A podridão de carvão, causada pelo fungo Macrophomina phaseolina (Tassi) Goid., representa um dos maiores desafios fitossanitários da soja (Glycine max L. Merrill) nos últimos anos, especialmente nas regiões tropicais e subtropicais onde ocorrem condições de estresse hídrico associado a temperaturas elevadas (ALMEIDA et al., 1998; EMBRAPA, 2014). Este patógeno, transmitido principalmente por sementes infectadas e restos culturais, afeta a qualidade sanitária das sementes e compromete o estabelecimento do estande inicial de plantas, resultando em perdas significativas de produtividade (KHAMBHATI et al., 2020). A identificação precisa do agente causal é fundamental para a implementação de estratégias de manejo integrado eficientes. Este artigo apresenta a identidade validada de Macrophomina phaseolina conforme protocolo consolidado em bases internacionais de dados taxonômicos (Index Fungorum, CAB, USDA) e literatura científica consolidada, além de orientações práticas para seu diagnóstico e controle.
O nome científico válido atual do agente causal é Macrophomina phaseolina (Tassi) Goid., com autoridade taxonômica de Goidánchez (1947) e basiônimo Macrophoma phaseolina Tassi (1901) (KHAMBHATI et al., 2020). O patógeno pertence à família Botryosphaeriaceae, ordem Botryosphaeriales, classe Dothideomycetes e filo Ascomycota, estando registrado no Index Fungorum com número IF 300023 e confirmado em múltiplas bases internacionais, incluindo CAB (CABI), USDA Fungus-Host Database e Cenargen/Embrapa como patógeno certificado USDA-APHIS-FAVN para soja. A amostra de referência foi coletada em Uberlândia, Minas Gerais, Brasil, em 28 de outubro de 2018. Diversas sinonímias históricas e obsoletas estão associadas a este patógeno, incluindo Macrophoma phaseoli Maubl. (1905), Macrophomina phaseoli (Maubl.) S.F. Ashby (1927), Rhizoctonia bataticola (Taubenh.) E.J. Butler (1925) e Sclerotium bataticola Taubenh. (1913), cujo uso deve ser evitado em contexto científico contemporâneo.
Macrophomina phaseolina é um fungo polifago capaz de infectar mais de 500 espécies vegetais em mais de 100 famílias botânicas, representando uma ameaça significativa à segurança alimentar global (KHAMBHATI et al., 2020). Na soja especificamente, o patógeno foi documentado pela primeira vez no Brasil em 1976, nos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, apresentando expansão rápida para todas as regiões produtoras brasileiras nos anos subsequentes (ALMEIDA et al., 1998). A severidade da doença em soja está intimamente associada a dois fatores ambientais críticos: deficit hídrico e temperaturas elevadas, com incidência e severidade máximas em solos com temperaturas entre 28°C e 35°C, frequentemente sob condições de veranico durante o enchimento de grãos (EMBRAPA, 2014). Estudos recentes indicam redução significativa de produtividade em algumas cultivares sob condições altamente favoráveis à doença, afetando diretamente a viabilidade econômica de lavouras comerciais, uma vez que o patógeno permanece viável no solo por longos períodos através de microescleródios (SINCLAIR; BACKMAN, 1989).
As sementes infectadas por Macrophomina phaseolina apresentam características peculiares que dificultam sua detecção visual, uma vez que a infecção ocorre integralmente dentro do tegumento da semente, sendo frequente que sementes contaminadas não apresentem sintomas visíveis ao exame externo (KHAMBHATI et al., 2020). Internamente, o micélio e os microescleródios do fungo colonizam o tegumento, resultando em redução da qualidade fisiológica, germinação e vigor das sementes afetadas (ALMEIDA et al., 2020). Os sinais diagnosticantes microscópicos de Macrophomina phaseolina incluem microescleródios, que são estruturas de resistência de coloração preta e pequenas dimensões (50–300 μm de diâmetro), conferindo aparência característica de "pontinhos pretos" quando observadas sob microscopia óptica (KHAMBHATI et al., 2020). Picnídios também estão presentes como estruturas reprodutivas globosas e escuras, imersas no tecido, contendo conídios hialinos que são liberados através de um ostíolo apical, estrutura diagnóstica crucial para confirmação do patógeno em análises laboratoriais especializadas (SINCLAIR; BACKMAN, 1989).
Macrophomina phaseolina completa seu ciclo de infecção através de dois mecanismos principais de transmissão e sobrevivência: transmissão primária ocorre principalmente por sementes infectadas que não apresentam sintomas visíveis, onde o fungo sobrevive no interior do tegumento e do embrião das sementes, sendo viável por longos períodos durante o armazenamento (EMBRAPA, 2014). Sementes contaminadas semeadas introduzem o patógeno em novas áreas e comprometem o estande inicial de plantas. O fungo sobrevive em restos culturais (palhada) sob a forma de microescleródios, que permanecem viáveis no solo por até 1,5 anos sob condições naturais, e os microescleródios funcionam como estruturas de inoculação secundária, reiniciando infecções em hospedeiros suscetíveis quando as condições ambientais são favoráveis (EMBRAPA, 2014). Disseminação secundária pode ocorrer via implementos agrícolas contaminados, água de irrigação, vento e animais, aumentando exponencialmente a pressão de inóculo em lavouras comerciais através de mecanismos de transporte passivo do inóculo (SINCLAIR; BACKMAN, 1989).
O manejo eficiente de Macrophomina phaseolina em soja requer abordagem integrada envolvendo múltiplas estratégias complementares. O uso de sementes certificadas e com qualidade sanitária comprovada é a medida mais importante, pois sementes de alta qualidade, tratadas com fungicidas registrados, reduzem significativamente a infecção inicial e protegem plântulas contra infecções de solo (EMBRAPA, 2014). Fungicidas registrados para tratamento de sementes oferecem proteção inicial contra infecções do solo, especialmente em áreas com histórico da doença, devendo-se consultar o AGROFIT (Ministério da Agricultura) para produtos registrados e suas respectivas dosagens. Embora Macrophomina phaseolina tenha ampla gama de hospedeiros, rotação de culturas contribui para equilíbrio do sistema e redução de severidade ao longo dos anos, com efetividade potencializada quando integrada a práticas que melhoram estrutura do solo e estimulam a microbiota benéfica do solo (PAPAVIZAS; LUMSDEN, 1980). Plantas daninhas podem servir como hospedeiras alternativas para Macrophomina phaseolina, e nematoides causam ferimentos às raízes, facilitando a penetração do patógeno, sendo o controle adequado de ambos crucial para redução da pressão de inóculo (EMBRAPA, 2014). Eliminação ou incorporação adequada de restos culturais (palhada) reduz a população de microescleródios no solo, enquanto em sistemas de semeadura direta deve-se estar atento ao acúmulo de palhada que favoreça o fungo. Análises laboratoriais periódicas de sementes (testes de sanidade — blotter test ou incubação em meio nutritivo) confirmam a presença do patógeno e orientam decisões de tratamento (MALONE; MUSICK, 1964), enquanto pesquisas em genética de soja identificaram cultivares com diferentes níveis de resistência a Macrophomina phaseolina, recomendando-se consulta a instituições como Embrapa Soja para recomendações de cultivares com melhor desempenho em cada região específica.
A identificação do patógeno deve ser confirmada por análise laboratorial profissional, sendo que imagens visuais servem como indicativo inicial mas não substituem diagnose técnica adequada. O isolamento em meio de cultura batata-dextrose-ágar (BDA), observação microscópica de estruturas morfológicas diagnósticas (microescleródios, picnídios, conídios), teste de patogenicidade (Postulado de Koch) em plantas suscetíveis e sequenciamento molecular quando necessário para confirmação definitiva constituem protocolos consolidados para identificação confiável do patógeno (KHAMBHATI et al., 2020).
Macrophomina phaseolina representa um desafio fitossanitário significativo em soja, com impacto direto na qualidade de sementes e produtividade de lavouras, sendo sua identificação precisa, baseada em protocolo consolidado em bases internacionais, essencial para implementação de estratégias de manejo eficientes (KHAMBHATI et al., 2020). A adoção integrada de medidas — incluindo uso de sementes certificadas, tratamento químico adequado, rotação de culturas, controle de plantas daninhas e nematoides, e monitoramento contínuo da qualidade sanitária — permite reduzir significativamente os danos causados por este patógeno (EMBRAPA, 2014). Recomenda-se consulta com profissionais de fitopatologia e extensão rural para orientações específicas à região e situação particular de cada lavoura comercial.
REFERÊNCIAS
ALMEIDA, A. M. R.; ABDELNOOR, R. V.; ALMEIDA, A. M. R.; ABDELNOOR, R. V. Variabilidade genética de isolados de Macrophomina phaseolina (TASSI) Goid coletados em diferentes regiões do Brasil. Fitopatologia Brasileira, Brasília, v. 23, n. 3, p. 353-359, 1998.
ALMEIDA, M. L. de et al. Qualidade de sementes de plantas de soja infectadas com Macrophomina phaseolina (Tassi) Goid. em estádios fenológicos reprodutivos. Revista Agronomia Brasileira, [S.l.], v. 1, n. 1, p. 1-12, 2020.
EMBRAPA SOJA. Macrophomina phaseolina em soja. Londrina: Embrapa Soja, 2014. (Circular Técnica, 346).
KHAMBHATI, V. H.; ABBAS, H. K.; SULYOK, M.; TOMASO-PETERSON, M.; SHIER, W. T. First report of the production of mycotoxins and other secondary metabolites by Macrophomina phaseolina (Tassi) Goid. isolates from soybeans (Glycine max L.) symptomatic with charcoal rot disease. Journal of Fungi, [S.l.], v. 6, n. 4, p. 332, 2020.
KHAMBHATI, V. H.; ABBAS, H. K.; SULYOK, M.; TOMASO-PETERSON, M.; SHIER, W. T. Impact of climate change on the potential global prevalence of Macrophomina phaseolina (Tassi) Goid. under several climatological scenarios. Frontiers in Plant Science, [S.l.], v. 16, p. 1512294, 2025. DOI: 10.3389/fpls.2025.1512294.
MALONE, J. P.; MUSICK, G. J. Histopathology of infection of soybean seedlings by Macrophomina phaseolina. Phytopathology, [S.l.], v. 54, n. 3, p. 289-295, 1964.
PAPAVIZAS, G. C.; LUMSDEN, R. D. Improved medium for isolation of Sclerotium rolfsii and other soil-borne fungi and for quantitative estimation of populations of Sclerotium rolfsii. Phytopathology, [S.l.], v. 60, n. 1, p. 69-75, 1980.
SINCLAIR, J. B.; BACKMAN, P. A. Compendium of soybean diseases. 3. ed. Saint Paul: American Phytopathological Society, 1989.
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