segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Boletim Técnico: Oídio da resedá [Lagerstroemia indica L.] causada por Erysiphe australiana (McAlpine) U. Braun & s. Takam.

Lorena Natácia da Silva Lopes
Acadêmica do curso de Agronomia

1. INTRODUÇÃO

   Posição taxonômica a Erysiphe australiana pertencente a família Erysiphaceae, ordem Erysiphales, classe Ascomycetes, filo Ascomycota, subfilo Pezizomycotina. O fungo Erysiphe australiana foi descrito por (McAlpine) U. Braun & S. Takam. 2000 (INDEX FUNGORUM, 2011).
   O gênero Erysiphe possui aproximadamente 320 espécies as quais estão amplamente distribuídas em termos geográficos e de hospedeiros (ZIPCODEZOO, 2011).
   O nome desse gênero está dedicado ao naturalista e amigo de Lineo, o sueco, Magnus Von Lagerstrom (1696-1759), e específico de um de seus hábitats, nas ilhas do arquipélago himalaio (RJB.CSIC.ES, 2011).
   A planta Lagerstroemia indica é uma pequena árvore da família Lythraceae, nativa da Índia, que se tornou uma das principais árvores ornamentais urbanas nos estados do sul do Brasil. Graves surtos de oídio têm sido observados em L. indica em árvores ornamentais em Viçosa (Estado de Minas Gerais - Brasil) no começo da primavera de 2002 (LORENZI et al., 2003).
Resedá (Lagerstroemia indica) é uma árvore de pequeno porte que apresenta muitas flores, motivo esse que faz dela uma planta bastante utilizada para a decoração nas calçadas das cidades, chegando a se tornar quase que uma praga em algumas cidades onde a maioria da arborização urbana é formada por resedás (CUIDAR, 2011).
   Com aproximadamente cinco metros de estatura, tamanho que faz com que essa árvore possa ser considerada também um arbusto, a resedá pode apresentar flores de diversas cores, como branco, vermelho e rosa, que aparecem de forma bem densa durante a época da primavera (CUIDAR, 2011).
   O oídio da resedá - E. australiana tem sido relatada no Norte Índia em L. indica. Para nosso conhecimento, este é o primeiro registro de oídio de L. speciosa causado por E. australiana na Índia (PUBLISH, 2011).
   A doença mais importante destas plantas é, sem dúvida, um oídio específico de Lagerstroemia indica, causado pelo fungo  Erysiphe australiana (REPOSITORY, 2011).
   O fase teleomorfo estava ausente, mas a morfologia anamorfo é idêntica à descrita para Erysiphe australiana syn. Uncinuliella australiana, uma espécie comum ao oídio infectando Lagerstroemia sp. em todo o mundo (Braun, 1987) há relatos na  Argentina e Venezuela. Este é o primeiro registro desta espécie de oídio atacando L. indica no Brasil (NDRS, 2011).
Oídio da L. indica foi relatado na  Argentina, Brasil, China, Japão, Suíça, Reino Unido, EUA e Venezuela (Jones & Baker, 2007; Liberato & Barreto, 2004; Shi & Mmbaga, 2006). Este é o primeiro registro da doença do oídio causado por E. australiana em L. indica  na Turquia (NDRS, 2011).
   A ordem Erysiphales constitui o grupo de fungos parasitas obrigatórios causadores das doenças conhecidas como oídios (BEBENDO, 1995).
   Não foi encontrada nenhuma literatura referente ao fungo Erysiphe australiana , nos anais do Congresso de Fitopatologia.
   O objetivo deste trabalho é apresentar aspectos gerais e morfológicos do fungo Erysiphe australiana, descrevendo a sintomatologia, etiologia, epidemiologia e controle.

2. MATERIAIS E MÉTODOS

   Esse trabalho foi realizado no Laboratório de Microbiologia do Instituto Federal Goiano Campus Urutaí. As amostras da planta foram coletadas na cidade de Urutaí-GO.
  Os propágulos da superfície da folha de Lagerstroemia indica (Resedá) foram extraídos com o auxilio de uma pinça e depositada em uma lâmina contendo uma gota de fixador cotton-blue, constituído por 2,6ml de ácido acético, 62,5mL de ácido lático, 100 mL de glicerina, 100 mL de água destilada. O corante apresentou uma diluição de 1g para 10 mL de etanol 70%, em seguida colocou se uma lamínula sobre a lâmina. Retirou se o excesso do fixador, logos após vedou se a lamínula na lâmina utilizando esmalte e levou para visualização em microscópio óptico.
   Os cortes histológicos foram realizados com o auxilio do microscópio estereoscópico, foi utilizado parte do tecido com presença de lesões, gilete para realização do corte, lâmina com fixador e esmalte para vedação da lamínula.
   Foram realizadas fotos ao ar livre das folhas contaminadas e microfotografias das estruturas fúngicas no microscópio óptico, utilizando câmera digital Canon® modelo Power Shot A580, para confecção da prancha de fotos que foram editadas com o Windows Picture Manager e a prancha confeccionada no Microsoft Office Power Point.


3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

Hospedeiro/cultura: Resedá (Lagerstroemia indica L.).
Família Botânica: Lythraceae
Doença:  Oídio da reseda
Agente Causal: Erysiphe australiana
Local de Coleta: Urutaí, GO.
Data de Coleta: 05/10/2011
Taxonomia: O fungo pertence ao Reino Fungi, espécie Erysiphe australiana pertencente a família Erysiphaceae, ordem Erysiphales, classe Ascomycetes, filo Ascomycota, subfilo Pezizomycotina (INDEX FUNGORUM, 2011).
Sinonímia: Uncinula australiana McAlpine, Fitopatología  (1899). Uncinuliella australiana (McAlpine) R.Y. Zheng & G.Q. Chen, (1982) (SPECIES FUNGORUM, 2011).


Sintomatologia
   Os sintomas são facilmente identificáveis e sempre se manifestam na forma de eflorescência ou bolor pulverulento, de coloração branca ou levemente cinza. Esta eflorescência, formada por micélio, conidióforos e conídios do patógeno, pode ser encontrada em diversos órgãos vegetais, como meristemas, ramos jovens, flores, frutos em formação e, principalmente nas folhas. A doença é observada mais frequentemente na face superior das folhas. Em Alguns casos, no entanto, pode ser constatada também na face inferior (BEDENDO, 1995).
   Além da eflorescência, a planta afetada pode, eventualmente, exibir outros sintomas. Nas folhas, as manchas ou áreas inicialmente recobertas pela eflorescência branca podem se tornarem amareladas e posteriormente, necróticas. Ataques severos podem provocar retorcimento, subdesenvolvimentos, queda de folhas, morte de ramos novos, queda de flores e frutos, subdesenvolvimento e deformação de frutos jovens (BEDENDO, 1995).
   Estes fungos infectam os tecidos clorofilados das plantas, como folhas e frutos, desenvolvendo um micélio superficial, que retira os nutrientes do hospedeiro através de haustórios formados no interior das células da epiderme (BEDENDO, 1995).
   Este fungo afeta ramos, folhas, flores e frutos, causando perda do valor ornamental das plantas. Quando os ataques de oídio se dão em anos sucessivos pode ocorrer a morte das plantas (REPOSITORY, 2011).

Etiologia
   Os agentes causais de oídios são fungos da classe dos Ascomicetos, família Erysiphaceae.    Os gêneros Erysiphe, Podosphaera, Sphaerotheca e Uncinula são os mais comumente associados aos oídios que ocorrem nas nossas condições. A fase imperfeita destes fungos, que corresponde ao gênero Oidium, é a principal responsável pela ocorrência da doença nas condições brasileiras. A fase perfeita raramente é constatada em condições de campo. Este fato é atribuído á ausência de temperaturas suficientemente baixas que permitam o desenvolvimento da fase perfeita ou sexuada do patógeno (BEDENDO, 1995).
    O fungo Erysiphe é comumente conhecido como o patógeno oídio em crepe de murta (Lagerstroemiae indica) nos Estados Unidos, e Erysiphe australiana é o patógeno oídio relatados no Japão, China e Austrália. A fase de teleomorfo muitas vezes usado para identificar fungos, oídio raramente se desenvolve em crepe murta, e em nossas observações, nunca descreveu ascocarpos formado (DX.DOI.ORG, 2011).
   Na fase imperfeita, o fungo produz hifas claras e septadas, que formam um micélio branco ou cinza claro (Fig. 1AB). As hifas dão origem a conidióforos curtos, eretos e não ramificados, a partir dos quais se desenvolvem os conídios, arranjados em cadeia. Os conídios são hialinos, unicelulares, de forma ligeiramente retangular a ovalada ou oblonga (Fig. 1E) (BEDENDO, 1995).
   No estádio perfeito, o micélio forma corpos de frutificação do tipo cleistotécio, claros no início, escuros posteriormente, de modo a tornarem se bem visíveis, em contraste com o micélio branco. No interior dos cleistotécios desenvolvem se os ascos, que dão origem aos ascósporos unicelulares, hialinos e ovalados, semelhantes aos conídios (BEDENDO, 1995).
   As hifas formam também os haustórios, que são estruturas especializadas na retirada de nutrientes diretamente das células do hospedeiro. Estas estruturas, provenientes do intumescimento das extremidades das hifas que penetram no interior das células, permitem que o fungo exerça uma forma evoluída de parasitismo, proporcionando uma longa convivência entre patógeno e hospedeiro (BEDENDO, 1995).

Tabela 1. Dimensões em µm das estruturas de Oídio - Erisyphe australiana (McAlpine) U. Braun & s. Takam. 2000 comparado com M.E. Göre*, (2008).

 

 Figura 1. Oídio (Erisyphe australiana) incidente em folhas de reseda (Largerstroemia indica). A. Sintoma na Planta, B. Sintomas na face adaxial da folha, C. Detalhe do corte histológico para observação do conidióforo, D. Detalhe do conidióforo, E. Detalhe dos conídios (barr = 36,7um), F. Detalhe do conidióforo com presença de apressório (barr =92,1 um), G. Conidióforo com presença da célula conidiogênica.

Epidemiologia

   Os fungos que causam oídios são parasitas obrigatórios e portanto, dependem de hospedeiros vivos para sua sobrevivência, crescimento e reprodução (BEDENDO, 1995).
   A maioria produz conídios em cadeia, de forma basipetal (conídio mais jovem na base), correspondentes a sua fase anamórfica, a partir de conidióforos simples, derivados do micélio superficial. Estes conídios são os responsáveis pelo desenvolvimento dos sucessivos ciclos secundários do patógeno, ao serem disseminados pelo vento e depositados sobre novos tecidos suscetíveis do hospedeiro (BEDENDO, 1995).
   A disseminação é realizada principalmente pelo vento, que distribui os conídios á distância relativamente longa; a água também pode atuar como agente de disseminação, principalmente na força de respingos, espalhando os conídios dentro da própria planta e para plantas vizinhas. Chuvas intensas podem lavar as estruturas do fungo encontradas na superfície do hospedeiro, prejudicando seu desenvolvimento e sua dispersão. Ao atingir a superfície da folha, os conídios podem iniciar o processo de infecção (BEDENDO, 1995).
   Após a penetração, que em alguns casos processa se também através do estômato, as hifas situadas na superfície da folha começam a se ramifica.  Com o desenvolvimento do micélio os conídios passam a ser produzidos em grande quantidade, caracterizando a fase de reprodução do patógeno. Sob condições de baixa temperatura, ocorre a formação de cleistotécios esféricos, do tamanho aproximadamente da cabeça de alfinete. A presença de micélio e conídios na superfície vegetal é responsável pelo sintoma típico de oídio exibido pelas plantas doentes, ou seja, a eflorescência branca pulverulenta que recobre os órgãos atacados. A planta doente constitui se em nova fonte de inoculo para plantas sadias, quando o vento promove a dispersão dos conídios (BEDENDO, 1995).
   De acordo com Farr & Rossman (2011) foram relatados 19 registrados no mundo para Oidium sp. infectando Lagerstroemiae sp., Oidium erysiphoides infectando a planta Lagertroemiae sp. foi relatado na espécie Lagerstroemia subcostata em Taiwan (YEN,1967).
Oidium sp. Infectando Lagerstroemia indica foi relatado na Austrália (SAMPSON e WALKER, 1982); China (ZHENG e YU, 1987); Cuba (URTIAGA, 1986); Grécia (HOLEVAS et al., 2000);  Hawaii (RAABE et al., 1981 ); Hong Kong (ZHUANG, 2001); México (ALVAREZ, 1976); Myanmar (THAUNG, 2007);  Nova Caledônia (HUGUENIN, 1966); África do Sul (GORTER, 1977); Venezuela (URTIAGA, 2004).
   A planta Lagerstroemia sp. relatada na Indonésia (AMANO, 1986); Malawi  (AMANO, 1986);  Papoa Nova Guine (AMANO, 1986). Lagerstroemia speciosa na Venezuela (URTIAGA, 2004).
   O fungo causador de oídio Oidium yenii foi registrado infestando Lagerstroemia indica relatada na Índia (PAUL e THAKUR, 2006), Lagerstroemia subcostata relatada em Taiwan (YEN, 1967).

Controle

     Apesar de bastante rústica, é interessante realizar podas de limpeza, removendo ramos emaranhados e doentes, além das flores murchas (JARDINEIRO, 2011).
   Segundo o Agrofit (2011) não há registros disponíveis para o controle de Erysiphe australiana infectando resedá. Mas há registros de moléculas para o controle de doenças do gênero Erysiphe sp.
   Não há registro de Lagerstroemia indica resistentes ao fungo Erysiphe australiana, pois não é uma planta de grande importância econômica.
    O leite pode agir mais de um modo de ação para controlar o Oídio. Leite fresco pode ter efeito direto contra Sphaerotheca fuliginea devido às suas propriedades germicidas; por conter diversos sais e aminoácidos, pode induzir a resistência das plantas e/ou controlar diretamente o patógeno; pode ainda estimular o controle biológico natural, formando um filme microbiano na superfície da folha ou alterar as características físicas, químicas e biológicas da superfície foliar. O leite não é um contaminante do ambiente ou dos alimentos, conseqüentemente, pode ser utilizado em qualquer modelo de agricultura (BETTIOL, 2004).
 
 4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AGROFIT disponível em: <http://extranet.agricultura.gov.br/agrofit_cons/principal_agrofit_cons> acessado em: 29/10/2011.
BEDENDO, I. P., Oídios. BERGAMIM, FILHO A., KIMATI, H., AMORIM, L. Manual de fitopatologia vol.1 3 ed. Editora agronômica Ceres. São Paulo, 1995.
BETTIOL, W. Leite de vaca cru para controla oídio. Documento 14. Embrapa Meio Ambiente. Jaguariuna, SP. 2004.
CUIDAR 2011 Disponível em: <http://www.cuidar.com.br/plantas/arvores/reseda.htm> acessado em: 10/10/2011.
DX.DOI.ORG Disponível em: <http://dx.doi.org/10.1094/PD-90-1098> acessado em: 11/10/2011.
FARR, D.F., A.Y. ROSSMAN, M.E. PALM & E.B. MCCRAY. (n.d.). Fungal Databases, Systematic Botany and Mycology Laboratory, ARS, USDA. Retrieved October 10, 2011, from http://nt.ars-grin.gov/fungaldatabases/
INDEX FUNGORUM, Disponível em: < http://www.indexfungorum. org/names/NamesRecord.asp?RecordID=495633>. Acessado em 29/10/ 2011.
JARDINEIRO, Disponível em:< http://www.jardineiro.net/br/banco/lagerstroemia_indica.php> acessado em 01/11/2011.
Lorenzi H, Souza HM, Torres MAV, Bacher LB, . 2003 Exóticas Árvores do Brasil: Madeireiras, Ornamentais e Aromáticas. Nova Odessa, Brasil: Instituto Plantarum.
NDRS 2011 Disponível em: < HTTP://www.ndrs.org.uk/article.php?id=009037 >acessado em: 08/10/2011.
PUBLISH Disponível em: <http://www.publish.csiro.au/?act= view_file&file_id=DN09020.pdf> acessado em: 01/11/2011.
REPOSITORY Disponível em <http://www.repository.utl.pt/bitstream/ 10400.5/469/17/Anexo2.pdf> acessado em: 08/10/2011.
RJB. CSIC.ES 2011 Disponível em : <  http://www.rjb.csic.es/jardinbotanico/ficheros/documentos/pdf/pubinv/MSG/Lagerstroemia_indica.pdf> acessado em: 08/10/2011.
SPECIES FUNGORUM 2011 Disponível em: http://www.speciesfungorum.org/Names/ SynSpecies.asp?RecordID=464030 acessado em: 06/10/2011.
ZIPCODEZOO 2011 Disponível em: <http://zipcodezoo.com/Fungi/E/Erysiphe_australiana/ > acessado em: 10/10/2011.

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