segunda-feira, 2 de maio de 2011

Crestamento foliar e mancha púrpura da semente (Cercospora kikuchii) da soja (glycine Max).

Guilherme Augusto M. Padovani

INTRODUÇÃO

No mundo existem 64 registros de Cercospora kikuchii afetando as seguintes espécies Clamopsis tetragonoloba, Glycine soja, Glycine sp., Glycine tobacina, Glycine ussuriensis, Vigna prainina e Glycine max. Glycine max nas seguintes regiões: Arkansas, Brasil, Brunei Darussalan, China, Colômbia, Cuba, Figi, Florida, Iowa, Illinois, Índia, Japão, Coréia, Louisiana, Malásia, Marylard, México, Mississipi, Carolina do Norte, Nigéria, Paquistão, Dakota do Sul, Somália, África do Sul, Taiwan, Tanzânia, Tailândia, Estados Unidos e Virgínia, (FARR & ROSMAN, 2011).
No Brasil existem 80 publicações, provocando os seguintes sintomas: infecção latente, mancha foliar, mancha púrpura, mancha púrpura da semente, mancha púrpura do grão, cercosporiose, crestamento e crestamento foliar sendo registrados nos seguintes estados: MS, RS, PR, MA, PI, SP, GO, DF, MT e PE, (CENARGEM, 2011).
Pode ocorrer junto com a mancha parda e, freqüentemente, devido às dificuldades que apresentam nas avaliações individuais são consideradas como um complexo de doenças de final de ciclo (KIMATI, H. et al, 2005).
A predominância de uma ou de outra doença pode ser notada pela coloração das folhas na fase de maturação. Quando o amarelecimento natural das folhas é rapidamente substituído por pequenas manchas de coloração parda ou crestamento castanho-claro, seguida de desfolha prematura, a predominância é da septoriose, quando a coloração das folhas muda rapidamente do verde para o castanho-escuro ou castanho-avermelhado, a predominância e crestamento de Cercospora, (KIMATI, H. et al, 2005).
Além do crescimento foliar, e elevada incidência da doença ocorrida no campo pode ser observada também após a colheita, pela alta freqüência de sementes com mancha púrpura. Em ambos os casos, a mudança de coloração das folhas é seguida de rápida desfolha, enquanto as vagens ainda estão verdes. A antecipação da desfolha força a maturação antes que haja a completa formação dos grãos. A redução da produtividade pode atingir ate 30% em relação a uma planta sadia (KIMATI, H. et al, 2005).
Segundo Tanaka & Yorinori (1985), se a infecção causada por C. Kikuchii ocorrer na fase de enchimento dos grãos, as plântulas resultantes dessas sementes podem apresentar necroses dos cotilédones e embrião, e as sementes constituem importante veículo de disseminação do fungo.
O objetivo deste trabalho é identificar, descrever e apontar medidas de controle de C. kikuchii incidente em folhas de soja.


MATERIAIS E MÉTODOS

Vagens de soja apresentando sintomas de mancha púrpura da semente foram coletadas no campo experimental do IF Goiano e levadas ao Laboratório de Microbiologia. Utilizando-se o método de “pescagem direta”, preparou-se lâminas semi-permanentes utilizando corante azul de algodão. Após confecção da lâmina ela foi observada em microscópio óptico onde foram analisadas as estruturas morfológicas para caracterização. As lâminas semi-permanentes após analisadas foram vedadas com esmalte, para visualização.
Foi depositado de duas a três gotas de corante azul-de-algodão em uma lâmina de microscópio e as pescagem das estruturas (utilizando pinça anatômica) feitos na lupa, foram depositados sobre uma lâmina de microscópio contendo fixador, logo após foi adicionado uma lamínula e realizado a vedação com esmalte. As lâminas contendo estrutura do fungo e a interação do patógeno-planta foram analisadas em microscópio óptico. Foram realizados procedimentos de macro e microfotografia digital utilizando máquina digital (Sony Power Shot A580). As fotos, contendo diferentes estruturas do fungo C. kikuchii, foram organizadas em uma prancha de fotos, feitas com o auxílio do computador, todas devidamente identificadas.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Hospedeiro/cultura: Soja (Glycine max (L.)Merrill).
Família Botânica: Fabaceae
Doença: Crestamento foliar de cercospora e mancha púrpura da semente
Agente Causal: Cercospora kikuchii Matsumoto & Tomoy. (1925).
Local de Coleta: Fazenda Palmital, Urutaí, GO.
Data de Coleta: 22/03/11

Taxonomia: O fungo pertence ao Reino Fungi, Divisão Ascomycota, Classe Dothideomycetes, Sub-classe Dothideomycetidae, Ordem Capnodiales, Família Mycosphaerellaceae, Gênero Cercoseptoria e Espécie Cercospora kikuchii (INDEX FUNGORUM, 2011).

SINTOMATOLOGA

Cercospora Kikuchii ataca todas as partes das plantas e pode ser responsável por severas reduções do rendimento e da qualidade da semente, (KIMATI, H. et al, 2005).
Folhas: Manchas pequenas, castanho-avermelhadas, que aumentam de tamanho até coalescerem para formar grandes áreas castanho-escuras que provocam o característico crestamento da doença e a queda prematura das folhas. Vagens: Manchas punctiformes, vermelhas, que crescem e adquirem uma coloração castanho-avermelhada e atravessam todo o tecido da vagem até atingir as sementes e infectá-las, produzindo a característica coloração púrpura no seu tegumento. Hastes: Manchas vermelhas, irregulares, limitadas quase sempre ao córtex; em algumas ocasiões, nas infecções dos nós, o fungo pode atingir a medula e provocar necrose avermelhada. Sementes: A infecção do fungo pode ser superficial, encontrando-se o micélio principalmente na terceira camada do tegumento, porém, em infecções mais severas, o fungo pode penetrar através do hilo, alojando-se no parênquima estelar, no embrião e no sistema vascular da semente. A coloração púrpura está limitada às duas camadas externas do tegumento. A ausência da cor púrpura em sementes produzidas em campos infectados por C. kikuchii não é garantia de que esteja livre do patógeno, pois o mesmo pode ocorrer como contaminante externo e transmitir a doença, (AGROFIT, 2011).

ETIOLOGIA

Cercospora kikuchi esporula na superfície do tecido infectado e morto, produzindo abundantes conídos hialinos, aciculares, retos ou curvos, com tamanhos variáveis medindo 4,0-5,0 µm x 70,0-164 µm, a 1,3-61,1 µm x 38,8-445,0 µm. Estudo realizado sobre isolados de C. Kikuchii obtidos de diferentes regiões de cultivo da soja do Brasil e com diferentes expressões de sintomas foliares, mostrou que o fungo apresenta grandes variações morfológicas, isoenzimáticas e patogênica, (KIMATI, H. et al, 2005).
Cercospora kikuchii ela foi descrita por Matsumoto & Tomoy,(1925) e apresenta manchas foliares subcirculares, pode ser elíptica ou irregular, muitas vezes alongadas nas margens das folhas, e apresenta de 3-15 mm. Elas se estendem nas nervuras, possuem coloração marrom-palha ou coloração acinzentada no centro, com algumas tonalidades marrom-avermelhadas ou margens violeta, as frutificações são anfígenas (ficam tanto na parte abaxial como adaxial) e incidem também sobre caules e sementes. O estroma é pequeno, os fascículos são densos, muitas vezes as espécies apresentam apenas 2 a 5 agrupamentos de conidióforos, que são divergentes (os conidióforos crescem para todos os lados), os conidióforos em meio possuem coloração escura marrom, são uniformes e de coloração no topo palha, são multseptados e geniculados, eles não são ramificados e são subtrucados, apresentam de 45-220 µm x 4-6 µm os conidióforos, conídios são hialinos, aciculados (em formato de agulha), multseptados em alguns casos são retos ou curvados e possui base truncada, o topo é sub-acuntato para sub-obtuso e apresenta de 50-375 µm x 2,5-5 µm, em algumas coleções ele são maiores 100 µm de comprimento.
NOTA: No começo Cercospora kikuchii foi considerado sinonímia de C. canescens, a qual se assemelha, eles possuem fascículos muito densos, escuros, conidióforos escuros e geralmente mais curtos que o conídio, (CHUPP, 1953).

EPIDEMIOLOGIA

O fungo sobrevive nos restos culturais e principalmente nas sementes; quando estas são armazenadas a temperaturas baixas (menores de 16°C), a sobrevivência do patógeno prolonga-se por muito tempo. O desenvolvimento da doença é favorecido pela umidade e temperatura altas; solos com baixa fertilidade podem predispor as plantas a um ataque mais severo do patógeno na haste, chegando a atingir até a medula, (AGROFIT, 2011).
Além da soja (Glycine max), C. kikuchii já foi registrado nos seguintes hospedeiros: Cyamopsis tetragonoloba, G. soja, G. tabacina, G. ussuriensis e Vigna prainiana, (AGROFIT, 2011).
Em áreas recém-desbravadas ou com fertilidade deficiente, pode causar desfolhas acentuadas a partir do final da floração (R3). Seus efeitos são mais visíveis após os estádios de completa formação da vagem (R6) e inicio da maturação (R7.1), (KIMATI, H. et al. 2005).

CONTROLE

A maioria das variedades é suscetível a ambas as doenças de final de ciclo, porém algumas apresentam diferenças de reação. Um exemplo é a variedade Davis, que é altamente suscetível a mancha parda, mas apresenta resistência ao crestamento foliar e a mancha púrpura da semente. Os fungicidas registrados no Ministério da Agricultura para a mancha púrpura da semente crestamento foliar em soja são: Abacus HC - epoxiconazol (triazol) + piraclostrobina (estrobilurina), Alterne - tebuconazol (triazol) , Anchor SC - carboxina (carboxanilida) + tiram (dimetilditiocarbamato), Aproach Prima - ciproconazol (triazol) + Picoxistrobina (estrobilurina), Apron RFC - fludioxonil (fenilpirrol) + metalaxil-M (acilalaninato), Array 200 EC - tebuconazol (triazol), Artea - ciproconazol (triazol) + propiconazol (triazol), Atempla - carbendazim (benzimidazol), Band flutriafol (triazol), Bavistin - carbendazim (benzimidazol), Bendazol - carbendazim (benzimidazol), Buran - flutriafol (triazol), Capo WG - tiofanato-metílico (benzimidazol), Carben 500 SC - carbendazim (benzimidazol), - Carbendazim CCAB 500 SC carbendazim (benzimidazol), Carbomax 500 SC - carbendazim (benzimidazol), - Celeiro flutriafol (triazol) + tiofanato-metílico (benzimidazol), Cercobin 500 SC - tiofanato-metílico (benzimidazol), Cercobin 700 WP - tiofanato-metílico (benzimidazol), Certeza - fluazinam (fenilpiridinilamina) + tiofanato-metílico (benzimidazol), Change - carbendazim (benzimidazol) Comet - piraclostrobina (estrobilurina), Concreto - carbendazim (benzimidazol), Constant - tebuconazol (triazol), CYPRESS 400 EC - ciproconazol (triazol) + difenoconazol (triazol), - Czar carbendazim (benzimidazol), Decisor flutriafol (triazol), Delsene SC - carbendazim (benzimidazol) delsene wg carbendazim (benzimidazol), Derosal Plus - carbendazim (benzimidazol) + tiram (dimetilditiocarbamato), Derosal 500 BCS - carbendazim (benzimidazol), Derosal 500 SC - carbendazim (benzimidazol), Difenohelm - difenoconazol (triazol), Domark 100 EC - tetraconazol (triazol), Egan - tebuconazol (triazol), Elite - tebuconazol (triazol), Emerald - tetraconazol (triazol), Emerald 230 ME - tetraconazol (triazol), Eminent 125 EW - tetraconazol (triazol), Estrela 500 SC - tiofanato-metílico (benzimidazol), Euparen M 500 WP - tolifluanida (fenilsulfamida) Fagot - ciproconazol (triazol) + trifloxistrobina (estrobilurina), Fianco SC - tiofanato-metílico (benzimidazol), Fiera WG - tiofanato-metílico (benzimidazol), Flexin - flutriafol (triazol), Folicur 200 EC - tebuconazol (triazol), FOX - Protioconazol (Triazolinthione) + trifloxistrobina (estrobilurina), Fungicarb 500 SC - carbendazim (benzimidazol), Guapo – epoxiconazol (triazol) + cresoxim-metílico (estrobilurina), Impact Duo - flutriafol (triazol) + tiofanato-metílico (benzimidazol), Impact 125 SC - flutriafol (triazol), Imperadorbr - carbendazim (benzimidazol), Kobutol 750 - quintozeno (cloroaromático), Konazol 200 EC - tebuconazol (triazol), Lead - carbendazim (benzimidazol), Mandarim - carbendazim (benzimidazol), Maxim XL - fludioxonil (fenilpirrol) + metalaxil-M (acilalaninato), Metiltiofan - tiofanato-metílico (benzimidazol), Minx 500 SC - carbendazim (benzimidazol), Mofotil - tiofanato-metílico (benzimidazol), Nativo - tebuconazol (triazol) + trifloxistrobina (estrobilurina), Novazin Cheminova - carbendazim (benzimidazol), Opera - epoxiconazol (triazol) + piraclostrobina (estrobilurina), Oranis - Picoxistrobina (estrobilurina), Orius 250 EC - tebuconazol (triazol), Pomme - tiofanato-metílico (benzimidazol), Portero - carbendazim (benzimidazol), Potenzor - flutriafol (triazol), Prevent - carbendazim (benzimidazol), Priori - azoxistrobina (estrobilurina), Priori Xtra - azoxistrobina (estrobilurina) + ciproconazol (triazol), Prisma - difenoconazol (triazol), Proline - Protioconazol (Triazolinthione), Protectin - tiofanato-metílico (benzimidazol), Protreat - carbendazim (benzimidazol) + tiram (dimetilditiocarbamato), Rival 200 EC - tebuconazol (triazol), Rodazim 500 SC - carbendazim (benzimidazol), Score - difenoconazol (triazol), Sementiran 500 SC - tiram (dimetilditiocarbamato), Simboll 125 SC – flutriafol (triazol), Skip 125 SC - flutriafol (triazol), Sphere Max - ciproconazol (triazol) + trifloxistrobina (estrobilurina), Spring WG - tiofanato-metílico (benzimidazol), Standak Top - fipronil (pirazol) + piraclostrobina (estrobilurina) + tiofanato-metílico (benzimidazol), Stratego 250 EC - propiconazol (triazol) + trifloxistrobina (estrobilurina), Support - tiofanato-metílico (benzimidazol), Support WG - tiofanato-metílico (benzimidazol), Systemic - tebuconazol (triazol), Tarkill SC - carbendazim (benzimidazol), Tasker - flutriafol (triazol), Tatico - flutriafol (triazol), Tebuco Nortox - tebuconazol (triazol), Tebuconazole Nortox - tebuconazol (triazol), Tebuconazole Nortox 200 EC - tebuconazol (triazol), Tebufort tebuconazol (triazol) Tebuhelm tebuconazol (triazol) Tebuzol 200 EC - tebuconazol (triazol), Tema - carbendazim (benzimidazol), Thiram 480 TS - tiram (dimetilditiocarbamato), Tidy 700 - tiofanato-metílico (benzimidazol), Tornado - flutriafol (triazol), Triade tebuconazol (triazol), Trinity 250 SC - flutriafol (triazol), Vincit 50 SC – flutriafol (triazol), Viper 700 - tiofanato-metílico (benzimidazol), Vitavax Thiram 200 SC – carboxina (carboxanilida) + tiram (dimetilditiocarbamato), Vitavax-Thiram WP - carboxina(carboxanilida) + tiram (dimetilditiocarbamato), (AGROFIT, 2011).
Com as aplicações a serem feitas entre os estádios R5.1 a R5.3, dependendo das condições climáticas, e da fertilidade do solo. Em virtude da fácil disseminação do fungo C. Kikunchii, o tratamento de sementes com fungicidas é recomendado (KIMATI, H. et al, 2005).
A incidência das doenças de final de ciclo (DFC) pode ser reduzida através da integração do tratamento químico das sementes com a incorporação dos restos culturais e a rotação da soja com espécies não suscetíveis, como o milho e a sucessão com o milheto. Desequilíbrios nutricionais e baixa fertilidade do solo tornam as plantas mais susceptíveis, podendo ocorrer severa desfolha antes mesmo de a soja atingir a meia grana (estádio de desenvolvimento R5.4) . A ocorrência de veranico durante o ciclo da cultura reduz a incidência, tornando desnecessária a aplicação de fungicidas, (EMBRAPA SOJA, 2011).








FIGURA 1: Mancha púrpura da semente incidente em soja (Glycine Max) A. e C. Vagem apresentando sintomas da doença . B. mancha necrótica na haste sem forma definida D. agrupamento de conídios com conidióforo convergente (bar=15,5) e E. conidióforo topo subacuntato (bar=10,8). F. G. e H. conídio hialino septado (bar=10,5).

LITERATURA CITADA

AGROFIT, sistema de agrotóxicos fitossanitários. Disponível em:, acessado em 11 de maio de 2011.


CENARGEN, Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia. Disponível em: Acesso em 14 de maio de 2011.

CHARLES CHUPP, A Manograph of the Fungus Genus Cercospora by professor of Pathology, Cornell University ITHACA, NEW YORK, 1953.

EMBRAPA SOJA. Recomendações técnicas para a cultura da soja no Paraná 1999/2000. Londrina, 1999. p. 103, 109. (Embrapa Soja. Documentos,131).

FARR, D. F., & ROSMAN, A. Y., Fungal Databases, Systematic Botany of Mycological Resources, ARS, USDA. Disponível em: Acessado em: 10 de maio de 2011.

INDEX FUNGORUM, banco de dados para consulta de táxons fungicos. Disponível em: . Acesso em: 7 de maio de 2011.

KIMATI, H.; AMORIM, L.; REZENDE, J.A.M.; BERGAMIN FILHO, A.; CAMARGO, L.E.A. Manual de fitopatologia: Doenças das plantas cultivadas;. 4ª Ed.vol. 2, p. 573 – São Paulo: Agronômica Ceres, 2005.

TANAKA, M.A.S. & YORINORI. J.T. Doenças causadas por fungos em soja. Informe Agropecuário, Belo Horizonte, 11(123):76-81, 1985.

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