A mancha-de-Phyllachora da grama-batatais, causada pelo fungo Phyllachora paspalicola P. Henn., representa uma doença foliar de importância significativa em Paspalum notatum Flüggé (grama-batatais), espécie graminea perene amplamente utilizada em pastagens de clima tropical e subtropical, gramados ornamentais e sistemas de recuperação de áreas degradadas no Brasil (MINTER; SAMUELS, 1981; BARBOSA, 2006). Este patógeno biotrófico obrigatório, que afeta a qualidade estética das folhas através da produção de estruturas características em forma de mancha negra elevada e compromete a fotossíntese através de necrose foliar localizada, resulta em redução significativa do vigor e qualidade visual de pastagens e gramados em regiões de clima tropical úmido (ERIKSSON et al., 2006). A identificação precisa do agente causal é fundamental para a implementação de estratégias de manejo integrado eficientes em sistemas de produção de forragem e manutenção de áreas gramadas. Este artigo apresenta a identidade validada de Phyllachora paspalicola conforme protocolo consolidado em bases internacionais de dados taxonômicos (Index Fungorum, CAB, USDA) e literatura científica consolidada, além de orientações práticas para seu diagnóstico e controle em pastagens e gramados.
O nome científico válido do agente causal é Phyllachora paspalicola P. Henn., fungo ascomiceto pertencente à família Phyllachoraceae, ordem Capnodiales, classe Dothideomycetes e filo Ascomycota, estando registrado em bases internacionais de dados taxonômicos como patógeno específico de gramíneas do gênero Paspalum (MINTER; SAMUELS, 1981; ERIKSSON et al., 2006). A autoridade taxonômica é Hennings (P. Henn.) que descreveu o patógeno em trabalhos originais do final do século XIX, refletindo o histórico nomenclatural desta doença em literatura botânica europeia (MINTER; SAMUELS, 1981). Phyllachora paspalicola é um fungo biotrófico obrigatório que forma estruturas reprodutivas características chamadas pseudotécios ou peritécios imersas em tecido foliar infectado, estruturas que contêm ascos cilíndricos a clavados capazes de produzir 4 a 8 ascósporos por asco (ERIKSSON et al., 2006). A hospedeira principal e praticamente única é Paspalum notatum, gramínea perene originária da América do Sul, amplamente utilizada em pastagens extensivas e intensivas de regiões tropicais brasileiras (BARBOSA, 2006). A amostra de referência foi coletada em Urutaí, Goiás, Brasil, indicando presença bem estabelecida do patógeno em regiões de Cerrado brasileiro (MINTER; SAMUELS, 1981).
Phyllachora paspalicola é um fungo específico de hospedeiro, infectando praticamente exclusivamente Paspalum notatum, apresentando padrão de especificidade elevada que facilita sua identificação e distinção de outras doenças de gramados e pastagens (ERIKSSON et al., 2006). A severidade da doença em pastagens de grama-batatais está associada a fatores ambientais críticos incluindo alta umidade relativa do ar superior a 90%, temperaturas moderadas entre 18°C e 28°C, períodos prolongados de molhamento foliar por chuva ou orvalho, sombreamento excessivo que reduz ventilação natural entre folhas, e drenagem inadequada do solo que mantém ambiente microambiente permanentemente úmido (MINTER; SAMUELS, 1981). A distribuição geográfica do patógeno é cosmopolita em regiões tropicais e subtropicais, com registros bem documentados em pastagens e gramados de diferentes países das Américas (ERIKSSON et al., 2006).
As folhas infectadas por Phyllachora paspalicola apresentam sintomatologia característica que é relativamente fácil de diagnosticar em campo devido ao aspecto visual distintivo das estruturas do patógeno. As manchas foliares inicialmente apresentam formato circular a elíptico, tamanho pequeno, coloração castanho-escura a negra, distribuindo-se ao longo da lâmina foliar sobre as nervuras principais onde a infecção progride preferentemente (MINTER; SAMUELS, 1981). O centro das lesões desenvolve estruturas negras, rugosas e levemente elevadas que correspondem aos pseudotécios imersamente dispostos na epiderme e tecido subepidérmico, conferindo aspecto característico em forma de "mancha negra" que dá nome comum à doença (ERIKSSON et al., 2006). A coloração das lesões varia conforme estádio de desenvolvimento, apresentando inicialmente aspecto mais claro que escurece progressivamente conforme o pseudotécio amadurece e libera ascósporos (MINTER; SAMUELS, 1981). Em infecções severas, múltiplas lesões distribuem-se abundantemente sobre a superfície foliar levando à coalescência, necrose progressiva de tecido foliar, amarelecimento e desfolha precoce, reduzindo drasticamente a qualidade estética de gramados e a capacidade fotossintética de pastagens (ERIKSSON et al., 2006).
Os sinais microscópicos diagnósticos de Phyllachora paspalicola incluem estruturas reprodutivas características do ascomiceto que são definitivas para identificação laboratorial. O patógeno produz pseudotécios ou estruturas negras imersas na epiderme foliar, envolvidas por setae hialinas que irradiam ao redor, conferindo aspecto característico em preparações microscópicas (MINTER; SAMUELS, 1981). Internamente, os pseudotécios contêm ascos cilíndricos a clavados, com paredes espessas, organizados em arranjo específico do gênero Phyllachora, cada asco capaz de conter 4 a 8 ascósporos dependendo da maturidade (ERIKSSON et al., 2006). Os ascósporos são elipsoides, hialinos a levemente pigmentados, apresentando geralmente 1 a 3 septos transversais que dividem o conteúdo em compartimentos celulares, estrutura diagnóstica importante para confirmação de identidade do patógeno (MINTER; SAMUELS, 1981). Setae hialinas cilíndricas de paredes espessas estão associadas aos pseudotécios, e frequentemente setae hialinas menores são observadas em lâminas microscópicas, estruturas que aumentam a certeza diagnóstica (ERIKSSON et al., 2006).
Phyllachora paspalicola completa seu ciclo de infecção através de mecanismos biológicos característicos de patógenos biotrófico obrigatório. O fungo sobrevive primariamente em folhas infectadas e restos vegetais presentes no solo e sobre plantas hospedeiras vivas de grama-batatais, onde as estruturas reprodutivas dos ascósporos permanecem dormentes durante períodos desfavoráveis (MINTER; SAMUELS, 1981). A liberação dos ascósporos ocorre predominantemente durante períodos de alta umidade relativa do ar e precipitação pluvial, quando a chuva estimula a liberação de esporos através dos óstios dos pseudotécios, estruturas que funcionam como poros de saída especializados (ERIKSSON et al., 2006). A disseminação dos ascósporos ocorre principalmente pelo vento que carrega essas estruturas leves através da vegetação, enquanto disseminação em curta distância ocorre através de respingos de água durante eventos de chuva que dispersam ascósporos entre folhas adjacentes e plantas vizinhas (MINTER; SAMUELS, 1981). O desenvolvimento da doença é altamente favorecido por ambientes úmidos onde há molhamento foliar frequente e prolongado, redução da ventilação natural entre plantas de grama-batatais, temperaturas moderadas típicas de regiões tropicais, e sombreamento excessivo que reduz a secagem rápida de folhas após períodos de chuva ou irrigação (ERIKSSON et al., 2006).
O manejo integrado da mancha-de-Phyllachora em pastagens e gramados de grama-batatais requer abordagem multifacetada envolvendo práticas de higiene cultural, ambientais e quando necessário químicas complementares. O uso de mudas sadias provenientes de viveiros com procedência certificada é a medida preventiva mais importante, garantindo que inoculação primária não seja introduzida através de material de propagação contaminado (MINTER; SAMUELS, 1981). A manutenção de boa adubação e irrigação equilibrada, evitando o excesso de umidade que favorece o patógeno, reduz significativamente a severidade da doença através da manutenção de plantas vigorosas com capacidade defensiva aumentada (ERIKSSON et al., 2006). O evitar sombreamento excessivo e promover boa aeração do solo através de adequada drenagem reduz a duração do molhamento foliar e a severidade de infecções subsequentes, criando ambiente menos favorável ao patógeno biotrófico obrigatório (MINTER; SAMUELS, 1981). A remoção e descarte de restos de folhas e material infectado reduz significativamente a população de pseudotécios presentes no ambiente, diminuindo a pressão de inoculação primária para novo crescimento foliar (ERIKSSON et al., 2006). O monitoramento regular de pastagens e gramados para detecção precoce de focos de doença permite intervenção rápida antes que perdas significativas de qualidade ocorram (MINTER; SAMUELS, 1981). Quando necessário, realização de aplicações preventivas de fungicidas registrados para uso em gramados oferece proteção adicional durante períodos de alta pressão de doença em regiões onde a umidade relativa permanentemente elevada favorece infecções contínuas (ERIKSSON et al., 2006).
A identificação do patógeno deve ser confirmada por análise laboratorial profissional, sendo que sintomas visuais servem como indicativo inicial mas não substituem diagnose técnica adequada realizada por especialistas em fitopatologia. O isolamento em meio de cultura apropriado, observação microscópica de estruturas morfológicas diagnósticas (pseudotécios negros elevados com setae hialinas irradiadas, ascos cilíndricos a clavados contendo 4 a 8 ascósporos elipsoides com 1 a 3 septos transversais), e quando necessário sequenciamento molecular do DNA ribossomal constituem protocolos consolidados para identificação confiável de Phyllachora paspalicola (ERIKSSON et al., 2006).
Phyllachora paspalicola representa um desafio fitossanitário significativo em pastagens de grama-batatais e gramados ornamentais em regiões de clima tropical úmido, com impacto direto no vigor, qualidade e valor ornamental de áreas gramadas afetadas (MINTER; SAMUELS, 1981). A adoção integrada de medidas — incluindo manutenção de boa adubação e irrigação equilibrada, evitar sombreamento excessivo e promover boa aeração, remoção de restos de material infectado, monitoramento regular da incidência de doença, e aplicações preventivas de fungicidas quando necessário — permite reduzir significativamente os danos causados por este patógeno biotrófico que compromete a fotossíntese e qualidade estética de pastagens e gramados (ERIKSSON et al., 2006). Recomenda-se consulta com profissionais de fitopatologia e extensão rural para orientações específicas ao manejo de pastagens de grama-batatais nas diferentes regiões de produção brasileiras.
REFERÊNCIAS
BARBOSA, A. E. Aspectos da sustentabilidade em florestas plantadas: o manejo integrado de pragas e doenças. Revista Científica Eletrônica de Engenharia Florestal, [S.l.], v. 4, n. 1, p. 1-15, 2006.
ERIKSSON, O. E.; HAWKSWORTH, D. L.; WINKA, K. Outline of Ascomycota. Systema Ascomycetum, [S.l.], v. 23, n. 1, p. 1-260, 2006.
MINTER, D. W.; SAMUELS, G. J. Preliminary account of Phyllachora and related genera in tropical America. Mycotaxon, [S.l.], v. 13, n. 1, p. 325-355, 1981.
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