quarta-feira, 3 de novembro de 2010

DOENÇAS DA MAMONEIRA (Ricinus communis)

1 INTRODUÇÃO

A mamoneira parece ter, na Etiópia (África), o seu centro de origem. No mundo sementes foram encontradas nas tumbas de antigos egípcios e hoje a planta parece ser importante para Israel (que lidera produção de sementes híbridas). Foi introduzida no Novo Mundo pelos escravos.
O Brasil já foi maior produtor mundial de mamona (573 mil toneladas em 1974) e maior exportador do seu óleo (há algumas décadas); em 1996 a produção nacional foi de 122 mil toneladas. No Nordeste semi-árido brasileiro concentra-se a produção nacional (80%). Na Bahia a cultura da mamoneira - ricinocultura - é importante para as regiões agrícolas de Irecê, Jacobina, Itaberaba, Senhor do Bonfim, Seabra, Brumado.
A mamona (Ricinus communis L.), pertence à família Euphorbiaceae, que engloba vasto número de tipos de plantas nativas da região tropical. É uma planta de hábito arbustivo, com diversas colorações de caule, folhas e racemos (cachos), podendo ou não possuir cera no caule e pecíolo. Os frutos, em geral, possuem espinhos e, em alguns casos, são inermes. As sementes apresentam-se com diferentes tamanhos, formatos e grande variabilidade de coloração (Savy Filho, 2010).
O óleo de mamona ou de rícino, extraído pela prensagem das sementes, contém 90% de ácido graxo ricinoléico, o qual confere ao óleo suas características singulares, possibilitando ampla gama de utilização industrial, tornando a cultura da mamoneira importante potencial econômico e estratégico ao País. A torta de mamona é utilizada como adubo orgânico possuindo, também, efeito nematicida.
O óleo de mamona é uma fonte quase pura do ácido graxo ricinoléico, cujas propriedades e estrutura da cadeia carbônica conferem as propriedades singulares do óleo de mamona.
A cadeia carbônica do ácido graxo ricinoléico proporciona sítios em que são realizadas reações químicas, com obtenção de gama variada de derivados pela modificação da estrutura da cadeia carbônica. São mencionadas cerca de quatrocentas aplicações do óleo de mamona, a maioria na formulação de produtos biodegradáveis, geralmente invisíveis aos leigos.

2 DESENVOLVIMENTO
2.1 DOENÇAS DA CULTURA
2.1.1 MOFO CINZENTO - Botrytis ricini
Constatada pela primeira vez no Brasil em 1932, atualmente é a doença mais importante da cultura. Sob condições climáticas favoráveis, promove rápida e completa destruição dos cachos, causando grandes prejuízos à produção.
Os problemas com o mofo cinzento agravaram-se a partir da intensificação do cultivo da mamoreira e da introdução de variedades mais produtivas, porém nem sempre mais resistentes.
Sintomas – O fungo ataca as inflorescências e os frutos da mamoreira em qualquer fase de desenvolvimento. Inicialmente, surgem manchas azuladas com exsudação amarela nas áreas afetadas. Se as condições ambientais forem favoráveis, o fungo continua a colonização, podendo cobrir grandes extensões dos cachos com uma massa micelial olivácea, de aspecto mofoso. O fundo esporula abundantemente nessa massa de micélio, desprendendo uma verdadeira nuvem acinzentada de conídios quando se agitam os cachos afetados. Em conseqüência, ocorre completa deterioração das inflorescências e dos frutos e os cachos tornam-se frouxos e com as cápsulas pendentes. As sementes das cápsulas afetadas apresentam desde redução no teor de óleo até chochamento completo, dependendo do estágio em que ocorreu a infecção. Infecções em folhas e hastes também podem ocorrer, entretanto são bem pouco freqüentes.
Etiologia – Botrytis ricini é um Fungo Mitospórico, cuja fase perfeita corresponde ao ascomiceto Botrytinia ricini, ainda não relatado no Brasil. Este fungo sobrevive de um cultivo para o outro em mamoneiras que crescem espontaneamente. A formação de escleródios, relatada somente em condições de laboratório, deve ocorrer no campo durante os meses mais frios.
A disseminação dos esporos é feita principalmente pelo vento, porém alguns insetos, atraídos pela grande exsudação de néctar nas flores, também desempenham papel na disseminação do fungo.
Temperaturas em torno de 25°C e umidade elevada são as condições mais favoráveis à ocorrência de epidemias do mofo cinzento.
Controle – Informações sobre o nível de resistência das nossas variedades ainda são muito escassas. Sabe-se que algumas características da planta influenciam sua reação a B. ricini. Assim, por exemplo, as variedades anãs e com inflorescências compactas, apesar de permitirem colheita mecanizada, têm se mostrado mais suscetíveis à doença devido à formação de um microclima favorável no interior das copas. Por outro lado, as variedades que possuem as cápsulas sem acúleos são mais resistentes em condições de campo. Um recente estudo, nas condições do agreste de Pernambuco, revelou como promissoras as variedades MP AI T63/6, Canela de Juriti, Sipeal 28, Sipeal 04, CNPA SM, Sangue de Boi, LC 5116 e Sipeal 09, enquanto que Poblacion Chajari, Baker 415-9 e Baker Hibrid 72 comportaram-se como as mais suscetíveis.
A redução do inoculo inicial, através da eliminação dos restos de cultura e das plantas que crescem espontaneamente, também é uma medida que auxilia muito no controle da doença. Além disso, o tratamento químico das sementes também contribui para a redução da população patogênica. Os produtos mais eficientes para este fim são benzimidazóis e thiram, porém o tratamento clássico de sementes de mamoneira é sua imersão por 20 minutos numa solução de 1 litro de fomaldeído 40% diluído em 240 litros de água.

2.1.2 Mancha Bacteriana das Folhas – Xanthomonas campestris pv. ricini
A mancha bacteriana ou bacteriose das folhas é uma doença que, apesar de relativamente comum, não apresenta, até o momento, importância nas nossas condições. Alem do Brasil, ocorre em outros países como Rússia, Japão, Coréia e Uganda. Os sintomas aparecem nas folhas, na forma de manchas angulares e encharcadas, verde-escuras no inicio, passando a amarelas e finalmente a castanho-escuras. O tecido necrosado rompe-se com facilidade, deixando perfurações no limbo foliar. Lesões semelhantes podem aparecer nas nervuras, frutos e racemos florais. Infecções intensas podem provocar desfolha prematura das plantas, contudo esta situação é rara. A bactéria X. campestris pv. ricini, também encontrada na literatura como X. ricinicola, é favorecida por temperaturas altas e umidade elevada. A disseminação entre campos de plantio é feita através de sementes contaminadas, enquanto que dentro do mesmo campo a água é o principal agente disseminador da bactéria. O controle pode ser feito com variedades Hale Lynn, de porte anão, são altamente resistentes à doença, sendo utilizadas como fontes de resistência em programas de melhoramento da mamoneira nos Estados Unidos. Uma prática recomendável é o uso de espaçamentos maiores no plantio, o que contribui para diminuir a umidade no interior da lavoura.

2.1.3 Murcha Bacteriana – Ralstonia solanacearum
É uma doença de pouca importância, ocorrendo mais frequentemente na estação chuvosa. Causa, normalmente, morte ou subdesenvolvimento de plantas no campo. Os sintomas típicos aparecem em dias quentes, após períodos chuvosos. Inicia-se com murcha das folhas mais velhas que, em poucos dias, evolui para toda a planta. A princípio, a planta recupera a turgescência à noite, posteriormente o quadro se torna irreversível e as folhas secam e caem. Às vezes ocorre subdesenvolvimento das plantas afetadas, que apresentam folhas em menor número e tamanho. O caule de plantas doentes, quando cortado transversalmente, exsuda um pus bacteriano facilmente visível quando imerso num recipiente com água. A bactéria R. solanacearum é um bastonete gram-negativo e uniflagelado. Por ser um patógeno encontrado no solo, a disseminação. A penetração ocorre pelas raízes, sendo favorecida por ferimentos. Uma vez no interior do hospedeiro, a bactéria coloniza os vasos do xilema, causando sua obstrução e provocando os sintomas de murcha na planta. A persistência da bactéria no solo é relativamente longa, entretanto um bom controle pode ser obtido com rotação por 2 a 4 anos com sorgo ou cana-de-açucar.

2.1.4 Manchas Foliares – Alternaria ricini, Cercospora ricinela
Machas foliares causadas por fungos são muito comuns na cultura da mamona, porém não aprensentam importância econômica devido aos pequenos prejuízos que causam. Tanto A. ricini quanto C. ricinela podem afetar o desenvolvimento das mudas novas, tornando-as subdesenvolvidas, inclusive podendo causar sua morte em casos de ataque severo. Nas folhas, os sintomas diferem um pouco quando causados por um ou por outro fungo. A. ricini produz manchas pardas irregulares na superfície das folhas, podendo ocorrer coalescência das lesões. Muitas vezes estas manchas apresentam um aspecto zonado concêntrico, no centro das quais aparecem as frutificações do fungo em condições de umidade elevada. Normalmente, não se recomendam medidas de controle para as manchas foliares, contudo, sabe-se que a adoção de maiores espaçamentos e uma adubação adequada contribuem para reduzir sua severidade. O controle químico através de pulverizações da parte aérea, apesar de eficiente, não é viável economicamente. O uso de variedades resistentes seria o método ideal de controle, porém pouco se conhece a respeito do nível de resistência das nossas variedades.

2.1.5 Murcha de Fusarium – Fusarium oxysporum f. sp. Ricini
A murcha de Fusarium é uma doença bastante comum, ocorrendo em praticamente todas as regiões onde se cultiva a mamona no Brasil. Em condições favoráveis, o fungo pode provocar a morte de plantas de variedades suscetíveis. As plantas doentes geralmente aparecem em reboleiras e apresentam-se com as folhas murchas, nas quais se observam áreas irregulares de coloração amarela. Num estádio mais avançado, essas áreas escurecem e tornam-se necróticas. Freqüentemente esses sintomas aparecem apenas em uma parte da planta, correspondente aos vasos obstruídos. Cortando-se longitudinalmente as raízes ou hastes afetadas, observa-se um escurecimento do sistema vascular devido à colonização pelo patógeno. O fungo é um típico patógeno veiculado pelo solo, que sobrevive na ausência do hospedeiro na forma de clamidósporos. Alem disso, possui uma atividade saprofítica muito desenvolvida, sobrevivendo muito bem em restos de cultura. Desse modo, a pratica de rotação de culturas contribui apenas para reduzir o inoculo inicial, mas a completa erradicação do patógeno do solo é praticamente impossível. Nas áreas contaminadas, o uso de variedades resistentes talvez seja a única alternativa viável de controle desta doença. A variedade Campinas mostrou ter bom nível de resistência à murcha. Por outro lado, a variedade IAC-80, bastante difundida pela sua produtividade, tem se comportado como suscetível. Recentemente, descobriu-se que o nematóide Rotylenchulus reniformis também desempenha papel importante na manifestação dessa doença. Plantas atacadas pelo nematóide e infectadas pelo fungo apresentam sintomas mais severos e em menos tempo, quando comparadas às plantas sem o nematóide. Alguns genótipos resistentes tornam-se suscetíveis ao fungo quando o nematóide está presente na interação. Dessa forma, o uso de nematicidas, como o carbofuram, também auxilia no controle da doença. Alguns estudos revelaram que a solarização do solo por seis semanas reduziu significativamente as populações do fungo e do nematóide, promovendo bom controle da doença.

2.1.6 Murcha de Macrophomina – Macrophomina phaseolina
Constatada pela primeira vez no Brasil no Municipio de Irecê, na Bahia, é considerada importante naquela região. Os sintomas exibidos por uma planta doente caracterizam-se pelo amarelecimento das folhas e murcha da planta, sintomas reflexos facilmente confundíveis com aqueles apresentados por uma planta com Murcha de Fusarium. Entretanto, é possível diferenciar essas duas doenças pelos sintomas primários, nos tecidos atacados. As raízes das plantas atacadas pela M. phaseolina apresentam necrose total ou parcial, que evolui em direção ao caule, tornando-o enegrecido. É possível observar micélio escuro do fungo aderido às superfícies necrosadas, bem como numerosos pontos negros, formados por picnídios e microescleródios do patógeno. Cortando-se longitudinalmente as raízes e o caule, não se observa o escurecimento dos vasos, como é típico na Murcha de Fusarium. O agente causal sobrevive no solo na forma de microescleródios ou em picnídios presentes em restos de cultura. A doença é favorecida por temperaturas altas e estresse hídrico. A rotação de culturas com espécies não hospedeiras contribui para reduzir o inoculo no solo e, portanto, reduz a incidência da doença. Estudos conduzidos no Centro Nacional de Pesquisa de Algodão (CNPA/Embrapa), visando identificar genótipos resistentes, revelaram que a linhagem CNPA M. 93-91 destaca-se como promissora.

2.1.7 Podridão do Caule e Ramos – Lasiodiplodia theobromae (Botryodiplodia theobromae)
Essa doença foi relatada em regiões produtoras de mamona no Estado da Bahia e é potencialmente prejudicial, dependendo do nível de resistência da variedade e das condições climáticas. As plantas atacadas exibem áreas necrosadas nos ramos e caules, que evoluem para podridão, seca e morte dos órgãos atacados. Sobre essas áreas, são visíveis inúmeros picnídios do patógeno. O fungo sobrevive em restos de cultura e pode ser veiculado pelas sementes. Para controle da doença, é recomendável eliminação de restos de culturas, rotação de culturas e utilização de sementes sadias. A variedade Preta Pernambucana mostrou-se tolerante à doença.
Alguns outros patógenos foram relatados causando danos às sementes, como Fusarium sp., Alternaria ricini, Aspergillus flavis e Chaetomium sp. Dentre esses, Fusarium sp. e A. ricini, alem de Rhizoctonia solani, podem ser transmitidos pelas sementes e causar “damping-off”.



2.2 TÁTICAS DE MANEJO DAS DOENÇAS

Pequenas propriedades não necessitam de alto nível tecnológico na colheita e, portanto deve-se utilizar variedades com porte maior, estas que não são suscetíveis a Botrytis ricini, pois as mesmas não favorecem o desenvolvimento de um microclima ideal para o desenvolvimento do patógeno.
Já em lavouras com dimensões maiores é necessário o plantio de variedades de porte baixo, estas que favorecem o aparecimento do patógeno, com isso é necessário utilizar outras medidas. Na entressafra a eliminação de restos culturais e tratamento de sementes favorecem a minimização do inoculo inicial.
A utilização do plantio de culturas como o milheto na entressafra diminui a quantidade de patógenos nos restos culturais, sendo uma alternativa aceitável sem levar em consideração os benefícios que seu plantio acarreta aos atributos químicos e físicos do solo.

3 CONCLUSÃO:
As táticas de manejo descritas acima são em relação ao manejo do mofo-cinzento, as outras doenças atualmente não possuem importância econômica, mas o que não impede que futuramente com o desenvolvimento do cultivo da mamona, essas doenças venham a ter importância econômica. E nesse momento será necessário a criação de novas táticas de manejo.


4 LITERATURA CITADA:

KIMATI, H.; AMORIM, L.; REZENDE, J.A.M.; BERGAMIN FILHO, A.; CAMARGO, L.E.A. Manual de fitopatologia: Doenças das plantas cultivadas;. 4ª Ed.vol. 2, p. 340-341 – São Paulo: Agronômica Ceres, 2005.

SAVY FILHO A., CULTURA DA MAMONEIRA. Centro de Plantas Graníferas/Oleaginosas. Campinas. SP. http://www.iac.sp.gov.br/Cultivares/Folders/Mamona/IACGuarani.htm . Acessado em: 01 de novembro de 2010.

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