segunda-feira, 2 de maio de 2011

INCIDÊNCIA DE CERCOSPORIOSE (Cercospora sp.) EM MUCUNA (Mucuna pruriens)

Bruno Barboza dos Santos

INTRODUÇÃO

A Mucuna pruriens (L) é uma leguminosa anual, originária do Sudeste da Ásia tem como nome comum mucuna preta (Brasil). Apresenta a inflorescência de racemos axilares multifloridos, corola violácea de cor branca, folha trifoliada com folículos grandes e membranosos, sua vagem contém até 6 (seis) sementes de coloração preta, com hilo branco e saliente. É tolerante à seca, sombra, altas temperaturas e ligeiramente resistente ao encharcamento. Tem estabelecimento rápido, competindo bastante, com ervas daninhas. Grande produtora de massa verde. Adaptam-se aos mais diferentes tipos de solo, desde os arenosos até os argilosos, com média fertilidade. É grande produtora de matéria orgânica, quando usada como adubo verde e seu principal atributo é o crescimento no outono.
De acordo com Wikipédia, 2011, Mucuna pruriens é uma planta leguminosa que possui em sua raiz bactérias que tem como características fixar o nitrogênio do ar e os transformam em nitratos no solo. Planta proveniente da Índia, reconhecida pelas suas propriedades afrodisíacas. Estimula também a deposição de proteínas nos músculos e aumenta a força e a massa muscular. Aumenta os níveis de L-Dopa, um inibidor da somatostatina. O seu extrato é também conhecido por estimular o estado de alerta e melhorar a coordenação.
INDICAÇÕES - Para doença de Parkinson (contém L-dopa natural). - Para impotência e disfunção erétil. - Como afrodisíaco e para aumentar a testosterona. - Como anabólico e androgênio, fortalecendo os músculos e ajudando a estimular o hormônio do crescimento. - Ajudando na perda de peso.
Estudos também mostraram que as sementes de M.pruriens podem provocar um aumento significante na contagem de espermatozóides, vesículas seminais e próstata dos ratos albinos tratados. Estudos farmacológicos mostraram sua utilidade como estimulante de SNC, anti-hipertensivo, estimulante sexual e mais.
Em março de 2011, no Instituto Federal Goiano campus Urutaí – Goiás, situado na Rodovia Geraldo Silva Nascimento Km 2.5, foram coletadas diversas folhas de mucuna as quais apresentaram sintomas de mancha foliar.
O objetivo do trabalho foi de identificar e descrever o fungo Cercospora sp. causador da Cercosporiose da M.pruriens, destacando os sintomas, etiologia e controle da doença.

MATERIAIS E MÉTODOS

As diversas folhas de M.pruriens apresentavam sintomas de mancha foliar, após a obtenção desse material, o mesmo foi levada ao laboratório de microbiologia, onde se observou os sintomas no microscópio estereoscópico, em seguida através do método de pescagem direta, retirou-se estruturas do patógeno depositou-as sobre uma lâmina contendo gotas do corante azul-de-algodão, em cima dos fragmentos deposita-se uma lamínula, faz- se a vedação com esmalte incolor, posteriormente realiza-se a observação em microscópico óptico com aumento de 10x e 40x, após a observação, a identificação do patógeno foi feita com base nos sintomas e na observação das estruturas fúngicas com o auxilio do professor doutor Milton Lima, chegou-se a conclusão que se tratava de uma cercosporiose, doença causada por fungos do gênero Cercospora.
Cortes histológicos foram realizados com uma lâmina afiada, para confecção de lâmina, onde foi utilizado fixador à base de azul-de-algodão. depositando-se os fragmentos e em seguida uma lamínula. A finalidade do corte histológico foi de mostrar a interação do patógeno com a planta.
Cercosporiose que é considerada uma doença secundária por sua baixa incidência e por ter disseminação bastante lenta, e por causar poucos danos à cultura. O gênero Cercospora é um dos maiores gêneros dos Hyphomycetos, foi descrito pela primeira vez por Fresen (1863) e possui como sinonímias: Psilothecium Fuckel (1866), Virgasporium Cooke (1875), Cercosporina Speg (1911), e é atualmente representado por cerca de 3054 espécies segundo Cyber Truffle, e o Index Fungorun, 2010) sendo que no Brasil já descritas 25 raças do fungo o qual tem a capacidade de desenvolver raças altamente patogênicas. A Cercospora canescens, uma das espécies mais importantes dentro deste complexo, a qual foi identificada causando danos em 123 espécies de 42 gêneros de fabaceas, e ainda parasita 13 espécies de outras 11 famílias diferentes.
Foi relatada pela primeira vez no Brasil no ano de 1953 segundo Alves R.C.. Atualmente é considerada uma das doenças de maior importância desde os surtos epidêmicos das safras de 2000 e 2001 nos híbridos altamente produtivos na região sudoeste do estado de Goiás. Severas perdas na produção de milho foram posteriormente constatadas nas regiões de Paracatu em MG e de Dourados no MS. Os componentes da produção mais afetados pela doença são o número de grãos por espiga e o tamanho do grão. A mancha “olho-de-rã” causada também por uma espécie do gênero Cercospora, hoje está sob controle no Brasil devido ao uso de cultivares resistentes, mas foi a primeira doença epidêmica da cultura da soja no país, responsável por grandes perdas até o final da década de 80.
Segundo Pedro W.C. as espécies de cercospora que causam manchas foliares em mucuna são: Cercospora apii, Cercospora canescens, Cercospora cruenta (Mycosphaerella cruenta, Pseudocercospora cruenta), Pseudocercospora mucunae-ferruginae, Passalora mucunicola, Sojina passalora, Pseudocercospora stizolobii, Mucunae passalora.
De acordo com o USDA – 2011, a espécie Cercospora mucunicola tem 5 registros os quais foram em Cuba, República Dominicana e Venezuela, já a espécie Cercospora apii, possui 42 registros nos seguintes países Colõmbia, Cuba, Geórgia, Jamaica, Malásia, Porto Rico, República Dominicana, Rússia, Trinidad e Tobago, Uganda, Venezuela, a espécie Mycosphaerella cruenta possui 77 registros sendo eles no: Brasil, China, Cuba, EUA, Geórgia, Granada, Índia, Jamaica, Porto Rico, República Dominicana, Rússia, São Vicente, Sta Lúcia, Taiwan, Tanzânia, Trinidad e Tobago, Uganda, Venezuela, a espécie Pseudocercospora mucunicola possui 1 único registro o qual foi realizado na china em folhas de Discocleidion rufescens, a espécie Pseudocercospora stizolobii possui 2 registros os quais foram realizados na Venezuela.

Tabela1 - Comparação de caracteres morfométricas do isolado encontrado com os critérios estabelecidos para Cercospora sp..

Caracteres de morfometria Espécie em estudo Chup (1954) Hsieh & Goh (1990)
Tamanho da lesão(cm) 0,2-0,4 2-1,2 1-5,0
Dimensões dos conídios(µm) 25-62,5 x 0,5-0,6 20-80 x 4-7 30-100 x 2-7
Formato do conídio Cilíndrico Desuniforme Desuniforme
Presença de septos Presente Presente Presente
Número de septos 3-9 3-7 3-17
Posição esporos na folha Face abaxial Face abaxial Face abaxial
N°conidióforo/esporodóquios 7-10 - -

Hospedeiro/Cultura: Mucuna (Mucuna pruriens L.)
Família Botânica: Fabaceae
Doença: Cercosporiose
Agente Causal: Cercospora sp.
Local de coleta: Instituto Federal Goiano campus Urutaí - Goiás
Data: Março de 2011.

Taxonomia: A Cercospora sp. pertence ao reino fungi, filo Deuteromycota, classe Hiphomycetes, ordem Moniliales, família Dematiaceae e gênero Cercospora sp. (Bergamin Filho et al., 1995). Relataram que estes fungos pertencem ao Reino Fungi, ao grupo dos fungos mitospóricos, sub-grupo dos hifomicetos.

Sintomatologia: Os sintomas são manchas arredondadas, pequenas, bem delimitadas em sua largura, pelas nervuras principais da folha, acinzentadas, com halo escuro, apresentando pequenas pontuações. Essas manchas são mais freqüentes em folhas adultas. Os aspectos mais visíveis do ataque são manchas foliares necróticas sem formas definidas que são encontradas com freqüência nos bordos do limbo foliar podendo ocorrer em outras partes do limbo e também em outros órgãos da planta nas hastes, ramos e vagens, todas as partes aéreas das plantas, chegando a causar a desfolhação total. A doença se carateriza por causar manchas necróticas nas folhas, depreciando seu valor comercial. As lesões ocorrem principalmente nas folhas trifoliadas, embora algumas espécies possam atacar também as folhas primárias unifoliadas. As manchas foliares se tornam mais graves durante o tempo úmido e quente. Os primeiros sintomas são geralmente observados na fase de floração nas folhas inferiores. A colonização ocorre no limbo foliar, podendo abranger extensas áreas necrosadas. Sob condições de alta umidade, as lesões ficam cobertas por esporos e passam de uma coloração verde-oliva para cinza. As lesões mais jovens apresentam um halo amarelado característico, quando observadas através da luz. Em um período de 14 a 21 dias, essas lesões ficam maiores. Quando as lesões cobrem a maior parte da área fotossintética, a perda de água resultante determina também a deterioração. Isso pode ocorrer quando há formação de grande quantidade de lesões foliares.
De acordo com Rios (1988) a doença surge preferencialmente por ocasião do início da floração. Nos folíolos, observam-se manchas necróticas, secas, ligeiramente deprimidas e contorno irregular, notadamente, nas lesões mais velhas (Ponte, 1996). Com a evolução da doença, a coloração do centro da lesão torna-se pardo-acinzentada, sendo o conjunto, circundado por um discreto halo clorótico. Em condições de elevada umidade, sobressai da superfície da mancha, uma massa compacta marrom, que corresponde as estruturas reprodutivas do patógeno. Segundo Ellis (1971) o fungo Cercospora possui micélio imerso na maior parte, o estroma está presente com bastante freqüencia, os conidióforos são fasciculados, em linha reta ou flexuosa, simples ou raramente ramificados, algumas vezes geniculados, liso, castanho claro ao marrom. As células conidiogênicas são integradas, poliblásticas, simpodiais, os conídios multiseptados, cilíndricos, solitários, secos, lisos e simples.

Etiologia: São patógenos saprófitas facultativos, pois passam à maior parte de seu ciclo parasitando sua hospedeira. São altamente especializados e possuem restrito ciclo de hospedeiros. As principais hospedeiras deste complexo de fungos são plantas da família botânica Leguminosae. O fungo apresenta conidióforos pigmentados que ocorrem agregados em fascículos, formando esporodóquios e conídios hialinos medindo 4 a 9 µm por 40 a 165 µm,, septados do tipo filiforme, são geralmente encontrados em feixes de dois ou três conidióforos principalmente na parte abaxial das folhas.

Epidemiologia: Restos culturais apresentam uma potencial fonte de inóculo do fungo, pois se trata de um patógeno saprófita facultativo, ou seja, em uma parte da vida pode ficar de forma latente no solo ou em restos culturais, no entanto quando houver hospedeiro ele se instalará. O fungo pode sobreviver nas sementes contaminadas e sobre os restos de colheita deixados no solo. Os conídios produzidos sobre os restos vegetais no solo podem ser disseminados pelas águas de irrigação ou serem levados pelo vento para as folhas, onde germinam e iniciam a infecção. O fungo sobre as sementes contaminadas germina junto com estas e parasita as folhas primárias, onde se formam os conídios que servirão para a infecção secundária (AGROFIT, 2011).

As lesões resultantes da infecção inicial produzem esporos que são transportados pelo vento ou por respingos de chuva para as folhas superiores dando início aos ciclos posteriores. As condições ambientais favoráveis ao patógeno são de temperaturas na faixa de 22 a 30°C e umidade do ar elevada, mas sem água livre sobre as folhas, já que o desenvolvimento do tubo germinativo é reduzido sob a presença de água. Este patógeno possui um longo período latente comparado com outros patógenos foliares, alto potencial de esporulação e o número de lesões podem aumentar rapidamente podendo atingir as folhas mais jovens na parte superior da planta.

Controle: Fungicidas são eficientes no controle da cercosporiose, mas é uma prática de custo elevado. A rotação de culturas com espécies não suscetíveis é uma forma eficiente para reduzir a fonte de inóculo primário. Plantar cultivares diferentes em uma mesma área e em cada época de plantio dificulta a adaptação do patógeno e a realização de adubações de acordo com as recomendações técnicas, evita desequilíbrios nutricionais nas plantas de milho que são favoráveis ao desenvolvimento deste patógeno, principalmente a relação nitrogênio/potássio. (Alves R.C.)
Os restos de culturas devem ser retirados do campo e queimados ou enterrados, assim como eliminar, da vizinhança da lavoura, as plantas estreitamente relacionadas que possam servir de hospedeiro alternativo. Evitar os solos mal drenados ou com possibilidade de encharcamento. Realizar rotação de cultura com plantas não-hospedeiras. Aplicações de fungicidas cúpricos, ditiocarbamatos, (Agrolinkfito, 2011) os quais registrados para a cultura no começo do cultivo garantem bom controle da doença, e segundo BASF, 2011 aplicações com metconazol (triazól), epoxiconazol + piraclostrobina, (triazól + estrobirulina) garantem bom controle da doença.







FIGURA 1: Prancha de fotos referentes à Cercosporiose em Mucuna pruriens. A- Trifólio de mucuna apresentando sintomas de mancha foliar (cercosporiose) em sua face adaxial. B- Trifólio de mucuna apresentando sintomas de mancha foliar (cercosporiose) em sua face abaxial. C- Folha apresentando confluência de necroses na sua face adaxial D- Flores de mucuna. E- Fruto de mucuna. F- Várias necroses na parte abaxial da folha, e no detalhe podem observar que, o patógeno também faz a infecção das nervuras da folha. G- Na face adaxial da folha observam-se necroses com coalecência aquosa. H- Observa-se estruturas do fungo no centro da lesão, parte abaxial da folha. I- Agrupado de conídios, no detalhe a presença do estroma (estrutura de fixação no hospedeiro). J- Conídio, hialino, septado.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AGROFIT – Sistema de Agrotóxicos Fitossanitários. Disponível em:>http://extranet.agricultura.gov.br/agrofit_cons/principal_agrofit_cons<. Acessado em: Março de 2011.




AGROLINK – Disponível em: >http://www.agrolink.com.br/agrolinkfito%2fsecure%2fBuscaDiretaProduto.aspx< Acessado em: Abril de 2011.




Alves R. C.; Departamento de Fitossanidade, UFRGS Disponível em: >http://www6.ufrgs.br/agronomia/fitossan/fitopatologia/ficha.php?id=257 < Acessado em: Abril de 2011.




BASF – The Chemical Company - Disponível em: > http://www.agro.basf.com.br/UI/Default.aspx < Acessado em: Abril de 2011.




CAMARGO, L.E.A.; PEREIRA, O.A.P.; DE CARVALHO, R.V. Doenças do milho. In: KIMATI, H.; AMORIM, L.; BERGAMIN FILHO, A.; CAMARGO, L.E.A.; REZENDE, J.A.M. (Eds.) Manual de fitopatologia: doenças das plantas cultivadas. 4. ed. São Paulo: Agronômica Ceres, 2005. v.2, p. 477-488.




CYBER TRUFFLE, Disponível em: >http://www.cybertruffle.org.uk/cgi-bin/nome.pl?organism=3442&glo=por < Acessado em: Abril de 2011.




DATA BASE - Disponível em:>http://nt.arsgrin.gov/fungaldatabases/new_allViewgenBank.cfmwhichone=all&thisName=Cercospora< Acessado em: março de 2011.




ELLIS, M.B.; Dematiaceous Hyphomycetes. Ed. CAB - Commonwealth Mycological Institute Kew, Surrey, England. 1971.




INDEX FUNGORUM - Disponível em: http://www.indexfungorum.org/Names/Na-mes.asp. Acessado em: Abril de 2011.




MENDES, M. A. S.; URBEN, A. F.; Fungos relatados em plantas no Brasil, Laboratório de Quarentena Vegetal. Brasília, DF: Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia. Disponível em: http://pragawall.cenargen.embrapa.br/aiqweb/michtml/fgbanco01.asp. Acessado em: Abril de 2011.




MYCOBANK – Disponível em: >http://www.mycobank.org/MycoTaxo.aspx?Link=T&Rec=158637< Acessado em Abril de 2011.




USDA - United States Departament of Agriculture. Disponível em: >http://nt.arsgrin.gov/fungaldatabases/new_allViewgenBank.cfm?whichone=all&thisName=Cercospora20mucunaecola&organismtype=Fungus&fromAllCount=yes< Acessado em: Abril de 2011.




UFRGS – Disponível em: >http://www6.ufrgs.br/agronomia/fitossan/fitopatologia/index.php < Acessado em Abril de 2011.

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