quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Boletim Técnico (1-2015): Crosta-marrom-do-abacate (Persea americana) causada por Phyllachora gratissima.

Crosta-marrom-do-abacate (Persea americana) causada por Phyllachora gratissima.

Bruna do Carmo Vieira
Acadêmica do Curso de Agronomia

INTRODUÇÃO

O abacateiro Persea americana Mill. - Lauraceae é originário da América é cultivado em quase todas as regiões tropicais e subtropicais, particularmente no México, América Central, partes da América do Sul, nas Índias Ocidentais, África do Sul, Israel e no Havaí; em menor extensão, na Índia, Samoa, Taiti, Argélia, Austrália, EUA (OLIVEIRA et al., 2000).
O abacate (P. americana) é um fruto climatérico, com alta taxa respiratória e produção elevada de etileno após a colheita; portanto, altamente perecível sob condições ambientais.  O controle do amadurecimento é fundamental para o aumento da vida útil após colheita, visando ao mercado interno e à exportação de frutas. Já a comercialização do fruto na forma processada é um grande desafio, pois a polpa escurece rapidamente depois de cortada, por presença de enzimas responsáveis pelo escurecimento, principalmente a polifenoloxidase (DAIUTO et al., 2011).
As qualidades organolépticas, o valor nutritivo e a riqueza em vitaminas do abacate justificam plenamente a expansão do seu consumo. O abacate contém as vitaminas lipossolúveis que em geral faltam nas outras frutas. É muito rico em vitaminas A e B, medianamente rico em vitaminas D e E e muito pobre em vitamina C. O valor calórico por 100 gramas de fruto pode variar de 55 a 200 calorias (OLIVEIRA et al., 2000).
As informações sobre as doenças desta espécie são escassas. Geralmente são mencionados sérios problemas com doenças. O Phyllachora bakeriana tem sido relatada em Cassia fistula, C. hoffinanseggiana e C. inaequilatera. Outros autores citam a P. canafistulae Chardon. e P. cassiae Henn. em Cassia fistula, mas estes são considerados sinônimos (ESQUIVEL, 2009).
Por ser uma espécie tropical que provavelmente não mostra sazonalidade marcada, mas ascomas parecem ser mais frequentemente em janeiro ou fevereiro (CMI 1990).
A espécie P. gratissima foi descrita por Rehm, publicada no ano de 1892 (INDEX FUNGORUM, 2015).
No mundo P. gratissima encontra-se distribuída na Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, Haiti, México, Porto Rico e Venezuela (MYCOBANK, 2015).
No mundo tem sido registrado o patógeno em um gênero e três espécies de plantas hospedeiras representadas por Persea americana, P. gratissima e P. persea (FARR, & ROSSMAN, 2015).
            O objetivo deste boletim técnico é descrever a sintomatologia, etiologia, epidemiologia e controle da crosta-negra-do-abacateiro causado por P. gratissima.

DESENVOLVIMENTO

Hospedeiro/cultura:   Abacateiro (Persea americana Mill.)
Família Botânica: Lauraceae
Doença: Crosta-negra-do-abacateiro
Agente Causal: Phyllachora gratissima Rehm (Teleomorfo)
Local de Coleta: área de jardim, Urutaí, GO.
Data de Coleta: 06/03/2015
Taxonomia: Pertence ao reino Fungi, Divisão Ascomycota, classe Sordariomycetes, ordem Phyllachorales, família Phyllachoraceae, gênero Phyllachora sp., espécie P. gratissima.
Sintomatologia: No material coletado foram observados sintomas da doença em uma porcentagem significativa de folhas de diferentes idades. As lesões começam como pontuações escuras arredondadas na parte adaxial, rodeados de coloração amarela arredondada, que por elipsoides em evolução torna-se rodeado por um halo de larguras cloróticas (Fig. 1A). No centro das lesões foram observadas frutificação globosas subepidérmicas, de coloração preta, representados pelos sinais da presença do patógeno Fig. 1B (ESQUIVEL, 2009).

Causa lesões não claramente definidas (Fig. 1C), e óbvias apenas uma vez que os estromas foram parasitados por outros fungos; muitas vezes, formando padrão circular para os pontos marrons escuros de aproximadamente a 10 mm diâmetro (Fig. 1D), não associadas com as nervuras (MYCOBANK, 2015). Estes pontos são compostos de um material estromático de até 1 mm (ESQUIVEL, 2009).

Figura 1. Sintomas da crosta-marrom-do-abacate (Persea americana) causada por Phyllachora gratissima. A. Sintomas na face adaxial (barr= 2,25 cm). B. Sinais na face abaxial (barr= 2,2 cm), C. Detalhe dos sinais do patógeno na face adaxial circundado por halo clorótico (barr= 10 mm), D. Detalhe dos sinais na face abaxial formando abundante tecido fúngico crostoso e superficial (barr= 5 mm).

Etiologia (Sinais):
A fase anamórfica encontra-se em lóculos dentro do estroma. Os conidióforos são formados a partir de uma camada basal de hialina para empalidecer, empalidecido, textura angular castanha, curta, muitas vezes ramificada uma ou duas vezes simpodial. Células conidiogênica nas 22-36 x 3-4 µm, lanceoladas ou gradualmente afinando, muitas vezes com espessamento periclinal conspícuo, não colateral visto. Conídio 44-58 x 1,5-2 µm, estreitamente lanceoladas, filiforme, mais largo perto da base, o ápice fortemente atenuado, a base também atenuada, hialina, asseptados, lisa, sem apêndices mucosos (MYCOBANK, 2015).
A fase teleomórfica apresentou estromas 400 -1200 µm, de forma irregular e aglutinanda, 1-4 lóculos por lesão, fortemente negra, com bordas irregulares, os ostíolos não conspícuo (Fig. 2A). Ascomas de 350 µm de diâmetro, superficialmente cônico, a parede superior a 50 µm de espessura, quebradiço, composto por células epidérmicas hospedeiras fortemente oclusas por depósitos de melanina negra, com uma camada interna de células fúngicas comprimido, a parede inferior mal definida, composta por células fúngicas marrom escuro, achatada, comprimidas contra o tecido (Fig. 2B). Asca 90-124 x 24-29 µm, clavada para sacular, o ápice obtuso, de paredes espessas, sem estruturas apicais claramente definidos com 8 esporos (Fig. 2CG). Os ascósporos dispostos bilaterais (Fig. 2D), 21,5-25 x 11-13 µm, com uma face ± plana, hialina, asseptados, liso, com um apêndice gelatinosa pulvinate com 2 µm de largura e 4 µm de comprimento em cada extremidade como mostrado a Fig.2.F (MYCOBANK, 2015). Não existe de acordo com Mycobank, 2015, nenhum registro de especialização fisiológica.

Tabela 1. Comparação entre as estruturas morfológicas entre o isolado identificado com a descrição feita por Mycobank, (2015).



Figura 2. Sintomas da crosta-marrom-do-abacate (Persea americana) causada por Phyllachora gratissima. A. Vários peritécios localizados na superfície da face adaxial foliar (barr= 45 µm), B. Detalhe do peritécio não estiolado (barr= 45 µm), C. Asca hialina contendo oito ascósporos (barr= 20 µm), D. Região apical da asca no ato da liberação do ascósporo (barr= 20 µm), E. Saída da asca do corpo de frutificação (peritécio) (barr= 18 µm), F. Ascósporos (barr= 15 µm), G. Conjunto de ascas (barr= 75 µm).

EPIDEMIOLOGIA:

            O patógeno Phyllachora gratissima apresentou 19 registros de ocorrência infectando os seguintes hospedeiros: infectando P. americana foi registrado na Colômbia (SPAULDING, 1961), Cuba (ARNOLD, 1986), República Dominicana (SPAULDING, 1961; CIFERRI, 1961), Guatemala (SPAULDING, 1961; MCGUIRE, 1967), Honduras (MCGUIRE, 1967), Jamaica (SPAULDING, 1961), México (ALVAREZ, 1976), Porto Rico (STEVENSON, 1975; SPAULDING, 1961), Venezuela (SPAULDING, 1961) e Ilhas Virgens (STEVENSON, 1975); infectando P. gratissima foi registrado na Colômbia (CHARDON, 1930; DENNIS,1970), Equador (DENNIS,1970), Venezuela (CHARDON, 1930; DENNIS, 1970); infectando P. persea foi registrado no Equador (SEAVER, 1928).
No mundo P. gratissima encontra-se distribuída na Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, Haiti, México, Porto Rico e Venezuela (MYCOBANK, 2015).

CONTROLE:

Embora o fungo P. gratissima seja difundido e comum, o seu efeito sobre o hospedeiro não foi devidamente estudado (GARCÀ e ORTIZ, 1984). Assim basicamente não se encontram recomendações de controle para a crosta-negra-do-abacateiro.

Controle cultural: Recomenda-se também retirar e eliminar as folhas doentes que caíram, pois estas são fonte de inoculo da doença. Em caso de plantio para recomenda-se plantar as arvores com um espaçamento maior para não adensar e facilitar a epidemia.

Controle químico: Não existe nenhum produto registrado, no Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento, (MAPA) para o controle dessa doença (AGROFIT, 2015). Porém contém para a espécie Phyllachora torrendiella, doença do Coqueiro, não contendo registros de fungicida para o controle deste fungo. Vários trabalhos de pesquisa têm sido realizados para possibilitar o controle químico deste patógeno, mas a utilização desta técnica em grandes culturas é considerada inviável devido ao tamanho das plantas (AGROFIT, 2015).

Controle genético: A busca de variedades resistentes seja mediante a seleção dentro dos recursos genéticos existentes, seja mediante a geração de novas variedades por hibridação, é um método que até o momento não se é utilizado para P. americana no controle da doença crosta-negra-do-abacateiro.

Controle biológico: Também não se tem relatos de controle biológico empregados no controle dessa doença. Estudos com esse tipo de controle, geralmente, são feitos para espécies de grande interesse econômico.


LITERATURA CITADA:

AGROFIT, sistema de agrotóxicos fitossanitários. Disponível em: . Acesso em: maio de 2015.

ALVAREZ, M.G. Primer catalogo de enfermedades de plantas Mexicanas. Fitofilo 71: 1-169. 1976.

ARNOLD, G.R.W. Lista de Hongos Fitopatogenos de Cuba. Ministério de Cultura Editorial Cientifico-Tecnica, 207 pages. 1986.

CHARDON, C.; TORO, R.A.  Mycological explorations of Colombia. J. Dept. Agric. Porto Rico 14: 195-369. 1930.

CHARDON, C.E., TORO, R.A. Mycological Explorations of Venezuela.  Monogr. Univ. Puerto Rico, B 2: 1-351. 1934.

CIFERRI, R. Mycoflora Domingensis Integrata. Quaderno 19: 1-539. 1961.

CMI, List of sets, index of species, and list of accepted names for some obsole species names in CMI Descriptions of Pathogenic Fungi and Bacteria Sets 1-100, Nos. 1-1000, issued. CMI Descriptions of Pathogenic Fungi and Bacteria No 903. January 1864-March 1990.

DAIUTO, E. R.; et al. Avaliação sensorial do guacamole com adição de α-tocoferol e ácido ascórbico conservado pelo frio. Rev. Ceres (Impr.), Abril 2011, vol.58, no.2, p.140-148. ISSN 0034-737X.

DENNIS, R.W.G. Kew Bulletin Additional Series III. Fungus Flora of Venezuela and Adjacent Countries. Verlag von J. Cramer, 531 pages. 1970.

ESQUIVEL, A.R.E., La Mancha Folha tar Cassia fistula L. (Fabaceae), causada por Henn Phyllachora bakeriana.(Fungi Phyllachoraceae) no Panamá. 2009.

FARR, D. F., & ROSSMAN, A. Y. Fungal Databases, Systematic Mycology and Microbiology Laboratory, ARS, USDA. Disponível em: , Acessado em abril de 2015.

INDEX FUNGORUM, banco de dados para consulta de táxons fúngicos. Disponível em: . Acessado em abril de 2015.
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MYCOBANK, International Micological Association, Disponível em: http://www.mycobank.org/BioloMICS.aspx?Link=T&TableKey=14682616000000063&Rec=18551&Fields=All, acessado em abril de 2015. Literature: GarcÀ­a E. & TealÀ­z Ortiz (1984), Agrociencia 56: 129-149, 1984; Hodges, Mycologia 61: 838-840, 1969.
OLIVEIRA, M. A.; et al. Ceras para conservação pós-colheita de frutos de abacateiro cultivar fuerte, armazenados em temperatura ambiente. Sci. agric., Dezembro 2000, vol.57, no.4, p.777-780. ISSN 0103-9016.

SEAVER, F.J. Studies in Tropical Ascomycetes V. Species of Phyllachora. Mycologia 20: 214-225. 1928.

SPAULDING, P. Foreign Diseases of Forest Trees of the World. U.S.D.A. Agric. Handb. 197: 1-361. 1961.

STEVENSON, J.A. Fungi of Puerto Rico and the American Virgin Islands. Contr. Reed Herb. 23: 743. 1975.

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