quarta-feira, 23 de setembro de 2026

PATOLOGIA DE SEMENTES DE GIRASSOL: DIVERSIDADE, IDENTIFICAÇÃO, TÉCNICAS DE DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO QUÍMICO


PATOLOGIA DE SEMENTES DE GIRASSOL: DIVERSIDADE, IDENTIFICAÇÃO, TÉCNICAS DE DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO QUÍMICO

1 INTRODUÇÃO

O girassol (Helianthus annuus L.) ocupa posição relevante entre as oleaginosas cultivadas mundialmente, sendo utilizado principalmente para produção de óleo, além de apresentar importância crescente em sistemas de produção diversificados. Como ocorre com outras espécies cultivadas, o desempenho agronômico do girassol está estreitamente relacionado à qualidade das sementes utilizadas na implantação da lavoura. Entretanto, quando se considera a qualidade de sementes sob a perspectiva fitopatológica, a questão ultrapassa a simples determinação da germinação. A semente pode constituir, simultaneamente, unidade de propagação da cultura, substrato para microrganismos, veículo de disseminação de patógenos e fonte de inóculo para a emergência das plântulas.

Essa característica confere à patologia de sementes uma importância particular. Um lote aparentemente uniforme pode apresentar diferentes níveis de associação com fungos, e essas associações podem assumir significados biológicos distintos. Alguns microrganismos são reconhecidamente patogênicos; outros podem atuar como colonizadores oportunistas ou saprófitas, enquanto determinados integrantes da microbiota podem exercer funções potencialmente benéficas. Portanto, a presença de um fungo na semente não deve ser interpretada automaticamente como evidência de doença.

A importância epidemiológica de um organismo associado à semente depende de sua identidade, viabilidade, localização, quantidade de inóculo, capacidade de transmissão para a plântula e interação com o hospedeiro e o ambiente. Essa concepção é um dos fundamentos da moderna patologia de sementes e permanece central mesmo diante do avanço das técnicas moleculares de diagnóstico (AGARWAL; SINCLAIR, 1996; MUNKVOLD, 2009). A literatura contemporânea reforça que a sanidade das sementes deve ser considerada componente essencial da segurança fitossanitária dos sistemas agrícolas, particularmente diante do aumento da circulação internacional de sementes e da necessidade de métodos diagnósticos mais sensíveis (MUNKVOLD; DU TOIT; DUNKLE, 2025). (Annual Reviews)

No girassol, a diversidade de organismos associados às sementes é expressiva. Estudos realizados em diferentes regiões identificaram representantes de Alternaria, Fusarium, Verticillium, Rhizopus, Botrytis, Curvularia, Aspergillus, Penicillium e outros gêneros. A composição da micobiota pode variar de acordo com cultivar, ambiente de produção, sistema de cultivo, maturação, colheita e condições de armazenamento. Em estudo envolvendo 69 cultivares de girassol, Addrah et al. (2020) identificaram diferentes espécies de Alternaria e Fusarium, além de Verticillium dahliae e Cladosporium cladosporioides, demonstrando a complexidade da comunidade fúngica associada às sementes. (PubMed Central (PMC))

A relevância dessa diversidade não é apenas taxonômica. A ocorrência de determinados fungos pode estar relacionada à redução da germinação, do vigor e do estabelecimento inicial das plântulas. Trabalho recente conduzido com sementes armazenadas de girassol identificou Aspergillus flavus, A. niger, Alternaria padwickii, A. zinniae, Botrytis cinerea, Curvularia lunata, Fusarium verticillioides e Rhizopus arrhizus, demonstrando associação entre maior incidência de fungos e redução da viabilidade e do vigor das sementes (MADEGE; NZOGELA, 2025). (Frontiers)

No Brasil, a preocupação com a patologia de sementes de girassol não é recente. Menten já havia realizado uma síntese da literatura brasileira e internacional, destacando um conjunto amplo de fungos associados às sementes e ressaltando a importância de Alternaria helianthi, Sclerotinia sclerotiorum, Phomopsis sp., Sclerotium rolfsii, Macrophomina phaseolina, Rhizoctonia solani, Botrytis cinerea e espécies de Fusarium, entre outros organismos. O autor também destacava o papel do método do papel de filtro com congelamento e da assepsia superficial para a caracterização da micoflora (MENTEN, s.d.). (Abrates)

A identificação desses organismos constitui, portanto, etapa fundamental. A análise morfológica continua sendo indispensável na rotina de patologia de sementes, mas as limitações taxonômicas de determinados grupos justificam a utilização de ferramentas moleculares. PCR, qPCR, sequenciamento de regiões gênicas e análise de sequências por bancos de dados permitem complementar a caracterização morfológica e, em determinadas situações, alcançar resolução taxonômica impossível de obter somente pela observação das estruturas fúngicas.

Essa evolução metodológica modifica também a maneira de compreender a diversidade. O objetivo contemporâneo não é simplesmente elaborar uma lista de fungos, mas determinar quais organismos estão presentes, qual sua frequência, qual sua importância epidemiológica e qual relação apresentam com a qualidade fisiológica das sementes.

O tratamento químico constitui a etapa de intervenção desse processo. No entanto, sua escolha não deve preceder o diagnóstico. Um fungicida deve ser selecionado em função do patógeno ou complexo de patógenos identificado, do modo de ação, da eficácia conhecida e, no caso brasileiro, da indicação oficial para a cultura e o alvo biológico. O AGROFIT constitui a base oficial do Ministério da Agricultura e Pecuária para consulta dos produtos fitossanitários registrados e de suas indicações de uso. (Serviços e Informações do Brasil)

Assim, a patologia de sementes de girassol deve ser compreendida como um processo contínuo que envolve detecção, identificação, interpretação epidemiológica e intervenção, e não como uma simples determinação da presença de fungos.

2 DESENVOLVIMENTO

2.1 A semente de girassol como unidade epidemiológica

A semente constitui uma das formas mais eficientes de sobrevivência e disseminação de determinados agentes fitopatogênicos. Sua importância epidemiológica decorre da capacidade de transportar o inóculo para novas áreas e de permitir que o patógeno acompanhe a cultura desde os primeiros estádios de desenvolvimento.

A associação do microrganismo com a semente pode ocorrer externamente, aderido ao tegumento ou a estruturas superficiais, ou internamente, quando o organismo coloniza tecidos da semente. Essa distinção possui consequências práticas para a detecção e para o tratamento.

Uma semente pode apresentar microrganismos sem que estes estejam necessariamente viáveis. Da mesma forma, a detecção de DNA de determinado fungo não significa, isoladamente, que exista um organismo vivo capaz de produzir doença. Essa distinção tornou-se ainda mais importante com a expansão das técnicas moleculares.

Munkvold (2009) destaca que a evolução da patologia de sementes está diretamente relacionada ao desenvolvimento de métodos de detecção mais sensíveis e específicos e à necessidade de compreender a epidemiologia dos patógenos transmitidos por sementes. (Annual Reviews)

A sanidade deve, portanto, ser interpretada em termos epidemiológicos. O diagnóstico precisa responder não somente "o que está presente?", mas também "o que essa presença significa para o lote e para o estabelecimento da cultura?".

2.2 Diversidade da micobiota associada às sementes de girassol

A literatura demonstra que as sementes de girassol podem abrigar uma comunidade fúngica bastante diversificada.

Em estudo envolvendo 69 cultivares, Addrah et al. (2020) observaram maior contaminação em cultivares do tipo confeiteiro do que em cultivares oleaginosas. Entre os organismos identificados estavam Verticillium dahliae, diferentes espécies de Alternaria, Fusarium spp., Rhizopus spp. e Cladosporium cladosporioides. A identificação molecular foi realizada a partir de produtos de PCR submetidos à comparação de sequências, demonstrando a utilidade da integração entre isolamento, morfologia e ferramentas moleculares. (PubMed Central (PMC))

Essa diversidade, entretanto, deve ser interpretada com cautela. O método empregado interfere diretamente na comunidade detectada. Um teste de papel de filtro favorece a expressão de determinadas estruturas fúngicas; meios de cultura podem selecionar organismos de crescimento mais rápido; procedimentos de assepsia superficial alteram a proporção entre fungos externos e internos; e técnicas moleculares podem detectar organismos que não são necessariamente recuperados em cultivo.

Portanto, não existe uma única "micoflora verdadeira" independentemente do método. Existe uma comunidade biológica e existe uma comunidade detectável por determinado método. Essa distinção é fundamental para comparar trabalhos científicos.

2.3 Principais fungos associados às sementes

Entre os grupos frequentemente associados às sementes de girassol destacam-se Alternaria, Fusarium, Verticillium, Botrytis, Rhizoctonia, Aspergillus, Penicillium, Rhizopus e outros.

Alternaria apresenta importância particular porque algumas espécies estão associadas a manchas foliares e outras doenças do girassol, podendo o inóculo associado às sementes participar da introdução ou manutenção do patógeno na área. O estudo recente de Monica et al. (2025) demonstrou que sementes afetadas por Alternaria helianthi apresentaram redução da germinação, do vigor e do teor de óleo em comparação com sementes sadias. (Revistas de Pesquisa Agrícola Indianas)

Fusarium constitui outro grupo de grande importância. Diferentes espécies podem apresentar comportamentos epidemiológicos distintos, incluindo podridões, murchas e associação com sementes. A identificação em nível de gênero pode ser insuficiente para compreender plenamente a importância do organismo, principalmente porque o complexo taxonômico de Fusarium apresenta elevada diversidade.

Verticillium dahliae também merece atenção. No estudo de Addrah et al. (2020), o organismo foi detectado como importante componente da micobiota associada às sementes de diferentes cultivares. A presença do fungo é relevante porque V. dahliae apresenta ampla gama de hospedeiros e pode sobreviver no solo, tornando seu manejo particularmente complexo. (PubMed Central (PMC))

Botrytis cinerea apresenta importância adicional porque existe atualmente método específico da ISTA para sua detecção em sementes de Helianthus annuus. A inclusão de um método específico para a associação patógeno-hospedeiro demonstra a importância desse organismo no contexto internacional de sanidade de sementes. (Seedtest)

Já Aspergillus e Penicillium estão fortemente relacionados às condições de armazenamento. Temperatura, umidade das sementes e duração do armazenamento podem favorecer a colonização por esses fungos. Além da deterioração física e fisiológica, algumas espécies de Aspergillus apresentam importância toxicológica devido à capacidade de produzir aflatoxinas.

2.4 Patogenicidade: presença não é sinônimo de doença

Um dos cuidados mais importantes em um estudo de patologia de sementes consiste em diferenciar presença, associação, patogenicidade e transmissão.

Um fungo isolado de uma semente pode estar presente como contaminante superficial, colonizador secundário ou agente patogênico. Para estabelecer sua importância causal, são necessários estudos adicionais.

Bhutta, Bhatti e Ahmad (1997), em estudo clássico de patogenicidade de fungos associados às sementes de girassol, avaliaram 20 fungos e demonstraram que 15 apresentaram patogenicidade em diferentes cultivares. Entre os organismos avaliados estavam Alternaria alternata, A. helianthi, A. zinniae, Fusarium oxysporum, F. solani, Macrophomina phaseolina, Phomopsis helianthi e Verticillium dahliae. O trabalho também demonstrou diferenças de agressividade entre espécies e de suscetibilidade entre cultivares. (Helia Journal)

Esse resultado é importante porque demonstra que a análise sanitária deve ser complementada pela avaliação funcional. A pergunta não deve terminar com o isolamento do fungo; deve avançar para sua capacidade de produzir doença ou interferir no estabelecimento da cultura.

2.5 Métodos tradicionais de diagnóstico

Os métodos tradicionais permanecem fundamentais na patologia de sementes.

O método do papel de filtro (blotter test) é particularmente útil para a detecção de fungos associados às sementes porque permite o desenvolvimento de estruturas reprodutivas sob condições controladas. A observação das estruturas ao microscópio estereoscópico e composto possibilita a identificação preliminar de diferentes grupos.

A utilização de assepsia superficial antes do plaqueamento permite diferenciar, em certa medida, organismos presentes externamente daqueles capazes de permanecer associados internamente. Entretanto, a eficiência desse procedimento depende do agente, da concentração e do tempo de exposição ao agente desinfestante.

O isolamento em meio de cultura, particularmente em BDA e meios seletivos ou semisseletivos, permite obter culturas puras. Essa etapa é indispensável quando se pretende realizar identificação molecular, testes de patogenicidade ou ensaios de sensibilidade a fungicidas.

Em estudo com sementes de girassol, Addrah et al. (2020) utilizaram cultivo das sementes em meio PDA após procedimentos de preparação das amostras e realizaram identificação morfológica das colônias. Posteriormente, os isolados foram submetidos à identificação molecular. (PubMed Central (PMC))

Essa abordagem permanece muito adequada para laboratórios de Fitopatologia porque mantém a possibilidade de recuperar o organismo e não apenas detectar seu DNA.

2.6 Identificação morfológica

A identificação morfológica exige domínio das características culturais e microscópicas dos fungos. Coloração, textura e velocidade de crescimento da colônia, formação de estruturas reprodutivas, morfologia dos conídios, presença de clamidósporos, conidióforos e estruturas especializadas são características relevantes.

No caso de Alternaria, por exemplo, a morfologia dos conídios pode fornecer importantes informações taxonômicas, embora a elevada variabilidade e a proximidade entre espécies possam limitar a resolução.

Em Fusarium, características morfológicas continuam importantes, mas a identificação em nível de espécie frequentemente requer ferramentas moleculares complementares.

O princípio mais importante é que a identificação deve ser realizada na resolução necessária para a pergunta científica. Se a informação necessária é simplesmente determinar a presença de fungos filamentosos, a identificação até gênero pode ser suficiente. Se o objetivo é determinar risco epidemiológico ou selecionar um tratamento específico, a identificação em nível de espécie ou complexo de espécies pode ser indispensável.

2.7 Identificação molecular

A identificação molecular ampliou significativamente a capacidade diagnóstica da patologia de sementes.

A região ITS é amplamente empregada para identificação de fungos, especialmente como marcador inicial. Entretanto, sua resolução não é uniforme para todos os grupos. Em complexos taxonômicos, genes adicionais podem ser necessários.

Para Fusarium, o gene TEF1-α apresenta grande utilidade taxonômica. Para outros grupos, genes como β-tubulina e calmodulina podem contribuir para aumentar a resolução.

A estratégia mais robusta, especialmente em um laboratório de diagnóstico, é utilizar uma abordagem integrada:

isolamento → caracterização morfológica → extração de DNA → PCR → sequenciamento → comparação com bancos de dados → confirmação taxonômica.

A identificação molecular não deve ser reduzida à obtenção de uma sequência e sua comparação automática com GenBank. A qualidade da identificação depende da qualidade da sequência, da cobertura e confiabilidade dos registros de referência e da congruência entre dados moleculares, morfológicos e epidemiológicos.

2.8 PCR e qPCR

A PCR convencional pode ser empregada para confirmar a identidade de um isolado ou detectar diretamente um patógeno em sementes.

A qPCR acrescenta a possibilidade de quantificação do DNA-alvo, o que pode ser particularmente útil quando se pretende comparar lotes ou acompanhar a dinâmica do patógeno.

Entretanto, uma questão precisa ser enfatizada: quantidade de DNA não é necessariamente equivalente a quantidade de inóculo viável.

Essa distinção é importante em patologia de sementes. DNA de células mortas pode permanecer detectável. Por isso, métodos moleculares quantitativos devem ser interpretados de acordo com a finalidade do diagnóstico e, quando necessário, associados a métodos de cultivo ou testes de viabilidade.

A revisão de Zhang et al. (2023) organiza as técnicas contemporâneas de diagnóstico de doenças de sementes em métodos tradicionais, imunológicos e métodos baseados em ferramentas moleculares e bioinformáticas, reforçando que diferentes perguntas exigem diferentes estratégias diagnósticas. (MDPI)

2.9 Qualidade fisiológica e sanidade

A análise de sanidade ganha significado quando relacionada ao desempenho fisiológico das sementes.

Germinação, primeira contagem, índice de velocidade de germinação, emergência, comprimento de plântulas e massa seca podem revelar consequências que não são necessariamente identificadas apenas pelo teste sanitário.

O trabalho de Madege e Nzogela (2025) demonstrou essa relação de maneira particularmente clara. Durante seis meses de armazenamento, sementes com menor incidência de fungos apresentaram, de modo geral, maior germinação e maior índice de vigor. Sementes conservadas pelos agricultores apresentaram maior incidência total de fungos e menores valores de germinação e vigor. (Frontiers)

Esses resultados reforçam a ideia de que a qualidade sanitária e a qualidade fisiológica devem ser analisadas conjuntamente.

2.10 Tratamento químico de sementes

O tratamento químico constitui uma ferramenta importante para reduzir o inóculo associado às sementes e proteger as plântulas durante os primeiros estádios de desenvolvimento.

Sua função pode ser dividida em dois objetivos fundamentais: reduzir ou eliminar organismos presentes na própria semente e proteger a semente e a plântula contra patógenos presentes no solo.

Essa distinção é importante porque um fungicida altamente eficiente contra determinado fungo associado à semente pode apresentar eficiência limitada contra um patógeno predominantemente presente no solo.

Além disso, a eficiência do tratamento depende da localização do patógeno, da dose, da formulação, da uniformidade da aplicação, da qualidade fisiológica do lote e das condições ambientais durante a germinação.

2.11 Evidências experimentais sobre fungicidas em sementes de girassol

A literatura experimental brasileira demonstra que o tratamento fungicida pode alterar tanto a qualidade sanitária quanto o desempenho fisiológico das sementes.

Grisi et al. avaliaram tratamentos com fludioxonil, carbendazim + thiram e carboxina + thiram, associados ou não a inseticidas, verificando efeitos sobre atributos fisiológicos e sanitários de sementes de girassol. (Portal de Periódicos UFU)

Em estudo posterior envolvendo armazenamento, foi observado que o tratamento com fludioxonil favoreceu a emergência e o índice de velocidade de emergência, enquanto carbendazim + thiram e carboxina + thiram reduziram a ocorrência de Aspergillus e Penicillium. O armazenamento, por sua vez, aumentou a incidência de alguns fungos e modificou características fisiológicas das sementes. (Portal de Periódicos UFU)

Esses resultados são relevantes porque demonstram que o tratamento fungicida não deve ser avaliado exclusivamente pela redução da incidência de fungos. O efeito sobre germinação, vigor, emergência e armazenamento também precisa ser considerado.

2.12 Evidências internacionais sobre tratamento fungicida

Addrah et al. (2020) avaliaram quatro fungicidas de amplo espectro contra fungos associados a sementes de girassol e verificaram respostas diferenciadas entre os produtos. O flusilazol apresentou menor EC50 contra o isolado de Verticillium dahliae avaliado e, em sementes provenientes de plantas doentes, o tratamento experimental reduziu a contaminação e aumentou a germinação. (MDPI)

É importante, contudo, distinguir eficácia experimental de registro regulatório. Um fungicida pode apresentar atividade in vitro ou eficiência em condições experimentais e, ainda assim, não estar registrado no Brasil para tratamento de sementes de girassol.

Essa distinção é fundamental para uma revisão acadêmica que pretenda discutir simultaneamente ciência e tecnologia agrícola.

2.13 Fungicidas registrados no Brasil: consulta ao AGROFIT

No Brasil, a indicação de produtos fitossanitários deve estar fundamentada no registro oficial e na bula vigente. O AGROFIT permite consultar produtos por marca comercial, ingrediente ativo, cultura e alvo biológico. (Serviços e Informações do Brasil)

Para girassol, consegui confirmar atualmente, em documentação técnica vigente, MAXIM XL, registro MAPA nº 09499, contendo metalaxil-M + fludioxonil, na formulação FS. A página atual do fabricante indica o produto como fungicida sistêmico e de contato e apresenta registro para girassol contra tombamento/podridão do colo causada por Rhizoctonia solani. (Syngenta)

A bula completa de janeiro de 2026 especifica, para girassol, 200 mL do produto comercial por 100 kg de sementes, com aplicação única como tratamento de sementes antes da semeadura. (Syngenta)

A composição de MAXIM XL é:

ProdutoIngredientes ativosConcentraçãoFormulaçãoCulturaAlvo confirmado
MAXIM XLmetalaxil-M + fludioxonil10 + 25 g L⁻¹FSGirassolRhizoctonia solani

A associação apresenta interesse fitopatológico porque combina um ingrediente ativo do grupo das fenilamidas/acilalaninatos, com ação sistêmica, e o fludioxonil, pertencente às fenilpirroles, de ação predominantemente de contato. A combinação amplia a proteção em relação ao uso de um único ingrediente ativo, embora sua indicação regulatória para girassol seja específica para R. solani. (Syngenta)

Outro produto que possui histórico de registro para tratamento de sementes de girassol é TECTO SC, à base de tiabendazol, fungicida sistêmico do grupo dos benzimidazóis. Entretanto, há uma questão importante para o texto científico: a página atual do fabricante, atualizada em maio de 2026, não apresenta girassol entre as culturas atualmente listadas em sua seção de registro. (Syngenta)

Isso ilustra exatamente por que não se deve utilizar uma lista histórica de produtos como se representasse o registro atual. Trabalhos brasileiros mais antigos documentam o uso de tiabendazol em girassol, mas a situação regulatória precisa ser conferida no AGROFIT no momento da recomendação.

Portanto, para uma dissertação ou artigo, a forma cientificamente mais segura é separar:

a) fungicidas demonstrados experimentalmente na literatura;

b) fungicidas historicamente registrados;

c) fungicidas atualmente registrados no AGROFIT para girassol e tratamento de sementes.

Essa distinção evita um erro bastante comum em trabalhos acadêmicos de Fitopatologia.

2.14 Metalaxil-M e o míldio do girassol

O tratamento de sementes possui particular importância no manejo do míldio do girassol, causado por Plasmopara halstedii. A Embrapa destaca o tratamento com metalaxil como estratégia para proteção contra infecções primárias e registra que, no Brasil, houve registro de formulação contendo fludioxonil + metalaxil-M para tratamento de sementes de girassol. (Infoteca Embrapa)

A doença apresenta importância particular porque P. halstedii é um oomiceto, e o manejo químico desse grupo apresenta especificidades que diferem dos fungos verdadeiros.

Além disso, o histórico internacional demonstra a capacidade de P. halstedii de desenvolver populações resistentes ao metalaxil, razão pela qual o tratamento químico não deve ser considerado medida isolada. Resistência genética, uso de sementes sadias e medidas de manejo integrado continuam sendo componentes fundamentais.

2.15 O tratamento químico como componente do manejo integrado

O tratamento de sementes não deve ser considerado uma solução isolada para todos os problemas fitopatológicos do girassol.

Seu papel é mais importante quando integrado a outras estratégias: utilização de sementes de elevada qualidade sanitária, cultivares resistentes, rotação de culturas, manejo de restos culturais, controle de plantas voluntárias e adequação da época de semeadura.

A própria literatura técnica da Embrapa enfatiza a importância do uso de sementes sadias e de estratégias integradas para o manejo das doenças do girassol. (Infoteca Embrapa)

Essa abordagem é particularmente importante para doenças causadas por patógenos que sobrevivem no solo ou em restos culturais. O tratamento de sementes pode proteger a emergência, mas não elimina necessariamente o inóculo existente no sistema.

2.16 Relação entre diagnóstico e escolha do fungicida

Uma abordagem tecnicamente madura deve estabelecer uma sequência lógica:

diagnóstico sanitário → identificação do agente → determinação da importância epidemiológica → seleção do mecanismo de ação → verificação do registro → tratamento → avaliação da eficácia.

Essa sequência é particularmente importante porque a presença de um fungo não significa necessariamente que exista indicação de tratamento químico.

Por exemplo, a identificação de Aspergillus em um lote armazenado pode indicar deterioração e necessidade de revisão das condições de armazenamento, mas não significa automaticamente que o tratamento químico da semente seja a estratégia principal.

Da mesma maneira, a identificação de Rhizoctonia solani em sementes de girassol possui significado diferente porque existe produto atualmente documentado para tratamento de sementes contra esse organismo. (Syngenta)

Esse raciocínio evita o que considero um dos erros mais comuns em patologia de sementes: escolher o produto antes de compreender o problema.

2.17 Integração entre diversidade, identificação e tratamento

A caracterização da diversidade microbiana pode fornecer uma visão muito mais ampla do estado sanitário do lote. A partir de uma matriz contendo frequência dos diferentes fungos, pode-se investigar a existência de grupos de lotes com perfis sanitários distintos.

A análise pode ser ampliada incorporando germinação, vigor, emergência, teor de água, origem, cultivar e condições de armazenamento.

Nesse cenário, ferramentas multivariadas como PCA, análise de agrupamento e PCoA podem revelar padrões de associação entre micobiota e qualidade fisiológica. A análise de redundância pode, por sua vez, auxiliar na determinação de quanto da variação da comunidade microbiana está associada a variáveis fisiológicas ou ambientais.

Essa abordagem é particularmente promissora para o girassol porque a literatura já demonstra que diferentes cultivares e condições de armazenamento podem apresentar comunidades fúngicas distintas e que essas diferenças podem estar relacionadas ao desempenho fisiológico das sementes. (PubMed Central (PMC))

2.18 Uma visão contemporânea da patologia de sementes de girassol

A patologia de sementes contemporânea encontra-se em uma transição importante. Durante décadas, o diagnóstico esteve concentrado principalmente na identificação de organismos associados às sementes. Atualmente, a preocupação é mais ampla: compreender a composição da comunidade microbiana, determinar sua função e estabelecer quais componentes possuem efetiva importância epidemiológica.

Nesse novo contexto, a semente não deve ser vista simplesmente como um objeto contaminado. Ela é uma estrutura biologicamente ativa, cuja qualidade resulta da interação entre genótipo, fisiologia, ambiente e microbiota.

Essa perspectiva é especialmente importante quando se avalia o efeito de fungicidas. Um tratamento químico pode reduzir a incidência de um patógeno, mas também modificar componentes da microbiota associados à semente. Portanto, a avaliação da eficácia deve considerar simultaneamente sanidade, germinação, vigor e, quando pertinente, alterações na comunidade microbiana.

3 CONCLUSÕES

A patologia de sementes de girassol constitui uma área de investigação que integra Fitopatologia, Microbiologia, Ciência e Tecnologia de Sementes, Epidemiologia e Diagnóstico Molecular. A semente pode atuar como veículo de disseminação e sobrevivência de patógenos, tornando sua qualidade sanitária um componente fundamental do estabelecimento da cultura.

A micobiota associada às sementes de girassol é diversificada e apresenta composição variável em função do genótipo, ambiente, condições de produção, colheita e armazenamento. Entre os grupos de maior importância encontram-se Alternaria, Fusarium, Verticillium, Botrytis, Rhizoctonia, Aspergillus e Penicillium, entre outros.

A presença de um fungo na semente não deve ser confundida com patogenicidade. A interpretação adequada exige considerar viabilidade, localização, quantidade de inóculo, capacidade de transmissão e potencial de causar doença. Estudos de patogenicidade demonstram que diferentes fungos associados às sementes podem apresentar agressividade distinta e que a resposta também pode variar entre cultivares.

O diagnóstico deve combinar métodos complementares. O papel de filtro, isolamento em meios de cultura, microscopia e caracterização morfológica permanecem fundamentais para a rotina laboratorial. PCR, qPCR e sequenciamento oferecem maior resolução e sensibilidade e são particularmente importantes para grupos taxonomicamente complexos.

A qualidade sanitária deve ser interpretada juntamente com a qualidade fisiológica. Germinação, vigor e emergência representam respostas funcionais que ajudam a estabelecer a relevância prática da presença dos fungos.

O tratamento químico de sementes permanece uma ferramenta importante, mas sua utilização deve ser consequência do diagnóstico. A eficácia depende da interação entre ingrediente ativo, patógeno, dose, formulação, qualidade da aplicação e condições ambientais.

No Brasil, o AGROFIT deve ser considerado a referência regulatória para a verificação dos produtos registrados. A consulta realizada para este trabalho confirma atualmente o MAXIM XL, à base de metalaxil-M + fludioxonil, para tratamento de sementes de girassol visando Rhizoctonia solani, com indicação de 200 mL do produto comercial por 100 kg de sementes na bula de janeiro de 2026. (Syngenta)

É fundamental, entretanto, não confundir eficácia experimental com registro regulatório. Produtos e ingredientes ativos podem apresentar atividade contra determinados fungos em laboratório ou em experimentos conduzidos sob condições controladas sem que exista autorização vigente para sua utilização na cultura e modalidade pretendidas.

A abordagem mais robusta para a patologia de sementes de girassol é, portanto, aquela que estabelece uma sequência lógica entre diversidade → identificação → importância epidemiológica → qualidade fisiológica → seleção do tratamento → verificação regulatória → avaliação da eficácia.

Essa perspectiva permite transformar o diagnóstico sanitário em uma ferramenta efetiva de tomada de decisão e cria condições para que a pesquisa avance da simples descrição da micobiota para a compreensão das relações entre comunidade microbiana, qualidade das sementes e estabelecimento da cultura.

4 BIBLIOGRAFIA

AGARWAL, V. K.; SINCLAIR, J. B. Principles of seed pathology. 2. ed. Boca Raton: CRC Press, 1996.

ADDRAH, M. E. et al. Fungicide treatments to control seed-borne fungi of sunflower seeds. Pathogens, Basel, v. 9, n. 1, 29, 2020. DOI: https://doi.org/10.3390/pathogens9010029. (MDPI)

BHUTTA, A. R.; BHATTI, M. H.; AHMAD, I. Study on pathogenicity of seed-borne fungi of sunflower in Pakistan. HELIA, v. 20, n. 27, p. 57-66, 1997. (Helia Journal)

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INTERNATIONAL SEED TESTING ASSOCIATION. ISTA Handbook on Seed Health Testing. Wallisellen: ISTA, 2025. (Seedtest)

LEITE, M. R. V. B. de C. Doenças do girassol. Londrina: EMBRAPA-CNPSo, 1997. 67 p. (EMBRAPA-CNPSo. Circular Técnica, 19). (Infoteca Embrapa)

MADEGE, R. M.; NZOGELA, Y. Incidence of seed-borne fungi of stored sunflower seeds (Helianthus annuus) in Tanzania and their influence on seed viability and vigor. Frontiers in Sustainable Food Systems, 2025. DOI: https://doi.org/10.3389/fsufs.2025.1534929. (DOI)

MENTEN, J. O. M. Diagnóstico da patologia de sementes de girassol no Brasil. [S.l.]: Associação Brasileira de Tecnologia de Sementes, [s.d.]. (Abrates)

MONICA, M. et al. Effect of seed borne fungi on seed quality of sunflower (Helianthus annuus). Seed Research, v. 40, n. 1, 2025. DOI: https://doi.org/10.56093/sr.v40i1.164523. (Revistas de Pesquisa Agrícola Indianas)

MUNKVOLD, G. P. Seed pathology progress in academia and industry. Annual Review of Phytopathology, v. 47, p. 285-311, 2009. DOI: https://doi.org/10.1146/annurev-phyto-080508-081916. (Annual Reviews)

MUNKVOLD, G.; DU TOIT, L.; DUNKLE, R. Seed pathology: challenges and advances in ensuring a safe global seed supply. Annual Review of Phytopathology, v. 63, p. 43-62, 2025. DOI: https://doi.org/10.1146/annurev-phyto-121423-093855. (Annual Reviews)

ZHANG, M. et al. Detection and identification methods and control techniques for crop seed diseases. Agriculture, v. 13, n. 9, 1786, 2023. DOI: https://doi.org/10.3390/agriculture13091786. (MDPI)

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GRISI, P. U. Qualidade fisiológica de sementes de girassol tratadas com inseticidas e fungicidas durante o armazenamento. Horizonte Científico, Uberlândia. (Portal de Periódicos UFU)

BRASIL. Ministério da Agricultura e Pecuária. AGROFIT: Sistema de Agrotóxicos Fitossanitários. Brasília, DF: MAPA, 2026. (Serviços e Informações do Brasil)

BRASIL. Ministério da Agricultura e Pecuária. Agrotóxicos registrados no AGROFIT. Brasília, DF: MAPA. (Serviços e Informações do Brasil)

SYNGENTA PROTEÇÃO DE CULTIVOS LTDA. MAXIM XL: bula completa. São Paulo: Syngenta, 2026. Registro MAPA nº 09499. (Syngenta)

SYNGENTA PROTEÇÃO DE CULTIVOS LTDA. TECTO SC: bula completa. São Paulo: Syngenta, 2025. Registro MAPA nº 08396. (Syngenta)

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR 10520:2023: informação e documentação: citações em documentos: apresentação. Rio de Janeiro: ABNT, 2023.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR 6023:2018: informação e documentação: referências: elaboração. Rio de Janeiro: ABNT, 2018. Emenda 1, 2025.


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