terça-feira, 21 de julho de 2026

Rotação de culturas como estratégia de manejo de nematoides fitoparasitas: fundamentos e aplicação prática

 



Introdução

O manejo de nematoides fitoparasitas em sistemas agrícolas brasileiros de produção de grãos constitui um dos maiores desafios fitossanitários enfrentados pela cadeia produtiva de soja, milho e algodão, sobretudo em razão da limitada disponibilidade de cultivares comerciais que reúnam, simultaneamente, resistência a múltiplas espécies de nematoides e características agronômicas desejáveis (LEANDRO; ASMUS, 2015). Diante dessa limitação, a rotação e a sucessão de culturas emergem como ferramentas centrais do manejo cultural desses patógenos, fundamentadas no princípio de que a alternância de espécies vegetais não hospedeiras ou más hospedeiras no sistema produtivo reduz progressivamente a densidade populacional do nematoide no solo, ao passo que o cultivo continuado de espécies suscetíveis mantém ou incrementa essa densidade ao longo do tempo (INOMOTO; ASMUS, 2009). O objetivo do presente texto é sistematizar, com base na literatura científica consolidada, o efeito diferencial de culturas de cobertura e de rotação sobre cinco dos principais gêneros de nematoides fitoparasitas de importância econômica no Brasil — Heterodera glycines, Meloidogyne javanica, Meloidogyne incognita, Rotylenchulus reniformis e Pratylenchus brachyurus —, evidenciando por que uma mesma cultura pode reduzir a população de um nematoide e, simultaneamente, favorecer a multiplicação de outro.

Desenvolvimento

Fundamentos do manejo cultural pela reação diferencial das culturas

O princípio biológico que sustenta a rotação de culturas como estratégia de manejo nematológico reside na especificidade parcial da relação hospedeiro-parasita: cada espécie ou gênero de nematoide fitoparasita apresenta capacidade de reprodução distinta conforme a espécie vegetal cultivada, de modo que uma mesma planta pode comportar-se como hospedeira eficiente para um nematoide e como não hospedeira, ou hospedeira pobre, para outro (INOMOTO; ASMUS, 2009). Em condições normais de cultivo, a presença de uma cultura suscetível permite que a densidade populacional do nematoide aumente ao longo do ciclo, havendo declínio parcial ao final da safra e durante a entressafra; entretanto, o plantio sequencial e continuado de culturas suscetíveis mantém a densidade populacional em trajetória ascendente, comprometendo cada vez mais a produtividade das culturas subsequentes (INOMOTO; ASMUS, 2009). É importante destacar, ainda, que plantas tolerantes podem não expressar sintomas visíveis de dano mesmo quando permitem ativamente a multiplicação do nematoide em suas raízes, circunstância que torna a caracterização experimental do status de hospedeira — e não apenas a observação de sintomas em campo — etapa indispensável para a correta indicação de culturas de rotação (INOMOTO; ASMUS, 2009).

Crotalárias como culturas supressoras de múltiplos gêneros de nematoides

Entre as espécies utilizadas como cultura de cobertura no manejo nematológico, as crotalárias (Crotalaria spp.) destacam-se por comportarem-se como más hospedeiras ou não hospedeiras para uma ampla gama de nematoides fitoparasitas de importância econômica, incluindo espécies do gênero Meloidogyne, Rotylenchulus reniformis e Heterodera glycines, ao mesmo tempo em que apresentam vantagens agronômicas adicionais como fixação biológica de nitrogênio, produção de biomassa para cobertura do solo e competitividade frente a plantas daninhas sem comportamento invasivo (WANG; SIPES; SCHMITT, 2002). Ensaios específicos demonstraram que Crotalaria juncea suprime de maneira consistente populações de Rotylenchulus reniformis, resultado atribuído tanto à sua condição de não hospedeira quanto à liberação de compostos com atividade nematicida durante a decomposição de sua biomassa incorporada ao solo (WANG; SIPES; SCHMITT, 2001). Deve-se ressaltar, contudo, que essa condição vantajosa das crotalárias não se estende de maneira uniforme a todos os gêneros de nematoides, uma vez que a maioria das espécies do gênero é suscetível a Pratylenchus spp., razão pela qual a espécie Crotalaria juncea figura, no conjunto de culturas avaliadas para manejo de Pratylenchus brachyurus, entre aquelas de reação variável ou mesmo favorável à multiplicação do nematoide, a depender da espécie de crotalária considerada (WANG; SIPES; SCHMITT, 2002).

Gramíneas forrageiras e a divergência de reação entre nematoides de galhas e nematoide das lesões

As poáceas forrageiras utilizadas em sistemas de integração lavoura-pecuária no Brasil, notadamente as braquiárias (Brachiaria spp., sin. Urochloa spp.) e o capim-colonião (Panicum maximum), constituem exemplo particularmente ilustrativo da necessidade de avaliação específica por gênero de nematoide antes da recomendação de uma cultura de cobertura, pois, embora sejam reconhecidamente não hospedeiras ou más hospedeiras dos nematoides das galhas Meloidogyne incognita e Meloidogyne javanica, o comportamento dessas mesmas gramíneas frente ao nematoide das lesões radiculares Pratylenchus brachyurus revelou-se distinto (INOMOTO; MACHADO; ANTEDOMÊNICO, 2007). Ensaios conduzidos em casa de vegetação demonstraram que todas as espécies e o híbrido de braquiária avaliados, à exceção de Brachiaria dictyoneura, comportaram-se como bons hospedeiros de Pratylenchus brachyurus, apresentando fatores de reprodução expressivamente superiores a um, o que contraindica seu uso como cultura de cobertura em áreas com histórico de infestação por esse nematoide especificamente, ainda que sejam adequadas para áreas problemáticas quanto aos nematoides das galhas (INOMOTO; MACHADO; ANTEDOMÊNICO, 2007). Esse resultado exemplifica de maneira direta por que uma mesma cultura forrageira pode ocupar, em uma matriz de recomendação de rotação, posições opostas conforme o gênero de nematoide considerado.

Rotação de culturas para manejo específico do nematoide reniforme

Para o manejo do nematoide reniforme, Rotylenchulus reniformis, cuja importância na cultura da soja tem crescido de maneira expressiva nas regiões produtoras do Centro-Sul de Mato Grosso do Sul e Sul de Mato Grosso, estudos de campo conduzidos em solo naturalmente infestado demonstraram que a rotação de verão com milho ou com Crotalaria ochroleuca, em substituição ao monocultivo contínuo de soja, promoveu redução consistente da densidade populacional do nematoide no solo, com reflexos positivos mensuráveis sobre a produtividade da soja cultivada na safra subsequente (LEANDRO; ASMUS, 2015). Por outro lado, o mesmo estudo verificou que o manejo de entressafra com Brachiaria ruziziensis como cultura de cobertura não exerceu efeito significativo sobre a população do nematoide reniforme em comparação ao pousio, evidenciando que, para essa espécie de nematoide específica, o efeito supressor concentra-se nas culturas de verão empregadas em rotação, e não necessariamente na cobertura de entressafra (LEANDRO; ASMUS, 2015).

Implicações práticas da variabilidade de reação entre culturas e nematoides

O conjunto de evidências reunidas evidencia que a escolha de culturas de rotação e de cobertura para manejo nematológico não pode ser feita de maneira genérica, tomando por base apenas o efeito de uma cultura sobre um único gênero de nematoide, sendo indispensável o diagnóstico prévio da comunidade de fitonematoides presente na área e a consulta a tabelas de reação diferencial construídas a partir de ensaios controlados de hospedabilidade (INOMOTO; ASMUS, 2009). Culturas como as crotalárias, amplamente reconhecidas por sua eficácia supressora sobre nematoides das galhas, cisto e reniforme, podem comportar-se de maneira variável ou mesmo desfavorável frente ao nematoide das lesões radiculares, ao passo que gramíneas forrageiras eficazes contra os nematoides das galhas revelam-se, em sua maioria, bons hospedeiros de Pratylenchus brachyurus, tornando a rotação de culturas uma decisão que exige equilíbrio entre os diferentes gêneros de nematoides presentes em cada área específica de produção (WANG; SIPES; SCHMITT, 2002; INOMOTO; MACHADO; ANTEDOMÊNICO, 2007).

Conclusão

A rotação e a sucessão de culturas configuram-se como estratégia central e cientificamente fundamentada do manejo integrado de nematoides fitoparasitas em sistemas de produção agrícola no Brasil, sustentada pelo princípio de que a especificidade da relação hospedeiro-parasita determina reações distintas de uma mesma espécie vegetal frente a diferentes gêneros de nematoides (INOMOTO; ASMUS, 2009). As crotalárias destacam-se como culturas de cobertura eficazes na supressão de Meloidogyne spp., Heterodera glycines e Rotylenchulus reniformis, ainda que apresentem suscetibilidade variável a Pratylenchus spp., ao passo que gramíneas forrageiras amplamente empregadas em sistemas de integração lavoura-pecuária mostram-se eficazes contra nematoides das galhas, mas comportam-se predominantemente como boas hospedeiras do nematoide das lesões radiculares (WANG; SIPES; SCHMITT, 2002; INOMOTO; MACHADO; ANTEDOMÊNICO, 2007). Tal complexidade reforça a necessidade de que decisões de rotação de culturas sejam sempre precedidas de diagnose nematológica precisa da área a ser manejada, de modo que a escolha da sequência de cultivo leve em consideração o espectro completo de gêneros de nematoides presentes, e não apenas o principal problema fitossanitário momentaneamente identificado (LEANDRO; ASMUS, 2015).

Referências Bibliográficas

INOMOTO, Mário M.; ASMUS, Guilherme L. Culturas de cobertura e de rotação devem ser plantas não hospedeiras de nematoides. Visão Agrícola, n. 9, p. 112-114, 2009.

INOMOTO, Mário M.; MACHADO, Andressa C. Z.; ANTEDOMÊNICO, Sonia R. Reação de Brachiaria spp. e Panicum maximum a Pratylenchus brachyurus. Fitopatologia Brasileira, v. 32, n. 4, p. 341-344, 2007.

LEANDRO, Hugo Márcio; ASMUS, Guilherme Lafourcade. Rotação e sucessão de culturas para o manejo do nematoide reniforme em área de produção de soja. Ciência Rural, v. 45, n. 6, p. 945-950, 2015. DOI: 10.1590/0103-8478cr20130526.

WANG, Koon-Hui; SIPES, B. S.; SCHMITT, D. P. Crotalaria as a cover crop for nematode management: a review. Nematropica, v. 32, n. 1, p. 35-57, 2002.

WANG, Koon-Hui; SIPES, B. S.; SCHMITT, D. P. Suppression of Rotylenchulus reniformis by Crotalaria juncea, Brassica napus, and Tagetes erecta. Nematropica, v. 31, n. 2, p. 235-249, 2001.

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