terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Boletim Tecnico: Ferrugem do jambeiro amarelo (Syzygium jambos (L.) Alston) causada por Puccinia psidii G. Winter

Bruna Ribeiro Machado
Acadêmica do curso de Agronomia
INTRODUÇÃO
            O jambo-amarelo (Syzygium jambos (L.) Alston) da família Myrtaceae, conhecido também como jambo-comum, jambo-da-índia, jambo-cheiroso ou jambo-verdadeiro, é originário da região Indomalaia, de onde foi introduzido nas regiões tropicais americanas e africanas. No Brasil é encontrado em diversos estados, onde contenha boa distribuição de chuvas e sem problemas de drenagem, mas não é cultivado comercialmente (PORTAL SÃO FRANCISCO, 2011).
            É uma árvore com ramos acinzentados e cicatrizes foliares aparentes, com folhas opostas, elípticas, de ápice agudo, glabras, de coloração verde-escura e brilhante com a face inferior mais clara. Suas flores são de coloração branco-esverdeadas, adensadas, de estames longos brancos, são bem destacadas na árvore, e são perfumadas e melíferas. Seu fruto é do tipo baga globosa, de cor amarelo-rósea, róseo-branca, ou arroxeada, com polpa suculenta, perfumada e de sabor muito agradável (PORTAL SÃO FRANCISCO, 2011).
            O jambeiro hoje é utilizado, principalmente, como planta ornamental e como quebra-ventos, além de ser uma frutífera consumida ao natural ou como doces, geléias, compotas e a polpa do fruto fermentado utilizada na produção de aguardente. Há também indicações terapêuticas dizendo que o jambo é eficaz contra dor de cabeça, catarro e tosse (PORTAL SÃO FRANCISCO, 2011).
            Uma das principais doenças da família Myrtaceae é a ferrugem, causada pelo fungo Puccinia psidii, e sabe-se hoje que todos os membros dessa família botânica são hospedeiros para a doença. Por isso, ficou conhecida como “Ferrugem das Mirtáceas”. Trata-se de uma ferrugem neotrópica, originária da América do Sul, com um imenso número de hospedeiros nativos, silvestres ou cultivados. A importância dessa ferrugem tem aumentado muito com o cultivo de espécies, hoje economicamente importantes como a goiaba, a pitanga e a jabuticaba, muitos dos quais são cultivados para a indústria na produção de sucos, doces e geléias. Mas, a capacidade notável de P. psidii de se adaptar e infectar mirtáceas importadas e não originárias da América do Sul, caso do jambeiro e do eucalipto, traz um problema ainda maior para o cultivo dessas espécies (FIGUEIREDO, 2001).
            O objetivo deste trabalho é descrever a sintomatologia, etiologia, epidemiologia e o controle de Puccinia psidii (L.) Aston. Nos frutos de jambo amarelo.
MATERIAIS E MÉTODOS
            Os propágulos sintomáticos de jambo-amarelo (folhas e frutos) foram coletados na área da Fazenda Marreco na cidade de Pires do Rio – GO. As amostras foram levadas para o laboratório de Microbiologia do Instituto Federal Goiano - Campus Urutaí para análise em microscópio estereoscópio.
            Com o auxílio do microscópio estereoscópio foram preparadas lâminas semipermanentes das estruturas do patógeno utilizando fixador e corante lactofenol com azul de algodão. Utilizou-se o método de corte histológico para preparo das lâminas. As lâminas foram vedadas com esmalte adesivo. O excesso de corante foi recolhido com o uso de papel toalha. As estruturas do fungo são analisadas em microscópio óptico.
            As estruturas morfológicas do agente etiológico sob microscópio óptico, foram registradas utilizando câmera fotográfica digital, modelo Cyber Shot da marca Canon®, para posterior edição e montagem da prancha de fotos.
            Um “suco” de esporos foi preparado na câmara de fluxo com água destilada e esporos do fungo coletados do fruto. Posteriormente, gotas desse “suco” foram colocadas em meio BDA e tampadas com lamínulas. O meio BDA foi vedado com plástico e colocado na geladeira. Após cinco dias essas lamínulas foram retiradas do meio e colocadas em lâminas com o corante e fixador para posterior visualização no microscópio óptico.
RESULTADO E DISCUSSÃO
Hospedeiro/cultura: Jambo-amarelo (Syzygium jambos (L.) Alston)
Família Botânica: Myrtaceae
Doença: Ferrugem
Agente Causal: Puccinia psidii G. Winter
Local de Coleta: Fazenda Marrecos, Pires do Rio, GO
Data de Coleta: 12/09/2011
Sinonímias: Bullaria psidii (G. Winter) Arthur & Mains (1922) e, também, Dicaeoma psidii (G. Winter) Kuntze (1898) (INDEX FUNGORUM, 2011).
Taxonomia: o fungo pertence ao reino Fungi, divisão Basiodiomycota, classe Pucciniomycetes, ordem Pucciniales, família Pucciniaceae, gênero Puccinia psidii G. Winter (INDEX FUNGORUM, 2011).
Sintomatologia: o fungo pode infectar tecidos em formação, folhas, gemas, ramos, botões florais, flores e, principalmente, os frutos em plantas adultas. Quando ataca as plântulas no viveiro, a moléstia pode causar uma necrose na extremidade dos caulículos e nas folhas novas, resultando na perda da muda (JUNQUEIRA et al., 2001). 
            Nas folhas de plantas adultas, inicialmente, há o aparecimento de pequenas pontuações amarelas e necróticas que evoluem para manchas necróticas circulares (Fig.1-A), de diâmetro maior e recobertas por uma densa massa pulverulenta de coloração amarela viva constituída pelos esporos (urediniósporos e teliósporos) que são os propágulos ou estruturas do fungo responsáveis pela formação da doença. Com o passar do tempo, essa massa amarela desaparece, permanecendo apenas uma área necrótica seca e frequentemente apresentando rachaduras (Fig. 1C). Quando em condições ambientais favoráveis à doença, as lesões se coalescem, ocasionando a morte do limbo, resultando em grande perda de tecidos e queda das folhas (JUNQUEIRA et al., 2001).
            As flores e os botões florais quando são atacados pela ferrugem na fase inicial do seu desenvolvimento, exibem lesões circulares, de diâmetros variáveis e recobertas por uma massa pulverulenta de coloração amarela intensa que podem causar a perda parcial ou total da produção. Os frutos são intensamente atacados pelo fungo desde os primeiros estádios de desenvolvimento e caem em grande quantidade, causando também perdas parciais ou totais da produção. Os frutos que forem atacados e que permanecerem na planta mumificam-se, tornando-se deformados e sem valor comercial, servindo como uma porta de entrada para vários microrganismos secundários responsáveis por podridões (JUNQUEIRA, et al., 2001).
Etiologia: o gênero Puccinia apresenta 5.255 espécies válidas em literatura e a publicação do táxon Puccinia psidii foi realizada no ano de 1884 pelo autor G. Winter. O gênero, ainda, apresenta espécies sinônimas como, por exemplo, Bullaria psidii (G. Winter) Arthur & Mains (1922) e, também, Dicaeoma psidii (G. Winter) Kuntze (1898) (INDEX FUNGORUM, 2011).
            O fungo causador da doença, P. psidii, um basidiomiceto pertencente à ordem Uredinales, é um parasita obrigatório e apresenta alta especificidade em relação ao hospedeiro. A colonização dos tecidos vegetais é feita através do crescimento micelial intercelular e da emissão de haustórios intracelulares (KIMATI et al., 1995).
            O fungo P. psidii caracteriza-se por afetar plantas da família Myrtaceae e somente infectar tecidos jovens ou em desenvolvimento. A presença de pontuações de coloração amarela são sinais, que correspondem aos soros uredinais, constituídos de milhares de urediniósporos. Os soros uredinais têm formato circular e atingem de 0,2 a 0,3 mm de diâmetro, sendo muito comum a coalescência dos mesmos, recobrindo boa parte ou totalmente o órgão infectado. Os urediniósporos apresentam variações quanto a forma, as quais podem ser piriformes (em sua grande maioria), esféricas ou ovais e apresentam equinulações em toda a volta dos mesmos (Fig. 1-G). Seu tamanho situa-se entre 10x20 a 15x25um. O vento é seu principal agente de disseminação (KIMATI, et al., 1997). 

 Figura 1. Ferrugem incidente nas folhas de Jambo-amarelo (Syzygium jambos) A. sintomas de manchas necróticas circulares, B. sintomas de manchas necróticas circulares na face abaxial, C. e D. áreas necróticas secas apresentando rachaduras, E. esporos emergidos no tecido vegetal, F. e G. urediniósporos apresentando equinulações ao redor dos mesmos.
Epidemiologia: o agente causal da ferrugem, por ser um parasita obrigatório, necessita de hospedeiro vivo para seu desenvolvimento e, em função da sua especialização em relação ao hospedeiro, geralmente não possui hospedeiro alternativo. Assim nos trópicos, o patógeno sobrevive principalmente na forma de urediniósporos que, geralmente, permanecem sobre plantas voluntárias após a colheita. Em muitas situações, os teliósporos atuam como estruturas de resistência e garantem a sobrevivência do patógeno na ausência do hospedeiro (KIMATI, et al., 1995).
            A formação de orvalho é um dos fatores determinantes de novas infecções e produção de novos urediniósporos de Puccinia psidii. Além da formação de orvalho, outras condições ambientais favoráveis como temperaturas menores que 20°C, umidade relativa alta, em torno de 80%, e longo período de molhamento são necessárias à germinação, penetração e infecção do fungo, além de favorecer também elevados índices de produção de esporos e aumento da doença (BLUM e DIANESE, 2001). Já temperaturas muito elevadas são adversas ao patógeno e, caso a infecção já tenha ocorrido, induzem à formação de teliósporos (estruturas de resistência), além de ocorrer necrose de parte do tecido foliar e, posteriormente, senescência da folha infectada (APARECIDO, 2009).
            A disseminação pode ocorrer a curtas ou a longas distâncias através do vento, da água, insetos e outros agentes disseminadores. A água, na forma de respingos, tem papel importante na disseminação dos esporos dentro da planta ou para plantas vizinhas. O vento, no entanto, é o agente de maior importância. Além de promover a disseminação dentro da planta e para plantas próximas a fonte de inóculo, o vento é responsável por levar esporos a grandes distâncias, promovendo uma distribuição eficiente do inóculo em amplas áreas geográficas (KIMATI et al., 1995).
            O fungo Puccinia psidii foi identificado em jambo-amarelo, Syzygium jambos, como hospedeira, em muitos países como – Colômbia, Costa Rica, EUA, Hawai, Panamá, Uruguai e Brasil. Além do jambo-amarelo, o mesmo fungo foi identificado em mais outras 231 hospedeiras, como por exemplo em goiaba, Psidium guajava, na Argentina, no Brasil e na Colômbia; espécies de Eucalipto, como Eucalyptus captata registrado no Brasil, no Uruguai; entre outras (FARR & ROSMAN, 2011).
Controle
   A utilização de variedades resistentes e o uso de produtos químicos são as formas mais viáveis de controle (Kimati, et al., 1995). A resistência genética é o melhor controle da ferrugem – menos poluente e mais econômico. O melhoramento genético para resistência durável é a alternativa à continua superação da resistência das cultivares, devido a alterações na população patogênica, que resultam em novas raças (BARCELLOS, 2007).
            Utilizar-se de práticas culturais também é um controle menos poluente. Promover um melhor arejamento e insolação do pomar através de podas e desfolhas. Realizar a poda em períodos com condição climática desfavorável à ocorrência da doença. Realizar adubação adequada, de acordo com a análise do solo, evitando excesso de adubação nitrogenada. Erradicar das proximidades do pomar variedades muito susceptíveis e/ou mirtáceas que possam servir de fonte de inóculo permanente, e, se possível instalar o pomar em locais que apresentem baixa umidade relativa ou menor período chuvoso (AGROFIT, 2011).
            Na ausência de material geneticamente resistente, o controle químico tem-se mostrado bastante eficiente e devem ser considerados como uma alternativa potencial de controle (KIMATI, et al., 1995). Pulverizações preventivas com fungicidas cúpricos podem ser realizadas em frutos com até 3 cm de diâmetro. Após este tamanho, os frutos são sensíveis ao cobre. Quando as pulverizações preventivas não controlarem a doença, realizar pulverizações curativas com o uso de produtos à base de oxicloreto de cobre, hidróxido de cobre, óxido cuproso e calda bordalesa (AGROFIT, 2011).
            Desde a década de 1980, o triadimenol é o fungicida mais utilizado para o controle da ferrugem. Entretanto, em vista da preocupação quanto ao uso contínuo de um mesmo princípio ativo, aliada às exigências dos órgãos de certificação florestal sobre o uso de produtos que não contenham cloro na sua molécula, pois este, se presente, pode persistir no ambiente, sendo necessária a busca de outros fungicidas eficientes no controle da doença (ZAUZA, et al., 2008).
            No mercado há vários fungicidas eficientes para o controle de ferrugens, como as estrobilurinas e os triazóis. As estrobilurinas têm atividade biológica variada e potencial de controle de ampla gama de fungos. Inibem a respiração mitocondrial ao bloquearem a transferência de elétrons entre os citocromos B e C, o que interfere na formação de ATP, atuando nos estádios de pré-penetração e inibindo a germinação de esporos, o desenvolvimento de tubos germinativos e a formação de apressórios. Apresentam, também, ação curativa, por inibirem o desenvolvimento do fungo nos estágios pós-germinação e causarem o colapso do micélio dentro do tecido colonizado, bem como ação antiesporulante. Ademais, as estrobilurinas podem induzir alterações fisiológicas em várias culturas e levar ao acréscimo da produtividade, aumento da tonalidade da cor verde das folhas e atraso da senescência e elevação na concentração de clorofila, proteínas e biomassa, o que favorece o índice de colheita. As moléculas desses compostos têm difusão translaminar e decomposição rápida no ambiente e são absorvidas pelas folhas de forma gradual e constante, o que confere proteção mais prolongada na superfície (ZAUZA, et al., 2008).
            A maioria dos fungicidas do grupo dos triazóis tem ação sistêmica acropetal, inibindo a biossíntese de esteróis, especialmente do ergosterol. A deficiência desse esterol e o acúmulo de compostos intermediários induzem a formação de membranas alternativas e a desorganização celular. Tem efeito fungitóxico elevado e penetração e translocação rápida nos tecidos vegetais, o que evita perda por lixiviação, efeito residual prolongado, e age como protetor nos eventos pré-penetração e como curativo nos eventos pós-penetração (ZAUZA, et al., 2008).
LITERATURA CITADA:
AGROFIT, disponível em: http://extranet.agricultura.gov.br/agrofit_cons/principal_agrofit_cons. Acessado em: 01/11/11.
APARECIDO, C.C. Ecologia de Puccinia psidii, agente causal da ferrugem das mirtáceas. 2009. Artigo em Hypertexto. Disponível em: . Acesso em: 27/9/2011.
BARCELLOS, A.L. Combate à Ferrugem. Cultivar. Junho de 2007.
BLUM, L.E.B.; DIANESE, J.C. Padrões de liberação de urediniósporos e desenvolvimento da ferrugem do jambeiro. Pesquisa Agropecuária Brasileira. Brasília – DF. 2001.
FARR & ROSMAN, SBML Systematic Botany of Mycological Resources. Disponível em: . Acesso em: 10 de setembrol de 2011.
FIGUEIREDO, B.M. Palestra: Doenças Fúngicas emergentes em Grandes Culturas. Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Sanidade Vegetal do Instituto Biológico. São Paulo – SP. 2001
INDEX FUNGORUM. Disponível em: . Acesso em: 10 de setembro de 2011.
JUNQUEIRA, N.T.V.; ANDRADE, L.R.M.; PEREIRA, M.; LIMA, M.M.; CHAVES, R.C. Doenças da Goiabeira no Cerrado. Circular Técnica nº15. EMBRAPA CERRADOS. Planaltina-DF. 2001
KIMATI, H.; AMORIM, L.; BERGAMIN FILHO, A. Manual de Fitopatologia: princípios e conceitos. 3a Ed, Vol. I, Editora Agronômica Ceres Ltda, São Paulo SP. 1995.
KIMATI, H.; AMORIM, L.; BERGAMIN FILHO, A.; CAMARGO, L.E.A.; REZENDE, J.A.M. Manual de Fitopatologia: doenças das plantas cultivadas. , Vol. II, Editora Agronômica Ceres Ltda, São Paulo SP. 1997.
PORTAL SÃO FRANCISCO, disponível em: http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/jambo/jambo-4.php acessado em 06 de outubro de 2011.
ZAUZA, E.A.V; COUTO, M.M.F.; MAFFIA, L.A.; ALFENAS, A.C. Eficiência de Fungicidas Sistêmicos no Controle da Ferrugem do Eucalyptus Departamento de Fitopatologia da Universidade Federal de Viçosa (UFV). 2008

Um comentário:

  1. oi, boa noite, tenho uma planta jovem de mais ou menos 3 anos (jambo -branco) a planta sempre em épocas de novas folhagens apresenta a doença citada e ocorre a desfolhagem e a planta não chega a florar. Gostaria de indicação de um fugincida, pois a planta pertence ao meu jardim e não gostaria de perde-la.

    drilifeisgood@hotmail.com

    Abraço Adriano Silva

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