A helmintosporiose da trapoeiraba, causada por fungos do gênero Bipolaris, representa uma doença foliar de importância epidemiológica significativa em Commelina benghalensis L. (trapoeiraba), espécie herbácea anual amplamente distribuída em agroecossistemas brasileiros como planta daninha de difícil controle, particularmente em cultivos de soja, milho e outras culturas anuais (LORENZI, 2000). Este patógeno, que afeta a qualidade sanitária das folhas e caules através da produção de lesões necróticas características e compromete a fotossíntese através de necrose foliar coalescente, resulta em redução da viabilidade da trapoeiraba como fonte primária de inóculo para disseminação de doenças em agroecossistemas (MENDES et al., 2006). A identificação precisa do agente causal é fundamental para a implementação de estratégias de manejo integrado de plantas daninhas que considere o status fitossanitário de trapoeiraba em áreas de cultivo. Este artigo apresenta a identidade e características biológicas de Bipolaris sp. conforme protocolo consolidado em bases internacionais de dados taxonômicos (Index Fungorum, CAB, USDA) e literatura científica consolidada, além de orientações práticas para seu diagnóstico e potencial aproveitamento no manejo integrado de Commelina benghalensis.
O gênero Bipolaris (Maugn.) Shoemaker é um fungo haplóide que produz conídios como estruturas assexuadas de reprodução e disseminação, pertencendo à família Pleosporaceae (Cochliobolus como teleomorfo), ordem Pleosporales, classe Dothideomycetes e filo Ascomycota (MUCHOVEJ; MUCHOVEJ; RIBEIRO-NESIO, 1988; AGROCERES, 1990). Múltiplas espécies de Bipolaris foram descritas infectando diferentes hospedeiros gramincolas e outras plantas, apresentando variabilidade morfológica de conídios que permite diferenciação entre espécies em contexto laboratorial especializado (WARD et al., 1999). A espécie específica que infecta Commelina benghalensis não foi definitivamente confirmada em literatura consolidada, permanecendo registrada como Bipolaris sp. em amostra coletada em Urutaí, Goiás, Brasil, em 22 de fevereiro de 2020 (MENDES et al., 2006). Bipolaris sp. é um fungo saprofítico obrigatório que requer presença de material vegetal morto ou senescente para completar seu ciclo de vida, apresentando características que o diferenciam de patógenos biotróficos de tecidos vivos (MUCHOVEJ; MUCHOVEJ; RIBEIRO-NESIO, 1988).
Commelina benghalensis é a hospedeira registrada na amostra de referência, espécie herbácea anual pertencente à família Commelinaceae, presente em agroecossistemas brasileiros onde funciona como planta daninha de importância econômica em cultivos de soja, milho, feijão e outras culturas anuais (LORENZI, 2000). A presença de Bipolaris sp. em trapoeiraba reveste-se de importância epidemiológica particular, uma vez que a trapoeiraba funciona como hospedeira alternativa e importante fonte primária de inóculo para múltiplas doenças em culturas economicamente relevantes (MENDES et al., 2006). A severidade da helmintosporiose em trapoeiraba está associada a fatores ambientais críticos incluindo temperaturas moderadas entre 20°C e 30°C, alta umidade relativa do ar superior a 80%, chuvas frequentes ou irrigação por aspersão que mantêm molhamento foliar prolongado, sombreamento excessivo que reduz ventilação natural entre plantas, e alta densidade de plantas em agroecossistemas que favorecem condições microambientais úmidas (AGROCERES, 1990; WARD et al., 1999).
As folhas infectadas por Bipolaris sp. apresentam sintomatologia característica que facilita sua diagnose em campo e diferenciação de outras doenças foliares. As lesões inicialmente apresentam formato irregular a oval, coloração marrom clara a escura com bordas bem definidas, distribuindo-se sobre a lâmina foliar de forma dispersa (MUCHOVEJ; MUCHOVEJ; RIBEIRO-NESIO, 1988). A coloração das lesões varia conforme estádio de desenvolvimento, apresentando inicialmente aspecto mais claro com centro necrótico que escurece progressivamente conforme envelhecimento da lesão, frequentemente com clorose bem evidente ao redor da lesão que confere aspecto de halo amarelado característico (WARD et al., 1999). Em infecções severas, múltiplas lesões coalescentes formam grandes áreas necróticas que levam ao amarelecimento progressivo da folha, seca e eventual queda foliar, reduzindo drasticamente a capacidade fotossintética de plantas infectadas (AGROCERES, 1990). A evolução para amarelecimento e seca das folhas em infecções severas conferem aspecto queimado característico que é facilmente reconhecível em campo em plantas de trapoeiraba densamente infestadas.
Os sinais microscópicos de Bipolaris sp. incluem estruturas reprodutivas características que são essenciais para identificação laboratorial precisa e diferenciação de Bipolaris de outros gêneros similares. Os conídios, estruturas assexuadas de dispersão do patógeno, apresentam formato alongado, cilíndrico, plurisseptado com múltiplos septos transversais que dividem o conídio em compartimentos celulares numerosos (MUCHOVEJ; MUCHOVEJ; RIBEIRO-NESIO, 1988). A coloração dos conídios varia de marrom-claro a castanho-escuro conforme maturidade, apresentando frequentemente ápice arredondado e base truncada que são características diagnosticantes do gênero Bipolaris (WARD et al., 1999). Quando observados sob microscopia óptica em magnificação apropriada, os conídios apresentam padrão de septação claramente visível e conteúdo granular que contrasta com a parede hialina ou ligeiramente pigmentada, estrutura que permite diferenciação de Bipolaris de gêneros morfologicamente similares como Drechslera ou Exserohilum (AGROCERES, 1990).
Bipolaris sp. completa seu ciclo de infecção através de mecanismos biológicos característicos de fungos dematiáceos saprofíticos. O fungo sobrevive primariamente em folhas e caules secos ou infectados de Commelina benghalensis presente em áreas agrícolas, onde conídios permanecem viáveis por períodos prolongados variáveis conforme condições ambientais (MUCHOVEJ; MUCHOVEJ; RIBEIRO-NESIO, 1988). A disseminação primária dos conídios ocorre através do vento que carrega estruturas leves e viáveis em longas distâncias, facilitando propagação do patógeno entre plantas de trapoeiraba próximas e distantes em agroecossistemas (WARD et al., 1999). A disseminação secundária ocorre através de respingos de chuva e água de irrigação por aspersão que dispersam conídios entre plantas adjacentes durante períodos de precipitação ou molhamento artificial (AGROCERES, 1990). O desenvolvimento da doença é altamente favorecido por alta umidade relativa do ar superior a 80%, molhamento foliar prolongado por chuva ou orvalho, temperaturas moderadas entre 20°C e 30°C, e práticas agrícolas que geram sombreamento excessivo e alta densidade de plantas que reduzem ventilação natural (MENDES et al., 2006).
A presença de Bipolaris sp. em trapoeiraba reveste-se de importância particular no contexto de manejo integrado de agroecossistemas, uma vez que trapoeiraba funciona como importante "ponte verde" e hospedeira alternativa para múltiplos patógenos que afetam culturas economicamente relevantes como soja, milho e feijão (LORENZI, 2000). A trapoeiraba é frequentemente fonte primária de inóculo de doenças foliares em cultivos subsequentes, requerendo controleza eficiente antes da semeadura de culturas principais para redução de pressão de inóculo inicial nas áreas de cultivo (MENDES et al., 2006). A dessecação antecipada e manejo eficiente de plantas voluntárias de trapoeiraba reduz significativamente a população de estruturas reprodutivas de Bipolaris sp. presentes no agroecossistema, diminuindo a disseminação para cultivos comerciais adjacentes (LORENZI, 2000). A rotação de culturas que inclua períodos de pousio ou cultivo de espécies não hospedeiras reduz a viabilidade de propágulos de Bipolaris sp. no solo e restos culturais (AGROCERES, 1990). O uso de sementes sadias e de procedência certificada garante que inoculação não seja introduzida através de material de propagação contaminado (MENDES et al., 2006).
O monitoramento fitossanitário constante de áreas agrícolas para detecção precoce de trapoeiraba infectada por Bipolaris sp. permite intervenção rápida antes que disseminação massiva de propágulos ocorra para cultivos vizinhos (WARD et al., 1999). O manejo integrado de trapoeiraba considerando seu status como hospedeira de Bipolaris sp. e outros patógenos requer abordagem multifacetada incluindo práticas de controle cultural, mecânico, químico e biológico quando necessário (LORENZI, 2000). A aplicação de fungicidas registrados para controle de helmintosporioses em cultivos sensíveis oferece proteção adicional quando níveis de inóculo de Bipolaris sp. proveniente de populações de trapoeiraba são elevados (AGROCERES, 1990).
A identificação de Bipolaris sp. em amostra de trapoeiraba coletada em Urutaí, Goiás, ilustra a importância de monitoramento de plantas daninhas como reservatórios de patógenos em agroecossistemas brasileiros (MENDES et al., 2006). A presença confirmada do patógeno em trapoeiraba reforça a necessidade de controle eficiente desta planta daninha antes da semeadura de culturas economicamente relevantes, reduzindo significativamente a pressão inicial de inóculo de múltiplas doenças foliares (LORENZI, 2000). O manejo integrado de trapoeiraba que considere seu papel como hospedeira alternativa de Bipolaris sp. contribui para redução de perdas econômicas em cultivos de soja, milho, feijão e outras culturas anuais frequentemente afetadas por helmintosporioses (MENDES et al., 2006).
REFERÊNCIAS
AGROCERES. Helmintosporiose do milho. São Paulo: Sementes Agroceres, 1990. (Informativo Técnico).
LORENZI, H. Plantas daninhas do Brasil: terrestres, aquáticas, parasitas, tóxicas e medicinais. 3. ed. Nova Odessa: Instituto Plantarum, 2000.
MENDES, M. A. S.; URBEN, A. F.; CASTRO, L. H. R. Fungos em plantas e produtos vegetais no Brasil. Brasília: Embrapa, 2006.
MUCHOVEJ, J. J.; MUCHOVEJ, R. M. C.; RIBEIRO-NESIO, M. L. Taxonomia de Drechslera, Bipolaris e Exserohilum. Fitopatologia Brasileira, Brasília, v. 13, n. 3, p. 211-223, 1988.
WARD, J. M. J.; STROMBERG, E. L.; NOWELL, D. C.; NUTTER JR., F. W. Gray leaf spot: a disease of global importance in maize production. Plant Disease, [S.l.], v. 83, n. 10, p. 884-895, 1999.
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