quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Oídio (Oidium sp.) incidente em folhas de pepino (Cucumis sativus L.)


Oídio (Oidium sp.) incidente na folha de pepino (Cucumis sativus L.)

Rayanne Canêdo Silva1 e Milton Luiz da Paz-Lima2

1 Acadêmica do Curso de Agronomia

2 Professor do Curso de Agronomia

O pepino (Cucumis sativus L.) é uma cucurbitácea assim como as abóboras, o chuchu, a melancia e o melão. Originário da Índia tem sido cultivado desde a Antiguidade na Ásia, África e Europa (Embrapa, 2010).

O oídio é uma das principais doenças foliares das cucurbitáceas, cultivadas ou silvestres, no Brasil e no mundo. Ocorre em praticamente todos os locais onde se cultivam melão, pepino, abóbora e melancia, sendo mais limitante em locais onde predominam condições de altas temperaturas e baixa umidade durante a época de cultivo (regiões semi-áridas) ou sob cultivo protegido (Zitter et al., 1996; Kurozawa e Pavan, 1997). Pode haver uma redução no rendimento da cultura pela diminuição do tamanho ou do número de frutos, ou ainda pela redução do período produtivo das plantas. No Brasil ocorre apenas à forma imperfeita (Oidium sp.) deste fungo (Zitter et al., 1996).

O fungo está amplamente distribuído em todas as regiões do país, e infecta várias espécies de plantas. Nos estados do Rio de Janeiro, Pernambuco, Sergipe e São Paulo foram encontrados infectando em: Abelmoschus esculentus Moench (quiabo), Acanthospermum brasilum Schrank, Adenocalymma sp. Mart. ex Meisn; no Ceará: Arctium lappa L., Artemisia verlotorum Lamotte; no Espírito Santo: Aster sp. L.; na Bahia, Pernambuco, Ceará: Astronium fraxinifolium Schott; no Distrito Federal: Bauhinia sp. L.,

Begonia rex Putz., Bellis sp. L. Beta vulgaris L.; no Rio Grande do Sul e Santa Catarina:

Bidens pilosa L.; no Distrito Federal e em São Paulo: Brassica alba Boiss.; em Minas Gerais e em São Paulo: Brassica oleracea L. var. acephala DC.; no Rio Grande do Sul:

Brassica oleracea L. var. botrytis L., Brassica oleracea L. var. gemmifera, Brassica rapa L.; em Minas Gerais: Cucurbita pepo L.; em Sergipe: Cucurbita sp. L.; em Goiás, São Paulo, Bahia, Minas Gerais, Espírito Santo e no Distrito Federal: Dahlia sp. Cav., Dahlia variabilis Desf., Desmodium frutescens Schindl.; em Minas Gerais, São Paulo e no Distrito Federal: Desmodium heterocarpon DC., Dorstenia bahiensis Klotzsch, Eucalyptus citriodora Hook.; em Minas Gerais e em São Paulo: Gerbera jamesonii Bolus, Paraná:

Glycine max Merr., Heliconia sp. L., Lactuca sativa L. (alface); Distrito Federal: Lycopersicon esculentum Mill. (tomate), Manihot esculenta Crantz (mandioca); em Goiás: Oenothera longiflora L., Persea gratissima Gaertn., Persea sp. Mill.; em São Paulo e no Distrito Federal: Pisum sativum L. (ervilha); São Paulo: Saintpaulia ionantha H. Wendl. (violeta), Urena sp. L. (Cenargen, 2010).

O fungo também possui incidência em vários países como: Ucrânia, Guiné, Etiópia, Hong Kong e Porto Rico (Farr & Rossman, 2010).

Três diferentes espécies dos fungos causadores de oídios podem infectar cucurbitáceas cultivadas como: Podosphaera xanthii (Sphaerotheca fuliginea), Erysiphe cichoracearum e Leveillula taurica. Destas, as duas primeiras são as de maior importância econômica, principalmente na França. Condições ambientais secas são mais favoráveis ao desenvolvimento e esporulação de Erysiphe cichoracearum, ao passo que P. xanthii requer mais umidade e é mais freqüente encontrado em culturas protegidas. Muitas publicações brasileiras apontam Erysiphe cichoracearum como o agente causal do oídio de cucurbitáceas, mas trabalhos recentes têm indicado apenas a ocorrência de P. xanthii (Kimati et al., 2005).

O objetivo deste trabalho foi identificar e descrever a respeito do oídio do pepino levando em consideração aspectos da sintomatologia, etiologia, epidemiologia e controle.

O trabalho foi desenvolvido no Laboratório de Microbiologia do Instituto Federal Goiano campus Urutaí, onde foram obtidos amostras de folhas apresentando sintomas de manchas foliares em área de cultivo de pepino. As amostras contendo o inóculo do fungo foram analisadas em microscópio estereoscópico, após foi feita a assepsia do tecido em estudo e foram preparadas lâminas semi-permanentes contendo estruturas do patógeno, retiradas da folha do hospedeiro através de raspagem e depositadas sob fixador a base de azul-de-metileno para observação em microscópio óptico.

Ao final das observações, foram tiradas fotografias utilizando câmera digital (Sony® Cyber-shot DSC-W 110). As fotos contendo, diferentes estruturas fúngicas Oidium sp., foram organizadas em uma prancha de fotos, onde as mesmas foram devidamente identificadas.

Foi analisado também as características morfológicas e morfométricas do fungo em estudo, levando em consideração as dimensões dos conídios, conidióforos e células conidiogênicas (tabela 1).

Hospedeiro/cultura: Pepino (Cucumis sativus L.)

Família Botânica: Cucurbitaceae

Doença: Oídio

Agente Causal (Anamorfo): Oidium sp. (Teleomorfo): Podosphaera xanthii (Castagne) U. Braun & Shishkoff

Local de Coleta: Instituto Federal Goiano campus Urutaí

Data de Coleta: 09/09/2010

Taxonomia: Teleomorfo: o fungo pertence ao Reino Fungi, Divisão Ascomycota, Classe Leotiomycetes, Sub-classe Leotiomycetidae, Ordem Erysiphales, Família Erysiphaceae, gênero Spherotheca e espécie Sphaerotheca fuliginea (Index Fungorum, 2010).

Anamorfo: pertence ao Reino Fungi, insertae sedis, pertence ao grupo dos fungos mitospóricos, subgrupo Hifomicetos (Kirk et al., 2001).

Sintomatologia: O fungo pode atacar toda a parte aérea das plantas, mas as folhas e caules são os órgãos mais atacados, enquanto os frutos permanecem geralmente livres de quaisquer sintomas visíveis. Embora colônia de Oídio possam se desenvolver em ambas as faces foliares (Fig. 1AB), a superfície adaxial é geralmente mais afetada. Os sintomas iniciam-se com um crescimento branco pulverulento (Fig. 1C), formado por micélio, conidióforos e conídios do fungo, ocupando pequenas áreas. A área afetada aumenta de tamanho e pode tomar toda a extensão do tecido devido à coalescência das manchas. Às vezes, num estágio avançado são constatados nessas áreas, pequenos pontos escuros que correspondem a estruturas de frutificação do fungo Ampelomyces quisqualis, um hiperparasita de Oidium sp. Plantas severamente atacada perdem vigor e a produção é prejudicada (Kimati et al., 2005; Marciel et al., 2001).

A infecção de folhas jovens pode resultar em clorose geral e até mesmo, na morte das folhas. Folhas severamente afetada tornam-se marrons e ressecadas. Sob condições ideais para o desenvolvimento fúngico, desfolhamento prematuro pode também ocorrer quando o fungo cobre as superfícies foliares. Plantas severamente atacadas perdem vigor e a produção é prejudicada. A redução de produtividade do hospedeiro se deve basicamente à diminuição na capacidade fotossintética da planta e a utilização de nutrientes das células pelo patógeno. Além de uma redução quantitativa da produção, o ataque severo de Oídio pode causar um amadurecimento prematuro, queima dos frutos devido a uma maior exposição ao sol, deformação e perda de sabor dos frutos (Marciel et al., 2001).

Etiologia: No Brasil ocorre apenas à forma imperfeita (Oidium sp.) deste fungo. Os conídios têm formato de barril, são unicelulares, hialinos (Fig. 1D), produzidos em cadeia sobre conidióforos curtos não ramificados (Fig. 1E). Distinguem-se de conídios de Erysiphe cichoracearum por apresentarem tubos germinativos bifurcados e corpos de fibrosina. Os conídios são facilmente disseminados pelo vento e, mesmo em condições de baixa umidade, podem germinar. Chuvas pesadas são prejudiciais ao fungo, porque além de lavarem os conídios, danificam conidióforos e micélio (Kurozawa e Pavan 1997).

Característica morfométrica e morfológica

Espécie em estudo

Marciel (2001)

Dimensões dos conídios

2,92 x 1,95 µm

30,6 x 18,6 µm

Dimensões dos conidióforos

93 x 6,37

n/d

Dimensões das células conidiogénicas

2,28 x 1,28 µm

n/d

Epidemiologia: O agente causal da doença é um fungo parasita obrigatório e sua sobrevivência, entre estações de cultivo, ocorrem em plantas voluntárias, plantas cultivadas em estufas e outras cucurbitáceas cultivadas ou silvestres. Entre as principais cucurbitáceas o oídio é mais problemático no melão, pepino, abóboras e melancia. O inóculo primário, para iniciar a epidemia da doença, constitui-se de conídios que podem ser dispersos a longas distâncias pelo vento (Kurozawa e Pavan 1997).

O fungo afeta um grande número de cucurbitáceas cultivadas e selvagens e há várias raças fisiológicas que diferem quanto à capacidade de infectar diferentes espécies ou mesmo variedades de cucurbitáceas. No estado de São Paulo e no Distrito Federal, em condições de cultivo protegido e na cultura de melão, já foram constatadas as ocorrências das raças 1 e 2. Entre as cucurbitáceas cultivadas, as mais afetadas são pepino, melão, melancia, abóbora, cabaça, chuchu e bucha. Como fonte de inóculo, além dessas, estão outras cucurbitáceas selvagens (Kurozawa e Pavan, 1997; Kimati et al., 2005).

Sob condições favoráveis, os conídios permanecem viáveis por 7 a 8 dias. Em cultivares muito suscetíveis e condições ambientais favoráveis a doença desenvolve-se rapidamente e seu ciclo completo pode levar de 3 a 7 dias, sendo produzida uma quantidade muito grande de esporos em cada lesão. As condições favoráveis à doença incluem cultivo muito adensado e baixa intensidade de luz. Umidade relativa alta é favorável para a infecção e sobrevivência dos conídios, entretanto a infecção pode ocorrer em umidade de até 50%. Condições de clima seco favorecem a colonização, esporulação e dispersão do fungo. A ótima temperatura para ocorrência de epidemias severas da doença é de 20 a 27°C, entretanto a infecção pode ocorrer na faixa de 10 a 32°C (Zitter et al., 1996; Stadnik et al., 2001).

Controle: O controle químico é o método mais empregado. Fungicidas de contato, principalmente a base de enxofre, podem resultar num bom controle da doença, mas os sistêmicos (fenarimol, benzimidazois, pyrazophos e outros) são os mais eficientes na face inferior das folhas ou nos ramos verdes. Nessas condições, são necessárias apenas uma a duas pulverizações (Kimati et al., 2005).

O controle alternativo do oídio em abobrinha e em pepino pode ser feito através do uso de leite cru de vaca na concentração de 5%, isto é, 5 litros de leite para 95 litros de água, uma vez por semana, e quando a infestação está muito alta recomenda-se aumentar a concentração para 10% (Kimati et al., 2005).

A utilização de cultivares resistentes é comum em melão e pepino, mas não se tem disponível,muitas cultivares de melancia com altos níveis de resistência à doença, apesar de já se contar com ótimas fontes de resistência. Recentemente, foi lançada a cultivar de melancia tipo Crimson Sweet, BRS Opara, com altos níveis de resistência de campo ao oídio (Embrapa, 2010).

Outras medidas auxiliares de controle são a destruição e enterrio de restos de culturas, evitarem o cultivo escalonado de cucurbitáceas na mesma área, eliminar plantas voluntárias (Embrapa, 2010).

Uma das medidas de controle disponíveis tem sido o emprego de fungicidas de contato ou sistêmicos, registrados no Ministério da Agricultura, como o Tebuconazole (Folicur® - Produto comercial: 1,0l/ha) e o Pyraclostrobina (Comet® – Produto comercial: 40ml/100 l d,água) (Agrofit, 2010).


LITERATURA CITADA:

AGROFIT: Sistema de Agrotóxicos Fitossanitários. Disponível em: http://extranet.agricultura.gov.br/agrofit_cons/principal_agrofit_cons. Acessado em: 24/10/2010.

CENARGEN: MENDES, M. A. S.; URBEN, A. F.; Fungos relatados em plantas no Brasil, Laboratório de Quarentena Vegetal. Brasília, DF: Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia. Disponível em: http://pragawall.cenargen.embrapa.br/aiqweb/mich-tml/fgbanco01.asp. Acesso em: 3/11/2010.

EMBRAPA HORTALIÇAS: COMUNICADO TÉCNICO - Oídio das Cucurbitáceas. Disponível em http://www.cnph.embrapa.br/paginas/serie_documentos/publica-coes2007/cot_42.pdf. Acessado em: 12/09/2010.

FARR, D.F., & ROSSMAN, A.Y. Fungal Databases, Systematic Mycology and Microbiology Laboratory, ARS, USDA. Retrieved November 3, 2010, from http://nt.ars-grin.gov/fungaldatabases/

INDEX FUNGORUM. Disponível em: . Acesso em: 03 de novembro de 2010.

KIMATI, H.; AMORIM, L.; REZENDE, J.A.M.; CAMARGO, L.E.A. Manual de Fitopatologia –Doenças das Plantas Cultivadas. 4a. ed., S. Paulo: Ed. Agronômica Ceres Ltda., 2005, v.2, 919p.

KUROZAWA, C.; PAVAN, M. A. Doenças das cucurbitáceas. In: KIMATI, H.; AMORIM, L.; BERGAMNI FILHO, A.; CAMARGO, L. E. A.; REZENDE, J. A. M. (Ed.). Manual fitopatologia: vol. 2: doenças cultivadas. São Paulo: CERES, 1997. p. 325- 337.

MARCIEL J.S.; RÔMULO F.K.; WAGNER B. Embrapa Meio Ambiente – Oídios de cucurbitáceas. Jaguariúna-SP, Brasil, 2001.

STADNIK, M. J.; KOBORI, R. F.; BETTIOL, W. Oídios de cucurbitáceas. In: STADNIK, M.J.; RIVERA, M. C. (Ed.). Oídios. Jaguariúna: Embrapa Meio Ambiente, 2001. p. 217- 254.

ZITTER, T. A.; HOPKINS, D. L.; THOMAS, C.E. Compendium of cucurbit diseases. St. Paul: APS, 1996. 87 p.



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