sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Boletim Técnico (1-2015): Mancha-aveludada da pimenta-malagueta (Capsicum frutescens) causada por Phaeoramularia capsicicola

Mancha-aveludada da pimenta-malagueta (Capsicum frutescens) causada por Phaeoramularia capsicicola

Álvaro de Oliveira Cardoso
Acadêmico do curso de Agronomia
INTRODUÇÃO 
A pimenta-malagueta (Capsicum frutescens), Solanaceae, é um arbusto pequeno, nativo de regiões tropicais da América, muito cultivado no Brasil, de folhas ovais, acuminadas, flores alvas e bagas fusiformes, vermelhas, bastante picantes. É usada como condimento e tempero nas regiões do Brasil, nos estados de Goiás e Minas Gerais (REIS, 2010).
A “malaguetinha-caipira” destaca-se pela alta concentração da capsaicina e baixíssimos teores de piperina. Geralmente as variedades comercializadas, via de regra, são espécies híbridas, resultantes de cruzamentos realizados para desenvolver variedades mais produtivas, mais resistentes a pragas e menos atrativas aos pássaros e insetos (MONTEIRO, 2000.) 
Por conter vitaminas A, C, do complexo B, potássio e cálcio, a pimenta pode ser benéfica não somente à saúde do coração, como também ao sistema circulatório. Apresenta propriedades vasodilatadoras, impedindo a formação de coágulos e aumentando o calibre de vasos sanguíneos, fatores que reduzem as chances de um ataque cardíaco ou acidente vascular cerebral. (MENDES, 2013). 
É uma cultura que exige temperaturas elevadas, em torno de 25 a 30°C, durante todo o ciclo de vida. Não é resistente à baixas temperaturas e intolerante à geadas, onde sua germinação é reduzida, crescimento reduzido e estiolamento de folhas. Em regiões que apresentam inverno ameno, principalmente em baixa altitude, a semeadura pode ser feita durante o ano todo. (PINTO et al., 2007). 
Em 2004, foram comercializadas, nas Ceasas de Minas Gerais, cerca de 270 t de pimenta, ao preço médio de R$ 2,99/kg. Deste total, 2,31% foram provenientes do estado de São Paulo e o restante produzido em Minas Gerais. (PINTO et al., 2007). 
A mancha-aveludada tem como agente causal fungos do gênero Phaeoramularia sp. Vassiljevsky, são parasitas obrigatórios de um grande número de espécies de plantas da família das solanáceas. Dentro do gênero Phaeoramularia, apenas uma espécie é encontrada nos sistemas de produção agrícola de pimenta e pimentão, as quais têm ampla gama de hospedeiros e podem parasitar praticamente todos os indivíduos do gênero Capsicum sp. (TRAZILBO JÚNIOR et al., 2007).  
O sintoma mais visível do ataque da mancha-aveludada são manchas com aspecto aveludado, principalmente na face inferior da folha, as quais apresentam comumente áreas cloróticas. As folhas infectadas são geralmente mais curtas e com menor desenvolvimento, justamente pela área da mancha consumida pela doença. (MOREIRA, 2007). 
 O patógeno apresenta ampla distribuição mundial, ocorrendo geralmente em países de clima tropical e/ou próximos à linha do Equador. Sua necessidade de climas quentes com temperaturas entre 23-27 °C e umidade relativa superior a 90 % o torna intolerante à climas amenos e temperados (PINTO et al., 2007).

DESENVOLVIMENTO 
Hospedeiro/cultura: Pimenta (Capsicum frutescens L.
Família Botânica: Solanaceae 
Doença: Mancha-aveludada 
Agente Causal: Phaeoramularia capsicicola Vassiljevsky
Local de Coleta: Urutaí, GO.
Data de Coleta: 24/02/15 
Taxonomia: A fase telemórfica pertence ao reino Fungi, filo Ascomycota, classe Dothideomycetes, ordem Capnodiales, família Mycosphaerellaceae. A fase anamórfica pertence ao Reino Fungi, Grupo inserto dos Fungos Mitospóricos, sub-grupo dos Hifomicetos, gênero Phaeoramularia sp., espécie Phaeoramularia capsicicola (INDEX FUNGORUM, 2015)

SINTOMATOLOGIA:  
Os sintomas da doença ocorrem principalmente nas folhas, que apresentam inicialmente, lesões aquosas translúcidas, de coloração verde-escura. Com o desenvolvimento da doença, as lesões tornam-se branca-acizentadas, de formato circular, apresentando anéis concêntricos, com bordos escuros e centro cinza-claro. As lesões podem coalescer, formando grandes áreas necróticas, que se desprendem das folhas. Sob condições ambientais favoráveis, pode ocorrer intensa desfolha, que favorece a exposição dos frutos diretamente a luz solar, bem como, ao ataque de organismos secundários. Os sintomas podem também ser observados no caule, ramos e pedúnculos dos frutos onde as lesões tendem a ser maiores e mais alongadas (LOPES e ÁVILA, 2003).
 No campo observa-se claramente a mancha-aveludada nas folhas das plantas, declínio vagaroso, queda prematura das folhas, queda na produção. Dentre os danos causados ao sistema aéreo incluem-se a formação de manchas que apresentam comumente áreas cloróticas que chegam a causar necrose na parte abaxial da folha, podendo levar à diminuição da parte aérea, e consequentemente por prejudicar a área de realização fotossintética, também influencia sobre a produtividade da pimenteira (TRAZILBO JÚNIOR, et al., 2007).
            As manchas provocadas pelo fungo abrigam conidióforos e conídios, e tem cerca de 1,5 cm de largura, e muitas vezes são circundadas por um halo alaranjado. Quando as infecções são muito severas, geralmente tem manchas sub orbiculares de coloração marrom bem visíveis, presente em ambas as superfícies (DEITGHTON, 1976).
ETIOLOGIA:
O conidióforo é hipófilo, possui colônias anfígenas, conídios fasciculados, de cor marrom meio pálido ou marrom oliváceo, medindo 22 a 62 µm de comprimento por 4 a 6 µm de largura. Possui conídios hialinos com cicatrizes de secessão com 1 a 5 µm de diâmetro, filiformes com 2 a 4 septos, medindo 12 a 92 µm de comprimento por 3 a 7 µm de largura (DEITGHTON, 1976).
O micélio pode apresentar hifas coloridas e apresenta de 2-3 µm de espessura. O estroma, tecido fúngico é sub estomático que varia de tamanho, podendo ter de 35 x 25 µm compostos por hifas de coloração palha à olivácea (DEITGHTON, 1976).

Tabela 1. Comparação de características morfológicas e morfométricas de Phaeoramularia capsicicola com o isolado descrito por Deitghton (1976).

Características
Isolado Urutaí (2015)
Deitghton (1976)
Dimensões do conidióforo (µm)
23,7 x 15,91
22-62 x 4-6
Dimensões dos conídios (µm)
38,23 x 0,76
12-92 x 3-7

Número de septos do conídios
4
2-4
Forma do conídio
Filiforme
Filiforme





Figura 1. Sintomas e sinais da mancha-aveludada da pimenta-malagueta (Capsicum frutescens) causada por Phaeoramularia capsicicola. A. lesões irregulares e enegrecidas da face adaxial (bar = 4 mm), B. detalhe da lesão enegrecida (bar = 2 mm), C. agrupamento de conidióforos do tipo esporodoquial (bar = 5,94 µm), D. conídios filiforme curto, E. conídio, alongado e septado, e1. septação, F. conídio multisseptado, f1. cicatriz de secessão conidial (bar = 1,4 µm ).



EPIDEMIOLOGIA:
O fungo da mancha-aveludada tem-se no Brasil apenas um registro de ocorrência segundo o Banco de dados da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, que aponta o estado de SP e indica Capsicum frutescens Willd (Solanaceae) a pimenta-malagueta como hospedeira (HINO et al., 1978).
A doença incide sobre Capsicum annuum, e é um fungo de presente em regiões tropicais e subtropicais. Já foi descrito na Espanha, Bulgária, Romênia, Marrocos, Etiópia, Uganda, Sudão, Quênia, Tanzânia, Malawi, Zaire, Zâmbia, Rodésia, Nigéria, Gana, Serra Leoa, Ilhas Maurício, Índia, Nepal, Burma, Sabat, Trinidad e Tobago, Jamaica, El Salvador, Brasil, Venezuela, Argentina e Estados Unidos (DEITGHTON, 1976).
O fungo sobrevive nos restos da cultura deixados no campo na forma de micélio e conídios; também sobrevive nas sementes contaminadas superficialmente (AGROFIT, 2010). Tão quanto, um dos métodos de controle, cultural, é justamente eliminar restos culturais de pimenta e pimentão, os quais são propícios para a conservação de estruturas de sobrevivência do fungo.
A disseminação a longa distância pode ocorrer pelas sementes contaminadas, porém esta via não é muito comum. Os conídios no campo são disseminados pelo vento e respingos da água da chuva ou da irrigação por aspersão. Trabalhadores, insetos, implementos e pássaros também contribuem para a disseminação do fungo, pois em contato com a planta que foi infectada com o patógeno, este possuirá a fonte de inóculo em seu corpo, que em contato com uma planta sadia, iniciará o processo de infecção, onde os esporos germinam em até 48 horas em condições de umidade e temperaturas ideais (SILVA, 2010).
Temperaturas entre 23-27 °C, umidade relativa superior a 90 % e solos de baixa fertilidade são condições que favorecem o desenvolvimento da doença (AGROFIT, 2015).

CONTROLE:  
O controle se baseia em plantar sementes de boa qualidade, adquirida de firmas idôneas, ou mudas comprovadamente sadias; Evitar o plantio próximo a culturas velhas; Adubar corretamente a plantação, com base na análise de solo; Fazer um bom manejo de irrigação, evitando aplicar excesso de água; Evitar plantios em épocas com alta intensidade de chuva, especialmente quando a temperatura for alta; Eliminar os restos de cultura logo após a última colheita; Fazer rotação de culturas (geralmente com gramíneas) por, pelo menos, um ano (LOPES e ÁVILA, 2003).
O controle físico pode ser feito no manejo de irrigação, caso seja em ambiente controlado, é prudente que as folhas das pimenteiras não sejam molhadas, o que é muito difícil no caso da aspersão. Entretanto, este método de controle acaba sendo preventivo (PINTO et al., 2007). Não há nenhum produto registrado para controle do patógeno sobre o hospedeiro do boletim, e também não há registros de controle genético e biológico para essa cultura (AGROFIT, 2015).

LITERATURA CITADA:

 

DEITGHTON, F.C Brown leaf mould os Capsicum caused by Phaeoramularia capsicicola. Transiction British Mycological 67 (1):140 – 142 1976.
FARR, D.F., e ROSSMAN, A.Y. Fungal Databases, Systematic Mycology and Microbiology Laboratory, ARS, USDA. Disponivel em: < http://nt.ars-grin.gov/fungaldatabases/fungushost/FungusHost.cfm>, acessado em julho de 2015.
LOPES, C.A. e ÁVILA, A.C. Doenças do pimentão: diagnose e controle. Brasília: Embrapa Hortaliças, 2003.

MATSUOKA, K.; VANETTI, C.A.; COSTA, H.; PINTO, C.M.F. Doenças causadas por fungos em pimentão e pimenta. Informe Agropecuário, Belo Horizonte, v.18, n.184, p.64-66, 1996.

MENDES, M.A.S.; URBEN, A.F.; Fungos relatados em plantas no Brasil, Laboratório de Quarentena Vegetal. Brasília, DF: Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia.  Acessado em: 26/05/2015.
Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento - Coordenação-Geral de Agrotóxicos e Afins/DFIA/DAS. Disponível em: http://agrofit.agricultura.gov.br/agrofit_cons/principal_agrofit_cons. Acesso em 12/5/2015.
MONTEIRO, A.J.A.; COSTA, H.; ZAMBOLIM, L. Doenças causadas por fungos e bactérias em pimentão e pimenta. In: ZAMBOLIM, L.; VALE, F.X.R.; COSTA, H. (Ed.) Controle de doenças de plantas: hortaliças. Viçosa: Universidade Federal de Viçosa, 2000. v.2, p.637-675.

SILVA, C.R. Mancha preta causada por Cercospora capsici em folhas de Pimentão (Capsicum annuum). Disponível em: http://fitopatologia1.blogspot.com.br/2010/04/mancha-preta-causada-por-cercospora.html Acessado em: 18 de abril de 2010.

TRAZILBO JÚNIOR, P.J.; VENZON, M. 101 Culturas, Manual de tecnologias agrícolas. Belo Horizonte: Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais, v.2, p. 625-632. 2007.
















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