O futuro da bioprospecção de fungos candidatos a bioinsumos: da descoberta de isolados à seleção orientada por genômica, metabolômica e microbiomas
Introdução
A bioprospecção de microrganismos para a agricultura está passando de uma abordagem predominantemente baseada no isolamento e na triagem fenotípica para estratégias que integram ecologia microbiana, taxonomia, genômica, metabolômica, transcriptômica, proteômica, bioinformática e ensaios agronômicos. Nesse contexto, os fungos representam uma fonte particularmente ampla de candidatos a bioinsumos, pois podem apresentar funções de biocontrole, promoção do crescimento vegetal, mobilização de nutrientes, indução de resistência e tolerância a estresses abióticos. A diversidade de fungos associados à rizosfera, filosfera, endosfera, sementes, resíduos vegetais e ambientes extremos constitui, portanto, um reservatório ainda parcialmente explorado de características de interesse agrícola (SHARMA et al., 2023; ZENTENO-ALEGRÍA et al., 2024). (PubMed Central (PMC))
O conceito de bioprospecção aplicado aos fungos fitobenéficos não deve ser reduzido à procura de um microrganismo que apresente elevada inibição de um patógeno em placa de Petri. Um candidato a bioinsumo precisa reunir um conjunto de características biológicas e tecnológicas: atividade consistente, capacidade de colonização ou estabelecimento no ambiente-alvo, estabilidade genética e fisiológica, possibilidade de produção em escala, formulação adequada, segurança e desempenho reprodutível em condições agrícolas. A literatura recente destaca justamente a existência de uma lacuna entre resultados obtidos em laboratório e a eficácia observada no campo, tornando a seleção de linhagens e a validação agronômica etapas centrais do desenvolvimento de produtos microbianos (FERREYRA-SUAREZ; GARCÍA-DEPRAECT; CASTRO-MUÑOZ, 2024; AZARBAD et al., 2024). (PubMed)
De onde virão os futuros candidatos?
A primeira transformação da bioprospecção será provavelmente a ampliação dos ambientes utilizados como fontes de novos isolados. Solos agrícolas convencionais continuam sendo importantes, mas ambientes submetidos a condições ambientais extremas — elevada salinidade, seca, temperaturas elevadas ou baixas, radiação ultravioleta e outros estresses — podem selecionar microrganismos com mecanismos de tolerância potencialmente interessantes para sistemas agrícolas submetidos às mudanças climáticas. Fungos extremotolerantes e extremófilos são considerados uma fonte ainda pouco explorada de características relacionadas à adaptação e à promoção do crescimento vegetal sob estresse (ZENTENO-ALEGRÍA et al., 2024). (PubMed)
Outra fonte estratégica será o próprio microbioma das plantas. A rizosfera, a filosfera e, principalmente, a endosfera podem conter fungos adaptados à interação direta com o hospedeiro vegetal. Fungos endofíticos são particularmente interessantes porque alguns podem colonizar tecidos vegetais e contribuir para proteção contra patógenos, aquisição ou mobilização de nutrientes, produção de metabólitos bioativos e modulação das respostas de defesa da planta (SHARMA et al., 2023). (PubMed Central (PMC))
Essa mudança significa que a pergunta da bioprospecção tende a passar de “qual fungo inibe o patógeno?” para “qual microrganismo possui um conjunto de características compatível com determinado sistema agrícola?”. Um isolado proveniente da rizosfera de uma cultura submetida à seca, por exemplo, pode ser selecionado não apenas por sua atividade antagonista, mas também por sua capacidade de colonizar raízes, tolerar baixa disponibilidade hídrica, mobilizar nutrientes e permanecer funcional na presença da microbiota nativa (ZENTENO-ALEGRÍA et al., 2024; SHARMA et al., 2023). (PubMed)
A mudança da triagem fenotípica para a bioprospecção orientada por genômica
Tradicionalmente, a descoberta de candidatos envolve isolamento, identificação, ensaios de antagonismo, testes de promoção do crescimento e posterior avaliação em plantas. Essa abordagem continua sendo necessária, mas a genômica permite antecipar parte do processo. O sequenciamento do genoma pode revelar genes associados à síntese de metabólitos secundários, enzimas hidrolíticas, mecanismos de aquisição de nutrientes, tolerância a estresses e interação com plantas, permitindo priorizar isolados antes de submetê-los a uma grande quantidade de ensaios experimentais (YANG; WU; SUN, 2024). (PubMed Central (PMC))
Em fungos de biocontrole, a análise do genoma permite investigar biosynthetic gene clusters (BGCs), que contêm conjuntos de genes relacionados à biossíntese de metabólitos especializados. A presença de determinados clusters não demonstra, por si só, que um composto será produzido nas condições agrícolas, mas fornece uma indicação do potencial metabólico do isolado. A integração entre genômica, transcriptômica e metabolômica permite avançar da simples previsão de genes para a demonstração de quais vias são efetivamente expressas e quais metabólitos estão associados à atividade biológica (YANG; WU; SUN, 2024). (PubMed Central (PMC))
Um exemplo particularmente interessante é Trichoderma. A bioprospecção desse gênero pode ser realizada utilizando informações genômicas para identificar genes e clusters potencialmente relacionados à produção de compostos antimicrobianos, enzimas, peptídeos e outros mecanismos de biocontrole. A integração de genômica, metabolômica, aprendizado de máquina e outras ferramentas computacionais foi proposta como estratégia para reduzir o caráter essencialmente empírico da descoberta de novas linhagens e produtos baseados em Trichoderma (SABER et al., 2023). (PubMed Central (PMC))
O futuro será provavelmente multiômico
A genômica informa o que o microrganismo potencialmente pode fazer, enquanto a transcriptômica ajuda a compreender quais genes estão sendo expressos em determinada condição. A proteômica permite avaliar as proteínas efetivamente produzidas e a metabolômica fornece informações sobre os metabólitos presentes. A integração dessas camadas pode revelar quais mecanismos estão associados ao fenótipo de interesse e, principalmente, em quais condições ambientais eles são ativados (SHARMA et al., 2023; YANG; WU; SUN, 2024). (PubMed Central (PMC))
Essa abordagem é particularmente importante porque muitos fungos apresentam grande potencial metabólico que não é necessariamente detectado em condições convencionais de cultivo. Um cluster biossintético pode permanecer silencioso ou apresentar baixa expressão no meio utilizado no laboratório, enquanto outras condições nutricionais ou sinais provenientes da interação com a planta ou com um patógeno podem modificar sua expressão. Por isso, a bioprospecção futura deverá explorar diferentes condições de cultivo e interação para revelar o chamado potencial metabólico oculto dos microrganismos (YANG; WU; SUN, 2024). (PubMed Central (PMC))
O exemplo de Trichoderma
Trichoderma continua sendo um dos principais modelos para compreender como a bioprospecção pode evoluir de uma seleção baseada exclusivamente em fenótipo para uma seleção integrada por dados moleculares. Espécies e linhagens desse gênero podem atuar por diferentes mecanismos, incluindo competição, micoparasitismo, produção de metabólitos, produção de enzimas e modulação das respostas de defesa das plantas. Entretanto, essas características variam entre espécies e, principalmente, entre linhagens, o que torna a seleção em nível de isolado fundamental para o desenvolvimento de bioinsumos (SABER et al., 2023; YANG; WU; SUN, 2024). (PubMed Central (PMC))
O futuro da seleção de Trichoderma tende, portanto, a considerar simultaneamente identidade taxonômica, genótipo, potencial biossintético, capacidade de colonização, interação com a planta, interação com o patógeno e estabilidade sob condições ambientais relevantes. A identificação de genes associados ao biocontrole pode auxiliar a priorizar candidatos, mas a validação fenotípica continuará indispensável porque a presença de genes não significa necessariamente expressão funcional ou eficácia agronômica (SABER et al., 2023; YANG; WU; SUN, 2024). (PubMed Central (PMC))
Clonostachys rosea: um modelo de multifuncionalidade
Outro exemplo interessante é Clonostachys rosea, fungo que apresenta mecanismos de biocontrole envolvendo micoparasitismo, competição, produção de enzimas e metabólitos e indução de respostas de defesa vegetal. Estudos genômicos e transcriptômicos demonstram que o organismo possui um repertório de genes potencialmente associado a essas funções, incluindo genes relacionados a enzimas degradadoras de parede celular, transportadores e metabolismo secundário (GEIGER et al., 2025). (DOI)
O interesse em organismos como C. rosea demonstra uma tendência importante: o futuro da bioprospecção não necessariamente buscará fungos com um único mecanismo de ação, mas poderá priorizar linhagens capazes de desempenhar múltiplas funções compatíveis com o sistema agrícola. Entretanto, multifuncionalidade não deve ser presumida apenas a partir de resultados laboratoriais; sua relevância depende da demonstração de eficácia, estabilidade e segurança nas condições de utilização pretendidas (GEIGER et al., 2025). (DOI)
Fungos entomopatogênicos como candidatos multifuncionais
Fungos tradicionalmente estudados como entomopatógenos também estão sendo reconsiderados como candidatos a bioinsumos multifuncionais. Espécies dos gêneros Beauveria, Metarhizium, Cordyceps, Lecanicillium e outros Hypocreales podem apresentar comportamento endofítico e interagir com plantas, além de sua conhecida capacidade de infectar insetos. Estudos recentes discutem a possibilidade de explorar simultaneamente o controle de insetos, a colonização vegetal e a promoção do crescimento das plantas (GUPTA et al., 2024). (PubMed Central (PMC))
Essa possibilidade é particularmente interessante para o desenvolvimento de bioinsumos de função múltipla. Um único microrganismo poderia, dependendo da linhagem e do sistema de aplicação, interagir com a planta, influenciar sua fisiologia e contribuir para a supressão de organismos-praga. Entretanto, as interações entre fungos entomopatogênicos, plantas, insetos e microbiota ainda apresentam mecanismos incompletamente caracterizados, o que torna necessária uma abordagem experimental integrada antes de transformar essas características em uma recomendação agronômica (GUPTA et al., 2024). (PubMed Central (PMC))
O microbioma como fonte de candidatos
Uma das mudanças mais importantes será a transição da busca por “microrganismos isolados” para a compreensão das comunidades microbianas funcionais. A planta não interage com um único microrganismo em condições naturais; ela estabelece relações simultâneas com comunidades de bactérias, fungos e outros organismos. Consequentemente, um fungo que apresenta atividade moderada isoladamente pode desempenhar função importante dentro de uma comunidade microbiana específica (SHARMA et al., 2023; GARBEVA et al., 2024). (PubMed Central (PMC))
Nesse contexto surgem os consórcios microbianos sintéticos, ou SynComs. A estratégia consiste em selecionar microrganismos com funções complementares e reconstruir uma comunidade simplificada, controlada experimentalmente, para investigar interações e desenvolver inoculantes com múltiplas funções. Essa abordagem pode permitir combinar fungos e bactérias com características complementares, desde que sejam demonstradas compatibilidade, estabilidade e eficácia do consórcio (NEGI et al., 2024; NUNES et al., 2024). (PubMed)
A utilização de consórcios, contudo, não deve ser interpretada simplesmente como “quanto mais microrganismos, melhor”. Interações antagônicas entre componentes podem reduzir a sobrevivência ou a atividade de um dos membros, enquanto alterações na composição da microbiota nativa podem modificar o desempenho do consórcio. Por isso, a seleção deverá considerar compatibilidade, nicho ecológico, funções complementares e estabilidade da comunidade (NUNES et al., 2024). (ScienceDirect)
Bioprospecção guiada pelo ambiente
Uma tendência particularmente relevante será a seleção de fungos adaptados ao ambiente onde serão utilizados. Isolados obtidos de ambientes agrícolas semelhantes àqueles onde o produto será aplicado podem apresentar maior compatibilidade ecológica do que organismos selecionados exclusivamente por desempenho em condições laboratoriais. A origem ambiental do isolado, portanto, pode se tornar uma variável estratégica na seleção de candidatos (ZENTENO-ALEGRÍA et al., 2024). (PubMed)
Essa lógica é especialmente importante diante de estresses associados às mudanças climáticas. Fungos provenientes de ambientes naturalmente submetidos a seca, salinidade, temperaturas extremas ou outras condições adversas podem apresentar características fisiológicas úteis para sistemas agrícolas sujeitos a esses mesmos estresses. O objetivo não seria simplesmente encontrar um fungo “resistente”, mas identificar linhagens capazes de manter funções benéficas sob condições ambientais limitantes (ZENTENO-ALEGRÍA et al., 2024). (PubMed)
Da placa de Petri para o campo
Um dos maiores desafios da bioprospecção é evitar que a seleção seja dominada por resultados de laboratório. Ensaios de antagonismo em meio de cultura são úteis para identificar candidatos, mas não reproduzem a complexidade da planta, do solo, da microbiota nativa, do clima e das práticas agrícolas. Uma linhagem que apresenta forte antagonismo in vitro pode apresentar desempenho limitado quando aplicada em sementes, solo, folhas ou raízes (FERREYRA-SUAREZ; GARCÍA-DEPRAECT; CASTRO-MUÑOZ, 2024; AZARBAD et al., 2024). (PubMed)
Por essa razão, a bioprospecção do futuro deverá incorporar ensaios progressivos, começando pela caracterização laboratorial, passando por experimentos em plantas sob condições controladas e avançando para ensaios de campo em diferentes locais e safras. A meta não deve ser simplesmente encontrar o isolado que produz a maior resposta em um experimento, mas identificar aquele que apresenta desempenho consistente diante da variabilidade ambiental (AZARBAD et al., 2024). (PubMed Central (PMC))
Formulação será parte da bioprospecção
Outro aspecto frequentemente subestimado é que a descoberta de um fungo promissor não equivale à descoberta de um bioinsumo. O desenvolvimento de um produto depende de produção em escala, estabilidade, concentração adequada de propágulos, viabilidade durante armazenamento, compatibilidade com o veículo e manutenção da atividade biológica durante aplicação. Revisões recentes sobre biopesticidas e biofertilizantes fúngicos destacam a produção, formulação, qualidade e estabilidade como etapas fundamentais para transformar candidatos biológicos em produtos agrícolas (FERREYRA-SUAREZ; GARCÍA-DEPRAECT; CASTRO-MUÑOZ, 2024). (PubMed)
Isso significa que características tecnológicas deverão entrar cada vez mais cedo no processo de seleção. Um fungo extremamente eficiente biologicamente, mas incapaz de ser produzido em escala ou de permanecer viável durante armazenamento, pode ter menor potencial de desenvolvimento que uma linhagem ligeiramente menos eficiente, porém robusta e formulável. Assim, a seleção futura deverá integrar eficácia biológica e “desenvolvibilidade” tecnológica desde as fases iniciais da pesquisa (FERREYRA-SUAREZ; GARCÍA-DEPRAECT; CASTRO-MUÑOZ, 2024). (PubMed)
O papel da metabolômica na descoberta de novos bioinsumos
A metabolômica apresenta grande potencial para identificar moléculas associadas à atividade biológica dos fungos. Em vez de avaliar somente se determinado isolado inibe um patógeno, pode-se investigar quais metabólitos são produzidos durante a interação, quais aumentam em determinadas condições e quais estão associados ao fenótipo de antagonismo. Essa abordagem pode permitir descobrir novos compostos e relacioná-los aos mecanismos de ação do microrganismo (YANG; WU; SUN, 2024). (PubMed Central (PMC))
A integração entre metabolômica e genômica também pode estabelecer uma conexão entre gene → via biossintética → metabólito → atividade biológica. Essa conexão é especialmente relevante para fungos produtores de metabólitos secundários, pois permite investigar não apenas o organismo como agente vivo, mas também os produtos metabólicos responsáveis por determinadas funções biológicas (YANG; WU; SUN, 2024). (PubMed Central (PMC))
Inteligência artificial e aprendizado de máquina
Outra fronteira da bioprospecção será o emprego de inteligência artificial e aprendizado de máquina para integrar grandes conjuntos de dados. Informações genômicas, metabolômicas, características fenotípicas, origem ambiental, hospedeiro, condições de cultivo e resultados de ensaios podem ser utilizados conjuntamente para identificar padrões associados ao desempenho de determinadas linhagens. Em Trichoderma, por exemplo, já foi proposta a integração entre genômica, dados funcionais e ferramentas computacionais para acelerar a seleção de candidatos com potencial de biocontrole (SABER et al., 2023). (PubMed Central (PMC))
A aplicação de inteligência artificial, entretanto, não elimina a necessidade de experimentação. Modelos preditivos dependem da qualidade e representatividade dos dados utilizados para treinamento. Portanto, a tendência mais consistente é que a inteligência artificial seja empregada como ferramenta de priorização de candidatos, reduzindo o número de isolados que precisam passar por todas as etapas experimentais, e não como substituta da validação biológica e agronômica (SABER et al., 2023). (PubMed Central (PMC))
A nova lógica: do “screening” para o “design” de bioinsumos
A combinação de genômica, metabolômica, microbiomas e modelagem computacional pode modificar profundamente o conceito de bioprospecção. No modelo tradicional, milhares de isolados são testados até que alguns apresentem características interessantes. No modelo emergente, informações genômicas e ecológicas podem ser utilizadas para predizer quais isolados têm maior probabilidade de apresentar determinadas funções, direcionando a experimentação para candidatos previamente priorizados (SHARMA et al., 2023; SABER et al., 2023). (PubMed Central (PMC))
Essa mudança pode ser denominada bioprospecção orientada por dados. O objetivo não é abandonar o isolamento e a experimentação, mas utilizar conhecimento prévio para tornar o processo mais racional. A seleção poderia começar pela definição do problema agrícola, seguida da identificação de ambientes e microbiomas associados à função desejada, seleção de candidatos por dados genômicos e metabólicos, validação fenotípica e, finalmente, testes agronômicos e tecnológicos (SHARMA et al., 2023; FERREYRA-SUAREZ; GARCÍA-DEPRAECT; CASTRO-MUÑOZ, 2024). (PubMed Central (PMC))
Um possível fluxo para a bioprospecção de fungos
| Etapa | Abordagem | Principal pergunta |
|---|---|---|
| 1. Definição do problema | Cultura × patógeno × ambiente | Qual problema agrícola será resolvido? |
| 2. Seleção do ambiente | Rizosfera, endosfera, filosfera, solo, resíduos, ambientes extremos | Onde procurar candidatos adaptados? |
| 3. Isolamento | Métodos culturais e seleção dirigida | Quais fungos podem ser recuperados? |
| 4. Identificação | Morfologia + DNA + filogenia | Quem é o isolado? |
| 5. Triagem fenotípica | Antagonismo, PGP, tolerância a estresse | O isolado apresenta a função desejada? |
| 6. Genômica | Sequenciamento e mineração de genes/BGCs | Qual é o potencial funcional? |
| 7. Transcriptômica/proteômica | Expressão durante a interação | Quais mecanismos estão ativos? |
| 8. Metabolômica | Perfil de metabólitos | Quais compostos estão associados à atividade? |
| 9. Bioinformática/IA | Predição e priorização | Quais candidatos merecem maior investimento? |
| 10. Compatibilidade | Planta × microbiota × outros bioinsumos | O candidato se estabelece no sistema? |
| 11. Formulação | Propágulos, veículo, estabilidade | É possível transformar a linhagem em produto? |
| 12. Casa de vegetação | Ensaios controlados | O efeito permanece na planta? |
| 13. Campo | Diferentes ambientes e safras | O desempenho é consistente? |
| 14. Qualidade e segurança | Identidade, pureza, estabilidade, biossegurança | O produto é seguro e reprodutível? |
| 15. Desenvolvimento | Escala, registro e aplicação | O candidato pode se tornar um bioinsumo? |
Esse fluxo representa uma síntese conceitual baseada na literatura recente sobre bioprospecção microbiana, fungos endofíticos, multiômica, formulação, consórcios microbianos e validação agronômica (SHARMA et al., 2023; SABER et al., 2023; FERREYRA-SUAREZ; GARCÍA-DEPRAECT; CASTRO-MUÑOZ, 2024; NUNES et al., 2024). (PubMed Central (PMC))
Um ponto crítico: segurança
O avanço da bioprospecção não pode ser baseado exclusivamente na busca pela maior atividade biológica. A seleção de um fungo candidato também precisa considerar identidade taxonômica, potencial de produção de metabólitos indesejáveis, interação com organismos não alvo, capacidade de sobrevivência ambiental, estabilidade genética e possíveis riscos associados à utilização agrícola. A caracterização genômica pode contribuir para identificar características desejáveis e indesejáveis antes do avanço do isolado para etapas mais caras de desenvolvimento (SHARMA et al., 2023; FERREYRA-SUAREZ; GARCÍA-DEPRAECT; CASTRO-MUÑOZ, 2024). (PubMed Central (PMC))
Esse aspecto é especialmente importante quando se considera que fungos podem apresentar grande diversidade metabólica. A descoberta de um novo metabólito ou de uma atividade antagonista não significa automaticamente que o organismo seja adequado para aplicação agrícola. O desenvolvimento de bioinsumos precisa equilibrar eficácia, segurança, estabilidade, produção e compatibilidade ecológica (YANG; WU; SUN, 2024; FERREYRA-SUAREZ; GARCÍA-DEPRAECT; CASTRO-MUÑOZ, 2024). (PubMed Central (PMC))
O futuro: bioinsumos específicos para sistemas agrícolas
A tendência mais interessante não é necessariamente o desenvolvimento de um único fungo capaz de atuar universalmente em todas as culturas. A complexidade das interações entre microrganismo, planta, patógeno, solo, microbiota e ambiente sugere que os bioinsumos do futuro poderão ser mais específicos para determinadas culturas, ambientes e problemas fitossanitários. A seleção de fungos adaptados a determinados nichos e a integração com dados de microbioma podem permitir formulações mais compatíveis com o sistema agrícola de destino (ZENTENO-ALEGRÍA et al., 2024; GARBEVA et al., 2024). (PubMed)
Essa perspectiva aproxima a bioprospecção do conceito de agricultura de precisão microbiológica. Em vez de simplesmente aplicar um microrganismo e esperar uma resposta, o desenvolvimento poderá considerar previamente a cultura, genótipo vegetal, solo, microbioma, pressão de patógenos, condições climáticas e modo de aplicação para selecionar o microrganismo ou consórcio mais compatível com aquele sistema (NUNES et al., 2024; AZARBAD et al., 2024). (ScienceDirect)
Considerações finais
O futuro da bioprospecção de fungos candidatos a bioinsumos está associado à integração entre biodiversidade, taxonomia, microbiologia, genômica, metabolômica, bioinformática, ecologia microbiana e ciência de formulações. A principal transformação não será simplesmente encontrar mais fungos, mas aumentar a capacidade de prever quais isolados têm maior probabilidade de apresentar características úteis, compreender os mecanismos responsáveis por essas características e transformar esse conhecimento em produtos estáveis e eficazes (SHARMA et al., 2023; SABER et al., 2023; YANG; WU; SUN, 2024). (PubMed Central (PMC))
Para a Fitopatologia, essa mudança abre uma perspectiva particularmente relevante: a bioprospecção pode deixar de ser apenas uma busca por antagonistas e passar a constituir uma plataforma de descoberta de funções biológicas. Fungos capazes de antagonizar patógenos, colonizar plantas, modular a imunidade, mobilizar nutrientes, tolerar estresses e interagir positivamente com outros microrganismos poderão ser selecionados de maneira integrada, desde que essas características sejam demonstradas experimentalmente e permaneçam consistentes em condições agrícolas reais (ZENTENO-ALEGRÍA et al., 2024; NUNES et al., 2024). (PubMed)
A questão central para os próximos anos, portanto, não será apenas “qual fungo funciona?”, mas “qual fungo, em qual planta, em qual ambiente, contra qual problema, por qual mecanismo, em qual formulação e com qual comunidade microbiana apresenta desempenho consistente?”. Essa mudança de pergunta representa a passagem de uma bioprospecção essencialmente empírica para uma abordagem orientada por mecanismos, dados e contexto ecológico (FERREYRA-SUAREZ; GARCÍA-DEPRAECT; CASTRO-MUÑOZ, 2024; AZARBAD et al., 2024). (PubMed)
Referências
AZARBAD, H. et al. Biological and experimental factors that define the effectiveness of microbial inoculation on plant traits: a meta-analysis. The ISME Journal, 2024. DOI: 10.1038/s41396-024-01837-0. (PubMed Central (PMC))
FERREYRA-SUAREZ, D.; GARCÍA-DEPRAECT, O.; CASTRO-MUÑOZ, R. A review on fungal-based biopesticides and biofertilizers production. Ecotoxicology and Environmental Safety, v. 283, p. 116945, 2024. DOI: 10.1016/j.ecoenv.2024.116945. (PubMed)
GARBEVA, P. et al. Strategies for tailoring functional microbial synthetic communities. The ISME Journal, 2024. (PubMed Central (PMC))
GEIGER, M. et al. Unveiling the antimicrobial and biocontrol potential of the Ascomycete fungus, Clonostachys rosea: a review. The Microbe, v. 6, p. 100226, 2025. DOI: 10.1016/j.microb.2024.100226. (DOI)
GUPTA, S. et al. Plant–entomopathogenic fungi interaction: recent progress and future prospects on endophytism-mediated growth promotion and biocontrol. 2024. (PubMed Central (PMC))
NEGI, R. et al. Microbial consortia: promising tool as plant bioinoculants for agricultural sustainability. Current Microbiology, 2024. DOI: 10.1007/s00284-024-03755-0. (PubMed)
NUNES, P. S. O. et al. Microbial consortia of biological products: do they have a future? Biological Control, v. 188, p. 105439, 2024. DOI: 10.1016/j.biocontrol.2024.105439. (ScienceDirect)
SABER, W. I. A. et al. Bioprospecting Trichoderma: a systematic roadmap to screen genomes and natural products for biocontrol applications. 2023. (PubMed Central (PMC))
SHARMA, I.; RAINA, A.; CHOUDHARY, M. et al. Fungal endophyte bioinoculants as a green alternative towards sustainable agriculture. Heliyon, v. 9, n. 9, e19487, 2023. DOI: 10.1016/j.heliyon.2023.e19487. (PubMed)
YANG, H.; WU, X.; SUN, C. Unraveling the metabolic potential of biocontrol fungi through omics data: a key to enhancing large-scale application strategies. Acta Biochimica et Biophysica Sinica, v. 56, n. 6, p. 825–832, 2024. DOI: 10.3724/abbs.2024056. (PubMed Central (PMC))
ZENTENO-ALEGRÍA, C. O. et al. Fungi beyond limits: the agricultural promise of extremophiles. Microbial Biotechnology, v. 17, n. 3, e14439, 2024. DOI: 10.1111/1751-7915.14439. (PubMed)
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