2012).
A patologia de sementes do algodoeiro também precisa ser analisada sob uma perspectiva epidemiológica mais ampla. O patógeno presente na semente pode atuar como inóculo primário, reduzir a emergência, provocar tombamento de pré ou pós-emergência, comprometer o desenvolvimento inicial ou introduzir organismos capazes de sobreviver posteriormente no solo ou nos restos culturais. Em alguns casos, uma quantidade aparentemente pequena de inóculo possui importância fitossanitária desproporcional, particularmente quando o organismo apresenta elevada capacidade de sobrevivência ou quando a cultura é estabelecida em condições ambientais altamente favoráveis à doença.
Esse princípio permanece atual diante da crescente intensificação da produção de sementes e da movimentação internacional de germoplasma. A literatura contemporânea demonstra que o diagnóstico de patógenos associados às sementes evoluiu de procedimentos predominantemente baseados em incubação e identificação morfológica para sistemas que combinam métodos culturais, microscópicos, imunológicos e moleculares. PCR convencional, PCR em tempo real, sequenciamento e abordagens de identificação baseadas em marcadores específicos passaram a complementar, e em determinadas situações substituir, procedimentos exclusivamente morfológicos (Munkvold, 2009; Zhang et al., 2023).
No algodoeiro, essa evolução metodológica é particularmente evidente. Trabalho publicado em 2026 demonstrou a utilização integrada de caracterização morfológica, microscopia, sequenciamento de regiões ITS, β-tubulina e 16S rRNA e ensaios de patogenicidade para caracterizar um complexo de patógenos associados às sementes. O estudo identificou nove isolados pertencentes a oito grupos predominantes, incluindo Fusarium spp., Lasiodiplodia theobromae, Alternaria spp., Paramyrothecium roridum e Xanthomonas citri pv. malvacearum. O mesmo trabalho desenvolveu um ensaio de PCR específico para P. roridum, demonstrando a tendência atual da patologia de sementes em direção a diagnósticos integrados, específicos e quantitativamente mais sensíveis (Kumar et al., 2026).
Assim, a patologia de sementes de algodão deve ser entendida como uma área interdisciplinar que integra taxonomia, micologia, bacteriologia, fisiologia de sementes, epidemiologia, diagnóstico molecular, tecnologia de sementes e manejo fitossanitário. A qualidade sanitária não é uma característica isolada: relaciona-se diretamente com o potencial de emergência, a uniformidade do estande e a possibilidade de introdução e estabelecimento de patógenos em novas áreas.
2 DESENVOLVIMENTO
2.1 A semente de algodão como unidade epidemiológica
A associação entre patógenos e sementes pode ocorrer durante diferentes fases do ciclo da cultura. A colonização pode iniciar-se ainda no campo, especialmente durante períodos de elevada umidade, ou ocorrer posteriormente durante a colheita, beneficiamento e armazenamento. A arquitetura da semente, a presença de línter, danos mecânicos, umidade e temperatura são fatores que interferem diretamente na sobrevivência e na capacidade de estabelecimento de diferentes microrganismos.
É importante, nesse sentido, diferenciar patógenos transmitidos pela semente daqueles simplesmente associados à semente. A transmissão implica que o organismo presente no lote seja capaz de sobreviver associado à semente e posteriormente infectar a planta ou participar do estabelecimento da doença. Já a associação pode representar apenas presença superficial ou interna sem que necessariamente ocorra transmissão para a geração seguinte.
Essa diferença possui implicações práticas importantes. Aspergillus spp. e Penicillium spp., por exemplo, podem ser encontrados com frequência em sementes de algodão, principalmente sob condições de armazenamento inadequadas. Sua presença deve ser interpretada considerando-se seu potencial de deterioração, produção de metabólitos e comprometimento da qualidade fisiológica, mas não se deve automaticamente classificá-los como equivalentes aos principais patógenos responsáveis pela transmissão de doenças no campo (Soares et al., 2012).
A patologia de sementes contemporânea, portanto, trabalha com uma hierarquia de importância epidemiológica: presença do organismo, frequência e intensidade de associação, localização na semente, viabilidade do inóculo, capacidade de transmissão, patogenicidade e importância econômica da doença. Esse raciocínio evita interpretações excessivamente simplistas dos resultados de um teste de sanidade.
2.2 Diversidade de fungos associados às sementes de algodoeiro
A microbiota fúngica associada às sementes de algodão apresenta elevada diversidade. Estudos realizados em diferentes países demonstram que a composição da micoflora varia de acordo com o genótipo, origem geográfica, condições climáticas, sistema de produção e período de armazenamento.
Em estudo conduzido com genótipos de Gossypium barbadense no Egito, Rhizopus stolonifer, Aspergillus niger e Penicillium sp. apresentaram as maiores frequências entre os fungos isolados, demonstrando a importância dos fungos associados à deterioração e ao armazenamento (Aly et al., 2012).
Em sementes armazenadas de diferentes cultivares de algodão egípcio, a utilização do método de blotter também permitiu recuperar uma diversidade considerável de fungos, reforçando a importância das condições de armazenamento e da composição da microbiota na manutenção da qualidade sanitária e fisiológica dos lotes (Mancini et al., 2016; estudos posteriores com sementes de algodão).
A literatura brasileira apresenta um conjunto particularmente relevante de organismos associados ao algodoeiro. Entre os mais importantes encontram-se:
Colletotrichum gossypii e C. gossypii var. cephalosporioides, associados à antracnose e à ramulose; Fusarium oxysporum f. sp. vasinfectum, associado à murcha-de-fusário; Rhizoctonia solani, associado ao tombamento; Verticillium dahliae, associado à murcha-de-verticílio; Sclerotinia sclerotiorum, associada ao mofo-branco; Alternaria spp., associadas a manchas foliares; Lasiodiplodia theobromae e Macrophomina phaseolina, que podem participar de podridões e tombamentos; além de diversos fungos de armazenamento, especialmente Aspergillus, Penicillium e Rhizopus (Soares et al., 2012).
A atualização taxonômica também precisa ser considerada. Colletotrichum constitui um exemplo particularmente importante. A identificação tradicional baseada apenas em características culturais e morfológicas pode ser insuficiente para separar espécies próximas dentro do complexo C. gloeosporioides. Avaliações moleculares demonstraram elevada proximidade genética entre C. gossypii e a forma historicamente denominada C. gossypii var. cephalosporioides, razão pela qual a taxonomia contemporânea requer cautela na utilização desses nomes e preferência por métodos moleculares complementares quando a identificação em nível específico possui importância fitossanitária (EFSA, 2018).
Esse aspecto é fundamental para laboratórios de diagnóstico. A identificação de um isolado como "Colletotrichum sp." pode ser suficiente para uma avaliação preliminar de micoflora, mas não necessariamente atende a uma demanda quarentenária, epidemiológica ou de certificação. Quanto maior a consequência da identificação, maior deve ser o rigor metodológico empregado.
2.3 Principais grupos de interesse fitopatológico
Entre os patógenos associados às sementes de algodão, Colletotrichum ocupa posição de destaque. A transmissão por sementes pode resultar em infecção de plântulas, tombamento e estabelecimento inicial da doença. A identificação tradicional envolve observação das colônias, formação de conídios, características de acérvulos e, quando possível, estruturas associadas à infecção. Entretanto, devido à complexidade taxonômica do gênero, a confirmação molecular tornou-se particularmente importante.
Fusarium oxysporum f. sp. vasinfectum apresenta importância ainda mais ampla porque a semente pode atuar na introdução do patógeno em áreas anteriormente livres. A taxa de transmissão pode ser relativamente baixa, mas a relevância epidemiológica decorre da elevada capacidade de sobrevivência do patógeno no ambiente e da possibilidade de introdução de populações distintas. A literatura demonstra que mesmo baixos níveis de associação podem assumir importância quando grandes quantidades de sementes são utilizadas para implantação da lavoura (Soares et al., 2012).
Rhizoctonia solani, por sua vez, apresenta comportamento diferente. Trata-se principalmente de um habitante do solo, embora possa estar associado às sementes. A importância do patógeno no algodoeiro está diretamente relacionada ao complexo de tombamento, cuja expressão resulta da interação entre inóculo no solo, qualidade da semente, temperatura, umidade e velocidade de germinação. Consequentemente, a presença de R. solani na semente não deve ser interpretada isoladamente da pressão de inóculo existente no solo.
Aspergillus, Penicillium e Rhizopus merecem tratamento conceitual diferenciado. Esses organismos podem ocorrer com frequência em sementes, sobretudo quando o processo de secagem, beneficiamento ou armazenamento não mantém as condições adequadas de umidade. A consequência pode ser deterioração, redução do vigor, alterações bioquímicas e perda de qualidade fisiológica. Dessa forma, o laboratório deve registrar sua presença, mas interpretar seu significado fitopatológico de acordo com o objetivo do ensaio.
2.4 Métodos tradicionais de detecção
O diagnóstico de patógenos associados às sementes começa, necessariamente, com uma boa amostragem. A distribuição do inóculo em um lote raramente é homogênea, e esse fato constitui uma das principais limitações da análise sanitária. Um resultado negativo não significa necessariamente ausência absoluta do patógeno; significa que o organismo não foi detectado na amostra analisada dentro da sensibilidade do método utilizado.
O método de blotter test, ou método do papel-filtro, continua sendo uma das ferramentas mais importantes para a detecção de fungos associados às sementes. O princípio consiste na incubação das sementes em substrato úmido, sob condições controladas de temperatura e iluminação, permitindo a manifestação de estruturas fúngicas que posteriormente são examinadas ao microscópio estereoscópico e microscópio óptico.
A simplicidade do método constitui uma de suas maiores vantagens. Ele permite recuperar simultaneamente diferentes gêneros e espécies e é especialmente útil para estudos de diversidade da micoflora. Entretanto, sua interpretação exige experiência taxonômica. Colônias que apresentam crescimento rápido podem mascarar fungos de crescimento lento, e determinados organismos podem não esporular adequadamente sob as condições estabelecidas.
A desinfestação superficial deve ser utilizada com critério. Hipoclorito de sódio, álcool e outros agentes podem reduzir microrganismos externos, mas também podem eliminar estruturas viáveis que fazem parte do diagnóstico. Assim, a decisão entre sementes desinfestadas e não desinfestadas deve ser determinada pela pergunta experimental: pretende-se avaliar a micoflora superficial, a micoflora interna ou o conjunto de organismos associados à semente?
A literatura sobre métodos de sanidade reforça justamente essa necessidade de adequação entre objetivo e metodologia. O método escolhido deve considerar o patógeno, sua localização na semente, o nível de inóculo esperado, a finalidade do diagnóstico e a sensibilidade requerida (Mancini et al., 2016).
2.5 Meio de cultura e isolamento
O plaqueamento em meios como BDA/PDA constitui ferramenta complementar ao blotter. O isolamento em meio de cultura possibilita obter culturas puras para estudos morfológicos, testes de patogenicidade, caracterização fisiológica, preservação de isolados e análises moleculares.
Entretanto, deve-se evitar a utilização de um único meio como método universal. Diferentes fungos possuem necessidades nutricionais distintas, e meios seletivos ou semisseletivos podem aumentar a recuperação de determinados grupos. A utilização de meio pobre em nutrientes pode estimular a formação de determinadas estruturas reprodutivas úteis para identificação.
Essa abordagem foi empregada em trabalhos recentes com patógenos de sementes de algodão. Kumar et al. (2026), por exemplo, combinaram métodos de sanidade, caracterização cultural e microscópica, isolamento e identificação molecular, demonstrando que a utilização de diferentes meios e condições de crescimento pode revelar diferenças importantes entre os isolados.
2.6 Identificação morfológica
A identificação morfológica continua sendo uma competência essencial em um laboratório de patologia de sementes. O crescimento colonial, coloração, textura, velocidade de crescimento, produção de pigmentos, presença de estruturas reprodutivas e características dos conídios fornecem informações valiosas.
Para Fusarium, por exemplo, a avaliação de macroconídios, microconídios, clamidósporos e características das colônias pode permitir uma identificação inicial. Para Alternaria, características como septação e morfologia dos conídios são importantes. Para Colletotrichum, devem ser avaliados acérvulos, setas, conídios, apressórios e características culturais.
Entretanto, a identificação morfológica não deve ser confundida com identificação taxonômica definitiva. A plasticidade fenotípica dos fungos é uma das principais fontes de erro. Temperatura, meio de cultura, idade da colônia e disponibilidade nutricional podem alterar significativamente a morfologia.
A abordagem moderna, portanto, é hierárquica: triagem morfológica → isolamento puro → caracterização microscópica → confirmação molecular → patogenicidade quando necessária.
2.7 Diagnóstico molecular
A biologia molecular modificou profundamente a patologia de sementes. O PCR possibilita detectar organismos mesmo quando a quantidade de inóculo é baixa ou quando a expressão morfológica é insuficiente.
Para fungos, a região ITS é frequentemente utilizada como marcador inicial de identificação. Entretanto, ITS nem sempre possui resolução suficiente para separar espécies filogeneticamente próximas. Nesses casos, genes adicionais, como β-tubulina, fator de elongação da tradução 1-alfa e outros marcadores multilocus, podem ser necessários.
Em bactérias, regiões do 16S rRNA constituem uma ferramenta importante para identificação preliminar, mas, assim como ocorre com fungos, a resolução depende do grupo taxonômico e da finalidade do diagnóstico.
O estudo de Kumar et al. (2026) ilustra precisamente essa estratégia. Os autores utilizaram ITS, β-tubulina e 16S rRNA para confirmar a identidade de diferentes organismos associados às sementes de algodão e desenvolveram um PCR específico para Paramyrothecium roridum. O ensaio produziu um fragmento específico de 354 pb e apresentou limite de detecção de 1 pg de DNA, demonstrando o potencial dos métodos moleculares para diagnósticos direcionados (Kumar et al., 2026).
A principal ressalva é que detecção de DNA não significa necessariamente presença de organismo viável. Essa distinção é fundamental. PCR pode detectar DNA proveniente de células mortas, estruturas inviáveis ou resíduos biológicos. Por isso, quando a pergunta envolve viabilidade, capacidade de transmissão ou risco epidemiológico, métodos moleculares devem ser associados a métodos culturais, testes de crescimento, bioensaios ou abordagens que permitam discriminar material viável de inviável.
2.8 PCR quantitativo e diagnóstico de alta sensibilidade
A PCR em tempo real (qPCR) representa uma evolução importante porque permite combinar especificidade com elevada sensibilidade e, em determinadas aplicações, quantificação relativa ou absoluta do alvo.
Em patologia de sementes, a qPCR pode ser particularmente útil quando o patógeno ocorre em baixas concentrações ou quando se pretende comparar lotes quanto à carga de inóculo. Também pode ser utilizada para validar métodos convencionais e desenvolver sistemas de diagnóstico direcionados.
O desenvolvimento de ensaios específicos exige, contudo, validação analítica rigorosa, incluindo especificidade, sensibilidade, repetibilidade, reprodutibilidade, limite de detecção, eficiência da reação e ausência de interferência causada pela matriz da semente.
A tendência contemporânea é integrar esses métodos a plataformas de sequenciamento e identificação por DNA. Isso amplia consideravelmente a capacidade de caracterizar comunidades microbianas, mas não elimina a necessidade da interpretação fitopatológica. Um banco de dados pode indicar a presença de uma sequência; somente o conhecimento epidemiológico permite determinar se aquele organismo possui importância para o lote analisado.
2.9 Métodos imunológicos e outras abordagens
Métodos imunológicos, incluindo ELISA e testes imunocromatográficos, podem ser úteis principalmente quando existem antígenos específicos e protocolos previamente validados. São particularmente importantes para determinados vírus e algumas bactérias.
A literatura de diagnóstico de sementes organiza atualmente os métodos em três grandes grupos: métodos convencionais, métodos imunológicos e métodos baseados em ferramentas moleculares ou bioinformáticas (Zhang et al., 2023).
Em laboratórios especializados, a estratégia mais eficiente não é escolher entre morfologia ou biologia molecular, mas utilizar cada técnica no ponto em que apresenta maior capacidade diagnóstica. O isolamento permite preservar o organismo e realizar testes de patogenicidade; a microscopia permite observar estruturas; o PCR confirma identidades específicas; o sequenciamento auxilia na resolução taxonômica; e a qPCR pode aumentar a sensibilidade.
2.10 Testes de patogenicidade
A presença de um microrganismo em uma semente não demonstra, por si só, que ele seja responsável por uma doença. Quando existe dúvida quanto à patogenicidade, o teste de inoculação torna-se uma etapa importante.
A demonstração de patogenicidade deve seguir princípios experimentais apropriados, incluindo utilização de controles, reprodução consistente dos sintomas, reisolamento do organismo e, quando pertinente, confirmação molecular do isolado recuperado.
O trabalho publicado por Kumar et al. (2026) é particularmente interessante nesse aspecto porque não se limitou à identificação molecular: os isolados foram submetidos a ensaios de patogenicidade e houve reisolamento, fortalecendo a associação causal entre os organismos encontrados e os sintomas observados (Kumar et al., 2026).
2.11 Relação entre patologia e qualidade fisiológica
A qualidade sanitária e a qualidade fisiológica das sementes estão intimamente relacionadas, embora não sejam atributos equivalentes.
Fungos podem reduzir a germinação, acelerar a deterioração, aumentar a quantidade de ácidos graxos livres, comprometer membranas celulares e reduzir o vigor. Em algodão, essa relação é particularmente relevante porque a emergência uniforme é determinante para a formação do estande.
O teste de frio constitui uma ferramenta utilizada para avaliar o potencial fisiológico de sementes de algodão. Estudos brasileiros demonstraram que a exposição das sementes a 10 °C por cinco dias, utilizando rolo de papel sem terra, pode discriminar adequadamente lotes quanto ao vigor (Miguel et al., 2001).
Essa informação é importante para a patologia de sementes porque um lote pode apresentar elevada germinação em condições ótimas e, simultaneamente, baixa capacidade de estabelecimento quando submetido a condições ambientais adversas. Por isso, a avaliação sanitária deve ser interpretada conjuntamente com germinação, vigor e, quando necessário, emergência em condições controladas.
2.12 Normas internacionais para análise sanitária
A International Seed Testing Association (ISTA) mantém um sistema internacional de métodos padronizados para avaliação da qualidade e sanidade de sementes. A edição atualmente disponibilizada é a ISTA Rules 2026, cujo Capítulo 7 é dedicado especificamente ao Seed Health Testing. A ISTA atualiza seus métodos periodicamente mediante avaliação técnica e aprovação institucional.
No caso do algodão, a utilização de métodos ISTA deve ser complementada por protocolos específicos para os patógenos de interesse. Para organismos de importância quarentenária ou comercial, também podem ser utilizados protocolos da EPPO. Um exemplo é o padrão EPPO PM3/041, relacionado à inspeção e aos métodos de teste para Glomerella gossypii em sementes de algodão.
No Brasil, o laboratório deve ainda considerar as normas nacionais aplicáveis à análise e à comercialização de sementes. A combinação entre métodos ISTA, protocolos específicos de patógenos e requisitos nacionais permite maior confiabilidade dos resultados.
2.13 Tratamento químico de sementes
O tratamento químico de sementes deve ser compreendido como uma intervenção localizada e predominantemente preventiva. Seu objetivo não é substituir a produção de sementes de elevada qualidade sanitária, mas reduzir o inóculo associado à semente e proteger a plântula durante o período crítico de germinação e estabelecimento.
Munkvold (2009) destaca que o tratamento de sementes constitui um dos principais componentes da patologia de sementes moderna, especialmente pela evolução das formulações, ingredientes ativos e sistemas de aplicação.
No algodoeiro, o tratamento é particularmente importante para o complexo de tombamento. Estudos experimentais demonstraram que combinações de fungicidas podem reduzir a severidade de tombamento causado por Rhizoctonia solani e Colletotrichum gossypii, evidenciando a importância do tratamento químico na proteção inicial das plântulas (Carvalho et al., 1989).
Entretanto, resultados experimentais publicados na literatura não devem ser confundidos com autorização de uso. Uma combinação pode apresentar eficácia em condições experimentais e não possuir registro para determinada cultura, alvo ou modalidade de aplicação. No Brasil, a indicação legal deve ser conferida no AGROFIT/MAPA e na bula vigente do produto. O próprio MAPA define o AGROFIT como banco oficial de informações sobre produtos registrados e suas indicações de uso, permitindo consulta por cultura, ingrediente ativo, produto e alvo biológico.
2.14 Fungicidas registrados e utilizados em tratamento de sementes de algodão
A situação regulatória dos fungicidas deve ser apresentada com especial cuidado porque os registros podem ser alterados, ampliados, transferidos ou cancelados. Por essa razão, uma lista histórica encontrada em artigos científicos ou documentos técnicos não deve ser apresentada como se representasse automaticamente a situação atual.
Na consulta de informações regulatórias e bulas vigentes disponíveis em 2026, destacam-se os seguintes produtos/formulações para tratamento de sementes de algodão:
| Produto | Ingredientes ativos | Principais alvos registrados em algodão | Modalidade |
|---|---|---|---|
| Acronis® | piraclostrobina + tiofanato-metílico | Colletotrichum gossypii, C. gossypii var. cephalosporioides, Fusarium oxysporum f. sp. vasinfectum, Lasiodiplodia theobromae, Penicillium spp., Rhizoctonia solani | Tratamento de sementes |
| Acronis® UBS | piraclostrobina + tiofanato-metílico | C. gossypii, C. gossypii var. cephalosporioides, L. theobromae, F. oxysporum f. sp. vasinfectum, Penicillium spp., R. solani | Tratamento de sementes |
| Dynasty® | azoxistrobina + metalaxil-M + fludioxonil | Pythium spp., F. oxysporum f. sp. vasinfectum, C. gossypii var. cephalosporioides, R. solani | Tratamento de sementes |
| Carion® | azoxistrobina + metalaxil-M + fludioxonil | R. solani, Pythium spp., F. oxysporum f. sp. vasinfectum, C. gossypii var. cephalosporioides | Tratamento de sementes |
| Maxim® | fludioxonil | Rhizoctonia solani | Tratamento de sementes |
| Tiofanato CCAB 500 SC | tiofanato-metílico | C. gossypii var. cephalosporioides | Tratamento de sementes |
| Captan SC® | captana | alvos registrados conforme bula vigente, incluindo ramulose/tombamento em algodão | Tratamento de sementes |
As informações atuais sobre Acronis e Acronis UBS indicam formulações contendo piraclostrobina e tiofanato-metílico, com uso em tratamento de sementes de algodão e indicação para diferentes patógenos, incluindo Colletotrichum, Fusarium, Lasiodiplodia, Penicillium e Rhizoctonia. A bula atualizada do Acronis UBS estabelece dose de 200–250 mL de produto comercial por 100 kg de sementes e volume de calda de até 1.000 mL por 100 kg de sementes.
O Dynasty®, registro MAPA nº 07208, contém azoxistrobina, metalaxil-M e fludioxonil e permanece apresentado pelo fabricante para tratamento de sementes de algodão. A indicação inclui Pythium spp., Fusarium oxysporum f. sp. vasinfectum, Colletotrichum gossypii var. cephalosporioides e Rhizoctonia solani.
O Carion®, registro MAPA nº 31220, possui a mesma combinação tripla de ingredientes ativos — azoxistrobina,
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